3.6.11

De-lírio



Iris lusitanica Ker Gawl. [sinónimo: Iris xiphium var. lusitanica (Ker Gawl.) Franco]

A serra da Boa Viagem, afamada pelos fósseis, parece ser, pelo nome, uma mão gigante que cumprimenta o viajante sem o convidar a deter-se. Sábia medida pois há ali redutos de flora – diversa porque em diferentes altitudes e exposta a doses distintas de maresia – que não dispensam protecção. A mata, de pinheiros, lentiscos, medronheiros, madressilvas, tojo e urze, tem áreas estragadas por acácias, mas as encostas de calcários e grés, recheadas de orquídeas em Abril e pintadas de amarelo em Maio, compensam largamente esta nódoa. Em dia de céu sem neblina, do miradouro da Bandeira, à cota mais alta da serra, avistam-se salinas, uma praia extensa de areia branquinha e, afiançam alguns, as Berlengas. Se não alongarmos tanto a vista, veremos agora, a nossos pés, centenas de exemplares deste lírio amarelo.

Não sabemos que idade têm as cores, mas é certo que, com o tempo, ganharam dezenas de matizes que os dinossauros da serra não conheceram. Em Março, o amarelo que pintava estas encostas era dourado, de Narcissus bulbocodium. Há cerca de um mês, foi a vez do amarelo-bico-de-melro do célebre Senecio doronicum. No fim de semana passado, encontrámos o amarelo-maduro deste lírio. Pela rama, parece uma versão noutro tom dos maios-roxos, mas notam-se algumas pequenas diferenças entre os dois: neste, as tépalas externas são mais arredondadas e têm uma nervação fina acastanhada; as folhas são igualmente estreitas mas mais compridas; as hastes aparentam ser mais baixas e uma vez por outra têm duas flores em vez de uma só. Serão estas razões suficientes para uma distinção taxonómica?

Em qualquer caso, o lírio-amarelo-dos-montes é um endemismo da Península Ibérica, que ocorre apenas no centro de Portugal e na Extremadura espanhola. Prefere solos ricos em argila e calcário de locais pedregosos, abertos e soalheiros. Tem interesse económico como planta ornamental, por isso é urgente que a sua colheita seja vigiada por leis que transponham para Portugal as directivas europeias que, acautelando os habitats naturais, regulamentam a sua exploração. Quem sabe, o novo ministro do Ambiente terá tempo para dar atenção a este assunto.

3 comentários :

ZG disse...

Delírio, efectivamente!!

Miguel disse...

Brutal!

Maria da Luz Borges disse...

Quando eu era pequenina costumavamos ir apanhá-los à Serra da Carregueira entre Belas/Telhal e Vale de Lobos e em Ouresa uma colina na base da Serra de Sintra e onde o meu bisavô tinha um moinho. Hoje os lírios foram substituídos por jardins de cimento:(((. Males da civilização. Por isso já não os via há muito tempo. Ainda bem que apareceram aqui. Já tinha saudades!!!