4.9.10

Espiral de Verão



Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich. [Lagoa da Vela, Quiaios]

Muito se tem escrito sobre O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. É um road-movie que nos destapa: leva-nos os olhos por esse Portugal dentro, o Portugal que não é a West Coast of Europe da promoção, mas um país antioceânico, de minúsculas enseadas fluviais, uma paisagem pétrea, indiscernível, incessante, com florestas e matas ameaçadas, como se, de alguma maneira, elas (e não nós) se tivessem tornado ocorrências lesivas. É um filme que nos leva pelos cabelos a ver Portugal: um país a que se acede pela camioneta da carreira, ainda de ritos, de ofícios manuais, de jornais de província, de feiras, cabisbaixas ou não, e datas para assinalar... Um país arcaico, onde o desassossego da condição humana se exprime no tom estático e impávido que têm os autos ou que teve, um dia, o teatro grego.

José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus e Outros Textos (Assírio & Alvim, 2010)

2 comentários :

Américo M.S. Pereira disse...

Lúcido e bem escrito comentário sobre o país que temos e que contém as nossas venturas e deventuras, mas que é o nosso, em contraponto com o país que nos querem "vender"..., mais ilusório, artificial e globalizado.

as-nunes disse...

A planta é uma dádiva da Natureza, o texto sublime, a fotografia fora de série.

Por onde tenho eu andado?!...