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27/06/2018

Tabuleiro de xadrez


Fritillaria pyrenaica L.


Se há herbáceas fáceis de identificar quando em flor são as do género Fritillaria. É que as flores, com o perianto campanulado formado por seis tépalas de cor púrpura com uma banda amarela na face externa e um padrão axadrezado na face interna, são inconfundíveis. Então por que há cinco espécies ibéricas? O que afinal as distingue? A chave da Flora Ibérica indica que se reconhecem sobretudo pelas folhas (mais ou menos lanceoladas, fininhas ou nem tanto, mas as diferenças contam-se em escassos milímetros) e pela forma dos nectários (informação a que jamais acederemos para não destruir as flores). Ajuda também estar atento à ecologia, pois algumas espécies preferem clareiras de matos na montanha, outras têm predilecção por fendas de rochas calcárias, e há as que se dão bem em dunas costeiras. Talvez aqui o anseio por endemismos torne este estudo mais complicado do que seria desejável, e explique por que razão a descrição na Flora Ibérica não está de acordo com a taxonomia adoptada pela Nova Flora de Portugal de Franco e Rocha Afonso, nem com os registos de observação destas espécies em Portugal. Por exemplo, a espécie Fritillaria nervosa Willd. (descrita em 1809 por Carl Ludwig Willdenow), que conhecemos das serras do Gerês, Açor e Estrela, surge na lista de plantas elaborada pelos Royal Botanic Kew Gardens e Missouri Botanical Garden como sinónimo de Fritillaria pyrenaica. É, porém, designada na Flora Ibérica como Fritillaria caballeroi, a partir de uma publicação de F. M. Vásquez em 2009. Para a lista dos Kew Gardens, contudo, a F. caballeroi é sinónimo de F. lusitanica... Havendo tempo, os botânicos ibéricos arrumarão melhor este género.

Para terminarmos, falta só chamar a sua atenção para um pormenor curioso nestas herbáceas vivazes. As flores são em geral solitárias e pendentes, mas na frutificação a haste floral torna-se erecta e a cápsula com as sementes nasce no topo dela. Deve ser um esforço considerável para a planta ter de levantar a corola da flor murcha para que o fruto se coloque nessa posição cimeira. Mas decerto é vantajoso para atrair polinizadores e proteger a flor que ela se incline para baixo, e mais eficiente para a disseminação das sementes que o fruto se localize inteiramente exposto ao vento. Ao abrir, solta inúmeras sementes minúsculas com asinhas alaranjadas.

02/09/2013

Longe do paraíso

Anthericum liliago L.
Do paraíso em forma de planta já nos devia bastar a Paradisea que, entre Maio e Junho, enfeita profusamente os lameiros do Gerês. Mas a notícia da existência de uma outra versão da planta, em modelo mais compacto, com menos flores e folhas mais estreitas, e de um modo geral menos vistoso, lançou-nos na habitual busca ao mesmo tempo fútil e recompensadora. Que poderá haver de mais inútil e improdutivo do que admirar uma planta de todos os possíveis ângulos, fotografá-la e deixá-la no exacto local onde a tivermos encontrado? E que poderá haver de mais consolador, pelo que tem de afirmação de liberdade, do que ocupar o tempo com tarefas improdutivas?

Isto é a doutrina geral, cuja aplicação a casos concretos nem sempre é tão exaltante. Procurar uma planta e não a encontrar combina de modo desagradável o inútil económico com o inútil de facto, ainda mais quando a busca decorre em lugar que, na paisagem e na diversidade vegetal, pouco tem para mostrar. Não é bem esse o caso da Queimadela, em Armamar. Aqui, em vez de vinhas, são pomares de macieiras que preenchem os montes, com algumas cerejeiras e restos de antigos soutos à mistura. Há pinhais e zonas de mato mediterrânico a separar as árvores de fruto plantadas em rigoroso alinhamento. Como é habitual na região duriense, o uso de químicos é desvairado, raramente escapando a vegetação de berma de estrada. Os matos e pinhais diminuem de ano para ano com a expansão dos pomares. É tão fácil apontar o que está errado que nos espantamos quando, contas feitas no final, apuramos um saldo altamente positivo para a nossa visita. O pinhal ao fundo da ladeira afirmou-se pela fotogenia, a roselha (Cistus crispus, uma surpresa) tinha flores irresistíveis, as cerejas estavam deliciosas, havia orquídeas raras e outras nem tanto — e, longe da Paradisea, num caminho de terra gretado pelo sol, apresentou-se-nos um único Anthericum liliago com uma única flor aberta (e outro a espreitar no meio do mato). A penúria explica-se certamente pela data tardia em que visitámos o local; mas não sabemos se o atraso foi de semanas ou de anos, e se em 2014 ainda haverá alguma planta para ver.

O populoso género Anthericum, com cerca de 300 espécies maioritariamente africanas, tem no A. liliago, espécie que ocorre em grande parte da Europa (desde a Península Ibérica à Turquia e à Suécia), o seu único representante na flora portuguesa. É uma planta vivaz, que floresce entre Junho e Julho, com folhas lineares, exclusivamente basais, e um escapo de não mais que 70 cm de altura hasteando 6 a 8 flores brancas com pedúnculos bem desenvolvidos (os da Paradisea lusitanica são notoriamente mais curtos). Em Portugal é uma rara moradora de encostas rochosas e clareiras de matos na bacia do Alto Douro.

21/06/2011

Açucena portuguesa

Paradisea lusitanica (Coutinho) Samp.


This yet I apprehend not, why to those / Among whom God will deigne to dwell on Earth / So many and so various Laws are giv'n; / So many Laws argue so many sins / Among them; how can God / with such reside?
John Milton, Paradise lost (Book XII, 1674)

Este lírio é um endemismo ibérico que ocorre em taludes húmidos, bosques sombrios e lameiros de montanha, entre os 50 e os 1300 metros de altitude, mas apenas no norte de Portugal, sul da Galiza e metade oeste do Sistema Central. Planta perene, com rizoma, de floração vistosa entre Maio e Julho, identifica-se facilmente até pelos tufos densos de folhas basais, que são lineares e longas (~ 60-120 cm). Deveria estar sob protecção legal por ter uma distribuição restrita e as populações conhecidas serem pequenas.

Encontrámos no ano passado o primeiro núcleo desta açucena, já a frutificar — o fruto é uma cápsula ovóide com uma vintena de sementes negras que parecem tetraedros pequeninos. Eram apenas duas dezenas de plantas empoleiradas num talude, junto à albufeira da Paradela, onde a abundante escorrência de água forma um mini-habitat com grande interesse florístico. A segunda população, mais numerosa, estava no fundo de um prado inclinado onde espreitavam orquídeas cor-de-rosa (Dactylorhiza ericetorum (E.F. Linton) Averyanov). E a manhã soalheira ajustava-se ao lençol branquinho de flores a corar. Finalmente, revimo-la num lameiro onde só se consegue andar de galochas altas, perto de uma cascata em Pitões das Júnias.

O género Paradisea contém outra espécie, a P. liliastrum (L.) Bertol.), que não existe em Portugal. A flor-de-lis é natural dos prados de montanha nos Pirenéus, Alpes e Apeninos, entre os 1100 e os 2400 metros de altitude. Floresce um pouco mais tarde, é menos robusta e tem flores maiores que a P. lusitanica, mas nas fotos isso não se nota.

O nome Paradisea homenageia Giovanni Paradisi (1760-1826), matemático e poeta italiano. Mas talvez A. Coutinho e G. Sampaio quisessem que também aqui lêssemos paradisi, o que pertence ao paraíso.

19/04/2011

Com nuvens e dentes

Erythronium dens-canis L.


Next to clouds / even a stone seems like a brother.
Wislawa Szymborska (trad. S. Baranczak e C. Cavanagh)

Habituados à intermitência do sono diário de algumas horas, descanso que muitos associam à preguiça e que nos exige, quando termina, o fortalecimento de uma lauta refeição, causa-nos estranheza que uma planta tenha meios e vontade para hibernar vários meses. Dir-se-ia condenada a perecer esfomeada sob os rigores da neve, apodrecendo com a humidade ou definhando pela escuridão persistente. Mas não. A natureza dotou algumas plantas de pequenas despensas subterrâneas e, ainda que de lá só retirem o mesmo requentado pequeno-almoço dias a fio, esse é alimento suficiente para as manter em repouso até que, mal o sol se firme, a memória as faça renascer.

A herbácea da foto, uma das mais bonitas da flora portuguesa, é um endemismo europeu que recorre a esse recolhimento de Inverno pois vive junto a neveiras e pontos elevados de serras. A floração é breve e as flores em geral solitárias; é mais fácil de identificar pelas folhas basais pintalgadas de vermelho ou amarelo, que se mantêm à superfície até ao Outono para reencher a despensa e perpetuar o seu ciclo vivaz. Se a chuva o permitir, podem  ver-se, até ao fim de Abril, as flores pendentes com cerca de 3 cm de comprimento, tépalas violáceas ou rosa-púrpura (muito raramente brancas) e base variegada (ou amarela, na versão pálida). A designação inglesa, dog's tooth violet, alude a esta morfologia e à forma do bolbo que, da cor do esmalte, lembra de facto um dente; a portuguesa, cebola-dente-de-cão, é menos colorida mas igualmente fantasiosa. Há registo da presença desta liliácea nas terras altas e frias do Minho, Trás-os Montes, Beira Alta e Beira Litoral.

Acompanhámos esta planta durante um mês num pico da serra do Açor. Enquanto a chuva e a névoa densa não se dissiparam, a população a que ela pertence parecia reduzida a uma dúzia de indivíduos mirrados e a alguns bolbos cilíndricos, embora avantajados (com uns 5 cm de comprimento) e por isso salientes no torrão. Na última visita, contudo, a luminosidade e o calor incipiente fizeram surgir inúmeros pares de folhas quase-opostas por toda a encosta, alguns já a exibir a haste da flor que, ingrata, não nos mostrou a elegante postura deflexa.

05/04/2011

A cor das estrelas

Gagea soleirolii F. W. Schultz [= Gagea nevadensis Boiss.]


Na visita à bacia do Mondego, avistámos ao longe, nas margens do rio Seia, umas penhas de granito cobertas por flores amarelas. Mais narcisos, sorrimos, ena tantos. Mas o tom de amarelo parecia esverdeado, não o matiz dourado das trombetas. Entretanto, decorria uma caçada aos javalis (a última da temporada) e, embora fosse improvável que os atiradores nos confundissem com um, tínhamos sido avisados pela GNR para nos mantermos longe dos montes, onde o ricochete de alguma bala era risco não desprezável. Mas que fazer? Era imperativo fotografar aquelas plantas baixinhas que são quase só flor. Com a audácia que é sina dos impetuosos e dos incautos, subimos até elas.

Como vêem, é uma herbácea sem défice de formosura, mas não é um narciso. É uma liliácea que começa a florir no Inverno, e o verde que nos atraiu é o colorido que domina no exterior das seis tépalas. Aprendemos depois que ela aprecia pastos pedregosos e clareiras em floresta de montanha; que as hastes não sobem além dos 6 cm (por isso, sem as umbelas de flores, passa despercebida e houve mesmo quem a tivesse designado Gagea pygmaea); que as flores hermafroditas não têm nectários e a dispersão das sementes (em forma de pêra; as das espécies de zonas desérticas são achatadas para se espalharem facilmente com o vento) está a cargo das formigas; que é perene (embora viva parte do ano reduzida a uma cebolinha a que, em italiano, chamam carinhosamente cipollaccio di Soleirol); e que é natural de Portugal, Espanha, França e Sardenha.

A Nova Flora de Portugal conta quatro espécies de Gagea no nosso território, das cerca de quarenta que há na Europa e na Ásia. A G. soleirolii ocorre nas terras altas e frias do Minho, Trás-os-Montes e Beiras. O folhedo nas fotos parece basto, mas não é: neste género, cada planta tem uma ou duas folhas basais filiformes que nascem directamente do bolbo, e umas poucas caulinares, alternas e caneladas; mas no nó do cacho de (em geral, não mais de três) flores, há duas brácteas semelhantes a folhas pequenas que preenchem o ramalhete.

Sir Thomas Gage (1781-1820), barão inglês, foi botânico estudioso de líquenes, sobre quem se escreveu: "In the most abstruse parts of the vegetable world, he has laboured hard by the lamp, as well as by the sun." O epíteto específico homenageia outro colector empenhado, Joseph-Francois Soleirol (1791-1863), naturalista amador que se especializou na flora da Córsega.

O nosso voto é que a ervinha se passe a chamar estrela-de-Inverno, sem indicação da cor da flor por nos soar redundante. A escolha inglesa, yellow star-of-Bethlehem, precisa de incluir esse detalhe para a distinguir da outra star-of-Bethlehem, que é branca. O nome coloquial que talvez tenha vindo à mente do leitor, gaja, é que não serve, pois o povo sabe que esta palavra indica «pessoa incerta cujo nome não se lembra ou não se quer mencionar». Não há registo de qualquer designação vernácula para este primor.

28/02/2011

Bloomsbury

Woburn Square
Bury é palavra do inglês antigo que designa fortificação ou castelo; corresponde ao borough do inglês moderno, numa evolução que atesta como modernizar pode não ser simplificar. Da mesma raiz latina nasceu o burgo português. Chegamos assim a uma possível explicação do topónimo que dá título a este texto: Bloomsbury seria Burgo das Flores ou talvez Burgo em Flor. O inglês é porém uma língua traiçoeira que tem fraco comércio com a lógica: aquele bloom não resultou de nenhuma flor, mas sim (de acordo com a Wikipedia) do desgaste a que o uso dos séculos submeteu o antropónimo Blemond.

Sucede no entanto que a interpretação florida do nome Bloomsbury, mesmo tendo por base um equívoco fonético, acaba por ter uma contrapartida bem real. Bloomsbury é o bairro de Londres onde as praças ajardinadas são de acesso livre, e não — como sucede em Chelsea, South Kensington, Belgravia e em inúmeros outros bairros da capital britânica — restrito aos privilegiados moradores dos respectivos quarteirões. É pois um lugar aberto em que os jardins são franqueados a toda a gente: trabalhadores locais no intervalo do almoço, estudantes do vizinho University College, indígenas desocupados, a massa heterogénea e sempre renovada de turistas. A informalidade é regra quase compulsiva: nos dias de Verão são muitos mais os que se estendem na relva do que aqueles que se acomodam num banco de jardim.

Esse anti-elitismo de Bloomsbury vem de longe. Aprendemos com os romances vitorianos que morar em Bloomsbury, no século XIX, não era propriamente um sinal de distinção, apesar da imponência marcante do Museu Britânico. Podiam viver no bairro pequenos proprietários ou profissionais medianamente bem sucedidos, à mistura com uns tantos intelectuais, mas a aristocracia, tanto a de sangue como a financeira, nunca escolheria lá morar. Em Bloomsbury trabalhava-se e estudava-se; os lugares da diversão requintada, com a épica saison estival de bailes e jantares de gala, eram bem outros.

Além de ter registado para a posteridade como era a Bloomsbury novecentista, a literatura ajudou à transformação do lugar ao dar-lhe uma imorredoura aura cultural. O famoso grupo de Bloomsbury que gravitou à volta de Virginia Woolf reunia-se nas casas que rodeiam os mesmos jardins que hoje podemos visitar. Muitos desses edifícios foram desde então ocupados pela Universidade de Londres; Gordon Square e Woburn Square (foto acima), talvez as mais bonitas e pacatas praças de quantas existem no bairro, frequentadas que foram por Virginia e pelo seu marido Leonard, são também hoje património universitário.

Talvez nada haja de espectacular nos jardins que preenchem essas praças. O que há é uma normalidade quotidiana que preza a sombra das árvores e faz do sossego e do bom gosto uma componente essencial da vida urbana. Nesses jardins há sempre flores, e não apenas em arranjos formais: alguns recantos (especialmente em Gordon Square) parecem retalhos de natureza que escaparam incólumes ao cerco da cidade.

Antes de avançarmos pela Primavera dentro, fazemos uma pausa citadina: as flores e árvores que esta semana nos visitam vêm todas das praças de Bloomsbury. Para começar temos plátanos, uma ameixeira-de-jardim, arbustos diversos, e Gandhi em Tavistock Square rodeado por tulipas.


07/09/2010

Abrótea dos pântanos

Represa na vizinhança dos Carris — serra do Gerês


Um lençol com este amarelo, que no fim do Verão, com os frutos, se pinta de laranja e que o gado evita porque lhe faz mal, é o que qualquer prado deseja. Com os seus 20 cm de altura, um leque de folhas achatadas, flores estreladas com cerca de 15 mm de diâmetro e enfeitadas com estames lanosos e anteras ruivas, o Narthecium ossifragum é uma planta sedutora. Para ela, e muitas criaturas e histórias, uma fotografia é sempre um testemunho incompleto.

Narthecium ossifragum (L.) Huds.
O bog asphodel é companhia vivaz de caminhantes nas montanhas do norte e oeste europeu, regiões onde encontra solo ácido guarnecido de rochas encharcadas (o que talvez justifique o epíteto latino ossifragum). Em Portugal continental restringe-se ao norte, onde chove mais entre Junho e Setembro: é que, além de apreciar água a refrescar-lhe a base de folhas, a polinização desta herbácea rizomatosa está a cargo das gotas de chuva. Os frutos cor-de-raposa foram usados em Saffron Walden, Essex, como corante e substituto do açafrão quando, no século XVIII, o Crocus sativus quase desapareceu de Inglaterra.

O género Narthecium, com umas sete espécies de regiões temperadas do hemisfério norte (três europeias), tem andado em bolandas. Rejeitado pela família Melanthiaceae, foi adoptado pela Liliaceae mas, desde 2003, o ADN obriga-a a pertencer a uma família mais pequena, a Nartheciaceae, onde divide o protagonismo com outros cinco géneros.

23/07/2010

Les jeux sont faits

Fritillaria nervosa Willd.
Talvez o leitor já não se recorde da flor cor-de-tijolo, campanulada e inclinada para o solo da espécie Fritillaria lusitanica Wikstr. que o Paulo fotografou em Março na Serra dos Candeeiros (e que, apesar do nome, também existe no sudoeste de Espanha, onde se confunde com a F. hispanica Boiss. & Reut.). Se não se importa, abra de novo essa janela e compare as fotos de então com as de hoje.

Já está? Concorda que, a menos do interior das flores — amarelo no da F. lusitanica, com um padrão axadrezado no da F. nervosa —, a semelhança entre as plantas exige que se justifique a identificação da que hoje vem ao palco. O tabuleiro-de-damas, que aprecia zonas pedregosas em prados ou matagais, foi fotografado no fim de Maio no Gerês, e portanto não pode ser a F. lusitanica: de acordo com os botânicos que nos ensinam, esta espécie só existe no centro e sul do país; e a Flora Digital de Portugal atribui-lhe um período de floração que não ultrapassa Abril. Além disso, a base de dados Anthos, que colige vasta informação sobre a flora espanhola, regista a presença da F. nervosa junto à fronteira norte de Portugal — a um pulo da serra do Gerês —, e as fotos que lá se exibem conferem com as da nossa planta.

As flores da F. nervosa são solitárias, com nectários na base de cada uma das seis tépalas. Na foto pode contar seis estames, mais curtos que o perianto, que rodeiam um estilete com um estigma tripartido. As folhas verde-mar têm nervuras vincadas, sendo opostas as inferiores no caule, mais estreitas as superiores.

O termo latino fritillus designa o copo com que se lançam dados e que os taxonomistas julgaram reconhecer no formato da corola, sobretudo graças à acentuada curvatura na base das tépalas.

17/07/2010

Mata do Martagão

Lilium martagon L.


No ano passado, ia Julho a meio, fomos à Mata da Margaraça para ver as flores deste lírio, cuja floração, asseguram as referências botânicas, decorre de Junho a Agosto. Esta espécie de Lilium também existe no Gerês — de facto, em quase toda a Europa porque foi introduzida onde se crê que não existia (Inglaterra e países nórdicos) e ali se naturalizou —, mas neste bosque há muitos exemplares e a floração deveria, por isso, ser mais vistosa. E, de facto, lá estavam umas dezenas de pés, alguns altos, com os característicos saiotes de folhas e hastes enfeitadas por 3 a 10 botões que pareciam prometer qualquer coisa. O problema é que todas as plantas tinham combinado mostrar exactamente o mesmo aos visitantes, e nem uma exibia ainda flores. Ainda. Basta cá voltar daqui a quinze dias... Pode ser até que, nessa altura, encontremos a orquídea rara daqui. Bem, fotografemos o botão. O que será este pauzinh ... mas é um estilete! Que infelicidade: a floração já tinha passado, era preciso esperar pelo ano seguinte. Viemos embora pela mesma estrada, com cara de roubados.

Começámos a planear a nova ida à Mata em Março. Imagina se vamos perder uma flor que seja. Abril. Será que este ano, com tanta chuva, florescem? Maio. Ah, os botões das flores afinal distinguem-se bem dos frutos, nascem cobertos de lã. E se os javalis os comem? Junho. Fotografámos finalmente (o advérbio é pobre) dúzias de lírios perfumados e coradinhos, uns funis cheios de néctar com seis pétalas reflexas a formar chapéus-turcos pequeninos (cerca de 5 cm de diâmetro), inclinados para o solo como quem olha atentamente um carreiro de formigas. Cada flor tem seis estames com anteras versáteis e um estilete longo com um estigma-maçaneta trilobado. E reparem que, seguindo as regras de bem-conjugar cores de meias e sapatos, os caules perto das flores estão pintalgados de vermelho. Quando guardámos as fotos na escuridão dos bits, julgámos estar a encher, em vez de escavar, uma mina.

Os Lilium são plantas perenes, bolbosas. Há cerca de cem espécies, nove europeias; algumas asiáticas consomem-se como legumes. A açucena (L. candidum L.), ou Madonna lily, é cultivada ou pintada, há mais de 25 séculos.

08/06/2010

Brava tulipa

Tulipa sylvestris subsp. australis (Link) Pamp.
Num dos contos de A derrocada da Baliverna, de Dino Buzzati (tradução de Margarida Periquito para a Cavalo de Ferro em 2008), há três satélites — um que parece um lápis prateado, outro em forma de ovo cor de laranja e um pintado com riscas amarelas e pretas — enviados para o espaço entre 1955 e 1958 e que, em vez de funcionarem como previsto, levaram as suas tripulações para um lugar onde ficaram penduradas a girar em silêncio. No lançamento, milhares de pessoas esperançadas ergueram o nariz para a atmosfera; agora só alguns poucos espreitam, pela surdina, os três pontinhos no céu, quando a luz e a hora o permitem.

[Nas cidades iluminadas, mesmo quando não é época natalícia, isso não é possível. Mas na serra da Arrábida, área cársica que é um paraíso para muitas plantas, pode até ver-se à noite a Via Láctea.]

Rói em todos a indignação pelo que aconteceu; e deste modo protestam «pela descoberta que lhes mudou a vida». Depois de uma largada perfeita, de uma trajectória impecável e de uma viagem tranquila, os satélites selaram-se inertes, com uma última comunicação enigmática: «Que música estranha... Raios, mas nós aqui viemos parar ao...!»

[Onde? Fosse a um terreno inculto e pedregoso ou a uma mata de montanha, poderiam avistar esta tulipa silvestre resistindo às estiagens e florindo de Março a Junho. As flores são em geral solitárias, sem estilete e com estames penugentos na base. As pétalas amarelas nascem por vezes com listas verdes ou vermelhas por fora. Distingue-se da espécie T. sylvestris L. por ter só duas folhas — lineares e na base de uma haste glabra —, ostentar flores menores e, em geral, não ir além dos 30 cm de altura.]

Não demorou a descobrir-se o significado das mensagens espantadas. «De maneira que hoje ninguém duvida — excepto alguns poucos casmurros irredutíveis que gostariam que o orgulho humano não cedesse — ninguém duvida já de que os três projécteis tenham sido atingidos pelo som a que a nossa pobre alma não resiste.» Os tripulantes foram parar ao céu.

Seguiram-se dias de desorientação, ira e polémica. «Que vulgaridade — disseram os cientistas, insurgindo-se contra a absurda hipótese —, já não estamos na Idade Média! Que vergonha!, disseram os teólogos, ofendidos com a ideia temerária de o reino dos Céus se encontrar assim próximo, aqui suspenso por cima de nós, de tal modo que, levantando a cabeça, quase chocamos com ele.» O planeta parece ter minguado com a casa dos anjos nos subúrbios. E, cheios de razão, ficámos ofendidos: o paraíso é afinal a nossa última fronteira, que nos barra o caminho e nos aprisiona.

[Na Europa mediterrânica, Portugal, Suíça e Bulgária partihamos a cela com esta flor. Que pesado castigo.]

13/02/2010

Mariposa de Monterey

Calochortus uniflorus Hook. & Arn.
Love is just fear I suppose. Masquerading as a fever. Then you explore each other and suddenly you have licence to become totally pedestrian. And ultimately abusive.

Rebecca Lenkiewicz, Her Naked Skin (Faber and Faber, 2008)

17/10/2009

Black lily


Fritillaria camschatcensis (L.) Ker-Gawl.

.....Nestas ervas, não em outras, gostaria
.....de deixar cair os punhos, esquecer como se reza.

.....José Miguel Silva (Ulisses já não mora aqui, 2002)

15/10/2009

Fritilária portuguesa


Fritillaria lusitanica Wikstr.

As fritilárias têm sido motivo de discussão interessante entre taxonomistas que, enquanto tentam entender-se sobre o que é uma liliácea, se questionam se as espécies de Fritillaria europeias e asiáticas devem estar em género diferente do das americanas - e talvez em breve tenhamos de adoptar para estas a etiqueta Amblirion Raf.. Apesar das revisões recentes, que se baseiam em traços moleculares e não apenas na morfologia exterior, a família Liliaceae é ainda demasiado heterogénea. Porém, é possível destacar características comuns, algumas salutares como gostarem de um período de dormência (leia-se sesta prolongada enquanto o frio aperta) em que a herbácea vivaz descansa reduzida às componentes subterrâneas (bolbos, rizomas ou raízes tuberosas). Além disso, as flores são solitárias, ou dispostas em cachos pequenos, com 6 tépalas, 6 estames, 3 carpelos unidos e 1 estilete com um estigma eventualmente trífido.

Em Portugal há cerca de 80 espécies nativas de liliáceas (algumas terão já mudado de família) como a Fritillaria lusitanica Wikstr. e a Tulipa sylvestris L., mas a maioria é do género Allium, predominância a que não é alheio o tipo de solo seco e arenoso com que nos vamos desertificando. Várias delas são de distribuição restrita no nosso país e podem mesmo estar em perigo de extinção, nomeadamente a Bellevalia hackelii Freyn (do Algarve), o Asphodelus bento-rainhae P. Silva (da serra da Gardunha), o Lilium martagon L. (da Mata da Margaraça), o Hyacinthoides vicentina (Hoffmanns. & Link) Rothm. (do interior da região do Sado) e o Allium pruinatum Link ex Sprengel (do centro e sul).

A Fritillaria lusitanica, da Península Ibérica, habita matos e bosques, preferindo zonas altas com invernos secos e primaveras húmidas, solo rochoso e bem drenado, muito sol e a vizinhança de carvalhos. Nada caprichosa, portanto. As folhas são verde-claro, longas e lanceoladas, e a planta pode atingir os 50cm de altura. As flores, do início da Primavera (o fotógrafo resmungou bastante com o vento), que se inclinam como se cabeceassem de sono, nascem no topo de um talo delgado que os frutos empertigados ocupam mais tarde. Medem cerca de 3 cm de comprimento, contêm nectários brilhantes na base das tépalas, e exibem grande variedade de cores e enfeites em resposta aos distintos polinizadores (abelhas, moscardos, moscas ou pássaros); as tépalas são, em geral, castanhas/avermelhadas com franjas alternadas mais claras no exterior e de interior amarelo. Os bolbos distinguem-se de outras liliáceas por se cobrirem de bolbinhos menores, uns grãos-de-arroz importantes em medicina chinesa (o famoso bei mu).

18/05/2008

Kew Beauty


Trillium erectum

«A notícia veio nos jornais: um desempregado de 23 anos, pai de dois filhos, deitou a mão a um dos belos cisnes do lago do Parque de Basílio Teles, em Matosinhos, torceu-lhe o pescoço e levava-o para casa, para o jantar da família, quando foi apanhado por um polícia.

Os cisnes são, desde tempos imemoriais, símbolos de beleza e de perfeição e, nessa qualidade, bibelots vivos da decoração de lagos e jardins. Nos jardins suspensos da Babilónia; nos do shogun, em Kyoto; em Pequim, nos do imperador; nos lagos imensos do palácio de Kublai Khan, como nos do edénico jardim inicial, vogaram - vogam eternamente - cisnes. Sob as suas formas tranquilas e longilíneas se ocultou Zeus para seduzir Leda e desse amor nasceu Helena, por cuja beleza morreram Aquiles e Heitor, Páris e Ajax, Ifigénia e Polixena, e caiu para sempre, em chamas, a orgulhosa Tróia.

O infeliz herói desta crónica, todavia, não teve pelo seu lado nem a complacência dos deuses nem a do polícia de giro. Passeava no Parque quando topou com o cisne e, em vez de lhe dar para qualquer arroubo helénico, muito prosaicamente representou à sua frente sete ou oito quilos de carne vogando ociosos e inúteis nas águas paradas. (...)

O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.»


Manuel António Pina, Os olhos e a barriga (in O Anacronista, 1994)

13/06/2007

Apontamentos

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Que pena as fotos do Claustro de la Magnolia > tiradas em Pádua há quatro anos terem ficado mal. (Fariam hoje aqui um vistão ;-)
..
Santo António > morreu tão novo! O lírio > > que quase sempre aparece nas suas imagens é um símbolo de pureza associado a Nossa Senhora > .

Vi ontem a primeira verbena > deste ano. Gosto tanto do nome como da florzinha.
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Não me posso esquecer de verificar se as dedaleiras por cá já estão também com semente!