15.10.09

Fritilária portuguesa


Fritillaria lusitanica Wikstr.

As fritilárias têm sido motivo de discussão interessante entre taxonomistas que, enquanto tentam entender-se sobre o que é uma liliácea, se questionam se as espécies de Fritillaria europeias e asiáticas devem estar em género diferente do das americanas - e talvez em breve tenhamos de adoptar para estas a etiqueta Amblirion Raf.. Apesar das revisões recentes, que se baseiam em traços moleculares e não apenas na morfologia exterior, a família Liliaceae é ainda demasiado heterogénea. Porém, é possível destacar características comuns, algumas salutares como gostarem de um período de dormência (leia-se sesta prolongada enquanto o frio aperta) em que a herbácea vivaz descansa reduzida às componentes subterrâneas (bolbos, rizomas ou raízes tuberosas). Além disso, as flores são solitárias, ou dispostas em cachos pequenos, com 6 tépalas, 6 estames, 3 carpelos unidos e 1 estilete com um estigma eventualmente trífido.

Em Portugal há cerca de 80 espécies nativas de liliáceas (algumas terão já mudado de família) como a Fritillaria lusitanica Wikstr. e a Tulipa sylvestris L., mas a maioria é do género Allium, predominância a que não é alheio o tipo de solo seco e arenoso com que nos vamos desertificando. Várias delas são de distribuição restrita no nosso país e podem mesmo estar em perigo de extinção, nomeadamente a Bellevalia hackelii Freyn (do Algarve), o Asphodelus bento-rainhae P. Silva (da serra da Gardunha), o Lilium martagon L. (da Mata da Margaraça), o Hyacinthoides vicentina (Hoffmanns. & Link) Rothm. (do interior da região do Sado) e o Allium pruinatum Link ex Sprengel (do centro e sul).

A Fritillaria lusitanica, da Península Ibérica, habita matos e bosques, preferindo zonas altas com invernos secos e primaveras húmidas, solo rochoso e bem drenado, muito sol e a vizinhança de carvalhos. Nada caprichosa, portanto. As folhas são verde-claro, longas e lanceoladas, e a planta pode atingir os 50cm de altura. As flores, do início da Primavera (o fotógrafo resmungou bastante com o vento), que se inclinam como se cabeceassem de sono, nascem no topo de um talo delgado que os frutos empertigados ocupam mais tarde. Medem cerca de 3 cm de comprimento, contêm nectários brilhantes na base das tépalas, e exibem grande variedade de cores e enfeites em resposta aos distintos polinizadores (abelhas, moscardos, moscas ou pássaros); as tépalas são, em geral, castanhas/avermelhadas com franjas alternadas mais claras no exterior e de interior amarelo. Os bolbos distinguem-se de outras liliáceas por se cobrirem de bolbinhos menores, uns grãos-de-arroz importantes em medicina chinesa (o famoso bei mu).

4 comentários :

Cris disse...

Pela primeira vez vou tentar cultivar essa espécie a partir de sementes. Penso que vai ser um grande desafio, pois nunca semeei Fritillaria.
Fico muito lisongeada por terem posto um link ao Bolbos-em-Flor:)
Cris

Eva disse...

Alguém me sabe dizer porque se chama lusitanica? O primeiro tipo foi encontrado em terras lusas, ou algo assim?

Eva disse...

Aproveito para felicitar os autores deste blog com qual tanto tenho aprendido nas minhas pesquisas às plantas portuguesas.
Obrigada

Maria Carvalho disse...

O epíteto específico lusitanica significa que ou a espécie é um endemismo português (como no caso da Epipactis lusitanica) ou foi descrita pela primeira vez a partir de um exemplar português (como a Pinguicula lusitanica ou esta Fritillaria).