Açucena portuguesa
Paradisea lusitanica (Coutinho) Samp.


This yet I apprehend not, why to those / Among whom God will deigne to dwell on Earth / So many and so various Laws are giv'n; / So many Laws argue so many sins / Among them; how can God / with such reside?
John Milton, Paradise lost (Book XII, 1674)
Este lírio é um endemismo ibérico que ocorre em taludes húmidos, bosques sombrios e lameiros de montanha, entre os 50 e os 1300 metros de altitude, mas apenas no norte de Portugal, sul da Galiza e metade oeste do Sistema Central. Planta perene, com rizoma, de floração vistosa entre Maio e Julho, identifica-se facilmente até pelos tufos densos de folhas basais, que são lineares e longas (~ 60-120 cm). Deveria estar sob protecção legal por ter uma distribuição restrita e as populações conhecidas serem pequenas.
Encontrámos no ano passado o primeiro núcleo desta açucena, já a frutificar — o fruto é uma cápsula ovóide com uma vintena de sementes negras que parecem tetraedros pequeninos. Eram apenas duas dezenas de plantas empoleiradas num talude, junto à albufeira da Paradela, onde a abundante escorrência de água forma um mini-habitat com grande interesse florístico. A segunda população, mais numerosa, estava no fundo de um prado inclinado onde espreitavam orquídeas cor-de-rosa (Dactylorhiza ericetorum (E.F. Linton) Averyanov). E a manhã soalheira ajustava-se ao lençol branquinho de flores a corar. Finalmente, revimo-la num lameiro onde só se consegue andar de galochas altas, perto de uma cascata em Pitões das Júnias.
O género Paradisea contém outra espécie, a P. liliastrum (L.) Bertol.), que não existe em Portugal. A flor-de-lis é natural dos prados de montanha nos Pirenéus, Alpes e Apeninos, entre os 1100 e os 2400 metros de altitude. Floresce um pouco mais tarde, é menos robusta e tem flores maiores que a P. lusitanica, mas nas fotos isso não se nota.
O nome Paradisea homenageia Giovanni Paradisi (1760-1826), matemático e poeta italiano. Mas talvez A. Coutinho e G. Sampaio quisessem que também aqui lêssemos paradisi, o que pertence ao paraíso.




