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22/12/2022

Salmo


Deste-nos, é certo, o corrimão.
Mas os degraus,
os degraus onde começam?


Estendeste-nos a mão,
mas por dentro da fogueira. Por dentro
da fogueira que difícil é tocar-te.


Hospedaste nossa alma
numa torre acastelada, mas a torre
levantaste-a em terrenos inimigos.


Rasgaste em toda a parte veios de água.
Mas a sede
temos nós de procurá-la.


José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh, 1999)

25/12/2009

Sagrada família



Doryanthes palmeri A. W. Hill

    A Sagrada Família comia connosco
cinco dias por mês. Ficava, sem ruído,
sobre a mesa da sala. Brilhava no escuro
a chama diminuta de uma lamparina.
    Disputávamos a honra da moeda na ranhura
sob os pés de S. José. Espécie de slot-machine
    cujo prémio era o regresso do pai,
a bofetada, o princípio da autoridade.
    Anos depois, cabia ao filho mais velho
o cuidado de transportar a imagem
a casa do vizinho. Trezentos metros
a fugir das pedras e das bocas infiéis.
    Até ao dia em que o pai ficou de vez,
para dar por terminada a brincadeira.
Agora, todas as frases eram rematadas
por pontos de exclamação, as portas
    começavam a bater mais depressa.
Nenhum dos filhos levantava a cabeça
quando a mãe nos perguntava, ainda:
quem quer apostar na Sagrada Família?

José Miguel Silva, Vista para um pátio (Relógio D' Água, 2003)

17/10/2009

Black lily


Fritillaria camschatcensis (L.) Ker-Gawl.

.....Nestas ervas, não em outras, gostaria
.....de deixar cair os punhos, esquecer como se reza.

.....José Miguel Silva (Ulisses já não mora aqui, 2002)

26/03/2008

Cebolinho


Allium schoenoprasum

....«Os sorrisos abertos ficam mal nas fotografias,
....obrigam a verdade a refugiar-se nos olhos.»


José Miguel Silva, Treze (Vista Para um Pátio, Relógio d'Água, 2003)

01/01/2008

Fumaria muralis



.... Agora já conheces
.... os fósforos que tens,
.... abriga-os da chuva de dezembro.
.... Quem sabe que cigarros
.... estarão à tua espera.

.. José Miguel Silva, O sino de areia (1999)


Os gestores da Lei nº. 37/2007, que aprova normas para resguardar os cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e, ao mesmo tempo, adopta duras medidas que cortam rente as aspirações dos que apreciam expor-se voluntariamente ao prazer imerecido de um cigarro alheio, fizeram já circular a ordem de que todos os espaços públicos fechados têm de estar etiquetados com algum de dois dísticos obrigatórios: um, azul-celeste, com um cigarro aceso, ou outro, vermelho-óbvio, com um cigarro também aceso mas censurado. Quanto aos espaços abertos, não nos chegou ainda qualquer indicação sobre aqueles onde será proibido fumar, e que cartaz deverão ostentar, mas já não deve demorar. Para adiantar serviço, informamos que aqui, neste 1/3 de blogue, vamos continuar a comunicar civilizadamente por sinais de fumo, às vezes em nuvens espessas de entrelinhas. Não só o cigarro não será banido, como poderá surgir celebrado em poesia que, como se sabe, não faz mal apenas aos pulmões. A nossa sinalização privada exibe uma planta com ares de algum excesso tabagista, escolhida porque a arte dos rótulos exige clareza e mensagens reforçadas.

A partir de hoje as instituições zelosas obrigarão o fumo a retirar-se para o exterior. Por isso, construíram belos jardins com banquinhos confortáveis de madeira, recantos rochosos de meditação e pagodes de abrigo para que os seus colaboradores que fumam possam, como exige a lei, apreciar um cigarro em bom ambiente. Depois de algum treino a acender os cigarros com vento, eles terão tempo para, nessas saídas rápidas de mitigação do vício, estimar a companhia desta erva que desponta em cada nicho de terra livre. Assim seja, neste ano. Que nos seguintes possamos voltar «ao tempo em que era bonito sofrer e fumar».

23/12/2007

Dicentra formosa



......Cai um sino do pinheiro de natal.
......Por muito menos se foge de casa
......de seus pais. Agachados sob o leque
......das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
......são fáceis de engolir. Sem saber,
......já chegámos ao escuro.
......Só nos falta pôr o til na palavra solidão.


José Miguel Silva, Vista para um pátio (2003)

21/11/2007

Situação



Nas ruínas de novembro,
a triste jardinagem dos poemas
por abrir.


José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh, 1999)

09/11/2007

Bem-me-quer


Lewisia cotyledon - Kew Gardens

..... Escolhi o malmequer
..... para o teu cabelo verde:
..... virá, não virá,
..... perguntava o calafrio
..... da canção que me ensinaste.

José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh 1999)