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28/04/2016

Alface dos mineiros


Montia perfoliata (Donn ex Willd.) Howell


É frequente ver-se em margens de regatos, fontes ou rochas com escorrências, por vezes mesmo parcialmente submersa, uma planta delicada, de folhas pequeninas e carnudas, a formar uns tapetes verdinhos, salpicados de pintinhas brancas na época de floração. Tal como a beldroega (Portulaca oleraceae), que é da mesma família (Portulacaceae), a meruginha (Montia fontana, herbácea anual ou vivaz a que os ingleses chamam blinks) já foi consumida em sopas e saladas, numa altura em que as hortas não resistiam a invernos tempestuosos. Perdeu o lugar à mesa quando se diversificou o mercado de alfaces e outros vegetais de maior porte ou sabor mais apurado.

Nesta história gastronómica entra outra beldroega, dita de Inverno (Montia perfoliata), que algumas Floras preferem arrumar no género Claytonia. Não há muitos registos da presença dela em Portugal ou na Península Ibérica, sinal de que esta planta anual e nativa da América do Norte (que, em inglês, se chama miner's lettuce por ter sido fonte preciosa de vitaminas para os garimpeiros nos primeiros tempos da Califórnia) se naturalizou na Europa mas não tem potencial invasor. Aprecia locais mais secos do que a sua congénere, dando-se bem em solos arenosos na orla de matos, mas as sementes precisam das chuvas de Outono para germinarem. A população que encontrámos mora perto da ribeira da Teja, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.


Ribeira da Teja, Numão, Vila Nova de Foz Côa
O aspecto da Montia perfoliata é um pouco bizarro. Ao contrário da M. fontana, que só tem folhas caulinares, na M. perfoliata as folhas são essencialmente basais, a formar uma roseta, e parecem colheres de cabo longo. No talo, que é estriado, por vezes alado, há ainda um (e um só) par de folhas caulinares, unidas numa taça que talvez funcione como bráctea a proteger a inflorescência. Nas fotos desta parte da planta, parece que o caule fura estas duas folhas geminadas — e é a isso que o epíteto perfoliata alude. As flores reúnem-se em racimos terminais que lembram enfeites (piercings) em volta de um umbigo.

13/09/2011

A fonte no monte

Montia fontana L.


As folhas, carnudas, espatuladas e sésseis, e a ramagem prostrada, por vezes rubra, a formar um matinho denso: tudo faz lembrar a prima beldroega (Portulaca oleracea L.). Também esta planta é (no início da Primavera) tenrinha e comestível, com um sabor que lembra o do agrião. O nome comum em inglês, miner's lettuce, alude precisamente ao seu consumo em saladas por mineiros da Califórnia no século XIX. Porém, ao contrário das flores vistosas da Portulaca, as da marujinha são inconspícuas (2-3 mm), com pétalas desiguais, como se moldadas em gesso por artesão atabalhoado com pulsão para miniaturista. Por isso, a outra designação inglesa, blinks, ajusta-se-lhe melhor.

É uma herbácea ripícola, da beira de fontes, nascentes ou margens de regatos e até locais periodicamente inundados, mas que prefere água corrente. É anual ou bienal e a floração ocorre entre Abril e Outubro. Encontrámo-la no Covão d'Ametade, a revestir um talude irrigado por um cachão de água; as folhas, com uns 5 mm de comprimento, estavam longe do máximo descrito para esta espécie, fixado em 2 cm.

O género Montia (designação que homenageia o naturalista italiano Giuseppe Monti (1682-1760)) tem estado em processo de reorganização, mas ainda subsistem dúvidas. As actuais etiquetas dependem sobretudo da textura da casca das sementes (em geral, três por cada fruto, reniformes e negras). A culpa é da grande variabilidade morfológica que as espécies deste género exibem, uma canseira para os taxonomistas mas que as ajuda a adaptarem-se a novos habitats. Com essa estratégia, estão a tornar-se cosmopolitas, depois de terem sido consideradas pontuais em vários ambientes. Algumas Floras entendem hoje que as plantas do género Montia que ocorrem em Portugal pertencem a duas das três subespécies registadas de Montia fontana (a subsp. amporitana, mais comum, ou a subespécie chondrosperma, com menor exigência de água) ou à espécie Montia perfoliata (Willd.) Howell, a beldoega-de-Inverno, norte-americana de origem, citada por Franco como subespontânea na serra de S. Mamede. Segundo o mesmo autor, a planta da foto (que já se chamou Montia lusitanica Samp.) só é rara no sul do país.

09/11/2007

Bem-me-quer


Lewisia cotyledon - Kew Gardens

..... Escolhi o malmequer
..... para o teu cabelo verde:
..... virá, não virá,
..... perguntava o calafrio
..... da canção que me ensinaste.

José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh 1999)

10/09/2007

Beldroegas de enfeitar



Portulaca oleracea «Wildfire» / Portulaca grandiflora

Saboreada a sopa, podemos agora regalar-nos com algumas formas ornamentais de Portulaca. São beldroegas de folhas semelhantes às da versão silvestre mas com floração muito vistosa. As flores grandes são solitárias, de tons fortes, num tal investimento no aparato de seduzir que, ironicamente, algumas variedades são estéreis. Os especialistas não estão de acordo sobre o significado de cada componente exterior da flor, sendo maioritária a opinião de que tem sépalas coloridas (tépalas) e não pétalas.

É obscura a origem da variedade de P. oleracea da foto. A espécie P. grandiflora, de folhas cilíndricas e carnudas, é do Brasil e Uruguai. É conhecida como onze-horas, em alusão ao seu hábito salutar de só abrir as flores quando o sol já vai alto e a manhã garantiu um dia radioso.

07/09/2007

Não pise a salada


Portulaca oleracea

Para sobreviver ao desgaste dos séculos, as palavras disfarçam-se a ponto de esconderem a sua origem ancestral. Ninguém diria (a não ser o dicionário), mas beldroega é a forma que a palavra latina portulaca adoptou para se apresentar como portuguesa. Os dois vocábulos designam a mesma planta herbácea a que Lineu deu o nome de Portulaca oleracea. Trata-se de uma ervinha carnuda e prostrada, cultivada ocasionalmente em vaso, frequente um pouco por todo o lado em terrenos baldios ou mesmo entre as pedras da rua; as flores têm 1 cm de diâmetro e aparecem nas extremidades da planta. Insignificante como é, quantas vezes não a teremos pisado sem dar por isso? E, no entanto, ela come-se: o talo e as folhas aproveitam-se para salada; e Maria de Lourdes Modesto, no seu opus magnum «Cozinha Tradicional Portuguesa», dá uma receita alentejana de Sopa de Beldroegas com Queijinhos e Ovos. Não transcrevo a receita, pois outros blogues já o fizeram sem indicar a fonte, e parece-me desajustado ensinar a outrém aquilo que não tenho a menor intenção de experimentar. É que já faz uns anos que não cozinho, e as sopas alentejanas (esta não é excepção) têm alho a mais para o meu gosto.