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02/03/2007

O FREIXO

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«Alto freixo redondo apazigua
Entre verdes pinhais a minha aldeia,
E, toucado de pássaros, à lua,
Parece uma mulher que se penteia.

Pede-lhe o vento norte segurança,
Toca-lhe o pé água de fresco poço;
Eu, tornado a meus olhos de criança,
Em seu casto perfil me sinto moço.

Seus ramos vejo como via os anjos
Que à vida me trouxeram pequenino.
Ó imaginação, que altos arranjos

Fazes às coisas simples transtornadas:
Vinhas em flor, um breve freixo fino,
Cães, colmeias sem mel, águas passadas! »


Vitorino Nemésio
in Nem toda a noite da vida, 1953

17/01/2007

Rezo, dobrado, aos Anjos da manhã.

O céu é fosco e o coração sonoro
Como a chuva que cai na telha vã
E o verbo com que imploro.

Terra de lume implanta
O meu corpo de velho
Enrolado na manta.
As minhas mãos estão postas ou podadas?
Sou gente ou vide?
O chão, com minhas folhas amontoadas,
Do Inferno me divide.


Mas rezo sempre, como o fio da fonte
Teima na rocha viva ao mar virada
Na esperança de que um cântaro desponte
E o apare ainda - ou a covinha breve
Que, tremendo o queimor da água salgada,
Ele próprio em pedra abriu
Como na terra leve,
Ajudado dos álamos, o rio.

Vitorino Nemésio
"Terra de Lume", in O Pão e a Culpa (1955 )

18/10/2006

A Minhoca

Um torrão de barro!
Eu vi um torrão de barro
Fresco, na enxada, e uma minhoca!
Aquele torrão cheiroso
Era a toca!

Eu vi bichas da terra,
Uma raiz ao sol,
Vi ervas verdes
E um osso.

E fiquei tão comovido,
Tão agradecido,
Que quis dizer isso a alguém,
Mas não sei a quem
Nem posso.
Eu vi a oliveira de bronze e de prata
Cheia de folhas e de pios,
E pelo vento soube dos rios.

Mas nem pinheiros nem fuminhos
De casais, semeaduras, cigarras,
Nem este pouco de poesia que me toca
E que do Mundo me desliga
Valem a pobre minhoca
Que se mexia para eu ver,
Só com metade da barriga.

Vitorino Nemésio ( in NEM TODA A NOITE A VIDA , 1952)
post
dedicado;-)

05/10/2004

Savana

«Partimos do Mountain-Inn às 8 horas, tempo fresco e translúcido. Começámos a descer curveteando, entre o alto relevo, como quem se esgueira de um paraíso terrestre sem querer acordar Adão, mas sem Eva afinal de quem se despedir... Temos de calcorrear bons trezentos e oitenta e tal quilómetros, daqui a Pretória; mas em menos de dez minutos estamos no peniplano, em Louis Trichard, a tal cidadezinha-jardim, de casas de presépio, baixas. Dela se sai para uma recta imensa, destas que hipnotizam e cegam quem vai ao volante, numa imensa planície rasa de palha branca, pontuada à nossa beira por farms de cottages crispados na sua desconfiança de primeiros ocupantes pioneiros, e rodeados de verdura espaireciva. As araucárias contam os anos de colónia: são as pirâmides deste Egipto.»

Vitorino Nemésio, Jornal do Observador (1973)

18/09/2004

Crónica das águas novas



«Os ouriços estão mesmo, mesmo a abrir, amarelinhos e cerdosos como os seus irmãos cacheiros. Até à castanha a chuva ainda veio fazer bem!
Ouço cantar:

No alto daquela serra (oh meu bem!)
Tem meu pai um castanheiro,
Que dá castanhas em Maio (oh meu bem!)
Cravos roxos em Janeiro!


A poesia é isso: fazer com que os castanheiros dêem castanhas agora e cravos mais logo, sem transtorno do Mundo nem míngua do assador. E que chova! Chova do céu a água precisa, entre na terra a que baste, e empoce a restante até à evaporação. Com poças estreladas se fazem nuvens novas. Com nuvens novas se enchem as poças velhas, e assim por diante. Eterno retorno.»

Vitorino Nemésio, Viagens ao pé da porta (1949)

14/09/2004

Emparedados

«Como índice do curso dos dias resta ao emparedado o ritmo de duração dos dias e das noites, - pouco mais. É preciso ir ao campo para ver no álamo nu e na regueira barrenta da quelha a alma do Inverno, no carrapiteiro em flor a Primavera que viça, nas palhas o ardor do Verão, nos estendais de fruta o Outono que pinta os poentes. Depois, a falta de silêncio nas cidades não deixa captar os pequenos murmúrios da paisagem, nem a gasolina queimada deixa aspirar os cheiros da terra seca ou húmida. O aquecimento e as ventoinhas metem o Verão pelo Inverno dentro e o fresco pela canícula. Na ânsia de fabricar um meio físico constante, o homem urbano apaga em volta de si a natureza, e depois mal dá por ela... Quando se lembra que ela existe tenta refazê-la à volta. Mas, se lá vai, acontece-lhe às vezes que já a não sabe entender, - e tem de voltar ao sabonete FLORES DE MAIO, ao jardim de Inverno ou à estufa fria...

Na nossa perpétua reeducação natural pela excursão e pelas férias, ver as sebes em flor e as vinhas rebentadas é estranho. Custa muito a entrar numa relação normal com este carro de bois que leva uma carrada de mato ou com este bando de pássaros que se alapam num freixo para cantarem e dormirem.»


Vitorino Nemésio, O retrato do semeador (texto de 1950)