

Kensal Green - Londres
......My friends, we will not go again or ape an ancient rage,
......Or stretch the folly of our youth to be the shame of age,
......But walk with clearer eyes and ears this path that wandereth,
......And see undrugged in evening light the decent inn of death;
......For there is good news yet to hear and fine things to be seen,
......Before we go to Paradise by way of Kensal Green.
......G. K. Chesterton, The Rolling English Road (1914)
No passado mês de Abril, a junta de Baguim do Monte, em Gondomar, comunicou a todos os habitantes da freguesia e demais possíveis interessados que, até final da semana, seriam cortados os eucaliptos que tinham crescido junto ao muro do cemitério «e cujas copas invadiam e sujavam as campas». A remoção de tais empecilhos era desejo antigo do povo local, finalmente consumado graças ao tacto e elevação com que a junta tratou do assunto e à atitude colaborante dos proprietários das árvores. (Comunicado completo n'A Sombra Verde.)
Se, por artes do Maligno, se desse tal reviravolta no espaço-tempo que a mesma junta de freguesia se visse com o cemitério de Kensal Green à sua guarda, é de crer que os nossos autarcas desfalecessem de horror ainda antes de porem mãos à obra: árvores grandes e muitas, alimentado-se dos mortos e lançando ao chão cascatas de imundíssimas folhas; vegetação rompendo por entre pedras tumulares quebradas, abraçando lápides caídas ou em desequilíbrio; relvados há muito por aparar; e, por todo o lado, a exuberância indecorosa das flores silvestres. Mas em pouco tempo o brio arboricida luso faria o seu trabalho; e Kensal Green ficaria tão despido e asséptico como o cemitério de Baguim do Monte - ou, para ficarmos por Londres, como o cemitério católico de St. Mary, que com ele confina a poente.


Kensal Green - Londres
Inaugurado em 1833, Kensal Green foi o primeiro cemitério de Londres a ser concebido como jardim. [Essa mesma ideia, importada de França, inspirou os cemitérios portuenses do Prado do Repouso (1839) e de Agramonte (1855) - os quais, apesar de menos frondosos do que deveriam ser, contrastam vivamente, pela muita vegetação que acolhem, com o típico cemitério português.] Desenvolvendo-se simetricamente, com caminhos de terra batida, ao longo de um eixo longitudinal pontuado por uma rotunda arborizada, ocupa um terreno de 29 hectares na zona postal NW10, entalado entre Harrow Road e o braço do Grand Union Canal que segue até Paddington. Entre sepultados e cremados, foi a última morada de mais de 250 mil pessoas, e continua até hoje em funcionamento. Não é um cemitério para elites, embora muita gente famosa lá tenha sido enterrada (não foi esse, porém, o caso de Chesterton). Harrow Road e os bairros contíguos são pobres e pouco atraentes: a mistura étnica que potenciou o sucesso de Notting Hill não fez aqui brotar lojas trendy nem despoletou qualquer boom turístico.
Tudo somado, Kensal Green é dos sítios mais bonitos de Londres. É um lugar de morte mas também de esperança; um lugar onde a vida se perpetua na folhagem nova das árvores, no canto insistente das aves, na azáfama miúda dos insectos. Encontrei lá borboletas, pássaros e flores como em nenhum outro parque londrino. Pude admirar árvores soberbas: tílias (1.ª foto), carvalhos, áceres, azinheiras, castanheiros-da-Índia (2.ª foto), faias, carpas e até um sobreiro, coisa rara nestas latitudes. A nível do solo, o amarelo dos ranúnculos disputava a primazia a uns bluebells miscigenados, hesitantes entre o azul, o branco e o rosa (3.ª foto). E não havia campa que a natureza se houvesse descurado de enfeitar com flores frescas.