25.8.04

Vizela em 1886

«Tem-se falado já muitas vezes das obras do parque de Vizela, e, com efeito, é um dos trabalhos de jardinagem mais importantes que ultimamente se têm empreendido no nosso país.
Muitos dos que nos lêem conhecem as Caldas de Vizela, essa encantadora aldeiazita, cheia de poesia e cercada de paisagem harmoniosa, que arrouba em doce êxtase o artista que sabe sentir, que sabe distinguir o belo, que conhece a arte em todas as suas minudências.
O local em que se procede à obra não é como outro qualquer. Ali há uma grande dificuldade, porque não se trata de simples jardinagem: trata-se duma indefinida combinação de ideias, em que é necessário respeitar sobretudo a Natureza, modificando-a, todavia, por modo que essa modificação cause uma impressão agradável, e sobretudo artística, sob o ponto puramente estético.
O Minho, chamado desde longo tempo "o jardim de Portugal", é, com efeito, pelas paisagens que oferece em todos os géneros, uma região privilegiada, uma região como não conhecemos outra.
Temos viajado alguma coisa, e nunca nos deixamos levar pelo patriotismo; mas confessamos, muito à puridade, que pouco temos visto que tanto nos encante, como é o trajecto da Trofa a Vizela. O rio Vizela, e antes disso, consorciando-se com o rio Ave, quem vai do Porto depara a cada passo, a cada minuto um quadrozinho sui generis, que só artistas que não sentem, que não têm vida, artistas que não sabem o que é o belo, não têm reproduzido. Há ali a arte nas suas manifestações mais poéticas, mais espontâneas e mais simples.
Não são as margens do Tamisa ou do Sena, quase todas artificiais, nem as margens do Reno, com os seus castelos federais, mas sim as margens de um riozito inocente, que desliza serenamente, cantando endechas pastoris que nos arroubam e nos atraem. É preciso ser poeta para compreender os seus encantos; é necessário ser artista para avaliar as suas belezas.
Ora, quem vai assim disposto, e chega ao parque de Vizela, precisa com certeza encontrar alguma coisa que lhe faça olvidar tudo quanto acaba de ver.
Que luta de gigante!...Destruir o que a Natureza criou; esmagá-la a golpes de machado, e criar uma nova Natureza! Remover terras, formar de terrenos acidentados planícies por onde os reumáticos possam passear sem esforço; em montanhas inacessíveis abrir estradas e avenidas pitorescas para onde os convalescentes possam ir aspirar ares puríssimos; transformar uma área considerável em jardim atractivo, tal foi a ideia da Companhia das Caldas de Vizela, e que os snrs. José Marques Loureiro e Jerónimo Monteiro da Costa tentaram pôr em prática.
Visitámos os trabalhos, e difícil é hoje dizer-se o que será tudo aquilo, conquanto se lhe esteja dando a última demão, porque as obras de jardinagem só se podem realmente avaliar quando as plantações tomem um certo desenvolvimento. Há a disposição das plantas, os agrupamentos, os efeitos, os golpes de vista e mil e um acessórios, que só é possível avaliar-se passados anos. É tal qual os ensaios de um drama: só quando todos os actores se apresentam vestidos a carácter, é que se pode dizer do seu merecimento.
E no parque de Vizela ainda está tudo despido: é necessário tempo, e muito tempo.
Ainda assim, afiguraram-se-nos os grupos muito bem combinados, e alguns deles prometem produzir bom efeito.
Como elogio antes de subir o pano - são precisos quatro ou seis anos - não se pode em boa fé dizer mais.
Aos que têm dirigido a obra, sabemos que não tem faltado boa vontade em acertar, e isso já não é pouco.
O snr. Marques Loureiro, pela sua parte, não a tem encarado como uma exploração comercial, e tem feito tantos sacrifícios, que já sabe que, concluída ela, não lhe fica um vintém de lucro.
Ele quer, contudo, poder um dia ir ali admirar os belos efeitos que produzem as plantas que saíram dos seus viveiros, aquelas plantas que em sua casa tão insignificante papel representavam.
O lago que se anda construindo é dos maiores que há em Portugal; mas, pelo projecto aprovado, dificilmente se poderá levar a cabo. Consiste em introduzir-lhe um braço de rio que deve alimentá-lo, tendo mais abaixo uma saída. Sucede naturalmente que a corrente e as cheias destroem tudo, e melhor seria que, por meio de comportas, se lhe conservasse sempre a água necessária para navegar, e se desistisse da saída.
São obras hidráulicas que custam muito, e que nenhuma importância têm para casos destes.
E, de resto, o rio Vizela não é navegável naquele sítio, e, por isso, não vemos que vantagem possa ter a tal saída.»

José Duarte de Oliveira, Jornal de Horticultura Prática, 1886

Ler: O Parque de Vizela 120 anos depois
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1 comentário :

Jorge Miranda disse...

Tenho nos útimos dias espreitado o vosso blog, o qual por sinal é excelente.
Sou de Vizela e por isso tive que me deter diante de todas as referências que encontrei ao Parque da Termas, mas muito especiamente diante deste texto aqui transcrito (aproveito para informar que tenho retirado alguns dos vossos textos para o meu blog, nos quais indico sempre a fonte) porque ele diz-me muito e reporta-me para o presente, para um projecto no qual estou envolvido e que pessoalmente o tenho comparado ao do Parque das Termas e este texto só o vem confirmar. Falo da reabilitação do Santuário de S. Bento das Pêras, também em Vizela, uma obra principalmente de caracter botánico, a qual cosnsistiu em abater toda uma área de eucalipto, para implantar especies Carvalhos, Tílias, Oliveiras, Cerejeiras bravas e muitas outras especies. Trata-se de uma obra inaugurada há 1 mês e que custou 1 milhão e 250 mil Euros, mas tal como no Parque, o seu explendor levará anos a concretizar-se. A obra integrou uma equipa de arquitectos paisagistas e cívis.

Desde já convido os autores deste blog a contactarem-me para lhes dar mais pormenores sobre a obra de que lhes falo (jorgemiranda@engenheiros.pt), assim como os convido, em nome da Confraria de S. Bento das Pêras a visitarem o local.