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30/03/2011

Gerânio de folha recortada

Geranium dissectum L.
Nomes vulgares: bico-de-pomba, coentrinho, cut-leaved cranesbill
Ecologia e distribuição: terrenos cultivados e ruderais em toda a Europa, e também no norte de África, sudoeste da Ásia, Ásia central e Macaronésia
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: Fevereiro a Maio
Data e local das fotos: Fevereiro de 2008, Vizela

13/09/2010

A margem esquecida do rio

Bidens frondosa L.
Uma das mais aguerridas polémicas que se desenrolaram neste plácido blogue teve como pretexto a Bidens pillosa, congénere sul-americana da planta que hoje sobe ao palco. As questões que exaltaram (moderamente) os ânimos foram estas: pode uma planta daninha, causadora em todo o mundo de grandes prejuízos nas colheitas, ser apreciada pela sua beleza? É legítimo o «romantismo floral» servir-se de tão maléfico vegetal para ilustrar a espantosa diversidade de meios que as plantas usam para se disseminarem? A resposta requer alguma capacidade de diferenciação. É possível, por exemplo, reconhecer que alguém foi um grande escritor sem esquecer que foi também um grande patife. Podemos ler e apreciar a prosa de um autor sem querermos ser governados pelas suas ideias. Do mesmo modo, há plantas de que podemos admirar a beleza ou o engenho mas que preferíamos, por muitas e boas razões, não ver por perto. Um bom exemplo é o jacinto-de-água, que é ao mesmo tempo uma terrível praga e uma criação admirável da natureza.

A Bidens tripartita, não comungando da índole expansionista da sua prima americana, tem pouco a ver com esta discussão. De facto, apesar de ocorrer em todo o continente europeu, tem exigências ecológicas particulares (lugares húmidos e algo nitrificados) que fazem dela uma presença esparsa. Em Portugal, por exemplo, só se encontra na metade norte do país, especialmente no noroeste, nas margens de um ou outro rio; e, como tem floração tardia (de Agosto a Outubro), passa ainda mais despercebida. O exemplar das fotos morava junto ao poluído rio Vizela, num pedaço esquecido de margem contíguo ao Parque das Termas.

As fotos mostram cabalmente o aspecto da Bidens tripartita, em particular as suas folhas tripartidas e as longas brácteas que rodeiam a inflorescência. Falta informar, contudo, que esta planta anual atinge uma envergadura considerável: nada menos que um metro de altura.

Errata. A Bidens tripartita, ao contrário do que supúnhamos, é actualmente muito pouco comum em Portugal, parecendo ter sido expulsa dos seus habitats de eleição por uma impostora que muito se assemelha a ela e tem a mesma época de floração. A Bidens frondosa, assim se chama a intrusa, tem origem norte-americana e chegou a Portugal ainda no século XIX. A verdadeira Bidens tripartita, que nunca vimos, tem folhas com pecíolo curto e alado (i.e., dotado de duas membranas laterais).

12/05/2010

Leite de galinha

Ornithogalum pyrenaicum L.
Já é a segunda vez em poucos dias que aqui falamos de leite, mas não há perigo de o blogue se dedicar ao nutricionismo. Até porque, vendo bem, pode nem haver leite, mas apenas uma menção a despropósito que não encerra qualquer lição útil. Da primeira vez, apontámos às mães que uma certa ervita poderia estimular a lactação, ou pelo menos em tempos houve quem acreditasse nisso. Agora, puxando da erudição instantânea de quem acaba de consultar um dicionário, informamos que Ornithogalum (vem do grego, ao que parece) significa leite de ave — ou, para não ficarmos por uma ave abstracta, leite de galinha, nome que é dado em português a algumas espécies do género.

Mesmo o leitor com as mais rudimentares noções de zoologia saberá que as aves em geral, e as galinhas em particular, não dão leite nem amamentam as suas crias. Há o ornitorrinco, que não é ave embora pareça, mas os gregos, que desconheciam a sua existência, chamavam leite de ave a algo que fosse incrível. O nome Ornithogalum referir-se-ia assim à beleza improvável de algumas das flores do género. Outros defendem, mais prosaicamente, que o absurdo nome se deve tão só à brancura das flores.

Acontece que o Ornithogalum pyrenaicum não dá flores brancas nem especialmente chamativas, e por isso ilustra mal toda esta conversa. As flores, em espigas altas (até um metro) e desprovidas de folhas, são esverdeadas ou de um amarelo pálido, e surgem de Maio a Julho. É uma planta que ocorre em prados e bosques de boa parte da Europa, do Mediterrâneo a alguns países do Norte. Em Portugal, onde praticamente só não existe no Alto Alentejo, é menos comum do que deveria ser. O exemplar da foto vegetava, solitário, no Parque das Termas, em Vizela, muito perto do poluidíssimo rio com o mesmo nome.

13/06/2006

Linho


Linum grandiflorum

Esta herbácea pequenina, de folhas lanceoladas e flores exuberantes com cinco pétalas em espiral, é de uma família com longa história e tradição (Linaceae), que contém várias espécies endémicas da área mediterrânica.

A espécie da foto, Linum grandiflorum, que encontrámos em Maio no Parque de Vizela, é do norte de África e cultivada com fins ornamentais. A fibra de Linum usitatissimum - europeia, de flores brancas ou azuis - é usada há mais de dez mil anos para fabricar o linho, tecido nobre com que se envolveram as múmias egípcias e cuja produção só abrandou com a concorrência da indústria do algodão; das sementes fabrica-se, por um demorado processo de destilação, o óleo de linhaça, usado em massas e vernizes.

28/02/2006

Sequóias em Vizela

Uma das mais óbvias «lições» deste blogue, até pela insistência em o mantermos a funcionar durante o Inverno, é que qualquer época do ano é boa para visitar um jardim ou um parque. Tomemos o caso do Parque de Vizela: com o salgueiro e restantes folhosas em hibernação, os canteiros despojados de flores, e o ar gélido que só ameniza ao princípio da tarde, poderia pensar-se que, antes de vir a Primavera, não valeria a pena lá voltar. Puro engano: para começar, estão em plena floração as muitas camélias plantadas por Marques Loureiro, o Jardineiro das Virtudes; e é também agora que as árvores de folha perene, graças à nudez das suas companheiras, podem ser admiradas em toda a sua magnificência.

Já o dissemos, mas convém recordá-lo: o Parque de Vizela tem algumas das árvores mais altas que existem no nosso país; com ele só rivalizam, na concentração de árvores gigantescas, a Mata do Buçaco e talvez o Parque de Monserrate, em Sintra. E, se exceptuarmos um descomunal eucalipto, as mais altas entre as altas são, em Vizela, as sequóias (Sequoia sempervirens), de que por lá haverá cerca de duas dezenas; são como flechas pontiaguadas que, perfurando a mancha do arvoredo, sinalizam o parque à distância.

Outras sequóias

Foto: sequóias (Sequoia sempervirens) em Vizela - Janeiro de 2006

26/02/2006

Salix babylonica - Vizela

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Salgueiro chorão no Parque das termas em Caldas de Vizela no Outono de 2004.
O porte gracioso, os longos ramos pendentes e as características folhas lanceoladas fizeram com que se tornasse a espécie do género Salix mais apreciada nos jardins públicos e privados.
No entanto, negando-lhes a sua vocação ornamental e afrontando todos os que têm um mínimo de sensibilidade e sentido estético, ano após ano, estas árvores continuam a ser drasticamente podadas ficando por vezes durante longas semanas com as pernadas reduzidas a uns tocos atrozes! Esperemos que isso nunca aconteça à árvore da fotografia, um dos mais bonitos exemplares que conheço.

02/10/2005

À sombra de sequóias e plátanos

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À sombra de sequóias e plátanos centenários no Parque de Vizela - outubro 2004

(Anteriores sobre este Parque: Essa alegria só prometida às aves (*) ; O Parque de Vizela 120 anos depois ; Vizela em 1886 )

08/10/2004

São Francisco e a árvore sua irmã


Foto: pva 0410 - Parque das Termas de Vizela

G. K. Chesterton, na sua biografia de São Francisco de Assis, explica que o santo não era, no sentido vulgar da expressão, um amante da natureza: em vez de um encantamento panteísta pela natureza no seu conjunto, ele amava separadamente cada pássaro, cada árvore, cada insecto; para ele a natureza não era um cenário indiferenciado, mas antes um teatro frenético onde, em lances dramáticos, cada ser vivo fazia ressaltar a sua personalidade.

«The hermit might love nature as a background. Now for St. Francis nothing was ever in the background. (...) He saw everything as dramatic, distinct from its setting, not all of a piece like a picture but in action like a play. A bird went by him like an arrow; something with a story and a purpose, though it was a purpose of life and not a purpose of death. (...) In a word, we talk about a man who cannot see the wood for the trees. St. Francis was a man who did not want to see the wood for the trees. He wanted to see each tree as a separate and almost a sacred thing, being a child of God and therefore a brother or sister of man.» (G. K. Chesterton, St. Francis of Assisi, 1923)

Para São Francisco a sua irmã árvore era um maior hino à glória do Criador do que uma sumptuosa catedral. Por isso consigo imaginá-lo a conversar com cada uma das tílias desta alameda no Parque de Vizela, seguindo com os olhos as folhas secas que o Outuno incipiente vai fazendo tombar. E imagino também o seu desgosto ao deparar, ainda em Vizela, com outras tílias menos felizes, amputadas para não taparem a fachada da igreja: diria o santo que nem os homens de Deus são imunes à vaidade de preferirem obra humana à criação divina. Quem ordenou essas podas talvez seja indiferente mesmo à natureza como cenário, pois só um sentido estético embotado pode achar que um tal agrupamento de árvores grotescas tem efeito ornamental. Mas esses pobres destroços testemunham, pior do que a indiferença, a perversão egoísta do sadismo.

01/10/2004

De Vizela a Viseu, via Brasil

Vizela Viseu

Pegue num pau redondo, muito comprido e muito hirto, que comece por ser largo e vá estreitando até à outra ponta, e faça-o assentar de pé sobre a sua parte mais grossa; espete-lhe, a toda a volta do seu terço superior e a intervalos regulares, e de modo a com ele fazerem ângulos rectos, outros paus mais estreitos e mais curtos; e cole uma grande bola verde na extremidade de cada um desses paus.

(Pausa para dar tempo ao leitor de executar mentalmente as instruções do parágrafo anterior.)

Já está? Acabou de construir aproximadamente uma araucária-do-Brasil (Araucaria angustifolia): uma árvore de desenho tão simples que se diria um rabisco de criança. Pois essa árvore vem de épocas remotas, quando o Criador se podia dar a infantilidades, sem teologias que o atrapalhassem.

Muito se passou na Terra desde que as araucárias apareceram no período jurássico: os continentes deslocaram-se, houve catástrofes, extinções em massa, surgiram outras formas de vida; aqui e ali, na América do Sul, Austrália e Nova Caledónia, abrigaram-se as sobreviventes em pequenos nichos. Delas dizemos hoje que são exóticas, o que é de uma trivialidade insultuosa para estas anciãs, habitantes antigas de um planeta entretanto colonizado por plantas arrivistas (como elas lhes chamariam se falassem) a que nós chamamos autóctones. As araucárias não vêm propriamente de outro lugar, mas de outras eras, e merecem por isso o nosso acolhimento e veneração.

A araucária-do-Brasil é a Gata Borralheira da família. No século XIX, quando se iniciou a voga destas árvores nos jardins europeus, esbanjavam-se elogios com a araucária-de-Norfolk (A. heterophylla), com a araucária-do-Chile (A. araucana) e, em menor grau, com a araucária-de-Queensland (A. bidwillii); mas ninguém tinha uma boa palavra para a araucária-do-Brasil. Chegaram a considerá-la defeituosa por, ao contrário das suas congéneres, os exemplares adultos só terem ramos na parte superior do tronco. E o seu preço de venda reflectia essa apreciação: o Horto das Virtudes, de Marques Loureiro, vendia-a 10 a 20 vezes mais barata do que as suas irmãs.

Talvez por isso não haja muitas dessas araucárias no Porto (uma dessas raras árvores ajudou-nos a decifrar parcialmente um enigma dos nossos amigos Aliados): o burguês endinheirado preferia, para o seu jardim, árvores mais caras e requintadas. Mas, noutros lugares do norte do país, e mesmo nos concelhos confinantes com o Porto, numerosos exemplares já adultos da araucária-do-Brasil desmentem garbosamente a depreciação estética de que a espécie foi vítima. Tanto em Vizela como em Viseu, que há pouco visitámos, ela é mesmo a araucária mais numerosa nos jardins e parques públicos: e assim, além da afinidade fonética, um novo laço (brasileiro) une estas duas urbes lusitanas.

(fotos: pva / mdlr)

27/08/2004

Árvores onde poisa o céu

Na nossa romaria ao Parque de Vizela, previmos encontrar exemplares de árvores que foram moda na horticultura europeia do final do século XIX: plátanos, em alamedas - e eles lá estão, enfileirados e soberbos; tílias prateadas - e um grupo delas, altaneiras e de copa frondosa, cerca-nos depois do primeiro repuxo; sequóias, porque aos criadores do Parque não teria passado despercebida a abundância de água que estas coníferas tanto apreciam; tulipeiros, sobre cuja floração o jardineiro das Virtudes escrevera sabiamente e que tão bem vegetam em espaços vastos; e, naturalmente, camélias.

Mas Marques Loureiro e Monteiro da Costa quiseram deixar-nos um cenário mágico. À entrada do Parque há flores, em "canteiros e canteirinhos" que hoje enfurecem prestigiados arquitectos mas encantam as pessoas comuns, ladeados por dois caramanchões em meia-lua de glicínias; os guardiões do Parque são áceres (negundo), nesta altura com mil e uma sâmaras a preparar o futuro, e carvalhos alvarinhos. Depois começa a mata de árvores majestosas, com troncos que escapam aos abraços, de folhagem saudável em ramos enormes, sem podas que lhes desfigurem o porte: seguindo um guião minucioso de surpresas para o visitante, Marques Loureiro oferece-nos liquidâmbares, faias, cedros, magnólias, araucárias (angustifolia), eucaliptos, ciprestes-dos-pântanos e dois raros Podocarpus totara.

O conselho de Duarte de Oliveira foi seguido: é uma comporta que regula a cedência de água do rio Vizela ao lago por onde hoje, abandonados os barquinhos de recreio, vogam patos e cisnes.

26/08/2004

Essa alegria só prometida às aves (*)



A natureza modificada, de que nos fala Duarte de Oliveira, acabou por ser a única que, em Vizela e nas imediações, sobreviveu ao progresso. O rio Vizela está intoleravelmente poluído, e as novas estradas e as construções desordenadas acabaram com o encanto da paisagem. Sobram aqui e ali, ao longo do rio, algumas manchas de arvoredo de que sobressaem bonitos carvalhais; mas é preciso procurar os recantos e treinar os sentidos a ignorarem o panorama mais vasto.

São as ironias desta vida automobilizada: agora que é tão fácil e rápido chegar a tantos lugares, há cada vez menos motivos para os visitar; as próprias estradas que a eles nos conduzem contribuíram para a sua degradação. E, mesmo quando vale a pena, à facilidade em chegar contrapõe-se a facilidade em partir: há um nervosismo miúdo que não nos deixa simplesmente permanecer.

Vale a pena permanecer no Parque das Termas de Vizela durante uma longa tarde de Verão, admirando o gigantismo do arvoredo. Por que subiram as árvores tão alto? Terreno fértil, água abundante e a competição pela luz são três das razões mais evidentes.

Ficamos com imagens de duas dessas gigantes que se recusam a caber na fotografia: à esquerda um liquidâmbar e à direita uma sequóia.

(*) verso de Eugénio de Andrade

25/08/2004

Vizela em 1886

«Tem-se falado já muitas vezes das obras do parque de Vizela, e, com efeito, é um dos trabalhos de jardinagem mais importantes que ultimamente se têm empreendido no nosso país.
Muitos dos que nos lêem conhecem as Caldas de Vizela, essa encantadora aldeiazita, cheia de poesia e cercada de paisagem harmoniosa, que arrouba em doce êxtase o artista que sabe sentir, que sabe distinguir o belo, que conhece a arte em todas as suas minudências.
O local em que se procede à obra não é como outro qualquer. Ali há uma grande dificuldade, porque não se trata de simples jardinagem: trata-se duma indefinida combinação de ideias, em que é necessário respeitar sobretudo a Natureza, modificando-a, todavia, por modo que essa modificação cause uma impressão agradável, e sobretudo artística, sob o ponto puramente estético.
O Minho, chamado desde longo tempo "o jardim de Portugal", é, com efeito, pelas paisagens que oferece em todos os géneros, uma região privilegiada, uma região como não conhecemos outra.
Temos viajado alguma coisa, e nunca nos deixamos levar pelo patriotismo; mas confessamos, muito à puridade, que pouco temos visto que tanto nos encante, como é o trajecto da Trofa a Vizela. O rio Vizela, e antes disso, consorciando-se com o rio Ave, quem vai do Porto depara a cada passo, a cada minuto um quadrozinho sui generis, que só artistas que não sentem, que não têm vida, artistas que não sabem o que é o belo, não têm reproduzido. Há ali a arte nas suas manifestações mais poéticas, mais espontâneas e mais simples.
Não são as margens do Tamisa ou do Sena, quase todas artificiais, nem as margens do Reno, com os seus castelos federais, mas sim as margens de um riozito inocente, que desliza serenamente, cantando endechas pastoris que nos arroubam e nos atraem. É preciso ser poeta para compreender os seus encantos; é necessário ser artista para avaliar as suas belezas.
Ora, quem vai assim disposto, e chega ao parque de Vizela, precisa com certeza encontrar alguma coisa que lhe faça olvidar tudo quanto acaba de ver.
Que luta de gigante!...Destruir o que a Natureza criou; esmagá-la a golpes de machado, e criar uma nova Natureza! Remover terras, formar de terrenos acidentados planícies por onde os reumáticos possam passear sem esforço; em montanhas inacessíveis abrir estradas e avenidas pitorescas para onde os convalescentes possam ir aspirar ares puríssimos; transformar uma área considerável em jardim atractivo, tal foi a ideia da Companhia das Caldas de Vizela, e que os snrs. José Marques Loureiro e Jerónimo Monteiro da Costa tentaram pôr em prática.
Visitámos os trabalhos, e difícil é hoje dizer-se o que será tudo aquilo, conquanto se lhe esteja dando a última demão, porque as obras de jardinagem só se podem realmente avaliar quando as plantações tomem um certo desenvolvimento. Há a disposição das plantas, os agrupamentos, os efeitos, os golpes de vista e mil e um acessórios, que só é possível avaliar-se passados anos. É tal qual os ensaios de um drama: só quando todos os actores se apresentam vestidos a carácter, é que se pode dizer do seu merecimento.
E no parque de Vizela ainda está tudo despido: é necessário tempo, e muito tempo.
Ainda assim, afiguraram-se-nos os grupos muito bem combinados, e alguns deles prometem produzir bom efeito.
Como elogio antes de subir o pano - são precisos quatro ou seis anos - não se pode em boa fé dizer mais.
Aos que têm dirigido a obra, sabemos que não tem faltado boa vontade em acertar, e isso já não é pouco.
O snr. Marques Loureiro, pela sua parte, não a tem encarado como uma exploração comercial, e tem feito tantos sacrifícios, que já sabe que, concluída ela, não lhe fica um vintém de lucro.
Ele quer, contudo, poder um dia ir ali admirar os belos efeitos que produzem as plantas que saíram dos seus viveiros, aquelas plantas que em sua casa tão insignificante papel representavam.
O lago que se anda construindo é dos maiores que há em Portugal; mas, pelo projecto aprovado, dificilmente se poderá levar a cabo. Consiste em introduzir-lhe um braço de rio que deve alimentá-lo, tendo mais abaixo uma saída. Sucede naturalmente que a corrente e as cheias destroem tudo, e melhor seria que, por meio de comportas, se lhe conservasse sempre a água necessária para navegar, e se desistisse da saída.
São obras hidráulicas que custam muito, e que nenhuma importância têm para casos destes.
E, de resto, o rio Vizela não é navegável naquele sítio, e, por isso, não vemos que vantagem possa ter a tal saída.»

José Duarte de Oliveira, Jornal de Horticultura Prática, 1886

Ler: O Parque de Vizela 120 anos depois
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24/08/2004

O Parque de Vizela 120 anos depois




O Parque das Termas em Caldas de Vizela foi criado entre 1884 e 1886 pelo famoso horticultor portuense José Marques Loureiro, proprietário do Horto das Virtudes, e pelo jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa, autor dos jardins de Arca d'Água, do Carregal e de outros históricos jardins do Porto. O Parque apresenta sinais de degradação, como seja o avanço das acácias e dos eucaliptos na sua periferia, e as poluídas águas do rio Vizela não ajudam a compor o bucolismo ideal; mas as árvores que Marques Loureiro plantou atingiram um desenvolvimento luxuriante, emprestando ao local uma imponência e solenidade únicas: não conhecemos no país nenhum outro parque ou jardim com tal concentração de árvores gigantescas.

Nestas fotos vemos algumas dessas árvores: à direita em cima um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) cujo tamanho se pode avaliar comparando com o da figura humana em primeiro plano; em baixo, também à direita, uma tília de dimensões semelhantes; e, à esquerda em baixo, uma Sequoia sempervirens (das muitas que há no Parque rivalizando em porte com as do Buçaco) eleva a sua flecha bem acima da concorrência.

Esta história é para continuar: amanhã publicaremos um texto de 1886 de José Duarte de Oliveira, redactor do Jornal de Horticultura Prática, descrevendo as obras de construção do Parque das Termas, verdadeiro mostruário desse estabelecimento ímpar da horticultura portuguesa do século XIX que foi o Horto das Virtudes.
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