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17/01/2015

O jardim na sala


O desconhecer-se as regras geraes da cultura das plantas e o seu habitat, que é um dos principaes pontos, senão o principal, a que se deve attender quando se transporta para o jardim ou para a sala um vegetal, leva as pessoas menos versadas em horticultura a praticarem operações que julgam optimas, mas que são contraproducentes.
A cultura dos Fetos exige uns certos cuidados e é preciso que o amador tome em consideração o seu habitat. Na distribuição dos vegetais vemos que os esmaltes pertencem aos prados; as plantas arrastadiças e sarmentosas ás montanhas e aos rochedos alcantilados e os Fetos ao sombrio dos arvoredos. Percorrei os umbrosos regatos e ahi os encontrareis, mostrando uma vegetação mais luxuriante do que se fossem rodeados de todos os cuidados da arte.
É extremamente curioso observar-se a maneira como vegeta a maior parte dos nossos Fetos, sahidos das estreitas fendas dos muros, onde parece que deve haver falta de condições essenciais à boa vegetação. Mas este facto da posição quase oblíqua que tomam quando estão completamente entregues nas mãos da natureza, não deve passar indifferentemente ao cultivador.
O snr. Augusto Luso, cavalheiro muito conhecido dos homens que trabalham, porque é investigador incansavel, tem-se ocupado muito dos Fetos, não só sob o ponto de vista scientifico, mas considerando-os tambem horticolamente. Suppomos até que não haverá no paiz herbario de cryptogamicas tão rico como o d'este nosso amigo.
Ora o snr. A. Luso observou que muitos dos Fetos que procurava cultivar, quer em plena terra quer em vaso, depois de serem dispostos na nova habitação que se lhes destinava, começavam a entristecer, a amuar, a crescer pouco, a reproduzir-se mal, morrendo muitas vezes, signal de que estavam sob condições pouco convenientes.
Este facto actuou por tal modo no snr. A. Luso que lhe suggeriu a ideia de fazer uns vasos com uma nova disposição, ideia que reputamos felicissima.
D'esses vasos dão ideia exacta as gravuras 30 e 31. A abertura superior serve para se poder regar a planta, e no fundo deverá haver um ou mais orificios que facilitem a sahida da agua.
Na abertura de cima poder-se-ha dispôr uma planta que não exija posição oblíqua, como se vê na fig. 30.
Em Inglaterra usa-se muito para os Fetos uma especie de rochedos de fórmas caprichosas, feitos de barro, cujos intersticios e cavidades são cheios de terra e ahi dispostas as plantas, imitando-se por meio da arte a natureza.
Damos a gravura de um d'esse rochedos artificiaes (fig. 32), que recommendamos como um magnifico objecto de ornamento para o centro de mezas.
Associadas aos Fetos de pequeno porte podem estar algumas Selaginellas, plantas que casam muito bem umas com as outras.
As condições geraes para a cultura dos Fetos são: dar-lhes sombra, luz diffusa atravez das cortinas e nunca em contacto directo com os raios do sol; uma atmosphera humida quanto seja possivel, o que se obtem por meio de regas frequentes mas parcimoniosas; um solo composto principalmente de detritos lenhosos e de terra muito negra; emfim, uma drainagem bem feita, de modo que a agua tenha a sahida completamente livre. Com estes cuidados os Fetos devem crescer ás maravilhas.
Os Fetos são plantas muito proprias para os quartos onde há quasi sempre meia luz. Accresce que a sua verdura alegra-nos e distrahe-nos: as suas fórmas infinitas e graciosas agradam a todos e fallam ao espirito, não só pelo seu lado util, como pela sua interessante historia. (...)
Não ha hoje uma só dama que não se extasie deante dos representantes d'esta familia e que não sinta desejos de ter alguns no seu boudoir.
Duarte de Oliveira, Junior — O Jardim na Sala (pp. 198-202) — Porto, 1876



José Duarte de Oliveira (1848-1927) foi redactor do Jornal de Horticultura Prática e um dos heróis do nosso livro À sombra de árvores com história. Graças à amabilidade de Patxi Suarez Boada, o livro O Jardim na Sala, publicado por Duarte de Oliveira em 1876, está disponível em ficheiro PDF ao fundo desta página. O exemplar digitalizado está autografado por Alfredo Moreira da Silva (1859-1932), um dos históricos horticultores portuenses da viragem do século XIX para o século XX.

09/04/2012

Cabrinhas no Prado

Davallia canariensis (L.) Sm. epífita em Melia azedarach L. no cemitério do Prado do Repouso (Porto)
Cabrinhas & caracóis
Evocação do poeta e naturalista Augusto Luso (1827-1902) 
— texto originalmente publicado no Casal das Letras

Na freguesia de Cedofeita, no Porto, há dois liceus que distam 400 metros um do outro: o Rodrigues de Freitas, que noutros tempos era só para rapazes, e o Carolina Michaëlis, que era só para meninas. É uma distância para fazer toda em linha recta, não fossem as pequenas correcções de trajectória a que obrigam os seis lanços de escadaria no final. A rua que possibilita o rápido trânsito do masculino ao feminino tem o nome de Augusto Luso: poeta e professor 1827-1902, é o que diz a placa. Nada mais apropriado do que homenagear um professor com uma rua que liga duas escolas.

A imortalidade toponímica é algo ingrata, pois uma rua não é um compêndio de história e não guarda memória de feitos nem de obras publicadas. Custa a crer que certos nomes petrificados em placas de ruas tenham pertencido a gente de carne e osso. Mas de Augusto Luso – de seu nome completo Augusto Luso da Silva, e que também se assinou A. Luso, A. Luso da Silva ou simplesmente Luso – é possível, graças à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e a outras obras de referência, conhecer o essencial da vida e obra. Podemos até, nas páginas do portal TriploV, ler uma boa amostra do que escreveu em prosa e e em verso sobre, por exemplo, caracóis e ornitorrincos. Se a isto juntarmos que Augusto Luso foi professor de geografia e autor de compêndios para o ensino, compreendemos que ele não foi um literato convencional. O seu estudo pioneiro sobre moluscos terrestres e fluviais de Portugal, publicado em fascículos entre 1868 e 1872, é ainda hoje citado por malacologistas.

Outra prova de que Augusto Luso foi um naturalista sério e minucioso está no Herbaryum Cryptogamicum do Porto e seus arredores, aparecido em 1872 e 1873 (volumes III e IV) no Jornal de Horticultura Prática, influente revista mensal sobre jardinagem e agricultura que se publicou no Porto entre 1870 e 1892 (e que está disponível on-line neste endereço). Confessa o autor no preâmbulo que a sua ambição era fazer um levantamento do país inteiro, mas, por lhe faltarem apoios, vê-se limitado aos arrabaldes da sua cidade. Ainda assim, a lista de fetos, musgos, hepáticas, líquenes e algas por ele herborizados ultrapassa a centena de espécies – e, pelo menos nos fetos (dos outros nada sei dizer), inclui quase todos aqueles que são hoje conhecidos, alguns sob outros nomes, como espontâneos na região do Porto. De cada planta, o autor faz uma breve descrição e indica alguns locais de ocorrência. É talvez o primeiro texto em língua portuguesa que torna acessível a leigos aquilo que estava confinado a tratados científicos como a Flora Lusitanica (1804) de Brotero e a Flore Portugaise (1809-1840) de Hoffmannsegg & Link.

Se o fascínio por lírios, narcisos e outras plantas vistosas é facilmente contagiante, já o mesmo não se pode dizer de fetos, musgos e afins; e, ao contrário do que sucede com pássaros, observar lesmas ou caracóis nunca foi uma ocupação com muitos adeptos (comê-los já será outra história). Valorizar a natureza para além de uma concepção estreita do que é «belo» ou «útil» para nós, humanos, é um passo que ainda hoje muitos são incapazes de dar. Eis o que escrevia Augusto Luso em 1872: Assim como, entre os animais do nosso país, os moluscos e, principalmente, os terrestres e fluviais, são ignorados de quase todas as pessoas, da mesma sorte as Criptogâmicas não são mais conhecidas entre os vegetais, que enriquecem e adornam o nosso Portugal. Desejando eu conhecê-las e dá-las a conhecer, forçoso me era uma exploração e uma classificação.

Está bom de ver, portanto, que Augusto Luso não demandou Áfricas. De facto, não foi além de Aguiar de Sousa e de Avintes: o seu âmbito de exploração cabe num raio de 13 quilómetros em redor do Porto. Mas, além de a observação e recolha de plantas exigirem tempo e paciência, viajar no terceiro quartel do século XIX não era o mesmo que fazê-lo hoje. Augusto Luso fala do vale do rio Ferreira, em Valongo, como se reportasse as maravilhas de um lugar longínquo: Se não fora outro o meu fim e o temer abusar da paciência dos leitores, descreveria, como pudesse, alguns destes sítios, magníficos e surpreendentes quadros, escondidos à maior parte das pessoas, convidando-as ao passeio, aonde o belo horrível do despenhadeiro, às vezes se apresenta, trazendo sempre o sublime. Sendo ele porém um poeta, não pede licença aos leitores para encabeçar a sua listagem com um intróito de 14 quadras em verso decassilábico. Eis uma delas:

Cresce a alegre Davallia nos rochedos
Sobre os rios pendentes, e fendidos
Pela força do gelo. Eis reunidos
Gratos Aspídios e Asplénios ledos.

Não podíamos estar mais longe da aridez impessoal que hoje é de lei em artigos científicos. E impõe-se a pergunta: que é feito da alegre Davallia, dos Asplénios ledos, dos gratos Aspídios? Em geral estão bem e recomendam-se. Os fetos do género Asplenium são dos mais comuns em muros e fendas de rochas de norte a sul do país. Os Aspídios também se vêem muito, mas mudaram de nome: um deles, vulgarmente conhecido por fentanha, chama-se agora Polystichum setiferum; outros, como o feto-macho, integram o género Dryopteris. São fetos que lançam tufos de longas folhas arqueadas, às vezes com mais de um metro de comprido, e que vivem em bosques sombrios e junto a linhas de água. Quem perdeu grande parte da alegria foi a Davallia canariensis, que Augusto Luso considerava, numa apreciação ainda hoje consensual, como «o mais formoso feto do nosso país». Conhecido por feto-dos-carvalhos (por gostar de se empoleirar nessas árvores) ou cabrinha (por causa do rizoma lenhoso revestido de escamas bronzeadas), as suas folhas lembram os naperons de renda com que as nossas avós enfeitavam cristaleiras. A cabrinha é espontânea na Península Ibérica, Marrocos, Madeira e Canárias; e, ainda que no continente português seja escassa e esteja confinada ao litoral, chega a ser abundante na serra de Sintra e em alguns velhos carvalhais do Alto Minho. Nos rochedos pendentes sobre o rio Sousa ou o seu afluente Ferreira é que ela já pouco salta. As serras em volta converteram-se em eucaliptais, o bucolismo foi ferido de morte por postes de alta tensão e viadutos de auto-estrada. Mas o desfiladeiro da Senhora do Salto, em Aguiar de Sousa, ainda é capaz de provocar arrepios; e, se varrermos as medonhas escarpas com um par de binóculos, encontramos aqui e ali o inconfundível recorte das folhas da Davallia, cabrinha feita águia no seu último e inacessível refúgio.

Um reencontro difícil que remata esta evocação de Augusto Luso, nome de rua, naturalista, poeta romântico e professor de geografia. Talvez ele gostasse de saber que a cabrinha, se quase desapareceu de Valongo nos 140 anos decorridos desde a publicação do seu Herbaryum Cryptogamicum, teve contudo artes de se instalar – resultado provável do seu uso em arranjos florais – em meia dúzia de árvores em Agramonte e no Prado de Repouso, os dois maiores cemitérios do Porto.

Porto, 2 de Abril de 2012

29/07/2005

Na cidade, entre quintas


Foto: pva 0411 - Casa Tait com o edifício do Museu Romântico em fundo

A visita não começa bem. Logo ao cimo da rua de Entre-Quintas, um sujeito ao volante, de bigode ralo e óculos escuros, interpela-me:

- Ó amigalhaço, esta rua lá ao fundo tem saída?

- A rua não tem saída e eu não sou seu amigalhaço.

(Fim de conversa.)

(Não tem saída: continuemos, que o homúnculo já deu meia-volta.)

É uma rua tortuosa, íngreme e estreita, sombreada pelas grandes árvores atrás dos muros. A dada altura, entre dois portões, a via afunila-se e um meco de granito impede a passagem aos automóveis. A rua quase não tem trânsito: podemos lá andar despreocupadamente, como no tempo antigo em que as cidades se percorriam a pé sem termos que nos colar às paredes. Dos dois portões, o da esquerda conduz à Quinta da Macieirinha por uma rampa bordejada de camélias; o da direita abre para os jardins e mata da Casa Tait. Construída em meados do século XIX, esta casa pertenceu a William C. Tait e aos seus descendentes até 1978, ano em que passou a ser propriedade municipal.

William C. Tait, como se comprova pelo texto que escreveu sobre a lagunária para o Jornal de Horticultura Prática, foi, como muitos outros ricos proprietários no Porto do seu tempo, um amador de horticultura que gostava de experimentar novidades. Embora fosse improvável encontrar lá hoje uma lagunária - pois, além de esta não ser uma espécie longeva, o jardim sofreu entretanto várias amputações -, não quis deixar de o verificar. Claro que não a havia, mas todo o pretexto é bom para reentrar naquela mata: árvores como torres a resguardar o denso sub-bosque de camélias, o restolhar da vegetação rasteira por melros saltitantes, pássaros a cantar ao desafio. Carvalhos, faias, teixos, tílias, magnólias, castanheiros, áceres, tulipeiros: quase todos excedem em muito as suas medidas vulgares, aproveitando o semi-abandono que permitiu também a invasão da hera e da erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis).

Em contraste com a solenidade recatada da mata, e depois de se atravessar uma alameda de venerandas camélias, abre-se, a sul da casa, um patamar soalheiro voltado para o Douro: uma sebe de ligustros, canteiros desenhados a buxo, laranjeiras, eucaliptos-de-flor, plátanos, camélias sasanqua e uma magnólia-de-Soulange carregada de anos. Quase se diria que num século nada mudou - só as árvores, crescendo e morrendo, registaram a passagem dos anos - não fosse, no extremo poente, o aberrante parque de estacionamento construído em 2001.

P.S. A Casa Tait abre ao público aos dias úteis de manhã e aos fins-de-semana de tarde.

27/07/2005

O ulmeiro da Cordoaria #1

Na sua última crónica, Germano Silva traça-nos a história do espaço onde actualmente existe o Jardim a que nos habituámos a chamar da Cordoaria e evoca o seu famoso ulmeiro, também ele "pertencente à história":
«(...) Com o seu jardim descaracterizado, maltratado, vilipendiado, a Cordoaria, vamos continuar a dizer assim, é, ainda, e sobretudo, uma página da história portuense. Porque a memória não se apaga.
O verdadeiro padrão dessa praça foi um "ulmus" famoso, uma curiosidade bairrista sem a expressão e o pitoresco de um monumento de verdade, mas ainda assim popular e venerando. Essa árvore velhinha, plantada em 1612 e que só morreu (de pé) mais de trezentos anos depois; que resistiu a muitos temporais e saiu incólume de um incêndio; que deu sombra e pousio a várias gerações; sofreu uma calúnia grave acusaram-na de ter cedido um dos seus mais possantes ramos para nele serem enforcados ladrões, bandidos e arruaceiros. Tudo mentira. Na chamada "árvore da forca" nunca alguém foi pendurado.
(continuar a ler

Claro que a leitura da crónica despoletou a lembrança de outros textos que falam sobre a histórica árvore e não perco a oportunidade os divulgar.
O facto de esse ulmeiro vetusto, desaparecido em 1986, ter ficado conhecido pela "árvore da forca" deve-se provavelmente à circunstância de realmente se ter procedido nas suas imediações à execução de sentenças em que os condenados eram enforcados, e eventualmente também à própria forma das pernadas que iam sobrevivendo e do tronco.
Ainda em 1984, ou seja dois anos antes de este ulmeiro quadricentenário perecer, Ernesto Goes repete essa ideia e escreve : «Ulmeiro do Jardim da Cordoaria , no Porto, com 6,80 m.. de P.A.P., sendo o mais grosso que conhecemos. Esta árvore é muito conhecida no Porto pela "árvore da forca", onde eram enforcados os condenados à pena capital, antes de esta ter sido abolida em 1840. Ainda hoje é bem visível o cadafalso, ou seja o patamar resultante do corte do tronco a 5 m. de altura de onde eram empurrados os condenados à morte. (...)»

Foi uma das primeiras 14 árvores classificadas de interesse público, logo em 1939, e uma das três que na cidade do Porto ficaram então ao abrigo desse estatuto, como já aqui se escreveu.

Em 1885, num texto em que resume a história desta árvore velhinha e todas as vicissitude por que passou, José Duarte de Oliveira Júnior, curiosamente, não fala de enforcamentos mas sim de decapitações e sugere que nesse Outono se colhessem algumas sementes «para por via d'elas, se perpetuar tão famoso vegetal, e que no dia 14 de Outubro de 1886 se disponham quatro destas árvores ao lado das quatro entradas principais do actual jardim, increvendo-se, próximo de cada uma essa data sanguinolenta: 14 de Outubro de 1757.» e acrescenta:
«Agora, não; porém, mais tarde, a história ocupar-se-á dessas vergonteas que são prolongamento da vida de um ser que bem do alto observou o que as gerações actuais comentam por diversas formas.
Enquanto esse colosso vegetal viver, enquanto ele tiver um único sinal de vida, cuide-se dele como de um enfermo que bate às portas da morte, como do parente extremoso que está próximo de exalar o derradeiro suspiro, e mesmo depois de morto conserve-se ali o seu tronco, considerando-o uma relíquia da cidade; mas hoje coloque-se-lhe ao lado um lápide com esta singela inscrição:

"Árvore da Liberdade
Nasceu em 1611
viu decapitar muitos inocente
e vive ainda em fins do séc. XIX
rodeada dos carinhos de um povo culto."
Os povos têm hoje amor pela tradição, e é necessário repeitá-la.»
Duarte de Oliveira Júnior in "A Árvore da Cordoaria"- "Chronica horticola-agricola", Jornal de Horticultura Prática, Vol. XVI, 1885 (p. 58)

24/07/2005

Lagunaria patersonii


Fotos: mdlramos/pva - Lagunaria patersonii no Parque de S. Roque e no jardim da CCRN, Porto

«Consegui há dous annos obter de sementeira uma d'estas arvores indigenas de New-South Wales e Queensland, na Austrália, interessantes principalmente por serem próprias para plantações à beira-mar. Segundo o catálogo dos snrs. Anderson & Cª. esta pequena arvore é uma das que melhor supporta as brizas do mar as quaes parece mesmo procurar, inclinando-se para o lado do mar, em vez de o fazer para o lado opposto como acontece com a maioria das outras arvores. Diz o snr. J. Maiden, de Sidney, que a altura da Lagunaria patersonii varia entre 12 a 18 metros com um diâmetro de 45 a 80 centímetros. A madeira é branca com veia fina, é facilmente trabalhada e emprega-se na Australia na construção de casas. Da casca, por meio da maceração, extrahe-se uma fibra fina e muito bonita. O snr. Charles Naudin, director do Jardim Botânico e de acclimação de Villa Thuret Antibes, escreve-me que esta espécie dá uma bonita arvore perfeitamente adaptável ao Sul de França, produzindo alli flores parecidas com as do Hibiscus.

A planta que eu tenho soffreu muito com os frios no inverno de 1888, perdendo bastantes folhas, mas quando veio o tempo quente, na primavera, deitou novos rebentos e reviveu completamente. Em dezembro do anno passado quando o frio apertou tornaram-lhe primeiro a murchar e depois a seccar completamente quasi todas as folhas. Quem a vir agora julga-a condemnada, mas depois de se saber como ella reverdeceu no fim do inverno de 1888 tem motivo de esperar que ella este anno faça outro tanto. Parece fora de duvida porém que para o clima do norte de Portugal é um pouco delicada, soffrendo muito com as geadas. É portanto mais própria para o clima de Lisboa e Sul de Portugal. Tem sido introduzida com bom êxito em Adelaide South Australia, localidade onde o clima é bastante parecido com o do Sul de Portugal. Temos entre nós verdadeiramente próprias para plantar à beira-mar muito poucas plantas além do Myoporum, Tramagueira e do Pinheiro bravo; a introducção de uma outra arvore própria para tal fim não deixará de ser vantajosa.

A Lagunaria tem um bello porte e folhagem lindíssima. A cor das folhas é glauca como a da maior parte das plantas da beira-mar e nisso differe muito da folhagem do Myoporum que é verde escura e luzidia. Estou tentanto a reproducção da Lagunaria por estaca e a avaliar pelo estado actual das estacas parece-me que o conseguirei.»

Guilherme C. Tait, Jornal de Horticultura Prática, 1890

02/05/2005

José Duarte de Oliveira Júnior, redactor do Jornal de Horticultura Prática

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O Jornal de Horticultura Prática (JHP), que se publicou mensalmente no Porto entre 1870 e 1892, foi fundado por José Marques Loureiro, proprietário do Horto das Virtudes, e por José Duarte de Oliveira Júnior, seu redactor de 1870 a 1887. O JHP constituiu uma singular aventura editorial: pela sua longevidade, quando outras revistas congéneres tiveram vida curta (como o Jardim Portuense, que existiu entre 1843 e 1845, e foi, em muitos aspectos, precursor do JHP); pela qualidade e profundidade das opiniões publicadas; pela frontalidade com que denunciava as más práticas com árvores e jardins, mas sempre enaltecendo lucidamente o que de bom se fazia nesse domínio. E o JHP não se restringia ao âmbito local ou mesmo nacional: teve correspondentes no estrangeiro e contou, entre os seus colaboradores, com Edmond Goeze, jardineiro-paisagista alemão que dirigiu em Lisboa, a partir de 1873, a construção do Jardim Botânico da Escola Politécnica, e com o seu sucessor Jules Daveau. Os artigos que publicou versavam não só temas de jardinagem como também de índole agrícola (sementeiras, variedades frutícolas, conselhos para o combate à filoxera, práticas florestais, etc.).

O JHP nunca teria existido sem a persistência de José Marques Loureiro (1830-1898), o heróico Jardineiro das Virtudes, o maior horticultor português de sempre; mas é óbvio que a emergência de Marques Loureiro foi propiciada pela existência, no Porto oitocentista, de numerosos apaixonados pela jardinagem entre as famílias ricas proprietárias das quintas de recreio então abundantes na cidade. Houve os Van Zeller, os Allen, os Andresen, os Burmester, e muito do bom que sobrevive no Porto ainda se deve a esses amadores esclarecidos e entusiastas. A fundação do JHP em 1870 culmina uma década de ouro em que, por iniciativa de Alfredo Allen (1828-1907) - como membro da vereação portuense e como impulsionador da Sociedade do Palácio de Cristal -, se construíram os jardins da Cordoaria e do Palácio, ambos segundo desenho do paisagista alemão Emílio David.

Mas quem foi José Duarte de Oliveira Júnior, o homem que deu voz ao Jornal de Horticultura Prática? Os primeiros números da publicação apresentam-no simplesmente como redactor; mas, com o passar dos anos, vão alastrando os títulos debaixo do nome: membro de umas tantas academias, sócio correspondente de umas quantas sociedades. Uma rápida pesquisa na Porbase indica-o como autor de meia dúzia de brochuras - sobre araucárias, sobre a filoxera e o vinho do Porto, e até sobre pomologia. Além dos muitos escritos seus que há no JHP, outros esporádicos apareceram no Jornal Hortícolo-Agrícola (1893-1906) e n'O Tripeiro (fundado em 1908).

A vivacidade e o saber dos textos de Oliveira Júnior no JHP tornam imperativo conhecer a sua vida e formação, que têm algo de surpreendente. Nasceu em Outubro de 1848 na freguesia da Vitória, no Porto, filho de um próspero comerciante de panos estabelecido na rua dos Clérigos; o pai mandou-o educar-se em Inglaterra - e, embora não seja de supor que o jovem tenha descurado os estudos úteis ao comércio, quando regressou a sua vocação era decididamente outra, como dá conta Alberto Pimentel em O Porto há trinta anos (Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Porto : 1893): «A floricultura era considerada um capricho de imaginações romanescas. Toda a gente se admirou de que o snr. Oliveira Júnior, vindo de fazer a sua educação em Londres, desse mais atenção às flores do que à calçada dos Clérigos, onde a sua família enriquecera pelo comércio.»

Oliveira Júnior tinha pois 21 anos quando se estreou como redactor do JHP - e desde o início escreveu com a segurança de quem domina inteiramente o seu assunto. Não deixou de ser comerciante - por morte do pai, ampliou o negócio da família, inaugurando os Grandes Armazéns do Carmo - mas, aproveitando terras herdadas da família materna, foi também agricultor no Minho, criador do famoso vinho Porca da Murça. Morreu em Novembro de 1927, sem deixar descendência - nas palavras do próprio, a sua única filha conhecida foi uma camélia, de cor vermelho tinto com manchas brancas, criada em 1871 por Marques Loureiro e por ele chamada Duarte de Oliveira.

Quando José Duarte de Oliveira se apagou já os tempos áureos da horticultura portuense pertenciam ao passado; tais estrangeirismos nunca se tinham verdadeiramente enraízado na vida da cidade, tanto na classe abastada como na popular. Duarte de Oliveira era obviamente um estrangeirado, um conhecedor de línguas (francês, inglês e alemão) que muito viajou por toda a Europa; como, além de tudo o mais, foi um comerciante rico, O Tripeiro, no obituário que lhe dedicou, pôde usar termos elogiosos, descrevendo-o como «negociante honrado», mas ignorando o Jornal de Horticultura Prática, e referindo apenas de passagem, em tom de quem desculpa uma excentricidade, a paixão de Duarte de Oliveira pelas flores. Assim se escreve a biografia de um homem: apagando o que ela tem de mais notável como se de uma frivolidade juvenil se tratasse.

Para outro exemplo mais recente de como a arte dos jardins é desconsiderada por quem estabelece o cânone da nossa história e da nossa cultura, consulte-se o volume da História do Porto sob a direcção de Luís A. de Oliveira Ramos (2.ª edição, Porto Editora, Porto: 1995): na página 495, a iniciativa da constituição em 1861 da Sociedade do Palácio de Cristal é atribuída a João Allen, falecido 13 anos antes, e não ao seu filho Alfredo, como seria correcto. Tivesse Alfredo Allen escrito algum mau romance, ninguém o confundiria com o seu pai; como apenas construiu o Palácio de Cristal e o Jardim da Cordoaria, a cidade vota o seu nome ao esquecimento.

09/03/2005

As sete magníficas

......................................from above and from below.



Fotos: mdlramos 2004
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As sete palmeiras do Palácio de Cristal -a que gostamos de chamar "as sete magníficas"- são da espécie Washingtonia robusta, uma das duas únicas espécies da América do Norte que constituem o género criado em 1879 por H. Wendland para abrigar estas palmeiras anteriormente incluídas no género Pritchardia (de W.T. Pritchard, missionário protestante envolvido na colonização do Taiti). A designação do género pretendia homenagear G. Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
aqui falámos de dois belíssimos exemplares destas palmeiras, vulgarmente denominadas palmeiras-do-México ou palmeiras-de-leque mexicana (em língua inglesa Mexican fan palm e também Skyduster palm) consideradas por alguns botânicos uma variedade da Washingtonia filifera, a palmeira da Califórnia (de que no Porto também existem belos exemplares). Diferencia-se desta pelo seu espique mais esbelto e mais alto, e pela maior robustez do seu crescimento, daí o designativo da espécie. As suas folhas costapalmadas (em forma de abano) estão dispostas numa coroa mais estreita e apresentam muito poucos filamentos brancos ao contrário da sua congénere W. filifera.
A sua introdução na Europa foi mais tardia e deve-se ao intrépido botânico checo Benedikt Roezl *(1824-1885) que enviou as suas sementes depois de ter encontrado a espécie nas margens do rio Sacramento em 1869. Árvore ornamental de eleição é bastante rústica e muito resistente ao vento.

No Jornal de Horticultura Prática que amiúde mencionamos, e que constitui uma fonte preciosa para a história da Horticultura e da Jardinagem em Portugal, a referência à espécie Washingtonia robusta surge em 1888, num interessante artigo de Jules Daveau, na altura jardineiro chefe do Jardim Botânico da Escola Politécnica de Lisboa, cargo que ocupou de 1876 a 1892**. Nesse texto, intitulado simplesmente "Washingtonia", o autor que, vem a propósito lembrar, é o responsável pelo traçado da emblemática "rua das Palmeiras" desse jardim, depois de discorrer acerca da Washingtonia filifera, «introduzida no mercado em 1871», e informar sobre a constituição do novo género para acolher estas palmeiras anteriormente classificadas como Pritchardia, descreve detalhadamente a espécie tão bem representada no Palácio de Cristal.
Esta era então uma novidade que entusiasmava os amadores e profissionais por exceder «a sua congénere em elegância, vigor e rusticidade» segundo as palavras do distinto jardineiro que nos dá conta também das suas experiências: «Cultivando esta bela aquisição em Lisboa só há poucos meses, nada podemos dizer por experiência, a não ser que, em menos de oito meses, as nossas plantas se desenvolveram com um vigor que as tornou desconhecidas (sic).» (Ob. cit., p.117)

* Ler Benedikt Roezl - botánico y explorador ; Benedikt Roezl- Portrait d'un fou
**Ler por C.N. Tavares a História do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa (in O Reino das Plantas, Triplov)

(Post-scriptum: estava desde Setembro para escrever sobre estas palmeiras ;-) após a leitura duma entrada publicada por Jorge Ricardo Pinto quando ainda animava o Avenida dos Aliados. Este apontamento é apenas um pretexto para fazer uma ligação para o referido texto e manifestar as nossas saudades.)

03/03/2005

As Palmeiras dos Leões- Postal antigo

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Bilhete postal sem data (colecção particular) ; fotógrafo desconhecido.
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«Quando a jardinagem florista se afasta das culturas vulgares, torna-se uma especialidade e imprime um certo cunho particular, que na linguagem hortícola se chama estilo.
Este estilo pode determinar-se pela moda, pela natureza dos lugares ou simplesmente pelo capricho do jardineiro, embora sujeito a certas e determinadas regras.
A sua invenção ou aplicação, apropriada às circunstâncias, é uma de gosto e imaginação.
É isto que notamos no jardim ultimamente traçado na Praça dos Voluntários da Rainha*, e elegantemente delineado pelo bem conhecido jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa.

O passeio é formado por dois grandes arrelvados, aos lados da taça, tendo no centro um forte exemplar da esbelta Palmeira Phoenix canariensis, e, fazendo cortejo a estes príncipes do reino vegetal, algumas Azaleas, Thuyas aureas, Roseiras e outras plantas de ornamento.
A taça que existe na praça quase que perde a sua mesquinhez, pois é realçada pelo arrelvado de forma oval que a circunda, e que é guarnecido de maciços compostos de Iresines diversas e de Gnaphalium, desenhando os mais bem combinados mosaicos e produzindo os efeitos mais surpreendentes.»

Joaquim Casimiro Barbosa, in Jornal de Horticultura Prática", 1888 (vol. XIX, p. 162).

*Actual praça de Gomes Teixeira, também conhecida por praça da Universidade ou dos Leões, que na altura e desde 1832, apesar de ostentar havia já dez anos o chafariz com leões alados, se chamava Praça dos Voluntários da Rainha (por ser o local onde se exercitavam os militares desse batalhão).

A Praça dos Leões hoje em dia: Descubra as diferenças !!!

A propósito de Jerónimo Monteiro da Costa e do seu legado ler: Árvores do Jardim do Carregal #3 e O Parque de Vizela 120 anos depois .
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07/02/2005

Cuidado com as etiquetas # 2

Embora, tal como as coníferas e as cicas, a Ginkgo seja uma gimnospérmica (plantas cujas sementes não estão envolvidas por um fruto polposo), e tivesse sido até final do século XIX considerada uma conífera, as suas peculiaridades fizeram com que fosse incluída num grupo à parte, o das Ginkgophytas (que consiste numa única ordem, a das Ginkgoales, com uma só família, Ginkgoaceae, formada por uma único género vivo, Ginkgo). Em suma: ao contrário do que nos ensina esta placa nos jardins do Palácio de Cristal, há mais de cem anos que não se considera a Ginkgo uma conífera. É bom que haja placas identificativas, como defende Duarte de Oliveira no texto de 1882 que a seguir transcrevemos - mas melhor seria se estivessem correctas.

«É motivo de forte gargalhada, e, ao mesmo tempo, de justo sentimento, ouvir os nomes esquisitos que muitas pessoas, aliás ilustradas dão às plantas. Há pouco tempo ainda, estando o signatário destas linhas com um seu amigo e sentados num dos bancos colocados em frente ao edifício do Palácio de Cristal, ouviram dizer a um sujeito que com outro passeava:

- Não achas de péssimo efeito estes pinheiros e cedros plantados aqui no jardim?

Ao ouvir isto, olhamos para o nosso amigo, que não pode reprimir o riso provocado pelos nomes que aqueles senhores davam às Araucárias. O gosto pela floricultura tem-se desenvolvido muito; mas para progredir, é necessário saber o verdadeiro nome das plantas. A colocação das etiquetas nas plantas dos jardins públicos são lições práticas de botânica e o melhor método para vulgarizar os seus nomes.»

(Jornal de Horticultura Prática, Vol. XIII, Abril 1882, p. 79)

01/02/2005

In memoriam

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Fotos: mdlramos 04 ....FLORA, escultura de Teixeira Lopes (filho) - Jardim da Cordoaria
Inaugurado em1904, este singelo monumento presta homenagem a José Marques Loureiro (1830-1898), o mais ilustre horticultor portuense -proprietário do Horto das Virtudes e do Jornal de Horticultura Prática.
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Do lado esquerdo destaca-se o tronco da sequóia gigante (Sequoiadendron giganteum) da Cordoaria, de que aqui já falámos, e ao fundo a Araucaria bidwilli recentemente classificada como árvore de interesse público (ambas plantadas em 1867).

25/08/2004

Vizela em 1886

«Tem-se falado já muitas vezes das obras do parque de Vizela, e, com efeito, é um dos trabalhos de jardinagem mais importantes que ultimamente se têm empreendido no nosso país.
Muitos dos que nos lêem conhecem as Caldas de Vizela, essa encantadora aldeiazita, cheia de poesia e cercada de paisagem harmoniosa, que arrouba em doce êxtase o artista que sabe sentir, que sabe distinguir o belo, que conhece a arte em todas as suas minudências.
O local em que se procede à obra não é como outro qualquer. Ali há uma grande dificuldade, porque não se trata de simples jardinagem: trata-se duma indefinida combinação de ideias, em que é necessário respeitar sobretudo a Natureza, modificando-a, todavia, por modo que essa modificação cause uma impressão agradável, e sobretudo artística, sob o ponto puramente estético.
O Minho, chamado desde longo tempo "o jardim de Portugal", é, com efeito, pelas paisagens que oferece em todos os géneros, uma região privilegiada, uma região como não conhecemos outra.
Temos viajado alguma coisa, e nunca nos deixamos levar pelo patriotismo; mas confessamos, muito à puridade, que pouco temos visto que tanto nos encante, como é o trajecto da Trofa a Vizela. O rio Vizela, e antes disso, consorciando-se com o rio Ave, quem vai do Porto depara a cada passo, a cada minuto um quadrozinho sui generis, que só artistas que não sentem, que não têm vida, artistas que não sabem o que é o belo, não têm reproduzido. Há ali a arte nas suas manifestações mais poéticas, mais espontâneas e mais simples.
Não são as margens do Tamisa ou do Sena, quase todas artificiais, nem as margens do Reno, com os seus castelos federais, mas sim as margens de um riozito inocente, que desliza serenamente, cantando endechas pastoris que nos arroubam e nos atraem. É preciso ser poeta para compreender os seus encantos; é necessário ser artista para avaliar as suas belezas.
Ora, quem vai assim disposto, e chega ao parque de Vizela, precisa com certeza encontrar alguma coisa que lhe faça olvidar tudo quanto acaba de ver.
Que luta de gigante!...Destruir o que a Natureza criou; esmagá-la a golpes de machado, e criar uma nova Natureza! Remover terras, formar de terrenos acidentados planícies por onde os reumáticos possam passear sem esforço; em montanhas inacessíveis abrir estradas e avenidas pitorescas para onde os convalescentes possam ir aspirar ares puríssimos; transformar uma área considerável em jardim atractivo, tal foi a ideia da Companhia das Caldas de Vizela, e que os snrs. José Marques Loureiro e Jerónimo Monteiro da Costa tentaram pôr em prática.
Visitámos os trabalhos, e difícil é hoje dizer-se o que será tudo aquilo, conquanto se lhe esteja dando a última demão, porque as obras de jardinagem só se podem realmente avaliar quando as plantações tomem um certo desenvolvimento. Há a disposição das plantas, os agrupamentos, os efeitos, os golpes de vista e mil e um acessórios, que só é possível avaliar-se passados anos. É tal qual os ensaios de um drama: só quando todos os actores se apresentam vestidos a carácter, é que se pode dizer do seu merecimento.
E no parque de Vizela ainda está tudo despido: é necessário tempo, e muito tempo.
Ainda assim, afiguraram-se-nos os grupos muito bem combinados, e alguns deles prometem produzir bom efeito.
Como elogio antes de subir o pano - são precisos quatro ou seis anos - não se pode em boa fé dizer mais.
Aos que têm dirigido a obra, sabemos que não tem faltado boa vontade em acertar, e isso já não é pouco.
O snr. Marques Loureiro, pela sua parte, não a tem encarado como uma exploração comercial, e tem feito tantos sacrifícios, que já sabe que, concluída ela, não lhe fica um vintém de lucro.
Ele quer, contudo, poder um dia ir ali admirar os belos efeitos que produzem as plantas que saíram dos seus viveiros, aquelas plantas que em sua casa tão insignificante papel representavam.
O lago que se anda construindo é dos maiores que há em Portugal; mas, pelo projecto aprovado, dificilmente se poderá levar a cabo. Consiste em introduzir-lhe um braço de rio que deve alimentá-lo, tendo mais abaixo uma saída. Sucede naturalmente que a corrente e as cheias destroem tudo, e melhor seria que, por meio de comportas, se lhe conservasse sempre a água necessária para navegar, e se desistisse da saída.
São obras hidráulicas que custam muito, e que nenhuma importância têm para casos destes.
E, de resto, o rio Vizela não é navegável naquele sítio, e, por isso, não vemos que vantagem possa ter a tal saída.»

José Duarte de Oliveira, Jornal de Horticultura Prática, 1886

Ler: O Parque de Vizela 120 anos depois
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24/08/2004

O Parque de Vizela 120 anos depois




O Parque das Termas em Caldas de Vizela foi criado entre 1884 e 1886 pelo famoso horticultor portuense José Marques Loureiro, proprietário do Horto das Virtudes, e pelo jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa, autor dos jardins de Arca d'Água, do Carregal e de outros históricos jardins do Porto. O Parque apresenta sinais de degradação, como seja o avanço das acácias e dos eucaliptos na sua periferia, e as poluídas águas do rio Vizela não ajudam a compor o bucolismo ideal; mas as árvores que Marques Loureiro plantou atingiram um desenvolvimento luxuriante, emprestando ao local uma imponência e solenidade únicas: não conhecemos no país nenhum outro parque ou jardim com tal concentração de árvores gigantescas.

Nestas fotos vemos algumas dessas árvores: à direita em cima um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) cujo tamanho se pode avaliar comparando com o da figura humana em primeiro plano; em baixo, também à direita, uma tília de dimensões semelhantes; e, à esquerda em baixo, uma Sequoia sempervirens (das muitas que há no Parque rivalizando em porte com as do Buçaco) eleva a sua flecha bem acima da concorrência.

Esta história é para continuar: amanhã publicaremos um texto de 1886 de José Duarte de Oliveira, redactor do Jornal de Horticultura Prática, descrevendo as obras de construção do Parque das Termas, verdadeiro mostruário desse estabelecimento ímpar da horticultura portuguesa do século XIX que foi o Horto das Virtudes.
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18/08/2004

Taxodium distichum na Quinta da Aveleda

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Fotos -Agosto 2004
«(...) completa o quadro um grupo de árvores colossais, entre as quais se destacam, pelo seu soberbo porte, dois exemplares de Taxodium distichum, alguns Abies e o mais belo exemplar, que temos visto, de Dammara moorei.»

José Marques Loureiro sobre a Quinta da Aveleda no Jornal de Horticultura Prática (1882)