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03/03/2022

Cebolona albarrã



Esta é a imagem que retemos da chegada ao Barranco de Las Peñitas, em Fuerteventura. Por aqui já correu um rio, o Palmas, num desfiladeiro fundo ladeado por impressionantes taludes rochosos. Do rio e das suas águas pouco resta, para além do gigantesco paredão da albufeira que o aprisionava para que ele não fugisse para o mar sem antes ter alguma serventia. A impressão à entrada é, portanto, desoladora: um calor intenso no ar seco e sem brisa, nenhuma esperança de sombra, e um silêncio da passarada que nos avisa que o lugar é inóspito e que, se insistirmos em prosseguir a caminhada, o problema é nosso.

E lá fomos. Uns minutos depois cruzámo-nos com meia dúzia de pessoas, cansadas, suadas, de semblante carregado, rostos castanhos de poeira, sem sinal de regozijo. Mau sinal, pensámos. Dois passos adiante, porém, encontrámos as primeiras plantas que vínhamos ver, da espécie Volutaria bollei, endémica de Lanzarote e Fuerteventura. É certo que só havia plantas mirradinhas, mas ficámos contentes por saber que será possível noutra altura (entre Janeiro e Maio) vermo-las ali formosas e fresquinhas.

Animados, avançámos em direcção a um núcleo de palmeiras (Phoenix canariensis, muito vulgares em jardins portugueses), parte do que terá sido outrora um oásis de verdura. Apesar da sombra escassa, nos rochedos das margens notavam-se pequenas cavidades onde a temperatura era bastante mais amena. Encavalitados como cabritos, espreitámos. Começámos por ver inúmeros tufos de Cosentinea vellea, um feto de frondes peludinhas que aprecia fissuras de rochas em locais secos e soalheiros, e que suporta a desidratação por períodos prolongados. Isto está a correr bem, dissemos. Mais adiante, aconchegados à sombra de uma espécie muito comum nas Canárias, Launaea arborescens, havia também muitos pés de Caralluma burchardii, um endemismo canariense raro, da lista de espécies em perigo. Antes de descermos cautelosamente a encosta rochosa reparámos numa forma tubular roxa ondulante, escondida num desvão escorregadio e de difícil acesso — mas perfeitamente alcançável pelo fotógrafo destemido que ilustra este blogue.

Scilla latifolia Willd. [= Autonoe latifolia (Willd.) Speta]


Esta Scilla robusta, com inflorescências densas que lembram caudas de raposa, é nativa de Marrocos e das ilhas Canárias. Floresce no Outono, por isso foi uma sorte vê-la florida em Dezembro. Fortuna que parece ter bafejado apenas a nós, naquele dia de tantos visitantes ao Barranco de Las Peñitas.

29/12/2018

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]


Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.

08/03/2017

Outros modos de ser gilbardeira

As directivas europeias, em boa hora aprovadas, sobre preservação de habitats naturais e respectivas fauna e flora silvestres, obrigam a União Europeia a um genuíno esforço de protecção, valendo-se de uma rede de sítios classificados e de um conjunto de leis de conservação abrangentes e com prazos curtos para implementação nos países membros. Contudo, o carácter global de tais medidas nem sempre está afinado com as ameaças e vulnerabilidades de cada território europeu em particular. Um exemplo deste desajuste é a ausência na lista de espécies ameaçadas, e nos vários anexos das Directivas Habitats, do Centaurium chloodes, de que, em anos recentes, só há registo em Portugal de uma população. Pelo contrário, incluem o Ruscus aculeatus (igualmente presente na lista vermelha da IUCN) que em Portugal tem uma distribuição ampla, ainda que sejam escassos os bosques de carvalhos, sobreiros ou azinheiras que se supõe serem (também) da sua predilecção.


Ruscus streptophyllus Yeo


Falemos, porém, de Ruscus, um género de origem mediterrânica que exibe uma notável adaptação a ambientes onde o risco de seca é elevado. Em vez de folhas, um luxo a que as plantas de regiões áridas não podem aspirar, a gilbardeira tem apenas uma boa ideia do que é uma folha. Baseada nesse conceito, modifica os talos, achatando-os, e obtém algo que realiza a fotossíntese como uma vulgar folha verde e se parece tanto com ela que um incauto nem desconfia do truque. Claro que uma tal mentirinha haveria de ser descoberta mais tarde ou mais cedo, e são as flores as delatoras. Apesar de serem inconspícuas, nascendo uma de cada vez e durando poucos dias, certo é que as flores brotam no meio da face inferior ou superior destas falsas folhas (ditas cladódios), revelando que se trata afinal de uma haste (ou pecíolo) a fingir de folha.

Das sete espécies do género, Ruscus aculeatus é a única nativa de Portugal continental. É um arbusto perene e, em geral, dióico, que exibe talos erectos, muito ramificados e lenhosos, e cladódios rijos, com um espinho no ápice. No Inverno, enfeita-se com chamativas bagas vermelhas como o azevinho. Tem virtudes medicinais (que, em algumas regiões europeias quase o deixaram à beira da extinção, o que explica a sua inclusão do Anexo V da Directiva Habitats) e talento ornamental que baste (que lhe tem valido lugar em muitos jardins).

Em alguns matos com sombra e solo calcário de Espanha ocorre outra espécie de Ruscus também de distribuição mediterrânica, R. hypophyllum, que, apesar do epíteto específico, nem sempre tem as inflorescências na face inferior do cladódio. Não é tão ramificado como a gilbardeira, os cladódios são maiores e mais flácidos, sem o bico aguçado na ponta, as inflorescências mais floridas e as flores com um pedicelo muito mais longo que faz com que as bagas pareçam cerejas. O seu carácter monóico está ainda em discussão entre os especialistas.

Na ilha da Madeira há registo de outra espécie, talvez com um progenitor comum aos Ruscus europeus, o R. streptophyllus. É um endemismo raro que vive em locais rochosos, sombrios e húmidos da laurissilva. Tal como no R. hypophyllum, os cladódios são grandes com pedúnculos longos e arqueados, e dispõem-se quase horizontalmente nos caules pendentes. Não é um arbusto ramificado, as flores nascem sempre na face inferior dos cladódios, e é fielmente monóica. É a única espécie do género Ruscus que tem verdadeiras folhas, embora apenas nas plantas recém-nascidas.

Na vizinhança deste Ruscus madeirense, e tão rara como ele, pode encontrar-se uma trepadeira (da Madeira e Canárias) que pode atingir os sete metros e cujas falsas folhas lembram as dos Ruscus. A Semele androgyna, que Lineu designou Ruscus androgyna, distingue-se deles porque as suas flores nascem nas margens dos cladódios.

Semele androgyna (L.) Kunth

07/07/2015

Costa do dragão

Uma espécie diz-se um endemismo quando só há populações silvestres dela num local restrito do planeta. Se a área onde ocorre a planta não é assim tão diminuta, diz-se que é nativa dessa região (é inapropriado falar de "endemismos europeus" ou, pior ainda, de "endemismos euro-asiáticos"). Na prática, como se atestam estas propriedades? Actualmente, com os meios tecnológicos ao dispor da genética, é mais simples destrinçar espécies; além disso, reconhece-se que a criação de endemismos é favorecida por habitats biologicamente isolados, pela radiação adaptativa, pela hibridação ou pela poliploidia. E, portanto, os botânicos sabem onde procurar endemismos. Mas há um problema intrínseco à definição anterior: ser ou não endémico é um estado que evolui com o tempo. A análise de fósseis tem revelado que algumas plantas, hoje consideradas endemismos de ilhas ou desertos, tiveram em outras eras uma distribuição muito mais ampla, foram quase cosmopolitas. Porém, com as alterações geológicas e do clima, ou por outras causas desconhecidas, extinguiram-se em quase todos os habitats, e as parcas sobras recolheram-se aos seus nichos de conforto.


Dracaena draco (L.) L.
Vem este arrazoado a propósito do dragoeiro (Dracaena draco). Recordemos que é uma árvore perenifólia (e muito longeva: há referências — talvez exageradas — a dragoeiros com seis mil anos) que se reconhece facilmente pelas folhas cinza-verde-azuladas, embora avermelhadas na base, com formato de espada; ou pela ramagem que se arranja numa coroa de cabelinho espetado; ou ainda pelo um tronco peculiar, cilíndrico, rugoso e dividido em muitos caules, que se dispõem como varetas de um guarda-chuva. (Com estes dados, consegue o leitor detectá-lo nas próximas fotos?) As inflorescências são terminais e paniculadas, com flores verdes ou brancas que só surgem quando a planta tem 10 a 15 anos, e que regressam periodicamente com intervalos de igual duração — curiosamente, o tronco ramifica-se só quando se dá uma floração, o que permite estimar a idade dos espécimes com alguma fiabilidade. O fruto é uma baga pequenina, comestível e doce, da cor da toranja. Entre os séculos XV e XIX, os portugueses extraíram da resina do dragoeiro uma substância vermelha corante, de preço elevado, usada em tintas, vernizes e produtos farmacêuticos.



Em estado silvestre, o dragoeiro é, hoje, uma planta muito rara. Embora se cultive em jardins de Portugal continental há vários séculos (diz-se que foi de um jardim de Lisboa que Lineu obteve, pela mão do botânico Domenico Vandelli, o material que lhe permitiu descrever a espécie), e se tenha naturalizado rapidamente em muitos outros locais de clima quente (porque as suas bagas são alimento preferido de vários pássaros), o habitat natural do dragoeiro restringe-se a escarpas rochosas à beira-mar, frequentemente inacessíveis, e a algumas florestas de Pittosporum. Pois bem: vimos os dragoeiros das fotos na ilha das Flores, e sabe-se que ele ocupa lugares semelhantes no Faial, mas há dúvidas de que o dragoeiro seja nativo destas ilhas. Por exemplo, Amaral Franco não o inclui na sua Nova Flora de Portugal, que decerto pretendeu completa sobre a vegetação do continente e dos Açores.

Mas, afinal, o dragoeiro é um endemismo de que locais? Segundo G. Lopez González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, o fruto do dragoeiro terá chegado a uma das ilhas Canárias vindo de África (Marrocos ou Cabo Verde), transportado por aves. Ter-se-á daí disseminado para as demais ilhas das Canárias e para os outros arquipélagos da Macaronésia, ou seja, Açores e Madeira. E Carlos Aguiar revela aqui que a intersecção dos conjuntos de plantas com flor nativas dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores se reduz a uma espécie, precisamente a Dracaena draco. Tendo em conta estas informações, e os testemunhos do médico alemão H. Muntzer (que, em 1494, reportou a existência de florestas de dragoeiros na costa do Faial) e do navegador italiano A. Cadamosto (que, em 1455, o descobriu na ilha de Porto Santo, onde hoje está extinto), é talvez de aceitar uma destas alternativas:

1. O dragoeiro é um endemismo do norte de África e da Macaronésia (onde se confinou depois de ter uma distribuição vasta na Europa e na região mediterrânica, por estas ilhas beneficiarem de um clima ameno que não sofreu variações drásticas ao longo das eras).

2. O dragoeiro é nativo de África, tendo-se naturalizado nas ilhas atlânticas da Macaronésia.

O que parece certo é não termos razões científicas para acreditar na seguinte versão defendida por várias Floras:

3. O dragoeiro é um endemismo das Canárias, Madeira, Cabo Verde e Marrocos.

Seria bem-vinda uma comparação genética dos dragoeiros açorianos (que vivem em ambiente muito chuvoso) com os dos outros habitats (alguns quase desérticos), para se esclarecerem estas dúvidas e se formar um juízo convincente. Antes disso, porém, precisamos de formar botânicos alpinistas.

27/05/2013

Bemposta no seu sossego



Na Nova Flora de Portugal, Amaral Franco designa-a Terra Quente e, no mapa que acompanha a obra, podemos vê-la como uma faixa estreita a acompanhar o rio Douro, desde a fronteira com Espanha, com uns meandros pelo interior do nordeste do país, a chamada Terra Fria. Ali o solo é predominantemente ácido, de xisto e granito, com pelo menos três excepções importantes: os afloramentos de calcário cristalino onde revemos parte da flora das serras de Aire e Candeeiros; as ilhas ultrabásicas onde uma mão-cheia de plantas singulares condizem com o carácter extraordinário desse torrão, algumas das quais só existem ali; e os veios de material calcário que permeiam as rochas e alimentam herbáceas raras de que vos daremos conta em breve. Não há outro lugar assim.

Aphyllanthes monspeliensis L.


Este junco-florido lembra um cravo, mas as pétalas não têm o ápice dentado e são azuis. Sem flores, dificilmente daríamos atenção à ramagem de escapos fininhos que parece um capim crescido. Em vez de folhas [o nome do género deriva do grego anthos (flor) + a (sem) + phyllon (folha)], enrolam-se nos talos umas bainhas de 3 a 10 cm de comprimento, verdes ou avermelhadas. Há quem diga que as flores se comem e são saborosas, mas a população que vimos em Bemposta não era suficientemente grande para que ousássemos estragar uma flor. É nativa do sudoeste da Europa (foi originalmente descrita a partir de exemplares em Montpellier) e norte de África; na Península Ibérica ocorre sobretudo na metade este; em Portugal, só se conhecem populações em sítios pedregosos expostos ao sol, de solo seco e arenoso, nas margens do percurso do rio Douro na Terra Quente.

Esta é uma herbácea perene, sustentada em grande parte do ano por um rizoma longo. Nas fotos observam-se mais alguns detalhes: as hastes estreitas, glabras, lisas e altas (até cerca de 60 cm); as flores, de corola assalveada e tépalas azuis com um veio mais escuro (podem ser brancas, mas não vimos nenhuma dessa cor), quase sempre solitárias no topo das hastes, protegidas por um invólucro de várias brácteas castanhas com textura de papel de embrulho; na imagem aumentada da flor podem ainda notar-se os seis estames com anteras azuis encostados às tépalas e a torre trífida com o estilete ao centro. No Outono, haverá sementes negras de pele rugosa.

Esta espécie, única do género Aphyllanthes, já esteve na família Liliaceae. Porém, é tão diferente desses primos que se duvidou de um tal parentesco e se criou uma família só para ela, a Aphyllanthaceae. Finalmente, a genética foi chamada a decidir a justeza de uma tal separação e, como resultado, a planta mudou-se para a família Asparagaceae. Tem mais de uma dezena de nomes vernáculos em espanhol ou catalão, mas por cá, não há registo oficial de nenhum. Contudo, quem vive na bacia do Douro fronteiriço certamente reparou nela. Teremos por isso de ouvir a senhora idosa que se cruzou connosco, em passo vagaroso apesar da chuva, com uma colheita generosa de flores ao colo.

26/06/2012

O cromo que faltava

Scilla verna Huds.


Com este texto completamos a colecção das cilas nortenhas, uma das mais atribuladas que alguma vez iniciámos. Várias vezes nos gabámos publicamente de possuir cromos raros e cobiçados que afinal padeciam de erro de legendagem. Fomos dando a mão à palmatória até ela ficar dorida de tanta pancada. Em resumo: o género Scilla, no norte de Portugal, é representado pela S. monophyllos, fácil de distinguir pela sua folha solitária; pela frágil e outonal S. autumnalis; e por duas espécies primaveris com várias folhas, todas lineares, a S. ramburei e esta S. verna. A confusão advém da existência de uma planta igualmente multifoliada que parece Scilla mas não é, a Hyacinthoides paivae, muito mais comum do que as outras duas no Minho e no Douro Litoral. O principal carácter distintivo é que as plantas do género Hyacinthoides têm duas brácteas na base de cada pedúnculo floral; as do género Scilla têm uma só bráctea ou mesmo nenhuma (como sucede com a S. autumnalis).

Uma vez resolvida essa dúvida, a S. verna tem personalidade suficiente para ser de fácil identificação. As suas flores são de um azul pálido, quase branco, com tépalas largas, e aparecem dispostas em corimbo; as flores da S. ramburei dispõem-se em espiga e têm tépalas estreitas, mais escuras e arroxeadas. Em regra, a S. verna é menos robusta do que a S. ramburei.

Ao contrário da S. ramburei, que seria endemismo ibérico não fosse ocorrer também em Marrocos, a S. verna tem ampla distribuição europeia, abrangendo a Noruega, Grã-Bretanha, Irlanda, França e Portugal. Por cá, ela está restrita à metade norte do território, onde prefere prados de montanha, mas noutras latitudes é comum encontrá-la em charnecas à beira-mar.

22/09/2011

Espargueta com espinhos

Asparagus aphyllus L.
O aspecto deste arbusto não encoraja o seu uso em sopas, pizzas ou saladas: há o justificado receio de os espinhos arranharem a garganta, e os ramos lenhosos não prometem ser de mastigação fácil. No entanto, é mesmo verdade que este espargo silvestre (também conhecido como espargueta) é primo dos tenros espargos tão usados em culinária. Com uma ressalva: os espargos comestíveis (que pertencem à espécie Asparagus officinalis) são consumidos só enquanto rebentos; mal a planta começa a ramificar-se, o caule torna-se lenhoso e impróprio para refeições.

Haverá umas trezentas espécies de Asparagus, quase todas arbustivas, algumas trepadeiras (como as madeirenses A. umbellatus e A. scoparius) e umas poucas usadas como ornamentais (como o A. densiflorus). As três que são espontâneas no nosso território continental (A. albus, A. acutifolius e A. aphyllus) são plantas tipicamente mediterrânicas, próprias de lugares secos; duas delas (A. acutifolius e A. aphyllus) são tão espinhentas e agressivas como o tojo.

Apesar de desempenharem a função fotossintética que costuma caber às folhas, os espinhos (ou cladódios) destes arbustos são na realidade pequenas hastes modificadas que nascem das axilas das folhas - e estas estão reduzidas a escamas que mal se vêem a olho nu.

Informa o terceiro volume da Nova Flora de Portugal que tanto o A. aphyllus como o A. acutifolius se distribuem de norte a sul de Portugal, do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve; ambos frequentam matos secos e terrenos incultos ou mesmo ruderais, florescem desde a Primavera até ao Verão, e dão flores pequenas, de cerca de 5 mm de diâmetro. A semelhança entre os dois pode causar alguma confusão, mas uma inspecção cuidada permite distingui-los, seja pelos espinhos (os do A. aphyllus têm comprimentos desiguais, e surgem agrupados em menor número - molhos de três a sete, às vezes solitários, contra dez a trinta do A. acutifolius), seja pela cor dos caules (verdes no A. aphyllus, brancos ou cinzentos no A. acutifolius).

Se a nossa «experiência de campo» vale alguma coisa, forçoso é concluirmos que, pelo menos no norte e centro de Portugal, o A. aphyllus é muito mais comum do que o A. acutifolius (que, aliás, não estamos certos de alguma vez ter encontrado).

06/06/2011

Dobram cá como lá

Hyacinthoides non-scripta (L.) Chouard ex Rothm.
(fotografado no planalto de Castro Laboreiro)
A Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco (1921-2009), foi publicada em três volumes (o último deles dividido em três fascículos e em co-autoria com Maria da Luz Rocha Afonso) ao longo de mais de 30 anos: o primeiro volume da obra apareceu em 1971; o terceiro fascículo do terceiro volume só viu o prelo em 2003, seis anos antes da morte do autor. É sina de tais obras de longo curso acusarem já alguma obsolescência no momento em que são completadas. Compilar a flora de um país ou de um continente é tarefa intrinsecamente interminável e, em condições ideais, deverá estar sob permanente revisão; adequa-se melhor aos formatos digitais modernos do que à imutabilidade do livro impresso.

A monumental obra de Franco foi, durante mais de vinte anos, a principal referência dos botânicos portugueses, fossem eles profissionais ou amadores. Vai deixando de o ser à medida que o projecto da Flora Ibérica, uma obra de muito maior envergadura, se aproxima da conclusão. Mas a Flora Ibérica é uma empreitada colectiva, que agrega os maiores especialistas, espanhóis e portugueses, em cada família botânica — entre eles o próprio João do Amaral Franco, que escreveu sobre coníferas e fagáceas.

Uma das omissões mais misteriosas da Nova Flora de Portugal ocorre no 1.º fascículo do volume III: na opinião de Franco e da sua co-autora Rocha Afonso, os tão britânicos bluebells (de seu nome científico Hyacinthoides non-scripta) não fazem parte da flora portuguesa. Sucede que a espécie, longe de ser no nosso país uma raridade vegetando em lugares recônditos e inacessíveis, é até frequente em prados e carvalhais em todo o planalto de Castro Laboreiro. Nos campos abandonados da aldeia de Pontes chega a formar os tapetes azuis que julgaríamos exclusivos de outras latitudes. E o património florístico do único Parque Nacional português há muitos anos que vem sendo exaustivamente estudado pelos nossos naturalistas.

Como se justifica tamanho lapso dos autores da Nova Flora de Portugal? A explicação mais plausível é que se tenham baseado exclusivamente em material de herbário, usando chaves interpretativas que não estabelecem uma separação clara entre o Hyacinthoides non-scripta e o Hyacinthoides hispanica. De facto, a distinção mais segura entre as duas espécies, e que não deixa qualquer dúvida a quem observa as plantas na natureza, faz-se pela forma das flores: as do H. hispanica têm a corola aberta, enquanto que as do H. non-scripta a têm tubular; e só no segundo é que as pétalas se recurvam distintamente sobre si próprias.

Não nos fica bem negar cidadania portuguesa a planta tão bonita. É por isso importante bradar aos quatro ventos que os sinos azuis tanto dobram em Portugal como na ilha de Sua Majestade.

19/05/2011

Cilada taxonómica

Scilla ramburei Boiss.
O erro de um especialista pode levar ao registo de uma nova espécie que é de facto indistinguível de outra já anteriormente baptizada. O erro de um amador, por contraste, só confirma a inépcia do sapateiro que quer subir acima da chinela. Amador e especialista têm portanto que adoptar comportamentos distintos: o primeiro só arrisca uma opinião depois de muito ponderar; o segundo esbanja opiniões e faz currículo com elas.

É por causa desta profusão de opiniões desencontradas que alguns géneros botânicos se transformam num campo minado para quem gosta de certezas. Que as cilas (género Scilla) são uma verdadeira cilada para o naturalista amador sabíamos nós há muito tempo. Até hoje conseguimos evitá-la, mas estas fotos esperaram já um ano para sair do baú. Ou erramos, ou não falamos mais de cilas. Erremos, pois.

A cila-de-uma-folha é de tal modo comum em bosques e matagais no início da Primavera que por vezes nem lhe prestamos atenção. Com esse alheamento perdemos a oportunidade de detectar variações interessantes. Algumas cilas também primaveris mas com o escapo floral mais espigado têm não uma, mas cinco ou seis folhas. São sem dúvida de uma espécie diferente, mas que espécie será essa? Talvez Scilla ramburei — pelo menos assim julgamos das plantas aí em cima, fotografadas nas margens do rio Ferreira, em Valongo.

Acontece que, no norte de Portugal e na Galiza, foram registadas pelo menos seis espécies de Scilla com caracteres morfológicos semelhantes: S. ramburei, S. verna, S. beirana, S. odorata, S. merinoi e S. paui. A delimitação entre as diversas espécies é controversa, e já houve quem apontasse que alguns destes nomes são na verdade sinónimos. Tanto quanto pudemos entender, S. beirana e S. ramburei designam a mesma espécie, que inclui plantas geralmente mais encorpadas do que a S. verna e a S. odorata. Mas mesmo esse traço distintivo não é seguro, pois uma mesma planta crescendo em solos ricos e húmidos desenvolve-se melhor do que em lugares áridos.

A Scilla é pois um género a carecer de urgente clarificação, tarefa que talvez a Flora Ibérica venha a cumprir. Mas as incertezas taxonómicas não nos devem impedir de admirar tais plantas.

Adenda 1. Sobre a taxonomia e morfologia do género Scilla e de outros géneros aparentados (Hyacinthoides e Ornithogalum), leia-se o extenso e educativo comentário que o Prof. Rubim Almeida, da Faculdade de Ciências do Porto, teve a amabilidade de deixar neste outro post.

Adenda 2. As fotos que originalmente acompanhavam este texto correspondiam a outra espécie que não a Scilla ramburei, e por isso foram substituídas.

18/05/2011

Estrela donzela

Ornithogalum broteroi M. Laínz
Nomes vulgares: donzelas; leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: pastagens e prados, clareiras de matos e bosques abertos não muito longe da costa em altitudes até 1300 m; ocorre no oeste da Península Ibérica e ainda no norte de África
Distribuição em Portugal: do Minho ao Algarve, principalmente no litoral
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos:
Abril de 2011, Alfena, Valongo, entre matos e eucaliptais recém-ardidos
Informações adicionais: as flores do Ornithogalum broteroi são muito semelhantes às do O. concinnum: em ambas estão ausentes as faixas verde no verso das pétalas. No entanto, o Ornithogalum broteroi tem uma espiga mais curta, com menos flores, e cada planta dá uma única folha

11/05/2011

Contando estrelas

Ornithogalum concinnum (Salisb.) P. Cout.
Nomes vulgares: donzelas, leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: endemismo peninsular, ocorre no noroeste da Península Ibérica e ainda no Cabo da Roca e no litoral de Alcácer do Sal; prefere clareiras de mastos e de bosques, sobre solos silícios, em altitudes dos 200 aos 2000 m
Distribuição em Portugal: principalmente Minho, Trás-os-Montes e Beiras
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos:
Abril de 2010, São Salvador do Mundo (Douro); Maio de 2009, margens do rio Tua
Observação: note que os botões florais desta espécie não exibem as faixas verdes que se podem ver tanto no O. narbonense como no O. orthophyllum

04/05/2011

Há mais estrelas no chão

Ornithogalum orthophyllum subsp. baeticum (Boiss.) Zahar.
Nome vulgar: leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: ocorre na Península Ibérica, Argélia e Marrocos, em pastagens secas, clareiras de bosques e terrenos pedregosos, desde o nível do mar até aos 1600 m de altitude
Distribuição em Portugal: grande parte do território continental (mais frequente no sul e no centro oeste)
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: Maio de 2009 e Março de 2011, Serra dos Candeeiros
Informações adicionais: distingue-se do O. narbonense por ser mais rasteiro, por ter a inflorescência em umbela, e não em espiga, e por as suas flores terem pétalas mais brancas

27/04/2011

Quinta estrela

Ornithogalum narbonense L.
Nomes vulgares: cebolinho-de-flor-branca, pyramidal star-of-Bethlehem
Ecologia e distribuição: prados, campos de cultivo e bermas de caminhos, em qualquer tipo de solo; ocorre no sul da Europa, norte de África e sudoeste da Ásia
Distribuição em Portugal: centro e sul do país e ainda a bacia do Douro (Terra Quente)
Época de floração: Abril a Julho
Data e local das fotos: Maio de 2010, Serra dos Candeeiros
Informação adicional: as quatro espécies de Ornithogalum que já mostrámos: O. pyrenaicum, O. umbellatum, O. arabicum, O. caudatum