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08/03/2017

Outros modos de ser gilbardeira

As directivas europeias, em boa hora aprovadas, sobre preservação de habitats naturais e respectivas fauna e flora silvestres, obrigam a União Europeia a um genuíno esforço de protecção, valendo-se de uma rede de sítios classificados e de um conjunto de leis de conservação abrangentes e com prazos curtos para implementação nos países membros. Contudo, o carácter global de tais medidas nem sempre está afinado com as ameaças e vulnerabilidades de cada território europeu em particular. Um exemplo deste desajuste é a ausência na lista de espécies ameaçadas, e nos vários anexos das Directivas Habitats, do Centaurium chloodes, de que, em anos recentes, só há registo em Portugal de uma população. Pelo contrário, incluem o Ruscus aculeatus (igualmente presente na lista vermelha da IUCN) que em Portugal tem uma distribuição ampla, ainda que sejam escassos os bosques de carvalhos, sobreiros ou azinheiras que se supõe serem (também) da sua predilecção.


Ruscus streptophyllus Yeo


Falemos, porém, de Ruscus, um género de origem mediterrânica que exibe uma notável adaptação a ambientes onde o risco de seca é elevado. Em vez de folhas, um luxo a que as plantas de regiões áridas não podem aspirar, a gilbardeira tem apenas uma boa ideia do que é uma folha. Baseada nesse conceito, modifica os talos, achatando-os, e obtém algo que realiza a fotossíntese como uma vulgar folha verde e se parece tanto com ela que um incauto nem desconfia do truque. Claro que uma tal mentirinha haveria de ser descoberta mais tarde ou mais cedo, e são as flores as delatoras. Apesar de serem inconspícuas, nascendo uma de cada vez e durando poucos dias, certo é que as flores brotam no meio da face inferior ou superior destas falsas folhas (ditas cladódios), revelando que se trata afinal de uma haste (ou pecíolo) a fingir de folha.

Das sete espécies do género, Ruscus aculeatus é a única nativa de Portugal continental. É um arbusto perene e, em geral, dióico, que exibe talos erectos, muito ramificados e lenhosos, e cladódios rijos, com um espinho no ápice. No Inverno, enfeita-se com chamativas bagas vermelhas como o azevinho. Tem virtudes medicinais (que, em algumas regiões europeias quase o deixaram à beira da extinção, o que explica a sua inclusão do Anexo V da Directiva Habitats) e talento ornamental que baste (que lhe tem valido lugar em muitos jardins).

Em alguns matos com sombra e solo calcário de Espanha ocorre outra espécie de Ruscus também de distribuição mediterrânica, R. hypophyllum, que, apesar do epíteto específico, nem sempre tem as inflorescências na face inferior do cladódio. Não é tão ramificado como a gilbardeira, os cladódios são maiores e mais flácidos, sem o bico aguçado na ponta, as inflorescências mais floridas e as flores com um pedicelo muito mais longo que faz com que as bagas pareçam cerejas. O seu carácter monóico está ainda em discussão entre os especialistas.

Na ilha da Madeira há registo de outra espécie, talvez com um progenitor comum aos Ruscus europeus, o R. streptophyllus. É um endemismo raro que vive em locais rochosos, sombrios e húmidos da laurissilva. Tal como no R. hypophyllum, os cladódios são grandes com pedúnculos longos e arqueados, e dispõem-se quase horizontalmente nos caules pendentes. Não é um arbusto ramificado, as flores nascem sempre na face inferior dos cladódios, e é fielmente monóica. É a única espécie do género Ruscus que tem verdadeiras folhas, embora apenas nas plantas recém-nascidas.

Na vizinhança deste Ruscus madeirense, e tão rara como ele, pode encontrar-se uma trepadeira (da Madeira e Canárias) que pode atingir os sete metros e cujas falsas folhas lembram as dos Ruscus. A Semele androgyna, que Lineu designou Ruscus androgyna, distingue-se deles porque as suas flores nascem nas margens dos cladódios.

Semele androgyna (L.) Kunth

07/07/2015

Costa do dragão

Uma espécie diz-se um endemismo quando só há populações silvestres dela num local restrito do planeta. Se a área onde ocorre a planta não é assim tão diminuta, diz-se que é nativa dessa região (é inapropriado falar de "endemismos europeus" ou, pior ainda, de "endemismos euro-asiáticos"). Na prática, como se atestam estas propriedades? Actualmente, com os meios tecnológicos ao dispor da genética, é mais simples destrinçar espécies; além disso, reconhece-se que a criação de endemismos é favorecida por habitats biologicamente isolados, pela radiação adaptativa, pela hibridação ou pela poliploidia. E, portanto, os botânicos sabem onde procurar endemismos. Mas há um problema intrínseco à definição anterior: ser ou não endémico é um estado que evolui com o tempo. A análise de fósseis tem revelado que algumas plantas, hoje consideradas endemismos de ilhas ou desertos, tiveram em outras eras uma distribuição muito mais ampla, foram quase cosmopolitas. Porém, com as alterações geológicas e do clima, ou por outras causas desconhecidas, extinguiram-se em quase todos os habitats, e as parcas sobras recolheram-se aos seus nichos de conforto.


Dracaena draco (L.) L.
Vem este arrazoado a propósito do dragoeiro (Dracaena draco). Recordemos que é uma árvore perenifólia (e muito longeva: há referências - talvez exageradas - a dragoeiros com seis mil anos) que se reconhece facilmente pelas folhas cinza-verde-azuladas, embora avermelhadas na base, com formato de espada; ou pela ramagem que se arranja numa coroa de cabelinho espetado; ou ainda pelo um tronco peculiar, cilíndrico, rugoso e dividido em muitos caules, que se dispõem como varetas de um guarda-chuva. (Com estes dados, consegue o leitor detectá-lo nas próximas fotos?) As inflorescências são terminais e paniculadas, com flores verdes ou brancas que só surgem quando a planta tem 10 a 15 anos, e que regressam periodicamente com intervalos de igual duração - curiosamente, o tronco ramifica-se só quando se dá uma floração, o que permite estimar a idade dos espécimes com alguma fiabilidade. O fruto é uma baga pequenina, comestível e doce, da cor da toranja. Entre os séculos XV e XIX, os portugueses extraíram da resina do dragoeiro uma substância vermelha corante, de preço elevado, usada em tintas, vernizes e produtos farmacêuticos.



Em estado silvestre, o dragoeiro é, hoje, uma planta muito rara. Embora se cultive em jardins de Portugal continental há vários séculos (diz-se que foi de um jardim de Lisboa que Lineu obteve, pela mão do botânico Domenico Vandelli, o material que lhe permitiu descrever a espécie), e se tenha naturalizado rapidamente em muitos outros locais de clima quente (porque as suas bagas são alimento preferido de vários pássaros), o habitat natural do dragoeiro restringe-se a escarpas rochosas à beira-mar, frequentemente inacessíveis, e a algumas florestas de Pittosporum. Pois bem: vimos os dragoeiros das fotos na ilha das Flores, e sabe-se que ele ocupa lugares semelhantes no Faial, mas há dúvidas de que o dragoeiro seja nativo destas ilhas. Por exemplo, Amaral Franco não o inclui na sua Nova Flora de Portugal, que decerto pretendeu completa sobre a vegetação do continente e dos Açores.

Mas, afinal, o dragoeiro é um endemismo de que locais? Segundo G. Lopez González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, o fruto do dragoeiro terá chegado a uma das ilhas Canárias vindo de África (Marrocos ou Cabo Verde), transportado por aves. Ter-se-á daí disseminado para as demais ilhas das Canárias e para os outros arquipélagos da Macaronésia, ou seja, Açores e Madeira. E Carlos Aguiar revela aqui que a intersecção dos conjuntos de plantas com flor nativas dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores se reduz a uma espécie, precisamente a Dracaena draco. Tendo em conta estas informações, e os testemunhos do médico alemão H. Muntzer (que, em 1494, reportou a existência de florestas de dragoeiros na costa do Faial) e do navegador italiano A. Cadamosto (que, em 1455, o descobriu na ilha de Porto Santo, onde hoje está extinto), é talvez de aceitar uma destas alternativas:

1. O dragoeiro é um endemismo do norte de África e da Macaronésia (onde se confinou depois de ter uma distribuição vasta na Europa e na região mediterrânica, por estas ilhas beneficiarem de um clima ameno que não sofreu variações drásticas ao longo das eras).

2. O dragoeiro é nativo de África, tendo-se naturalizado nas ilhas atlânticas da Macaronésia.

O que parece certo é não termos razões científicas para acreditar na seguinte versão defendida por várias Floras:

3. O dragoeiro é um endemismo das Canárias, Madeira, Cabo Verde e Marrocos.

Seria bem-vinda uma comparação genética dos dragoeiros açorianos (que vivem em ambiente muito chuvoso) com os dos outros habitats (alguns quase desérticos), para se esclarecerem estas dúvidas e se formar um juízo convincente. Antes disso, porém, precisamos de formar botânicos alpinistas.

27/05/2013

Bemposta no seu sossego



Na Nova Flora de Portugal, Amaral Franco designa-a Terra Quente e, no mapa que acompanha a obra, podemos vê-la como uma faixa estreita a acompanhar o rio Douro, desde a fronteira com Espanha, com uns meandros pelo interior do nordeste do país, a chamada Terra Fria. Ali o solo é predominantemente ácido, de xisto e granito, com pelo menos três excepções importantes: os afloramentos de calcário cristalino onde revemos parte da flora das serras de Aire e Candeeiros; as ilhas ultrabásicas onde uma mão-cheia de plantas singulares condizem com o carácter extraordinário desse torrão, algumas das quais só existem ali; e os veios de material calcário que permeiam as rochas e alimentam herbáceas raras de que vos daremos conta em breve. Não há outro lugar assim.



Aphyllanthes monspeliensis L.

Este junco-florido lembra um cravo, mas as pétalas não têm o ápice dentado e são azuis. Sem flores, dificilmente daríamos atenção à ramagem de escapos fininhos que parece um capim crescido. Em vez de folhas [o nome do género deriva do grego anthos (flor) + a (sem) + phyllon (folha)], enrolam-se nos talos umas bainhas de 3 a 10 cm de comprimento, verdes ou avermelhadas. Há quem diga que as flores se comem e são saborosas, mas a população que vimos em Bemposta não era suficientemente grande para que ousássemos estragar uma flor. É nativa do sudoeste da Europa (foi originalmente descrita a partir de exemplares em Montpellier) e norte de África; na Península Ibérica ocorre sobretudo na metade este; em Portugal, só se conhecem populações em sítios pedregosos expostos ao sol, de solo seco e arenoso, nas margens do percurso do rio Douro na Terra Quente.

Esta é uma herbácea perene, sustentada em grande parte do ano por um rizoma longo. Nas fotos observam-se mais alguns detalhes: as hastes estreitas, glabras, lisas e altas (até cerca de 60 cm); as flores, de corola assalveada e tépalas azuis com um veio mais escuro (podem ser brancas, mas não vimos nenhuma dessa cor), quase sempre solitárias no topo das hastes, protegidas por um invólucro de várias brácteas castanhas com textura de papel de embrulho; na imagem aumentada da flor podem ainda notar-se os seis estames com anteras azuis encostados às tépalas e a torre trífida com o estilete ao centro. No Outono, haverá sementes negras de pele rugosa.

Esta espécie, única do género Aphyllanthes, já esteve na família Liliaceae. Porém, é tão diferente desses primos que se duvidou de um tal parentesco e se criou uma família só para ela, a Aphyllanthaceae. Finalmente, a genética foi chamada a decidir a justeza de uma tal separação e, como resultado, a planta mudou-se para a família Asparagaceae. Tem mais de uma dezena de nomes vernáculos em espanhol ou catalão, mas por cá, não há registo oficial de nenhum. Contudo, quem vive na bacia do Douro fronteiriço certamente reparou nela. Teremos por isso de ouvir a senhora idosa que se cruzou connosco, em passo vagaroso apesar da chuva, com uma colheita generosa de flores ao colo.

22/09/2011

Espargueta com espinhos

Asparagus aphyllus L.

O aspecto deste arbusto não encoraja o seu uso em sopas, pizzas ou saladas: há o justificado receio de os espinhos arranharem a garganta, e os ramos lenhosos não prometem ser de mastigação fácil. No entanto, é mesmo verdade que este espargo silvestre (também conhecido como espargueta) é primo dos tenros espargos tão usados em culinária. Com uma ressalva: os espargos comestíveis (que pertencem à espécie Asparagus officinalis) são consumidos só enquanto rebentos; mal a planta começa a ramificar-se, o caule torna-se lenhoso e impróprio para refeições.

Haverá umas trezentas espécies de Asparagus, quase todas arbustivas, algumas trepadeiras (como as madeirenses A. umbellatus e A. scoparius) e umas poucas usadas como ornamentais (como o A. densiflorus). As três que são espontâneas no nosso território continental (A. albus, A. acutifolius e A. aphyllus) são plantas tipicamente mediterrânicas, próprias de lugares secos; duas delas (A. acutifolius e A. aphyllus) são tão espinhentas e agressivas como o tojo.

Apesar de desempenharem a função fotossintética que costuma caber às folhas, os espinhos (ou cladódios) destes arbustos são na realidade pequenas hastes modificadas que nascem das axilas das folhas - e estas estão reduzidas a escamas que mal se vêem a olho nu.

Informa o terceiro volume da Nova Flora de Portugal que tanto o A. aphyllus como o A. acutifolius se distribuem de norte a sul de Portugal, do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve; ambos frequentam matos secos e terrenos incultos ou mesmo ruderais, florescem desde a Primavera até ao Verão, e dão flores pequenas, de cerca de 5 mm de diâmetro. A semelhança entre os dois pode causar alguma confusão, mas uma inspecção cuidada permite distingui-los, seja pelos espinhos (os do A. aphyllus têm comprimentos desiguais, e surgem agrupados em menor número - molhos de três a sete, às vezes solitários, contra dez a trinta do A. acutifolius), seja pela cor dos caules (verdes no A. aphyllus, brancos ou cinzentos no A. acutifolius).

Se a nossa «experiência de campo» vale alguma coisa, forçoso é concluirmos que, pelo menos no norte e centro de Portugal, o A. aphyllus é muito mais comum do que o A. acutifolius (que, aliás, não estamos certos de alguma vez ter encontrado).

08/12/2010

Dia-com-santos


Ophiopogon jaburan Lodd.

Some time ago I wrote a little book of this type and shape on St. Francis of Assisi; and some time after (I know not when or how, as the song says, and certainly not why) I promised to write a book of the same size, or the same smallness on St. Thomas Aquinas. The promise was Franciscan only in its rashness; and the parallel was very far from being Thomistic in its logic. You can make a sketch of St. Francis: you could only make a plan of St. Thomas, like the plan of a labyrinthine city.


(...) St. Francis was a lean and lively little man; thin as a thread and vibrant as a bowstring; and in his motions like an arrow from the bow. All his life was a series of plunges and scampers: darting after the beggar, dashing naked into the woods, tossing himself into the strange ship, hurling himself into the Sultan tent and offering to hurl himself into the fire. In appearance he must have been like a thin brown skeleton autumn leaf dancing eternally before the wind; but in truth it was he that was the wind.


St. Thomas was a huge heavy bull of a man, fat and slow and quiet; very mild and magnanimous but not very sociable; shy, even apart from the humility of holiness; and abstracted, even apart from his occasional and carefully concealed experiences of trance or ecstasy. St. Francis was so fiery and even fidgety that the ecclesiastics, before whom he appeared quite suddenly, thought he was a madman. St. Thomas was so stolid that the scholars, in the schools which he attended regularly, thought he was a dunce. Indeed, he was the sort of schoolboy, not unknown, who would much rather be thought a dunce than have his own dreams invaded, by more active or animated dunces.


This external contrast extends to almost every point in the two personalities. It was the paradox of St. Francis that while he was passionately fond of poems, he was rather distrustful of books. It was the outstanding fact about St. Thomas that he loved books and lived on books. (...) When asked for what he thanked God most, he answered simply, "I have understood every page I ever read." St. Francis was very vivid in his poems and rather vague in his documents; St. Thomas devoted his whole life to documenting whole systems of Pagan and Christian literature; and occasionally wrote a hymn like a man taking a holiday. They saw the same problem from different angles, of simplicity and subtlety; St. Francis thought it would be enough to pour out his heart to the Mohammedans, to persuade them not to worship Mahound. St. Thomas bothered his head with every hair-splitting distinction and deduction, about the Absolute or the Accident, merely to prevent them from misunderstanding Aristotle.


Every saint is a man before he is a saint; and a saint may be made of every sort or kind of man; and most of us will choose between these different types according to our different tastes. But I will confess that, while the romantic glory of St. Francis has lost nothing of its glamour for me, I have in later years grown to feel almost as much affection, or in some aspects even more, for this man who unconsciously inhabited a large heart and a large head, like one inheriting a large house, and exercised there an equally generous if rather more absent-minded hospitality. There are moments when St. Francis, the most unworldly man who ever walked the world, is almost too efficient for me.


(...) The saint is a medicine because he is an antidote. Indeed that is why the saint is often a martyr; he is mistaken for a poison because he is an antidote. He will generally be found restoring the world to sanity by exaggerating whatever the world neglects, which is by no means always the same element in every age. Yet each generation seeks its saint by instinct; and he is not what the people want, but rather what the people need. This is surely the very much mistaken meaning of those words to the first saints, "Ye are the salt of the earth". (...) Christ did not tell his apostles that they were only the excellent people, or the only excellent people, but that they were the exceptional people; the permanently incongruous and incompatible people; and the text about the salt of the earth is really as sharp and shrewd and tart as the taste of salt. It is because they were the exceptional people, that they must not lose their exceptional quality. "If salt lose its savour, wherewith shall it be salted?"(...) If the world grows too worldly, it can be rebuked by the Church; but if the Church grows too worldly, it cannot be adequately rebuked for worldliness by the world.

G.K. Chesterton, St. Thomas Aquinas (1933)

25/03/2008

Selo-de-Salomão



Polygonatum odoratum

O selo-de-Salomão vive escondido no subsolo durante o Inverno, mas agora que despertou é difícil não dar por ele. As suas hastes arqueiam de forma peculiar, com as folhas dispostas em dois renques paralelos; as flores, agrupadas em cachos de duas ou três, são pendentes e resguardam-se sob as folhas. Apesar do epíteto odoratum no nome científico, as flores não têm um cheiro muito intenso: aproximando o nariz, contudo, aspira-se uma fragrância agradável, reminiscente (informa quem sabe) de lavandaria bem asseada. Polinizadas por abelhas, as flores irão a seu tempo transformar-se em drupas esféricas azuis ou pretas que não são recomendadas para consumo humano.

A área de distribuição natural do selo-de-Salomão abrange toda a Europa e estende-se à Rússia e ao continente asiático. Mesmo em Portugal é fácil encontrá-lo sem ser preciso calcorrear montes e vales: vimo-lo já em Serralves, no Jardim Botânico do Porto e na Quinta da Aveleda, onde reveste muitos metros quadrados de terreno (primeira foto acima).

06/11/2007

Grama-preta



Ophiopogon planiscapus "Nigrescens"

Ao contrário do que faz supor a designação vernácula e o formato da folhagem, esta planta do este da Ásia não é uma gramínea, nem sequer suporta o pisoteio como as nossas (demasiado bem conhecidas e gulosas por água) relva-de-estádio (Poa pratensis) ou relva-de-campo-de-golfe (Zoysia tenuifolia): é uma ex-liliácea que agora pertence à família dos dragoeiros. As folhas lineares, finas, invulgarmente pretas e as flores diminutas em espigas curtas mas de um branco-lilás pouco usual dão-lhe lugar de destaque nas bordaduras de jardins - utilização que consta de pinturas chinesas do século XVIII.

Mas há mais vantagens nesta herbácea anã. Propaga-se por divisão de touceira em qualquer época do ano. É de crescimento lento e não requer corte e aparo, poupando-nos àquelas máquinas ruidosas com que os vizinhos decidem, em boa consciência cidadã, gastar os feriados desde madrugada para que o seu relvado bem penteadinho seja um carinho antecipado aos seus convidados da noite. As raízes tuberosas são comestíveis e constam da famosa Famine Foods List de Jiuhuang Bencao; cristalizadas em açucar constituem tonificante tradicional.

O canteiro da foto está no jardim romano do Parque do Arnado, em Ponte de Lima.

08/10/2007

Caça ao dragoeiro


Dracaena draco

A acreditar na mitologia cristã, talvez a ilha açoriana mais apropriada para a caça ao dragão seja a de São Jorge; mas, como nunca lá fui, fiquei-me pela caça ao dragoeiro na ilha Terceira, aonde regressei para uma visita de três dias. Com as araucárias e os metrosíderos, os dragoeiros são as árvores mais estimadas pelos açorianos e as mais características dos jardins do arquipélago. Dois dos dragoeiros coligidos neste safari (os das fotos à direita) são já de porte respeitável, embora ainda estejam longe das proporções monumentais dos da Madeira ou dos jardins botânicos de Lisboa. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, eis a localização dos exemplares fotografados:

  1. Jardim particular na estrada de Angra para São Mateus da Calheta.
  2. Pátio interior do Palácio dos Capitães Generais, em Angra. Por causa da visita do Presidente da República, o jardim do palácio, o meu local favorito da cidade, esteve inacessível durante toda a minha estadia. Mas as portas do palácio estavam abertas e fui entrando; a funcionária que encontrei explicou-me que eu não o deveria ter feito, mas autorizou-me simpaticamente a fotografar este dragoeiro, que fica a ser o mais valioso troféu desta caçada.
  3. O edifício onde se empoleira o dragoeiro foi inaugurado em 2004: acompanha a curva da baía de Angra e é uma combinação de centro comercial, jardim, miradouro e passadiço de ligação com a parte alta da cidade.
  4. Jardim particular na Praia da Vitória, terra natal de Vitorino Nemésio. A copa da árvore alonga-se sobre a rua que passa uns metros abaixo, mas ninguém parece levar a mal esta invasão do espaço público aéreo.

09/08/2007

Espargo-pendente



Asparagus densiflorus «Sprengerii»

Não foi fácil fotografar as flores deste exemplar de Asparagus densiflorus «Sprengerii» nos jardins do Palácio de Cristal, e não se deveu isso ao facto de serem minúsculas. É que as sebes destes jardins, à semelhança das tílias da alameda, têm rotina militar, sempre em fase de recruta: o cabelo (leia-se florico) não pode espigar, e a ramagem (como franja) tem de manter-se em corte rente, para que as tropas estejam sempre aprumadas na parada. Por isso, o intervalo entre localizar a planta e correr a casa buscar a máquina fotográfica foi bastante para, ao som do pior clarim, a tesoura zelosa (leia-se serra de desbastar) ter desfeito quem agora ousou florir tão despenteadamente. Mas houve uma planta que se refugiou num canteiro e conseguiu (para já) escapar ao desbaste.

A família Asparagaceae é relativamente isolada mas tem cerca de 130 espécies sul-africanas. As do género Asparagus (do grego aspáragos, talo) não têm folhas autênticas, mas cladódios, isto é, ramos verdes que se deformam e assumem a tarefa da fotossíntese. São achatados para aumentar a área de exposição ao sol, carnudos para armazenar água, revestidos com uma camada protectora para evitar a transpiração excessiva, e dispostos em hélice ao longo do eixo do ramo para aumentar a eficácia de todos estes detalhes. As folhas verdadeiras são espinhos que pouco duram. As flores são estreladas ou campanuladas; seguem-se-lhes as bagas vermelhas, tóxicas mas muito ornamentais.

A espécie Asparagus densiflorus «Myersii», o aspargo-rabo-de-gato, difere do cultivar «Sprengerii» essencialmente nas hastes em que a falsa folhagem se organiza e na floração menos frequente. A A. setaceus acompanha usualmente os cravos nos enfeites dos trajes de bodas. Os espargos da culinária são os talos comestíveis da planta Asparagus officinalis.

01/05/2007

Para dar sorte

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Convallaria majalis

Enquanto entre nós se enfeitam portas e janelas com maias para afastar "aquele cujo nome não se deve pronunciar" (mas que a minha vizinha chama à boca cheia "carrapato"), em França o "porte-bonheur" é o "muguet". Segundo parece, este hábito, agora extremamente popular de se oferecer raminhos de Convallaria majalis no primeiro de Maio para dar sorte, poderá ter-se tornado moda na corte do rei francês Carlos X . Não é excluída também a possibilidade de, tal como outros costumes florais do mês de Maio, radicar em tradições ancestrais associadas à Beltane (Bealtaine ou Beltaine conforme os idiomas > ) festa que marcava o início do Verão na tradição céltica (fonte).

A sua ligação à festa do trabalho é relativamente recente. Com efeito quando se fizeram os primeiros desfiles em França, os manifestantes ostentavam na lapela um triângulo vermelho que simbolizava aquilo que então reinvidicavam, ou seja a divisão do dia em três períodos iguais de "travail, sommeil et loisirs". Mais tarde, o triângulo é substituído por uma rosa brava vermelha (Rosa canina ), uma "églantine" , que alguns anos depois, por volta de 1907, terá dado lugar ao "muguet", símbolo da Primavera na região de Paris.

Apesar de alguns sítios on line mencionarem que esta pequena (ex-)liliácea é originária do Japão, Mrs Grieve no seu Modern Herbal informa-nos tratar-se de uma nativa das ilhas que entra na farmacopeia britânica e dá-nos a conhecer algumas das lendas e tradições associadas a esta planta conhecida em língua inglesa por "May Lily, Convallaria, Our Lady's Tears, Convall-lily, Lily Constancy, Ladder-to-Heaven, Jacob's Ladder, Male Lily", para além de, claro, Lily-of-the-Valley.
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A ler também Muguets for May Day , com o toque muito especial da Julie Ardery, no Human Flower Project

20/11/2006

Gilbardeira

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.Ruscus aculeatus foto: Tibães, Outubro 2006

Planta dióica cujos frutos são bagas vermelho vivo surgindo na mesma altura que as do azevinho. Ostenta umas características "falsas folhas", designadas por cladódios - talos foliáceos achatados com a forma de folhas. Pode ser classificada tanto na família das Aspargacea como das Ruscacea (>).
Azevinho-espinhoso, azevinho-pequeno ou menor, erva-de-vasculho ou dos-basculhos, gibaldeira, gibardeira, gilbardeira, murta-espinhosa, pica-rato...
Quantos nomes para uma planta? E que nos contam eles? Excepto o sonante "gilbardeira" de origem desconhecida e os seus afins, todas as designações desta planta são prontamente compreensíveis: a forma das falsas folhas tem semelhanças com as da murta; para efeitos ornamentais pode fazer as vezes do azevinho; como pica foi usada para afastar os ratos dos alimentos pendurados; dela também faziam bom uso os talhantes para limpar os cepos onde cortavam a carne, daí o nome inglês de butcher's broom. Por cá faziam-se vassouras, os vasculhos, usadas segundo parece, para limpar chaminés.
Só falta um nome derivado do facto dos seus rebentos serem comestíveis... e outros tantos para nos elucidarem sobre as suas propriedades medicinais. Neste particular os franceses têm pelo menos um: "plante des jambes légères"(>). Mas sobre o valor terapêutico desta planta, que não devia ser ignorado pelos boticários de Tibães, nada melhor do que lermos o relato que a Mrs Grieve faz no seu Herbal, em que, como é seu hábito, transcreve as saborosas recomendações dos antigos herbalistas.

No entanto, a mais valiosa descoberta, ao "vasculhar a web" procurando informação sobre esta planta, foram as páginas Flora Digital de Portugal no renovado site do Jardim Botânico da UTAD (que já não visitava há uns tempos)! Vai passar a ser de consulta obrigatória.

26/03/2006

Dragoeiros no Porto


Dragoeiro no jardim da Viscondessa de Lobão - Agosto de 2005

No dia em que ouvimos a triste história de um dragoeiro que foi criado no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa para acabar morto por afogamento no jardim de um político portuense, é oportuno mostrar como essa árvore se pode dar bem no nosso clima. Não temos, é certo, exemplares monumentais como os da Madeira ou das ilhas açorianas, mas alguns no Jardim Botânico e este no jardim da Viscondessa de Lobão, na Rua de Belos Ares, dão muito boa conta do recado, apesar de jovens.

O conjunto da casa e jardins da Viscondessa de Lobão, incluindo a airosa estufa em estilo arte nova que se entrevê na foto e os vários edifícios anexos, está classificado desde 1982 pelo IPPAR como imóvel de interesse público. Actualmente propriedade do Instituto de Segurança Social, funciona lá o Centro Condessa de Lobão, que conduz um valioso trabalho de integração de pessoas com deficiência. São essas pessoas que, coordenadas por profissionais, cuidam dos primorosos jardins e cultivam uma extensa horta.

(Só não sabemos ao certo se a antiga proprietária foi condessa ou viscondessa ou ambas as coisas.)

31/10/2005

Dragoeiros nos Açores



Fotos: pva 0509 - Dracaena draco no Jardim Duque da Terceira, Angra do Heroísmo

Ainda que haja dúvidas de que o dragoeiro (Dracaena draco) seja nativo dos Açores, ele é tão característico dessas ilhas como da Madeira e das Canárias, de onde é seguramente originário: não há verdadeiro jardim açoriano onde ele não compareça. Este exemplar, que mora no patamar superior do Jardim Duque da Terceira, terá decerto idade considerável, embora não atinja o porte monumental de alguns na Madeira e nos jardins botânicos de Lisboa. O que nele há de assinável é que, ao invés do que é típico da espécie, se ramifica quase a partir da base. De resto a ramificação segue a regra dicotómica ditada pela genética: cada ramada se vai bifurcando sucessivamente, com as folhas pontiagudas dispondo-se em coroas nas extremidades dos ramos mais jovens; o efeito do conjunto, com a copa perfeitamente circular, é semelhante ao de um amplo guarda-sol de varetas intumescidas.

O estatuto do dragoeiro na iconografia açoriana é confirmado por um livro que comprei na livraria In-Fólio (na Rua da Guarita, em Angra): editado em 2005 pela Presidência do Governo Regional dos Açores, e com o título Dragoeiros do Museu do Vinho, o volume - encadernado, 72 páginas - reúne excelentes fotos da autoria de António Araújo e alguns breves textos introdutórios. Pela clareza e rigor, realço o de João Paulo Constância, de que aqui transcrevo um excerto: «Esta espécie de dragoeiro foi uma das principais espécies tintureiras, com interesse comercial, utilizadas entre os séculos XV e XIX. A sua resina, transparente e de cor vermelho sangue, é conhecida por sangue de dragão ou drago, tendo sido utilizada como substância corante e na produção de tintas, lacas e vernizes. Há também referência ao uso da resina em medicina popular.»

O Museu do Vinho fica na Vila da Madalena, Ilha do Pico. Visitei a ilha há uns anos de corrida, mas não vi o museu. Há agora mais motivos para lá voltar, mesmo para quem, desprovido como eu de ambições políticas, se iniba de ascender ao cume da ilha.

P.S. (2 de Novembro): Veja aqui os notáveis dragoeiros do Museu do Vinho. Obrigado, Pedro.

16/10/2004

Boas Notícias # 1

Hoje e amanhã
Festa no Jardim Botânico da Ajuda - À Volta do Dragoeiro
«Com o objectivo de angariar fundos que completem os subsídios já recebidos para a recuperação do emblemático dragoeiro nascido no jardim em 1764 e que sofreu no passado dia 28 de Abril um desabamento.»