12.5.10

Leite de galinha


Ornithogalum pyrenaicum L.

Já é a segunda vez em poucos dias que aqui falamos de leite, mas não há perigo de o blogue se dedicar ao nutricionismo. Até porque, vendo bem, pode nem haver leite, mas apenas uma menção a despropósito que não encerra qualquer lição útil. Da primeira vez, apontámos às mães que uma certa ervita poderia estimular a lactação, ou pelo menos em tempos houve quem acreditasse nisso. Agora, puxando da erudição instantânea de quem acaba de consultar um dicionário, informamos que Ornithogalum (vem do grego, ao que parece) significa leite de ave - ou, para não ficarmos por uma ave abstracta, leite de galinha, nome que é dado em português a algumas espécies do género.

Mesmo o leitor com as mais rudimentares noções de zoologia saberá que as aves em geral, e as galinhas em particular, não dão leite nem amamentam as suas crias. Há o ornitorrinco, que não é ave embora pareça, mas os gregos, que desconheciam a sua existência, chamavam leite de ave a algo que fosse incrível. O nome Ornithogalum referir-se-ia assim à beleza improvável de algumas das flores do género. Outros defendem, mais prosaicamente, que o absurdo nome se deve tão só à brancura das flores.

Acontece que o Ornithogalum pyrenaicum não dá flores brancas nem especialmente chamativas, e por isso ilustra mal toda esta conversa. As flores, em espigas altas (até um metro) e desprovidas de folhas, são esverdeadas ou de um amarelo pálido, e surgem de Maio a Julho. É uma planta que ocorre em prados e bosques de boa parte da Europa, do Mediterrâneo a alguns países do Norte. Em Portugal, onde praticamente só não existe no Alto Alentejo, é menos comum do que deveria ser. O exemplar da foto vegetava, solitário, no Parque das Termas, em Vizela, muito perto do poluidíssimo rio com o mesmo nome.

5 comentários :

Célia Àbila disse...

Todos os dias, encanta-me ver e ler, os artigos e as ilustrações, desse blogger de beleza e muito bom gosto.
"Leite de galinha" , nutriu sim a imaginação dos leitores , por esse motivo denota utilidade.
Obrigada.

Gi disse...

Paulo, eu tenho uma amiga que diante de um pardalito que caiu do ninho tentou salvá-lo alimentando-o... com leite.
Fartei-me de rir mas fez-me ternura.
Não sei o que aconteceu ao pardalito.

Paulo Araújo disse...

Célia:
Nós é que agradecemos o comentário. E não deixe nunca de nos vistar.

Gi, esse é um daqueles casos em que o amor mata. Embora talvez não tenha sido assim tão trágico, pois afinal há pássaros que comem de tudo. E se nós comemos ovos, por que não hão-de eles beber leite?

(Espero que nenhum ornitólogo leia isto...)

JMG disse...

Sou cliente fresco e já cativo do blogue. Os botânicos que aqui escrevem fazem-no em Português de lei - vá lá saber-se porquê, hoje até mesmo os das Humanidades têm por vezes uma relação conflituosa com a Língua Pátria, enfim.
Agora uma pedinchice: para quando posts sobre árvores?

Paulo Araújo disse...

Caro JMG:

Obrigado pela simpatia. Não somos botânicos, mas apenas curiosos do mundo vegetal. Para nós, escrever no blogue é um modo de aprender. E já há algum tempo que o nosso foco se desviou das plantas grandes (i.e., das árvores) para as pequenas. Continuamos a gostar de árvores, e ocasionalmente podemos falar sobre elas, mas não temos muito a acrescentar àquilo que aqui escrevemos há já uns bons anos. Por exemplo, se quiser ver o que dissemos sobre carvalhos veja a etiqueta Quercus aí na coluna da esquerda; para faia veja Fagus; para pinheiros e cedros veja Pinaceae; e assim sucessivamente.