12.5.08

Fim de temporada


Scilla monophyllos

As fotos foram tiradas em Março, mas - pelo menos no Tâmega - quem agora procurar estas cilas-duma-folha-só já não as encontra. Ultrapassada a floração, a planta, que não vai além dos 12 cm de altura, passa despercebida, ficando oculta pelas herbáceas mais vigorosas que entretanto foram surgindo. A sua parte aérea não tardará a desaparecer por completo (se é que já não o fez), e só em 2009, no final do Inverno, o bolbo lançará nova folha que, desenrolando-se, revelará uma haste encimada por um cacho de flores.

Esta cila, que ocorre apenas na Península Ibérica, é talvez a mais comum no norte de Portugal, e é instrutivo compará-la com a Scilla italica. Embora tenham flores quase iguais, dispõem-nas de modos distintos: em espiga, na S. italica, e em umbela, na S. monophyllos. Além disso, nesta última, as brácteas na base do pedúnculo de cada flor são muito mais curtas do que na S. italica. Por último, há o número de folhas: entre três e seis na S. italica, e uma só na S. monophyllos (como aliás denuncia o epíteto específico).

3 comentários :

Rubim Almeida disse...

Exmos. Senhores
desde logo, aceitem os meus cumprimentos pela qualidade e quantidade da informação que tão bem divulgam no vosso site. Parabéns e bem hajam. Ao realizar uma pesquisa deparei com o vosso site e, sendo parte “interessada” em determinado assunto, não pude evitar ler com atenção os vossos textos.
Relativamente à Scilla monophyllos (19.5.11 Cilada taxonómica) nunca tinha lido/ouvido o nome vernáculo "cila-de-uma-folha-só" que se apresenta aos meus olhos como uma tradução literal de outros nomes, doutros idiomas. Na minha opinião "Cila-de-uma-folha" era mais do que elucidativo, embora ninguém use os nomes referidos, nas localidades onde vai ocorrendo, no nosso país. Se bem que, tal como afirmam, é de facto um grupo difícil, muitos dos problemas de identidade taxonómica prendem-se com o facto de se tratar de uma monocotiledónea, o que diminui desde logo o número de caracteres vegetativos úteis na diagnose. Simultaneamente, existem problemas que tornam a sua delimitação muito fraca não só a nível específico, mas também genérico. Note-se que na maioria das floras e manuais que tratam da distinção dos taxa, a única diferença entre Scilla e Ornithogalum é tão só a cor do perianto, azul em Scilla e branca em Ornithogalum. Ora quem anda no campo e estuda estas coisas sabe perfeitamente que é comum encontrar flores brancas em Scilla, assim como se podem encontrar azuis em Ornithogalum. Fraca delimitação, na realidade, e a merecer outro tipo de estudos.
Mas avancemos. Não existe nenhum problema na identificação de Scilla monophyllos, excepto se um olho menos treinado (e algo míope) a comparar, nos raros casos em que o caracter de “monofolha” se encontra substituído por “2 folhas”, coisa que é bastante mais frequente do que se pensa. Nesse caso poderia existir alguma confusão com a Scilla bifolia (comum na Europa Central), que se distingue pelo tipo de bainha foliar que envolve de modo característico o escapo floral logo a partir dos catáfilos, e por outros caracteres relativos à flor, entre muitos outros. Mais a mais, S. bifolia ainda que esporadicamente referenciada para a região dos Pirinéus espanhóis e Catalunha, foi algo que ainda não me foi dado ver na Península e todos os exemplares por mim estudados, estavam completamente mal diagnosticados, tratando-se apenas de S. monophyllos portadora de duas folhas (como se verá no volume sobre Liliaceae da Flora Iberica).
Desculpem a grande tirada anterior, mas dado que é um assunto que me é querido, tenho uma tendência (defeito até) para o desenvolver. Voltemos então à vossa referência às “cilas”.
Na totalidade entre continente e ilhas, a Península Ibérica tem sido considerada como albergando, dependendo dos autores, cerca de 14 espécies.
Contudo, ao contrário do que é afirmado, a S. odorata não ocorre no Norte de Portugal e o seu limite de distribuição mais a Norte (ainda que controverso) é na região de Mira (Beira Litoral). A S. odorata foi referenciada para Mira e para a região do Algarve, onde era apontada para determinados tipos de areais. Encontra-se ausente de Espanha, sendo considerada como endémica do nosso país (continua).

Rubim Almeida disse...

(continuação Scilla)

O mesmo é aplicável a S. merinoi que apenas tem distribuição numa pequena faixa da Galiza não chegando sequer ao rio Minho e não ultrapassando a Corunha.
Finalmente a S. paui. Esta Scilla apenas foi referida, desde que Lacaita a dedicou ao famoso botânico Pau, para as Serras de Cazorla e Jaén, precisamente na Andaluzia e por conseguinte no Sul de Espanha, país da qual foi considerada endémica.
Há já mais de uma década que S. beirana e S. paui foram relegadas para a sinonímia de S. ramburei, o mesmo tendo acontecido à S. merinoi que faz parte agora dos “nomina rejicienda” de S. verna, em artigos publicados em revistas internacionais.
Já agora permitam-me ir um pouco mais longe e referir que no “post” de 12.5.08 “Fim de temporada” compara-se Scilla monophyllos com Scilla italica. Ora tal não é possível desde que Scilla italica, tal como a S. hispanica e a S. non-scripta (taxa referenciados em tempos idos para a nossa flora), foram transferidas para o género Hyacinthoides por Rothmaler em 1944 (como havia já sido antecipado por Chouard nos anos 30), indo-se juntar a outras supostas “Scillas” como S. ligulata, S. numidica, etc.
Para além de vários caracteres relacionados com a morfologia externa dos bolbos, nomeadamente dos catáfilos, tipo de bolbo, inserção dos filetes, etc., existe uma característica muito simples que permite imediatamente distinguir Scilla de Hyacinthoides. Enquanto Scilla apresenta uma bráctea mais ou menos desenvolvida (quase ausente no grupo autumnalis) na base de cada pedúnculo floral, as plantas pertencentes ao género Hyacinthoides, exibem duas brácteas.
Já agora referir que Hyacinthoides italica não é considerada como existente em Portugal ou em Espanha. A distribuição do taxon não ultrapassa as fronteiras francesas. Na nossa região é substituída pela Hyacinthoides paivae, dedicada ao ilustre botânico português Prof. Jorge Paiva, da Universidade de Coimbra.
Isto foi muito mais longe do que previa e espero que me possam perdoar esta “aula”, mas é a paixão a manifestar-se.
Brevemente o Projecto “Flora Iberica”, do espanhol C.S.I.C., trará ao conhecimento do mundo especializado (e não só) as últimas novidades na taxonomia e identidade dos géneros e espécies referidas para a Península Ibérica. O número de taxa para Scilla encontra-se agora reduzido a metade do número anteriormente referido.
Pedindo uma vez mais desculpa pelo longo “arrazoado”, espero que esta informação possa clarificar algumas das dúvidas manifestadas no vosso “site”.

Rubim Almeida
Professor do Departamento de Biologia da UP

Paulo Araújo disse...

Obrigado pela simpatia e por tão esclarecedor comentário - que não é nada longo, pois o assunto bem o justifica.

Só uma nota: o nome cila-de-uma-folha-só é invenção minha e de facto não é usado em lugar nenhum do país. E tem razão, bastaria cila-de-uma-folha. Nunca me calhou ver a variante da planta com duas folhas, mas de flores brancas já vi algumas.

Pelo que diz, aquela outra planta de Amarante (ver aqui), que identificámos como S. italica, não poderá de facto ser dessa espécie (agora chamada Hyacinthoides italica). Será então uma H. paivae? As duas brácteas na base do pedúnculo da flor sugerem que se trata de uma Hyacinthoides e não de uma Scilla.

Ficamos todos na expectativa de ver o que a Flora Iberica mos dirá sobre a Scilla e géneros aparentados.