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21/09/2011

A tilintar em Portugal

Campanula lusitanica L.

Nome vulgar: campainhas
Ecologia e distribuição: distribui-se pelo norte de África e por quase toda a Península Ibérica, desde o nível do mar até aos 1200 metros de altitude, em prados anuais, sebes e terrenos incultos ou cultivados; gosta de locais sombrios mas também se desenvolve a pleno sol
Distribuição em Portugal: todas as províncias (abundante no norte, mais rara no sul)
Época de floração: Abril a Agosto
Data e local das fotos: Abril de 2007 e Maio de 2008, margens do rio Tâmega em Amarante
Informações adicionais: plantas esguias com hastes até 50 cm de altura, esparsamente ramificadas; flores tubulares com 1 a 1,5 cm de diâmetro

14/03/2011

Semana das cruzes



Alliaria petiolata (M. Bieb.) Cavara & Grande

Não é nossa intenção iniciar celebrações pascais com seis semanas de antecedência, mas quem assim quiser interpretar este novo ciclo temático pode fazê-lo sem pedir licença. Com os anos a correrem vertiginosamente, todas as datas se atropelam no calendário. Seria por isso fútil esperarmos pelo dia certo: é quando nos lembramos, e pode ser antes ou depois.

A bem do rigor, esclarecemos contudo que as cruzes da semana nada têm a ver com a de Cristo. Acontece que resolvemos montar uma exposição (que será completada na sexta-feira, e depois ficará a vogar no ciberespaço até à eternidade) de plantas crucíferas, que recebem esse nome por as suas flores terem as quatro pétalas dispostas em cruz. Acumulámos muitas crucíferas no arquivo; agora que tantas delas estão em flor, é boa altura para lhes dar vazão.

Como já antes aqui mostrámos plantas da mesma família, o leitor deverá complementar as novidades da semana com as lições antigas a que pode aceder clicando na etiqueta Cruciferae. Não havendo mal nenhum em recapitular, lembramos que a nossa culinária não seria o que é sem essas utilíssimas plantas. É inimaginável confeccionar uma honesta sopa caseira sem pencas, repolhos, rabanetes ou nabos. (Há a canja, a sopa alentejana e as sopas de peixe ou de marisco - mas nada disso preenche os requisitos de uma verdadeira sopa.) E a esta lista de maravilhas devemos ainda acrescentar o agrião e as diversas mostardas.

Além das plantas cultivadas nas hortas, e algumas outras que ascenderam à categoria de ornamentais, há em Portugal muitas crucíferas espontâneas - cerca de 150 espécies - que para nós não têm outra utilidade senão a de existir. Algumas são grandes e vistosas, outras destacam-se pela abundância, muitas são efémeras e discretas. As duas crucíferas desta sessão inaugural, ambas de flores brancas (e o branco vai ser a cor dominante da semana), definem o intervalo em que as outras se vão encaixar: a Alliaria petiolata, planta bienal, é grande, capaz de atingir um metro e vinte de altura, enquanto que a Cardamine hirsuta é uma planta anual que em regra não sobe acima dos dez ou quinze centímetros.

No vernáculo, a Alliaria petiolata é tratada como erva-alheira: as suas folhas, quando esmagadas, cheiram a alho. Por esse motivo, e também porque as suas sementes podem ser usadas para produzir mostarda, os ingleses chamam-lhe garlic mustard. É uma planta comum em grande parte da Europa, que floresce de Março a Julho e prefere lugares sombrios como bosques ou sebes. Em Portugal, onde não é muito vulgar, concentra-se na metade norte. Conhecemo-la das margens do Tâmega, em Amarante, e de vários outros rios transmontanos.


Cardamine hirsuta L.

Se o leitor cultivar um pedaço de terra, ou guardar na varanda alguns vasos ou floreiras, então reúne todas as condições para observar ao vivo a Cardamine hirsuta - que, em português, é conhecida como agrião-menor ou agrião-de-canário. Por ser amarga, esta plantinha não se recomenda para condimento; e, não se podendo considerar decorativa, ninguém a cultivará de sua livre vontade. Trata-se pois de uma planta que depende de si própria para sobreviver, e não se tem dado nada mal com isso. A sua curta existência decorre de Fevereiro a Maio: são quatro meses para florir, frutificar e lançar as sementes para a geração do ano seguinte.

26/04/2010

Nem tanto ao mar


Arenaria montana L.

Arenaria evoca areia, praia, as ondas do mar - mas não é lá que vive esta planta. Outras suas congéneres preferirão viver nas dunas, e daí o nome do género, mas a Arenaria montana fica-se pelos bosques e urzais do sudoeste da Europa (em Portugal, só na metade norte), pulando ainda o estreito de Gibraltar para uma visita a Marrocos. Fazendo jus ao epíteto específico, dá-se bem em lugares elevados, mas não está de modo nenhum a eles confinada: já a encontrámos em Amarante, nas margens do Tâmega, e também em Valongo, perto do rio Ferreira, em altitudes de 100 a 200 metros.

O género Arenaria é populoso, com cerca de 160 espécies no hemisfério norte, em habitats preferencialmente montanhosos que vão do temperado ao árctico. A arenária-dos-nossos-montes tem flores de 1,5 cm de diâmetro, típicas do género tanto na cor branca como na disposição das pétalas, que surgem entre Março e Julho. Outros sinais particulares são os caules rastejantes, pubescentes, filiformes, e as folhas curtas (1 a 2 cm) e lanceoladas, de cor verde-cinza.

20/04/2010

Brancura enganadora


Lamium album L.


Lamium maculatum L.

Houvesse uma ciranda para peneirar pepitas de branco e teríamos a tarefa facilitada. Apelamos, por isso, às palavras que, sem baraços, distinguem a versão albina de uma flor que costuma ser cor-de-rosa (a do L. maculatum, assim chamado pela banda prateada que frequentemente mancha o centro das folhas) da flor imaculada do L. album (fotografada em Hampstead Heath), espécie nativa em quase toda a Europa mas que não ocorre espontaneamente em Portugal. O L. maculatum é entre nós planta comum mas a variante alva é muito rara.

Como a floração destas duas espécies é simultânea (de Abril a Novembro), um olhar treinado em passatempos de jornal detecta sem hesitar algumas diferenças. A mais óbvia é a penugem no lábio superior da flor do L. album, que no L. maculatum só enfeita a margem. Consegue notá-la? Além disso, a primeira tem anteras escuras e um pontilhado amarelo no lábio inferior. Enfim, as folhas também não são idênticas, uma das plantas optou pelo triângulo, a outra preferiu uma oval. Devaneios, dirá, e bem, o leitor.

26/09/2009

Um rio só se mata uma vez




Serra do Alvão: pinheiros-bravos (Pinus pinaster Aiton) nas margens do rio Ôlo, perto das Fisgas de Ermelo

Logo após deslizar por uma sucessão de piscinas naturais talhadas no granito, o rio Ôlo encontra as Fisgas de Ermelo, onde se precipita numa cascata com um desnível de duas centenas de metros. Mas não é esse fenómeno natural que mata o rio: incólume apesar da queda, ele prossegue o seu curso, agora menos acidentado, até se juntar ao Tâmega, em Fridão.

Quem tudo fez para matar o rio foi o coveiro dos nossos espaços naturais: o mesmo que usa o risível pseudónimo de ministro do ambiente e que está, felizmente, de saída do cargo (oxalá não volte). O programa de construção de barragens apadrinhado pelo governo prevê nada menos que cinco novas barragens na bacia do Tâmega, todas acima de Amarante. Uma delas, a de Fridão, apenas seis quilómetros a montante da cidade de S. Gonçalo, armazenará uma massa de água capaz de submergir Amarante num abrir e fechar de olhos. Outra, a de Gouvães da Serra, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, seria em parte alimentada por um transvase do rio Ôlo; com quase todo o seu caudal desviado para norte pouco depois da nascente, o rio praticamente desapareceria.

A Iberdrola, empresa eléctrica espanhola à qual caberá construir e explorar as quatro barragens no Alto Tâmega (a barragem de Fridão calhou à EDP), poderia, se quisesse, fazer o transvase do rio Ôlo, pois era isso que estava previsto na concessão que lhe foi entregue pelo governo português. Mas, a 3 de Fevereiro passado, em sessão pública na Faculdade de Engenharia do Porto, um responsável da Iberdrola explicou que a «empresa decidiu não efectuar o transvase do rio Ôlo – embora concessionado no projecto – porque seria um grave crime ambiental destruir a cascata de Ermelo». (Mais detalhes nesta página.)

É sem dúvida edificante. O governo leva de bandeja um rio ao altar do sacrifício, mas o oficiante da cerimónia, incumbido do acto sangrento, recusa-se a executá-lo por entender tratar-se de um grave crime ambiental. São os empresários espanhóis, e não o governo da república portuguesa e os seus ministros, que zelam pela integridade do Parque Natural do Alvão. Ao lançar um infame «programa nacional de barragens» que vai destruir o Sabor, o Tua e o Tâmega, o governo assumiu-se, em relação ao interior norte do país, como potência colonial ocupante, explorando para exclusivo benefício seu e dos seus amigos as riquezas naturais dos territórios subjugados.

12/05/2008

Fim de temporada


Scilla monophyllos

As fotos foram tiradas em Março, mas - pelo menos no Tâmega - quem agora procurar estas cilas-duma-folha-só já não as encontra. Ultrapassada a floração, a planta, que não vai além dos 12 cm de altura, passa despercebida, ficando oculta pelas herbáceas mais vigorosas que entretanto foram surgindo. A sua parte aérea não tardará a desaparecer por completo (se é que já não o fez), e só em 2009, no final do Inverno, o bolbo lançará nova folha que, desenrolando-se, revelará uma haste encimada por um cacho de flores.

Esta cila, que ocorre apenas na Península Ibérica, é talvez a mais comum no norte de Portugal, e é instrutivo compará-la com a Scilla italica. Embora tenham flores quase iguais, dispõem-nas de modos distintos: em espiga, na S. italica, e em umbela, na S. monophyllos. Além disso, nesta última, as brácteas na base do pedúnculo de cada flor são muito mais curtas do que na S. italica. Por último, há o número de folhas: entre três e seis na S. italica, e uma só na S. monophyllos (como aliás denuncia o epíteto específico).

01/05/2008

Moda italiana


Scilla italica L. [sinónimo: Hyacinthoides italica (L.) Rothm.] Hyacinthoides paivae S. Ortiz & Rodr. Oubiña

Talvez com esta Scilla se passe o mesmo que no pronto-a-vestir: para melhor se posicionar face a um público que valoriza a moda transalpina e desdenha tudo o que é nacional, ela adoptou para imagem de marca um nome italiano - quando na verdade é nascida e criada no nosso luso-torrão. Aqui chegados, contudo, é melhor fazermos algumas ressalvas: a S. italica distribui-se pela faixa do continente Europeu que vai de Portugal aos Balcãs, incluindo França e Itália; e é natural que neste último país ela seja bem mais abundante do que em Portugal. Por cá só a encontrámos, e em escassíssimo número, nas margens do Tâmega, em Amarante - naquela que é a nossa melhor zona de caça para flores silvestres. Tão rara é entre nós esta espécie que não aparece sequer listada na Flora Digital de Portugal, e o livro Portugal Botânico de A a Z não lhe atribui qualquer nome vernáculo. Em compensação, encontrámos em abundância, neste e noutros locais, a Scilla monophyllos, espécie de que aqui falaremos em breve.

Sendo a S. italica de ocorrência tão incerta, como podemos afirmar que os exemplares de Amarante pertencem a essa espécie? O segredo está na inflorescência: o seu formato cónico é peculiar, e os «ganchos» azuis (na verdade um par de brácteas) que se vêem a abraçar cada botão são inconfundíveis.

De entre as vinte e poucas espécies europeias de Scilla - o género está igualmente representado em África e na Ásia -, a mais apreciada em jardinagem é a S. peruviana, a que já demos a devida atenção. E talvez tenha interesse para o leitor comparar a planta de hoje com a Muscari comosum, também da família Hyacinthaceae.

14/04/2008

Kousa nunca vista


Cornus kousa

Conforme prometido na semana passada, aqui vão, na falta de fotos que a mostrem no seu rubro vestido outonal, as imagens possíveis desta outra Cornus no Parque Florestal de Amarante. Várias diferenças há entre a Cornus florida e a Cornus kousa. A que não salta à vista é serem originárias de continentes diversos: a primeira, como indica o epíteto específico, da costa leste dos EUA; a segunda da China e do Japão, sendo aliás kousa o seu nome japonês. As duas são de folhagem caduca, mas - como já vimos - a C. florida, mais pressurosa em exibir-se, faz brotar as flores antes das folhas. Em ambas as espécies as verdadeiras flores são verdes e discretas, formando pequenos bouquets rodeados por quatro brácteas semelhantes a pétalas; mas as brácteas da C. kousa são lanceoladas (foto em cima), ao passo que as da C. florida têm reentrâncias nas pontas, como se alguém as tivesse mordido (foto aqui). Finalmente, as folhas da C. kousa têm margens serradas e as da C. florida têm margens lisas. Tanto uma como outra espécie deram origem a numerosos cultivares ornamentais, quase todos eles inéditos em jardins portugueses. De facto, o Parque Florestal de Amarante é o único local do país onde alguma vez vimos exemplares de qualquer destas duas espécies de Cornus.

11/04/2008

Arbusto-pérola



Exochorda x macrantha - Parque Florestal de Amarante

A tendência geral da moda Primavera/Verão nos jardins da cidade tem-se centrado mais no corte do que na decoração, acentuando o minimalismo e reforçando a melancolia dos tempos brumosos, toldados por chuva e vento, com que Abril se iniciou. Pelo contrário, os estilistas que cuidam das nossas prateleiras têm apostado numa colecção onde sobressaem padrões florais, estampados e acessórios de algum exotismo, vestindo silhuetas de assinalável exuberância e frescura. E a nossa noiva é um arbusto de ritidoma alaranjado e folhagem caduca, agora enfeitado de flores grandes com delicadas tiaras de estames. Agrupadas em cachos vistosos, criam uma máscara branca, pura e vaporosa, que lhe cobre a recente nudez. E as flores não desabotoadas são pérolas que dão um toque requintado ao traje.

A Exochorda x macrantha "The Bride" é uma selecção de um híbrido de dois estilos, a E. racemosa e a E. korolkowii, de ramagem verde-azulada e arqueada, pétalas estreitas na base e separadas, o que distingue esta rosácea dos exemplares do género Prunus abundantes em outras vitrines. Com estas propostas mantemos o investimento no mercado asiático, da China à Coreia, ambiente natural deste género que se apresenta em quatro versões.

Sussurram-me, enquanto me puxam vigorosamente pela manga, que a noiva costuma encerrar o desfile - e o nosso ainda vai no adro -, que os críticos da casa pequena notarão a pressa no casamento, apontando com os olhos no céu, enquanto a cabeça escreve a condenação, o óbvio pecadilho da mocinha. Ora, esse mesmo céu perdoar-lhe-á no Outono, garantindo-lhe numerosa prole com formato de estrela, objectámos nós.

08/04/2008

É uma olaia? É uma cerejeira?

Nem uma coisa nem outra, é claro. As vivas manchas cor-de-rosa que enfeitam por estes dias o Parque Florestal de Amarante são de duas Cornus florida. Uma delas já tinha sido aqui festejada em anos anteriores; posteriormente, a mesma árvore forneceu o material pedagógico para explicarmos que nas Cornus, tal como nas buganvílias, o colorido vistoso é das brácteas e não exactamente das flores. Este ano notámos que a árvore não está sozinha: outro exemplar da mesma espécie (na foto) vive em lugar mais discreto, fora do circuito dos visitantes, num declive entre campos de cultivo. Tivemos que a ver de perto para tirar a teima sobre que árvore seria ela. Era a cara chapada de uma olaia, um bocadinho atrasada na floração, é certo - só que não era olaia, e com isso perdi uma aposta. Mas como olaias há muitas e as Cornus são raras, no fim de contas também ganhei.


Cornus florida

Embora as «flores» se mantenham na árvore por algum tempo, a cor viva vai-se gradualmente esbatendo à medida que a árvore faz brotar as folhas novas. Daqui a duas ou três semanas, o rosa terá desmaiado para branco, ainda mais atenuado pelo verde da folhagem. Também em Amarante, perto destas duas, vegeta uma pequena e bonita árvore da espécie C. kousa, a qual, por nunca fazer o espalhafato das suas congéneres, nunca aqui trouxemos: as suas flores, rodeadas por brácteas brancas, surgem ao mesmo tempo que as folhas. A terceira espécie de Cornus cultivada em Portugal, presente no Jardim Botânico do Porto e em alguns jardins privados, é a C. capitata, que é igualmente pouco dada a exibicionismos primaveris e se distingue das outras duas por ser de folhagem perene.

07/04/2008

À pesca do sábado perdido




É sabido que não existem dias felizes, mas tão só a memória nostálgica de dias que nunca foram ou a esperança ingénua de outros que nunca serão, como diria Fernando Pessoa se tivesse escrito sobre o assunto. (Coisa que na verdade ele fez insistentemente, mas seria trabalhoso desenterrar agora uma citação à propos, e sendo para o que é a pastiche serve muito bem.) Toda a poesia lírica nasceu do carácter ilusório e fugidio da felicidade. Os poetas lamentavam o que supunham ter perdido, mas era a falta de introspecção que os iludia: na realidade, choravam o que nunca haviam tido. Todas as qualidades raras dos grandes momentos que recordavam provinham das cores mágicas com que a memória, essa sentimentalona, os tingia.

O lirismo não era só alimentado pelos males-de-amor; também nele concorriam os lembrados prazeres do bucolismo. O peixe que se pescou e de que nunca mais se viu igual era tão legítimo motivo poético como a alma gentil que se partiu. Nem a alma era assim tão gentil nem o peixe tão formidável, mas quem iria desdizer o lacrimoso poeta?

Nunca pesquei, quer à linha, quer de qualquer outro modo, mas julgo que quem arma a sua cana num sábado soalheiro persegue, mais do que o peixe, uma tarde de tranquilidade ininterrupta igualzinha àquela que nunca viveu. E a margem esquerda do Tâmega, dois ou três quilómetros abaixo de Amarante, parece o cenário ideal para essa mítica tarde, com águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego. Mas logo adiante do pescador estaciona uma família piquenicante que, insatisfeita com o pipilar dos pássaros, o cri-cri dos grilos e o cantar das águas, resolve acrescentar música à natureza e põe aos berros no auto-rádio o CD do Tony Carreira. Um pelotão de BTT's com mais de uma centena de vigorosos pedalantes levanta grossa nuvem de pó acompanhada de muita conversa e gargalhada. Passam os ciclistas, mas voltam pouco depois, que o caminho não tem saída. Duas motas ruidosas aceleram em despique. Um fotógrafo intrometido (eu) aponta a máquina quando o pescador enrola a linha: não vem nada, como é óbvio, pois desde o monstro de Loch Ness que os fenómenos sub-aquáticos se esquivam à objectiva.

Encolho os ombros e passo adiante, deixando o pescador com os destroços do seu sábado. Recolho imagens de águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego, para falsa memória futura.



Rio Tâmega: salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) e amieiros (Alnus glutinosa)

03/04/2008

Jardim natural



Quem foi o talentoso jardineiro que combinou as cores neste canteiro verdejante à beira-Tâmega? Um rumor contínuo deixa adivinhar o rio próximo para lá da cortina de choupos; mas, ao compor este mixed-border, o mesmo jardineiro preocupou-se em escolher plantas rasteiras, que não nos roubassem a vista tonificante das águas. Sobre um fundo verde de matizes e volumes variados, temos em primeiro plano o lilás do Lamium maculatum, a que se seguem o azul brilhante dos olhos-de-gato (Pentaglottis sempervirens) e, para rematar, o amarelo doce da erva-andorinha (Chelidonium majus). Embora mais discretas, outras plantas há tão indispensáveis ao conjunto como o sal à comida: gerânios, silenes, estelárias (Stellaria media), quaresmas (Saxifraga granulata), fumárias, ...

Os mais pragmáticos sustentarão que não houve aqui mão de nenhum jardineiro; outros, inclinados ao Céu ou à Terra, dirão que foram Deus ou a Mãe Natureza que, por artes mais ou menos divinas, aqui criaram o perfeito jardim silvestre. Mas todos estaremos de acordo nisto: estes jardins espontâneos, formados por plantas que ninguém semeou, são uma dádiva preciosa e frágil que ainda não aprendemos a merecer.

25/02/2008

Rio amarelo



Rio Tâmega: mimosas (Acacia dealbata), pinheiros-bravos e tojo

Não sabemos até onde vai o caminho que, partindo do Parque Florestal de Amarante, acompanha, pela margem esquerda do rio, o curso descendente do Tâmega. Talvez ele se prolongue até Marco de Canavezes e depois continue até Entre-os-Rios, onde o Tâmega entrega a alma ao Douro. Seriam trinta quilómetros bem puxados numa paisagem que de bucólica já tem pouco: casas em desalinho, uma pista para jogos aquáticos, viadutos de auto-estrada, uma barragem mais adiante para completar o estrago. E, incessante como o azul do rio, corre a seu lado o amarelo das mimosas em flor. Existem outras árvores à beira rio - salgueiros, choupos, amieiros -, mas na disputa territorial a vantagem das acácias é avassaladora; e, quanto mais progredimos rio abaixo, mais se acentua o seu domínio.

Se a vegetação arbórea nos causa justificado desgosto e não nos entusiasma a ir muito longe, o caso muda de figura se estivermos atentos à vegetação rasteira. Já aqui encontrámos várias dezenas de espécies autóctones, na sua maioria herbáceas (géneros Campanula, Chelidonium, Geranium, Lamium, Leucanthemum, Linaria, Lithodora, Myosotis, Omphalodes, Pentaglotis, Ranunculus, Saxifraga, Silene, Viola, entre muitos outros) mas também lenhosas (Calluna, Cistus, Erica). Como nem todas dão espectáculo na mesma época do ano, o nosso regresso é sempre premente. E há um dilema que nos perturba: é óbvio que urge intervir para controlar a praga das mimosas; mas, se alguém se lembra de lançar uma requalificação tipo Polis, não só desapareceriam as mimosas como seria desbaratada toda esta riqueza vegetal que passa despercebida aos olhos de muitos.

12/11/2007

Três modos de ser árvore


Taxodium distichum (cipreste-dos-pântanos) - Amarante

Em resultado da pressa que teve em subir acima das suas vizinhas, talvez para ser a primeira e a última a agarrar o sol da cada dia, esta árvore em Amarante apresenta-se esguia e desajeitada como uma adolescente. Mas tem ainda muitos anos de vida pela frente para alargar a copa e engrossar o tronco, tudo sem perder a leveza com que paira sobre as águas do Tâmega quando o rio vai cheio. Como ia em Dezembro passado, estava a árvore já pronta para hibernar; depois ela vestiu-se de verde na Primavera para se pintar de laranja no Outono; e o rio, emagrecido pela chuva que não cai, recuou vários metros, deixando-lhe os pés enxutos. Antes assim não fosse, pois é com o tronco encharcado que ela se sente bem: para poder respirar quando as raízes ficam submersas é que fez brotar os seus inúmeros narizes (ou pneumatóforos).

Originário de lugares húmidos ou alagados no sudeste dos EUA e primo das sequóias, o cipreste-dos-pântanos é uma conífera de folhagem caduca, peculiaridade que o género Taxodium partilha com a Metasequoia e com os lariços (género Larix). Não é uma árvore rara em Portugal, e temo-la visto até em jardins privados; dela conhecemos bons exemplares na Quinta da Aveleda, no Parque das Termas de Vizela e no Parque da Curia, e Ernesto Goes regista outros em Lisboa (jardim de Campo de Ourique, Jardim Botânico da U. L.), em Sintra (Quinta de Monserrate) e em Tondela (Quinta do Paço).

25/09/2007

Cipreste-de-Monterey


Cupressus macrocarpa - Parque Florestal de Amarante

As árvores não têm que respeitar as linhas divisórias dos estados, mas as 50 parcelas que compõem os EUA são suficientemente vastas para albergarem numerosos endemismos, como esta árvore com que fechamos o nosso ciclo de ciprestes: trata-se do cipreste-da-Califórnia (também conhecido como cipreste-de-Monterey), que não ocorre espontaneamente em nenhum outro estado americano. Este cipreste, que se distingue pelos seus ramos ascendentes, quase verticais nas árvores jovens, e pelo tronco encordoado, apresenta-se ora com hábito colunar (é o caso de alguns exemplares no Parque de Serralves), ora com copa ampla e arredondada, como a árvore na foto. Cresce rapidamente e não costuma ultrapassar os 30 metros de altura, mas o tronco é por vezes de grande envergadura. Os aveirenses recordam decerto o grande cipreste-de-Monterey, com quase 7 metros de perímetro do tronco, que existia no jardim do Parque D. Pedro, à face da avenida Artur Ravara: classificado de interesse público em 1939, danificado por um ciclone em 1942, sobreviveu até há meia-dúzia de anos com a copa muito reduzida; mas dele hoje só resta a base do tronco, testemunho assaz elucidativo do colosso que ele foi. Tive a sorte de o ter conhecido ainda vivo, mas não a previdência de o fotografar.

O cipreste-da-Califórnia, conterrâneo dos Beach Boys, dá-se muito bem à beira-mar. Há tempos, alguém teve o atrevimento de eleger as 10 mais magníficas árvores do mundo: a lista não terá sido compilada por votação democrática, mas a escolha, apesar da hegemonia norte-americana, revela algum esforço de equilíbrio. Em décimo lugar ficou justamente um Cupressus macrocarpa, notável não pelo tamanho mas pelo lugar onde lhe calhou viver: isolado num rochedo batido pelos ventos e marés do Pacífico.

P.S. Ver aqui fotos antes-e-depois do cipreste-de-Monterey do Parque D. Pedro, em Aveiro. Obrigado, Pedro!

10/05/2007

Cerejeira-preta



Prunus serotina nas margens do Tâmega

Além dos plátanos, choupos, freixos, salgueiros, amieiros e de uma ameaçadora população de mimosas, as margens do Tâmega em Amarante acolhem algumas árvores exóticas invulgares, plantadas talvez pelos serviços do Parque Florestal: encontramos lá um Taxodium distichum com um pé mergulhado na água; uma Maclura pomifera; e uma Prunus serotina, espécie de cerejeira tão incomum entre nós que nem é mencionada no livro Portugal Botânico de A a Z. Originária do oeste do Canadá e dos EUA, onde é conhecida como black cherry (cerejeira-preta em tradução literal), é uma árvore de porte respeitável se comparada com a maioria das suas congéneres, atingindo alturas de 30 m. Tal como as europeias P. lauroceraus e P. lusitanica, as flores da P. serotina aparecem em cachos, que no seu caso são pendentes; mas, dessas três espécies, só a Prunus serotina é de folhagem caduca. A sua floração não é vistosa, pois só surge depois das folhas, ao invés do que sucede com as espécies do género Prunus mais ornamentais. Os seus frutos são comestíveis mas adstringentes, e a sua madeira, forte e de um bonito tom vermelho-acastanhado, é muito valorizada em marcenaria.

27/04/2007

Explicação da flor



Cornus florida - Parque Florestal de Amarante, Abril de 2007

A beleza em Portugal é uma raridade, e por isso voltamos sempre aos locais onde a encontramos. É a terceira vez que esta árvore em Amarante, que nem sequer logrou ter nome em português, aparece no nosso blogue: ora vista de longe como uma mancha rosa na paisagem; ora de perto para melhor lhe admirarmos a floração. Hoje vêmo-la de mais perto ainda, e aproveitamos a ocasião para lhe desvendarmos as flores. Essas grandes pétalas rosadas são na verdade brácteas - ou seja, folhas modificadas que se mascaram de pétalas. E a flor que vemos à esquerda não é propriamente uma flor, mas sim um arranjo floral: no seu centro, em vez de estames, o que há é um ramalhete de minúsculas flores.

Essas inflorescências que parecem flores são uma das características do género Cornus, se bem que nalgumas espécies as brácteas vistosas estejam ausentes. São cerca de seis dezenas as espécies de arbustos ou pequenas árvores, originárias da Ásia, Europa e América do Norte, que integram o género Cornus, muito cultivado em países onde a jardinagem é levada a sério mas quase inexistente nos jardins portugueses. Os frutos são bagas carnudas, em regra vermelhos, muito apreciados pelos pássaros. A Cornus florida é nativa da costa leste dos EUA, e atinge uma altura máxima de 10 metros. Na sua forma mais comum apresenta «flores» brancas, e não cor-de-rosa como as deste exemplar.

26/04/2007

Ulmeiro - Amarante



Ulmus glabra 'Pendula' no Parque Florestal de Amarante -fotos: Abril de 2005
A manchinha cor-de-rosa na fotografia da direita corresponde à copa de um Cornus florida aqui já retratado Este ulmeiro "chorão" fica à sua frente, à direita.

30/10/2006

Do outro lado

One gift the fairies gave me (three
They commonly bestowed of yore):
The love of books, the golden key
That opens the enchanted door.

Andrew Lang (1844-1912) in Ballade of the Bookworm

Vivemos hoje num mundo de portas fechadas; portas cada vez mais fortes, com miolo de aço, fechaduras de quatro voltas e sete trancas, cordão de segurança e óculo para avaliar instrusos. O tema da porta misteriosa sempre foi terreno literário fértil, mas as portas fechadas de hoje não têm qualquer mistério: escondem medrosos como nós.

E que faz a imaginação quando encontra uma abertura prosaica, sem porta e sem resguardo, que não leva a nenhum lugar de encanto? Isso é o que se vê à luz crua do dia, mas quem sabe o que aparece mais tarde, quando nos fechamos em casa? Há lugares mágicos que já não são para o nosso tempo. Uma Alice moderna nunca seguiria o Coelho Branco pela toca abaixo, pois os pais, mesmo deixando-a brincar à beira-rio com a irmã, nem por um instante a perderiam de vista.



Quem, a hora propícia, se encontrar na margem direita do Tâmega, em Amarante, com a única banda sonora do rio e dos bichos nocturnos, não deixe de seguir a criatura furtiva que desliza para dentro do plátano. Depois conte-nos o que viu.