A placa de madeira à entrada faz-nos crer que se trata de um parque excepcional, cuidado com desvelo, onde a natureza se refugiou aliviada. Porém, se o Parque Municipal de Alta Vila, em Águeda, foi grandioso, isso já não se nota. São muitos os espécimes em ruínas, tem um aspecto geral de abandono, e há até quem ouse estacionar dentro dele a pretexto de organizar actividades para crianças.
São certamente do desenho original, gizado por Eduardo Caldeira, vários ciprestes-do-Buçaco (
Cupressus lusitanica), um deles de porte majestoso, um belo arbusto-bananeiro (
Michelia figo), camélias (
Camelia japonica), cedros (
Cedrus libani e
C. atlantica), castanheiros-da-Índia (
Aesculus hippocastanum), carvalhos (
Quercus robur), castanheiros (
Castanea sativa), austrálias (
Acacia melanoxylon), loureiros (
Laurus nobilis), tílias não podadas ao pé de banquinhos soalheiros, uma colecção variada de palmeiras tropicais, uma melaleuca colada a uma estufa, um bambuzal desengraçado e muita passarada no seu uso de passarinhar. Mas foi uma fantástica palmeira-do-Chile que nos arrebatou a atenção.
A
Jubaea chilensis é a única espécie do género
Jubaea e já vai rareando no seu habitat natural, uma pequena região montanhosa no centro do Chile. Este estado vulnerável, que só se resolve com um convincente programa de protecção, deve-se ao crescimento lento desta planta, e, sobretudo, à utilização da seiva, rica em açúcares, na produção de uma bebida fermentada e, quando fervida, de um mel-de-palma muito apreciados na América do Sul; lamentavelmente, esta extracção exige o abate da árvore.
O que a torna tão especial? É uma palmeira monóica, de fuste liso e cinzento, com folhas sésseis, compostas, em forma de pena de 3-4m de comprimento e ráquis arqueado. Aprecia Invernos amenos, embora resista a geadas, mas, ao contrário da maioria das outras palmeiras, não se dá bem com a brisa salgada. Pode chegar aos 30m de altura, e um registo europeu destas árvores indica que a de maior porte em estufa é a dos
Kew Gardens, com 25m e 1.3m de diâmetro na base do espique. As inflorescências nascem entre as folhas protegidas por espatas e medem cerca de metro e meio; as flores roxas, cada uma com uns 30 estames, juntam-se em grupos de 3, uma feminina e duas masculinas. Raramente frutifica antes dos 60 anos; o fruto ovóide e pequenino (de ~4cm de diâmetro) é um coquito (R. A. Philippi, paleontólogo alemão, denominou-a
Micrococos chilensis) com casca impermeável e polpa fibrosa que envolve um endocarpo duro de interior branco comestível.
O nome
Jubaea é, segundo William T. Stearn (
Dictionary of plant names for gardners), dedicado ao rei Juba da Mauritânia (antes Numidia), no norte de África, que se suicidou em 46 a.C. depois de ver o seu reino reduzido por Júlio César a uma província romana. Contudo, outros autores (como G. López González, em
Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, 2006, ou os de
À sombra de árvores com história) preferem uma versão menos romanceada, e mais plausível (trata-se afinal de uma espécie chilena dedicada a um rei africano): entendem que o homenageado é o filho deste rei, Juba II, que a história guarda como culto, autor de vários tratados sobre História Natural e um apaixonado pela botânica que participou em várias expedições pioneiras à Madeira e Ilhas Canárias.
No Porto conhecemos as
Jubaea de
Vilar d'Allen, talvez contemporâneas da de Águeda. A foto da esquerda mostra a do Jardim Botânico de Coimbra, em terraço de acesso proibido. As da direita retratam a de Águeda, a mais formosa.