16.2.05

Subsídios para uma nova lei de conservação

A ciência, já se sabe, é um constante desafio ao senso comum, ao postular, com arrogante certeza, leis que contradizem toda a nossa experiência. Acreditar na ciência e desprezar os dados dos sentidos, ou sujeitá-los a uma interpretação tortuosa para que confirmem o que tão claramente desmentem, é uma das provas a ultrapassar para atingirmos a maioridade cultural. Aceitamos hoje piamente as leis físicas e demais paradoxos científicos, e calamos a voz interior que nos quer perturbar com antigas e ingénuas dúvidas.

As nossas elites vão-se também dando conta de que a ciência não é um edifício acabado: pois se mesmo por cá ela tem ministros, laboratórios, projectos, financiamentos, avaliações, é porque há alguma azáfama e substância (ou seja, ciência nova) por trás disso. Embora nem sempre tenham a importância da lei da gravitação universal, todos os dias se juntam novas peças ao grande edifício da ciência. A descoberta que hoje aqui divulgamos não será comparável a um tijolo desse edifício, nem talvez mesmo a um azulejo. Se o fosse, procuraríamos dignificá-la, a bem da ciência e do nosso próprio currículo, publicando-a num peer-reviewed journal.

Seja como for, aqui vai, em pré-publicação, a lei Ficus de conservação da matéria: nas plantas do género Ficus, o volume dos frutos é inversamente proporcional à área das folhas. Os dados experimentais que fundamentam esta lei foram colhidos (termo singularmente apropriado, tratando-se de figos) em Janeiro de 2005, com boa luminosidade mas em condições climatéricas anormais para a época (a seca, lembram-se?), num muro do Jardim das Virtudes, no Porto, e no Jardim Botânico de Coimbra; consistem no seguinte:

- Ficus pumila [primeira foto] - folhas pequenas e frutos grandes

- Ficus macrophylla [segunda foto] - folhas grandes e frutos pequenos

Entenda-se que este é um work in progress, e muito há ainda a aprofundar. Por exemplo: a vulgar figueira, Ficus carica [terceira foto] - folhas grandes e frutos grandes -, parece constituir uma clamorosa excepção à lei atrás enunciada, mas não nos podemos deixar iludir pelo empirismo rasteiro. Há que passar os dados experimentais pelo filtro das elaborações teóricas. Tal como no caso da pedra e da folha de papel, que deveriam manter-se lado a lado durante a queda mas de facto não o fazem (porque além da gravidade há a resistência do ar), outros factores, por ora desconhecidos, podem determinar a anomalia da Ficus carica.



Fotos: pva / mdlramos

2 comentários :

asa disse...

Publique-se ja' em "peer reviewed journal"!

;-)

Paulo, podes adicionar esta outra "ficus-law" fundamental: o tamanho do pingo de mel, que se forma na base dos figos com o mesmo nome, e' exponencial e directamente proporcional ao deleite que oferecem esses figos maduros a quem os degusta.

Assim me confirmaram as centenas de figos que tenho comido em Sao Joao, ilha do Pico. E tenho a certeza, absoluta e "ademais" confirmada pela amiga estatistica, que os figos do Pico sao os melhores do mundo e arredores.

E' por isso, mas nao so', que a ilha do Pico me parece o local mais adequado para viver Setembros.

Paulo Araújo disse...

Olá, Verónica. Estive no Pico uma só vez, numa excursão de um dia só, durante uma estadia na Horta. Vi a ilha a correr e ninguém me falou dos figos; só provei as uvas (e mais tarde, em visitas à Terceira, o vinho). Tenho que voltar, claro: mesmo sem ambições políticas, hei-de subir ao cume do Pico e comer lá muitos figos.