15.2.08

Hapu'u pulu

Com o Jardim Botânico de Coimbra fechado ao fim-de-semana por falta de dinheiro para pagar aos vigilantes, visitá-lo é agora mais fácil do que nunca. Esta afirmação nada tem de irónico, e o paradoxo explica-se sem dificuldade: tendo-nos habituado, noutros tempos, a visitar o jardim aos sábados ou domingos, era sempre uma frustração encontrar quase tudo fechado. Na verdade, o jardim não abria: fingia abrir, mas os portões da mata, das escolas sistemáticas e das estufas nunca nos eram franqueados; restavam-nos o quadrado central e o fraco consolo de avistar ao longe plantas e flores que a distância nos impedia de identificar. Agora, porém, quem quiser tão só entrar no Botânico de Coimbra tem mesmo que ir à semana; e, se puxar conversa com os simpáticos jardineiros, ganha acesso livre aos locais, normalmente vedados ao público, onde eles estiverem a trabalhar. Foi com esse estratagema que, pela segunda vez na vida, penetrámos na proibidíssima mata e pudemos enfim fotografar o célebre bambuzal (da primeira visita, por imprevidência nossa, não guardámos registo). É também na mata que se situa um dos melhores miradouros de Coimbra, abrangendo a baixa da cidade e as duas margens do Mondego. De lá se avista, junto ao rio, um extenso aparcamento ladeado pela impecável alcatifa de um relvado sem sombras, sem flores e sem meandros: é o Parque Verde do Mondego, uma obra tão aliciante para os apreciadores de jardins e da natureza como o CoimbraShopping - que, é bom ressalvá-lo, fica no Vale das Flores.


Cibotium glaucum

Por apenas 2 euros, podemos ainda visitar as estufas sem o frisson da clandestinidade, mas a melhor altura para o fazer é entre Março e Abril, quando a maioria das plantas está em flor. Como explica este texto, a estufa grande está dividida em três corpos, correspondendo cada um deles a um clima diferente: tropical, subtropical e temperado. O terceiro corpo nem sequer é aquecido, e algumas das plantas que lá se encontram (como os hibiscos e as justícias) sobrevivem perfeitamente ao ar livre nos nossos jardins. São os fetos que compõem a parte menos comum e por isso mais interessante desta colecção, com a vantagem suplementar de não hibernarem no Inverno.

Hapu'u pulu é o nome indígena do Cibotium glaucum, feto arbóreo havaiano presente em todas as ilhas desse arquipélago, onde é a espécie vegetal dominante no substracto arbustivo das florestas húmidas. Em inglês chamam-lhe blond tree fern por causa da penugem alourada que reveste as folhas embrionárias e a base das hastes (ou ráquis) das folhas adultas; o epíteto glaucum refere-se ao tom esbranquiçado do verso das folhas (ou frondes). A planta atinge os 7 metros de altura e as suas grandes frondes arqueadas, triplamente pinadas, chegam a medir 3 metros.

O feto-arbóreo-louro esteve na base de uma indústria efémera: a sua penugem sedosa (chamada pulu) foi usada no século XIX como enchimento de almofadas e colchões. Felizmente para a planta, que é de crescimento lento e com frequência era sacrificada para a extracção da fibra, verificou-se que o pulu se desfazia em pó ao fim de poucos anos, o que ditou o fim dessa indústria.

3 comentários :

António disse...

Embora compreenda, ao contrário do que afirma, constitui uma grande perda para a cidade o encerramento do Jardim Botânico durante os fins-de-semana. Cresci utilizando o Jardim como um espaço que me habituei a considerar de todos, por isso da Cidade. Cidade que o desprezou, institucionalmente falando, mas também civicamente. E que altura melhor para dele desfrutar, agora com a minha prole, do que nos Sábados e Domingos?
Perdi o hábito, vejo-me impossibilitado de o cultivar nas minhas filhas. Há maior perda?

Paulo Araújo disse...

Tem toda a razão. Para quem vive em Coimbra, o encerramento do Jardim Botânico ao fim-de-semana é uma perda grave. Custa-me perceber como não há uma parceria com a Câmara Municipal que evitasse que o abandono do jardim, notório há já muitos anos, chegasse a este ponto. E não há nenhum mecenas que dê uma ajuda?

me within me disse...

Parceria com a Câmara de Coimbra? A mesma que deixa as companhias de teatro da cidade sem tecto e sem apoios? A CMC tem conhecimento, obviamente, da situação em que se encontra o Jardim Botânico... Fez alguma coisa? Tomou a iniciativa de apoiar? Nada. Ou talvez as coisas não sejam tão simples como gostaríamos que fossem, pois o Jardim pertence à Universidade de Coimbra...