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06/10/2009

Azevim


Ardisia crenata Sims

.....Também ele vai morrer, o verão.
.....Do verde ao vermelho
.....as maçãs ardem sobre a mesa.
.....Ardem de uma luz sua, mais madura.
.....E servem-me de espelho.
.....Eugénio de Andrade (As maçãs, 2002)

Antes que o leitor atarefado reclame que já aqui viu esta planta, que assim deixa de cá vir, permita-nos interrompê-lo para lhe dar toda a razão. Tome lá. Vai também um cafezinho? Não, não incomoda. Ah, desse não, as bagas do café-de-jardim são para os passarinhos. Ora oiça.

Há realmente poucas diferenças a assinalar entre a A. solanacea e este arbusto de copa densa, rizomatoso, entouceirado, originário do sudeste asiático, sul da China e do Japão. As folhas são de um verde mais escuro e brilhante, um pouco onduladas, e têm margens crenadas. As flores, de Verão, perfumadas e minúsculas, têm um tom rosa mais esbatido, quase branco, e nascem em ramalhetes em que os longos pedúnculos florais, crescendo a diversos níveis da haste, se elevam todos à mesma altura (corimbos). Os cachos pomposos são de bagas de um vermelho vivo...

- O que disse?... Sim, vermelho morto seria bizarro... quanta graça, a sua...

...como as do café, fonte importante de alimento para aves. E é de menor porte, não indo, em geral, além dos 6 pés. Fácil de cuidar, relativamente tolerante ao frio, capaz de germinar em condições ambientais adversas, pode tornar-se uma praga difícil de conter.

Um bonito sucedâneo do azevinho, não acha? Oh, adormeceu...

13/06/2008

Madressilva-entrelaçada


Lonicera etrusca

....Deve haver um lugar onde um braço
....e outro braço sejam mais que dois braços,
....um ardor de folhas mordidas pela chuva,
....a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, O peso da sombra (1982)
(1923 - 13 de Junho de 2005)

07/06/2008

Orquídeas da Serra dos Candeeiros (1)


Ophrys scolopax

«Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação de trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?»

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio (1978)

22/05/2008

Cravo lilás


Dianthus monspessulanus subesp. sternbergii

«Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo. (...)

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.»

Eugénio de Andrade, Primeiramente (As Palavras Interditas, 1951)

11/05/2008

Glory of the sun


Leucocoryne coquimbensis

....Que fizeste das palavras?
....Que contas darás tu dessas vogais
....de um azul tão apaziguado?

....E das consoantes, que lhes dirás,
....ardendo entre o fulgor
....das laranjas e o sol dos cavalos?

....Que lhes dirás, quando
....te perguntarem pelas minúsculas
....sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, Matéria Solar (1980)

13/04/2008

Sobre o verde do trevo


Trifolium arvense

«De alguns corpos se diz que são transbordantes, quando se deitam é raro não deixarem sinais: pequenas manchas de sol recente ou delicadas sementes de alegria. Da substância vertida sobre o verde do trevo se diz também que é eloquente (eu diria irradiante), não sei se pelo cheio ao oiro da palha humedecida, se pelo brilho de seda acariciada. O que sei é que fascina as formigas e põe em cólera as éguas que nenhum vento emprenhou.»

Eugénio de Andrade, Memória de outro rio (1978)

31/03/2008

Flor-de-alecrim


Rosmarinus officinalis

....Março voltou, esta
....ácida loucura de pássaros
....está outra vez à nossa porta,
....o ar

....de vidro vai direito ao coração.
....Também elas cantam, as montanhas:
....somente nenhum de nós
....as ouve, distraídos

....com o monótono silabar do vento
....ou doutros peregrinos.
....Já sabeis como temos ainda restos
....de pudor,

....e pelo mundo
....uma enorme, enorme indiferença.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

08/02/2008

Erva de caule oco


Phyllostachys bambusoides

Os pilares desta abóbada do Jardim Botânico de Coimbra têm cerca de 150 anos, revestindo um hectare com a espécie chinesa de bambu gigante, Phyllostachys bambusoides, da mesma família do trigo, centeio, aveia e demais cereais. Em média, os caules têm uns 20 m de altura e 9 cm de diâmetro, tendo crescido cerca de 30 cm por dia na primeira semana de vida. Dão agora corpo às palavras de Eugénio de Andrade: «O verde dos bambus mais altos é azul ou então é o céu que pousa nos seus ramos». Neste país da relva, do eucalipto e do desperdício de água, é embaraçoso verificarmos que já fomos mais sábios a construir, e apreciar, jardins.

Nunca vimos um destes exemplares em flor - a qual, como a da relva, é discreta e reduz-se a estames e anteras, com duas brácteas a resguardar o conjunto, o bastante para a polinização pelo vento. E, em certo sentido, ainda bem. É que, sendo plantas rizomatosas, reproduzem-se vegetativamente, formando florestas de clones que, por isso, exibem uma floração gregária, em simultâneo; e depois de florir, a planta morre. Dir-se-ia que, ultrapassada a fase primitiva em que as plantas não possuíam flores, e aquela posterior em que todas elas se enfeitavam com flores garridas, vieram os tempos modernos em que as plantas têm, como certa escola de arquitectos, vergonha de as mostrar.

Um bambuzal como este exige manutenção adequada, para assegurar a humidade certa a estas ervas altas e as defender dos textos que anónimos apaixonados, ou visitantes deslumbrados, inscrevem nos seus tubos. Apesar de ser de folha perene, em climas mais frios parte da folhagem cai para proteger os pés dos bambus, renascendo na Primavera em leques exuberantes. E há usos tradicionais para as várias partes dos bambus: os rebentos são comestíveis e importante fonte de fibra (embora sejam pouco nutritivos e por isso os pandas consomem grandes quantidades deles); os tubos são amplamente usados na construção civil e em instrumentos musicais de sopro; a cobertura macia das canas é transformada em pasta de papel; e são raros os jardins chineses sem um recanto ornamentado com um bambu, junto a um muro e rochas harmoniosamente dispostas, a sugerir uma pintura.

19/01/2008

Mackaya bella



..............Haverá para os dias sem memória
............. outro nome que não seja morte?
............. Morte das coisas limpas, leves:
............. manhã rente às colinas,
............. a luz do corpo levada aos lábios,
............. os primeiros lilases do jardim.
............. Haverá outro nome para o lugar
............. onde não há lembrança de ti?


........... Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1989)
........... (19 de Janeiro de 1923 - 2005)

20/12/2007

Em brasa


Crocus serotinus

.... A verdade é que nunca soube o nome
.... dessa flor que nalguns olhos
.... abre logo de madrugada.
.... Agora para saber é tarde.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

16/10/2007

Lugares do Outono



......Outono, labirinto de silvas,
......de sílabas, digo: pupila lenta,
......rio de inumeráveis águas
......e de amieiros onde canta
......a derradeira luz das cigarras,
......de vidro ainda, e leve, e branca.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

23/09/2007

Fim do Verão


Emil Nolde (1867-1956)
Museu Amadeo de Souza Cardoso, 2006

Sei de uma pedra onde me sentar
à sombra de setembro
e vou falar dos girassóis,
essa flor quase de areia
que ombro a ombro com o sol
faz do peso da sua solidão
o ardor
e a glória dos grandes dias de verão.


Eugénio de Andrade
O peso da sombra (1982)

13/09/2007

Porto


Aquilegia sp. (Columbina)

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida.

Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.

Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar (1987)

25/08/2007

A figueira



Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.


Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

06/08/2007

Cardo-marítimo


Eryngium maritimum

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.

Eugénio de Andrade, Os trabalhos da mão (in Ofício de Paciência - 1994)

20/07/2007

Dedaleiras



Digitalis purpurea / Digitalis lutea

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade, As mãos (in Os amantes sem dinheiro, 1950)

14/02/2007

Corações leves

...
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

Eugénio de Andrade, Escrita da Terra (in Ostinato Rigore, 1964)



Koelreuteria paniculata - Jardim Botânico de Coimbra

Os corações da foto, que parecem feitos de papel, vão enrubescendo e ganhando brilho até se abrirem em três abas, cada uma com sua semente redondinha e escura. As flores desta sapindaceae, masculinas e femininas juntas, são amarelas com um centro vermelho e formam panículas piramidais muito vistosas. Chegam no Verão, tempo propício às paixões. Como estas, a folhagem nova, primaveril, é cor-de-rosa, passando depois por um verde lustroso e amarelecendo no Outono - a designação em inglês para esta espécie é apropriadamente golden rain tree. O nome deste género originário da China é dedicado a Joseph Gottlieb Koelreuter (1733-1806), naturalista alemão que fez numerosos testes com híbridos da planta do tabaco, atento aos mecanismos de fertilização e polinização, para confirmar experimentalmente a sua teoria sobre a sexualidade das plantas.

30/07/2006

Cacto-arminho



Sem folhas, este cacto anão mexicano (Mammillaria bocasana) é um arranjo em almofada de numerosos tubérculos que se assemelham a mamilos protegidos por espinhos que se soltam e espetam facilmente nos incautos. As flores de tom cor-de-rosa-pérola são obra dos invernos secos que temos tido e razão para esta ser das plantas mais populares entre os fãs das Cactaceaeas.

Como outros cactos, aprecia zonas rochosas e solo pobre. Contenta-se com «Uma casa que fosse um areal/deserto; que nem casa fosse;/só um lugar/onde o lume foi aceso, e à sua roda/se sentou a alegria»*.

*Eugénio de Andrade, O lugar da casa (in O sal da língua, 1995)

22/02/2006

Com um pezinho na água



Poucos são os géneros de folhosas que como o Salix (salgueiros) tantos usos permitem: por exemplo, além de geralmente muito ornamentais (destacando-se entre nós a chinesa S. babylonica, o chorão de galhos graciosos e pendentes tidos como o melhor dos vimes), a espécie S. alba produz a madeira macia e leve com que se fazem os tamancos ou os bastões de críquete, a boa cestaria muito deve à S. viminalis, e a S. cinerea é fonte de matéria prima para o carvão dos lápis. Em todas as espécies o ritidoma contém salicina, um alcalóide usado para fabricar ácido acetilsalicílico, o princípio activo da aspirina.

Reunindo mais de 300 espécies dióicas (cada planta tem exclusivamente flores femininas ou masculinas) nativas do hemisfério norte, este género destaca-se também pela diversidade de ecossistemas a que se adaptou, embora a maioria prefira solos húmidos de bosques ou zonas ribeirinhas - facto talvez relacionado com a vida curta das suas sementes que perdem cedo a sua capacidade de germinação. Assépalas e apétalas, as flores dispõem-se em amentilhos, sendo as masculinas as mais vistosas.

Disse Eugénio de Andrade (Palavras em Serrúbia, 2003): «Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos: plantem nesse lugar um plátano, onde o vento enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos; ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco. Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for, a terra ficará mais habitável. Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.»

Fotos: pva 0502 - salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) em flor nas margens do rio Ave em Santo Tirso