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03/07/2010

À beira-mar sem trabalhar



Orobanche arenaria Borkh.

.....Estirado na areia, a olhar o azul,
.....ainda me treme o parvalhão do corpo,
.....do que houve que fazer para ganhar o nosso,
.....do que houve que esburgar para limpar o osso,
.....do que houve que descer para alcançar o céu,
.....já não digo esse de Vossa Reverência,
.....mas este onde estou, de azul e areia,
.....para onde, aos milhares, nos abalançamos,
.....como quem, às pressas, o corpo semeia.

.....
Alexandre O'Neill, Fim de semana (Poesias Completas, 1951/1986, INCM)

21/03/2010

Aos desarvorados

A Plataforma por Monsanto lançou um abaixo-assinado, dirigido ao presidente da Câmara de Lisboa e ao seu vereador dos espaços verdes, para que cessem as tropelias que têm sido cometidas contra o parque florestal de Monsanto: abate indiscriminado de árvores, continuação da actividade do campo de tiro, instalação de equipamentos e de actividades com impactos elevados. Os fundamentos do abaixo-assinado estão sintetizados neste documento. Quem quiser subscrever o protesto, pode fazê-lo aqui.
Ginkgo biloba L. - árvore nascida de semente em 1754 - Kew Gardens

Em Espanha, aqui há uns anos, estava em andamento o projecto de cortar as árvores que ladeiam as estradas, com o objectivo de diminuir o número de acidentes graves na circulação automóvel. Um sujeito, em vez de ir bater no tronco, voaria até ao campo e com isso, certamente, muita vida seria poupada. Foi por diante o projecto? Não sei. Só sei que me pareceu uma ideia tonta, talvez porque ainda não morri contra uma árvore...

Não deixar as árvores «virem» à estrada que resolve, afinal de contas? Haverá outras maneiras menos selvagens de poupar vidas: aperfeiçoar a mecânica dos carros, melhorar (ou açaimar) os cérebros dos condutores, etc.

Hoje, que é o Dia da Árvore, pensemos nas árvores que foram sacrificadas pela nossa colectiva e sôfrega tontaria. Qual de nós não terá uma querida ausente sob a forma de uma árvore que lhe acena de muito longe no tempo? Do recanto de jardim em que havia aquela árvore, lembras-te? Caducada a folha daqueloutra, recordas-te do fino desenho invernal que os teus olhos dela recortavam contra a lividez do céu? Pois olha, olha: agora, no lugar dessa árvore, desencaixotaram um novo prédio. Conta-lhe as janelas, dá pasto melancólico aos teus tristes olhos de citadino encarcerado. Tens candeeiros. Que queres mais?

A Primavera já está a acender as suas árvores. Põe qualquer coisa como uma flor em qualquer coisa como uma lapela e sai de assobio para a rua. Sê atrevido - e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

18/12/2009

Desaprender


Euphorbia milii Des Moul. [variedade cultivada]

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».

Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.

Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.

Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios. É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.

Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim (1985)

01/10/2009

Azevim batøteiro


Ardisia solanacea Roxb.

.....Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
.....transborda e escorre, já rio no chão,
.....e gosto de quem lhes segue o sonho
.....e lhes margina o rio com árvores de papel.

.....Alexandre O'Neill (Abandono vigiado, 1960)

A família Myrsinaceae é de tamanho médio, com 39 géneros e umas 1250 espécies que preferem regiões quentes ou temperadas, exibindo maior diversidade no Velho Mundo (expressão que nos faz andar à procura do Novo, que imaginamos ainda não mobilado e a cheirar a verniz, mas que de facto se refere ao território «conhecido» pelos europeus até ao século XV, ou seja, Europa, África e Ásia). Os seus arbustos gozam honesta fama de muito ornamentais: as flores são pequeninas mas vistosas, com simetria radial e tons de rosa-ou-branco-pérola; a folhagem é perene, coriácea e de um matiz de verde que contrasta com as drupas cor de coral, negras quando maduras, que se mantêm na planta por meses depois de amadurecerem. Características que as tornam concorrentes - sem mais adornos nem podas para caberem na sala - do azevinho e das coníferas na tarefa natalícia de alegrar os lares.

O género Ardisia é da Ásia e América tropicais; a designação provém do termo grego árdis, ponta de dardo, em alusão às anteras (extremidade dos estames onde mora o pólen) pontiagudas. A Ardisia solanacea, nativa da Índia, é um arbusto glabro que pode atingir uns 15 pés de altura. Floresce no Verão, com inflorescências em cimeira, e as bagas maduras são pretas. É exigente quanto à qualidade do solo, à sombra para a sesta e à rega regular, mas retribui o desvelo com um vasto uso medicinal. As flores são hermafroditas com os estames unidos, como já vimos no género Solanum.

25/05/2008

Pedradas


Paphiopedilum sp.


«Amodorrado, que posso eu fazer para vencer este frio, esta pedrada de frio?

Saco de água quente no regaço, ao alcance da mão o bagaço, (...) trazer, atada à nuca, uma pedra de gelo.

Quando a pedra derrete, o que só acontece muitas horas decorridas, o frio que, então, se sente é, praticamente, calor.»

Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

02/12/2007

Orelhinhas-de-rato


Myosotis discolor

«Tenho a impressão de que os fotógrafos que conheço pessoalmente (os «de arte», evidentemente) andam todos à procura de uma razão, melhor, de uma «filosofia» que lhes explique o porquê da fotografia e lhes forneça um guia para a acção (a de fotografar, claro). Vivemos em tempo de exegetas. Explicar a criação (o criado) tornou-se tão importante (ou mais) do que própria criação. Nunca o aparato crítico-exegético se viu tão apetrechado e com gente tão dotada como hoje. Diremos até, que, nos mais felizes dos casos, a exegese é, só por si, uma verdadeira obra de arte. (...)

Volto aos meus bons amigos fotógrafos para os compreender nas suas preocupações e os prevenir nas suas ambições. Descobrir a fórmula que nos permita - a nós, criadores - repetir os milagres é uma tentação bem humana. Mas não esqueçamos, clique!, bons amigos, que a arte é desregra permanente. Uma fórmula na mão só nos garante que seremos capazes de nos repetir ad infinitum para os basbaques, a começar pelo basbaque que há em nós. Uma fórmula não abre caminhos; fecha caminhos. Deixem que cada um dos vossos momentos felizes não se repita mais.

À parte isso, filosofem como quiserem e descubram, a cada milagre, que não sabem nada, mesmo nada, e que o melhor ainda é repartir sempre do zero.

Cautela, amigos, com o olho mobilado pelo lugar-comum.»

Alexandre O'Neill, Uma coisa em forma de assim (1985)

10/08/2005

O papel de malmequeres


Foto: pva 0503 - Osteospermum ecklonis

«O papel de parede fora escolhido pela embaixatriz (...) A embaixatriz era originária do campo. No campo há flores. No campo evocado ainda mais. A embaixatriz inclinava-se para as flores. Para as flores não em estado ou circunstância de jarra, entenda-se, mas para aquelas que alegram, humílimas, pastos e bosquetes, para aquelas que a sandália de São Francisco pela certa sempre evitou. Hesitara entre um papel que repetia, sobre fundo verde-claro, uma papoila encurvada, quase borboleta ao vento, e um outro que recapitulava, palmo a palmo, um tufo de malmequeres. Por sentimento, foi para os malmequeres. Por cálculo, evitou a papoila (...)

*
* *
Dois meses decorridos, já o gato siamês («O teu terceiro filho!», como dizia o embaixador) desfizera, pétala a pétala, um tufo de malmequeres à altura da pata. O bichano, de seu normal, não era destruidor. Qualquer almofada ou pufe lhe servia de pedestal para as intermináveis sonolências de deusete. À entrada de alguém, abria e fechava as pálpebras. Tirado o retrato ao efémero, reentrava na moleza da sua eternidade. Um tufo de malmequeres - e só aquele! Não havia, perto, franja ou pingente que pudesse, com mecânicas negaças, lembrar ao gato que era gato. Nenhuma sombra dançante ali se projectava.
- Caprichos do Amok! - decidiu a embaixatriz (...)
*
* *
Ao sair o último convidado, um comissário de peito refulgente, o embaixador abandonou-se à poltrona, folgou o colarinho e pediu à embaixatriz que mandasse deitar as criadas e lhe preparasse um uísque (...) A embaixatriz trouxe-lhe o uísque e a carinhosa repreensão do costume. A chá de limão acompanhou o marido. Os dois acabaram por tirar os sapatos. A embaixatriz enroscou-se, escondendo as pernas sob a saia. O embaixador esticou-se e fez ginástica com os dedos dos pés. Dedos a mexerem dentro de peúgas. Dedos de embaixador dentro de peúgas de embaixador. De embaixador, que chatice, e logo num país daqueles! Comissários que entram com o peito a cintilintar...
- ... E se calhar amanhã cais em desgraça!
- Quem? Sobressaltou-se a embaixatriz.
- Estava a pensar no comissário...
*
* *
Com pezinhos de lã - esse não precisava de tirar os sapatos - Amok aproximara-se. A embaixatriz ensaiou tagatés. Amok não ligou. Parecia fascinado. Passou, como um fantasma, entre o homem e a mulher. Correu. Estacou junto à parede. Retesou-se. Saltou de pata no ar sobre o tufo de malmequeres destruídos. Bufava e rouquejava.
Embaixador e embaixatriz entreolharam-se. Sérios. Ouviram, então, um estalido que vinha do interior da parede. Um simples ruído nítido.
- Ratos? - perguntou a embaixatriz com a chávena suspensa entre beber e entornar.
- Microfones! - respondeu o embaixador pousando o copo.
E com uma ponta de orgulho, o homem levantou-se e foi acalmar o Amok. Com uma ponta de orgulho, sim! Ele, o pequeno embaixador do pequeno país, já merecera a «visita» dos microfones...»

Alexandre O´Neill, Uma coisa em forma de assim (Editorial Presença, 1985)

11/08/2004

Arborescer

«Recordo o senhor Leitão, amigo e defensor da Árvore, publicista que opuscularmente se produzia. O senhor Leitão postara-se ao lado da Árvore tal como alinhara com o Bem. Não há aqui pardal de troça. (...) Quando o conheci pessoalmente (primeiro, aconselhara-me com ele por correspondência sobre a forma de organizar um herbário) tive a impressão de que aquele homem já havia sido árvore, e pensei que, tal como sucede com o homem e o seu cão, Leitão incorporara à sua própria estrutura certos atributos arbóreos. Se assim era, devia existir algures, pela regra da interacção, uma árvore parecida com o homem Leitão. Afeiçoei-me tanto a essa ideia que, quando nos encontrávamos, lhe perguntava sempre:
- Então como vai, como está a sua Árvore?
Leitão sacudia os ramos e, a despassarar-se, ria.»

Alexandre O'Neill, Uma coisa em forma de assim, Editorial Presença (1985)

11/07/2004

À figueira da Quinta de S. Pedro, pedindo à sua dona que nunca a deixe morrer

«Na profusão dos gestos, a presença: a figueira.
Merecia ir à piscina tomar banho, a figueira.
Merecia mais que muita gente,
que, semovente,
passarinheira,
não passa afinal de estar à beira.

Com seus braços,
nadaria, ao mesmo tempo, em todos os sentidos,
seria a presença inteira
(...)

- Generosa figueira,
quando estiveres doente quem te deita?»

Alexandre O´Neill, Coração acordeão (1973)