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10/12/2012

Salada de azedas



Rumex bucephalophorus L.

Já há muito que não falamos da actualidade ou de efemérides, como se o calendário humano e as vicissitudes do presente não nos dissessem respeito. Hoje abrimos uma ténue excepção, sugerindo que as azedas vão bem com os tempos que correm, e que uma salada com elas confeccionada pode dar, a custo zero, um travo avinagrado às refeições da quadra (outrora conhecida como) festiva. A habilidade de reconhecer as plantas comestíveis na natureza permite-nos, hoje em dia, poupar uns trocos; e poderá, num futuro talvez não muito distante, fazer parte do equipamento básico de sobrevivência.

O nome comum azedas é partilhado, com algumas variações, por quase todas as espécies do género Rumex e ainda por algumas do género Oxalis, que em Portugal são maioritariamente exóticas. Embora os dois géneros não tenham qualquer semelhança nem parentesco, outra coisa os une além do sabor amargo, que é a presença de doses significativas de ácido oxálico. Trata-se de um constituinte inofensivo em pequenas doses, mas venenoso se ingerido em grandes quantidades. Não é pois boa ideia uma dieta vegetariana, voluntária ou forçada, composta exclusivamente por azedas.

Os dois Rumex de hoje não são os mais indicados para consumo humano: o de cima por ter folhas de tamanho insignificante, o de baixo por formar caules duros e pouco mastigáveis. Felizmente, há outros Rumex espontâneos prontos a deixarem-se comer, entre eles avultando o R. acetosa, de grandes folhas apetitosas, espontâneo na Europa, Ásia e América do Norte.

O R. bucephalophorus e o R. induratus, não podendo ser mais diferentes um do outro, representam bem a diversidade do género a que pertencem. O primeiro é uma pequena planta anual, com folhas ovadas ou lanceoladas e de base estreita, que não atinge em geral mais que 20 a 30 cm de altura. As flores, que são hermafroditas e dotadas de pedúnculo grosso, dispõem-se em verticilos de duas ou três. É uma planta que ocorre em lugares secos um pouco por todo o país mas que se sente particularmente em casa nas dunas do litoral de Esposende.

O R. induratus, presente em todas as províncias portuguesas, é uma planta de base lenhosa que vive em rochas, muros velhos e ladeiras pedregosas. Reconhece-se pelas folhas sagitadas e sobretudo, em chegando o Verão, pelo emaranhado das hastes muito ramificadas. Cada indíviduo pode dar flores masculinas, femininas ou hermafroditas; mais decorativos são os frutos orbiculares tingidos de vermelho. É uma espécie muito comum no vale do Douro a montante da Régua.





Rumex induratus Boiss. & Reut.

11/09/2012

Tasneira-dos-brejos



Senecio aquaticus Hill

Nomes vulgares: em português, os mesmos do S. jacobaea (tasneira, erva-de-São-Tiago); em inglês, marsh ragwort
Ecologia: margens de lagos e ribeiras, pauis
Distribuição global: quase toda a Europa a oeste da linha que vai da Escandinávia aos Balcãs
Distribuição em Portugal: mais frequente no Minho, esporádica no litoral centro e no sudeste
Época de floração: Junho-Agosto
Data e local das fotos: 9 de Agosto de 2012, Rio Tinto, Esposende
Informações adicionais: o Senecio aquaticus é venenoso como o Senecio jacobaea e tem aspecto geral semelhante, dele se distinguindo pelos capítulos florais maiores, dispostos em panículas muito menos densas, e pelas folhas menos recortadas, em geral rematadas por um lobo grande e arredondado

21/08/2012

Boiardo



Utricularia australis R. Br.

Como outras plantas carnívoras que aqui mencionámos, a Utricularia sobrevive se só consumir ar, sol e água, mas não cresce tanto nem se dissemina com a mesma eficácia. Como não tem raízes, o melhor que consegue, para manter os caules delgados e as folhas (muito divididas, feitas de numerosos segmentos) perto da superfície das águas estagnadas que aprecia, é boiar. Conta para isso com a ajuda de uns balões (utrículos) que se desenvolvem nas folhas e cujo recheio ela controla habilmente. É que tais orgãos - como descobriu a naturalista americana Mary Lua Adelia Davis Treat - são também um mecanismo ardiloso para capturar pequenos animais: a entrada destes balões é sensível à presença de alimento e abre-se e fecha-se em poucos segundos, sugando água recheada de crustáceos miúdos que, assim aprisionados, são depois digeridos lentamente com enzimas apropriadas.

O género Utricularia é dos mais vastos entre os de plantas carnívoras, abrigando mais de duzentas espécies. Por existirem em quase todo o mundo, dir-se-ia tratar-se de plantas que se ajustam facilmente a habitats variados, desde que não lhes faltem humidade e nutrientes. Mas não, por cá não é fácil encontrá-las. As Floras referem a existência de três espécies de Utricularia em Portugal (U. australis, U. gibba e U. subulata), indicam até que a U. australis ocorre no noroeste mas, ao fim de dois anos de buscas no Minho, só conseguimos ver as das fotos (das outras duas só há registo de populações mais a sul do país) numa lagoa privada junto ao rio Cávado, porque o João Lourenço nos revelou a sua localização. No bordo da lagoa predominavam os nenúfares e, por isso, quase todas as flores de Utricularia estavam a meio do lago, demasiado longe para se notar a corola amarela com veios vermelhos, o esporão ou o lóbulo giboso e ondulado na margem. O fotógrafo, descontente, insistiu em voltar lá com outra objectiva no dia seguinte; como seria de esperar, desta vez o dono da propriedade (ou um seu representante) estava por perto e resmungou, mas não nos vedou o acesso. Pela primeira vez questionámo-nos sobre como e onde se compra uma lagoa.

As plantas deste género são exigentes: precisam de luz, que acácias, canas, jacintos-de-água e outras infestantes de ambientes aquáticos portugueses podem apagar sem dó; exigem a presença de certos componentes químicos na água, que não estão lá se a contaminam; e pedem um período de dormência no Inverno, não resistindo se o seu sono é perturbado. Além disso, por causa da formação de turiões durante o Inverno, crê-se que as espécies espontâneas na Europa têm origem tropical, e nem sempre o clima europeu se adequa a seres desse lado do planeta. São razões, para além da degradação geral dos habitats aquáticos, para recear pelo futuro das populações deste género em águas lusas.

09/03/2011

Arroz picante


Sedum acre L.

Nomes vulgares: uva-de-cão, wall pepper, biting stonecrop
Ecologia e distribuição: areias, fissuras de rochas e terrenos incultos desde o nível do mar até altitudes superiores a 2000 metros, no norte de África, Europa e Anatólia
Distribuição em Portugal: metade norte do país (Beira Alta, Beira Litoral, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes)
Época de floração: Abril a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2010, restinga do Cávado (Fão, Esposende)

13/01/2011

O quinto cavaleiro


Centaurium spicatum (L.) Fritsch

Para recordar os outros quatro cavaleiros (ou, mais correctamente, centauros) que já por aqui desfilaram, o leitor não tem mais do que clicar na etiqueta Gentianaceae aí em baixo. O Centaurium spicatum tem aquelas flores de cinco pétalas, delicadamente rosadas, que são apanágio do seu género; e, de facto, a sua semelhança com o C. tenuiflorum justifica algumas cautelas. Uma diferença entre as duas espécies é que, no C. tenuiflorum, o cálice da flor é notoriamente mais curto do que o tubo da corola, enquanto que no C. spicatum os dois têm aproxidamente o mesmo comprimento. Outra diferença é a disposição das flores: em umbela no C. tenuiflorum, em espiga no C. spicatum. Neste último, além disso, as flores estão geralmente todas voltadas para o mesmo lado e costumam abrir poucas de cada vez. De resto, tanto o C. spicatum como o C. tenuiflorum são ervas anuais (ou, quando muito, bienais) que raramente ultrapassam os 30 ou 40 cm de altura.

Para quê aborrecer o leitor com estas minúcias da morfologia vegetal? É que é importante estabelecer, sem margem para dúvidas, a identidade do nosso quinto cavaleiro. De acordo com João do Amaral Franco, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2), o Centaurium spicatum, no nosso país, só ocorre no sotavento algarvio e no litoral entre a ria de Aveiro e Lisboa. Tê-lo encontrado no concelho de Esposende alarga até ao Minho a sua área de distribuição. O que, aliás, não é grande surpresa, pois sabe-se de fonte segura que ele está presente no litoral galego.

O Parque Natural do Litoral Norte, que já se chamou Área Protegida do Litoral de Esposende, tem feito umas tímidas mas benéficas intervenções na foz do Cávado. Uma delas foi a colocação de um passadiço de madeira com cerca de 1,5 km de extensão ao longo do estuário do rio. É junto a esse viaduto de madeira apoiado em estacas, numa zona de vegetação rala, que mora uma pequena população de C. spicatum, acompanhada por outra igualmente escassa de C. maritimum. São vidas efémeras que só se mostram três meses em cada ano, a partir de Maio, desaparecendo com a chegada dos veraneantes.

16/12/2010

No meio é que está


Spergularia media (L.) K. Presl

É estranho que desta planta, talvez a maior do seu género na Península Ibérica, se diga que tem tamanho médio. Ou pelo menos assim se deve ler o epíteto científico media. Tratando-se de uma planta perene, entouceirada, de base lenhosa, capaz de ultrapassar os 60 cm de altura, faz figura de gigante face às herbáceas rasteiras suas congéneres (como a Spergularia rubra). Incongruências destas explicam-se geralmente pela migração entre géneros, e neste caso é isso mesmo que sucede. No seu Species Plantarum, em 1762, Lineu baptizou a planta como Arenaria media - e, no contexto do género Arenaria, o epíteto media não era inapropriado. Como é regra nestas coisas, o epíteto teve de manter-se quando, por mão do botânico checo Carl Presl (1794–1852), a planta se mudou para o género Spergularia.

A história, na verdade, é um pouco mais complicada. Há quem conteste que a planta descrita por Lineu seja aquela que hoje conhecemos como Spergularia media. Se assim for, a prioridade na descrição da planta não caberá a Lineu, mas sim ao italiano Carlo Allioni (1728-1804), que lhe chamou Arenaria maritima. O nome válido hoje em dia seria então Spergularia maritima (All.) Chiov.

Deixemos esta confusão para os entendidos e debrucemo-nos sobre a planta em si. Foi algo difícil fotografar-lhe as flores, não pela sua pequenez (uns 1,3 cm de diâmetro), mas pelo horário preguiçoso do expediente: antes do almoço, só uma se apresentara ao serviço. Depois da refeição havia mais flores abertas, mas o fotógrafo já não trazia equipamento. A flor solitária é porém suficiente para lhe vermos as pétalas brancas debruadas de rosa. Também podemos ver, ao lado dela, o fruto já aberto com as sementes castanhas a espreitar. As folhas são carnudas e lineares, de ponta aguçada, e têm 4 a 5 cm de comprimento.

A Spergularia media é uma planta subcosmopolita que gosta de sapais costeiros mas também frequenta algumas zonas no interior. É possível encontrá-la à beira-mar na companhia de uma congénere sua, a S. marina (L.) Griseb., que tem um porte mais compacto e folhas cilíndricas mais gordas e mais curtas.

11/10/2010

Dos telhados às dunas


Sedum album L.

Há dias um vizinho nosso mandou consertar o muro que separa o jardim dele de uma casa contígua, abandonada, que há muito ameaça desmoronar-se. Quem pagou a obra foi o proprietário da dita casa - que já tem ideia, logo que venham tempos melhores, do uso que lhe vai dar. Alguma cautela se faz porém necessária: com a sua fachada lisa de que apenas sobressai uma varanda de ferro forjado, a casa não parecer ser património de grande valor; contudo, aparece no PDM do Porto como imóvel de interesse municipal. Mesmo que o restauro se resuma ao fachadismo em voga, ali não poderá erguer-se prédio de muitos andares. O tempo, entretanto, não brinca em serviço: o travejamento do tecto vai caindo de podre, quebram-se as telhas, as paredes interiores reduzem-se a escombros. E talvez as obras de consolidação do muro tenham, paradoxalmente, agravado o equilíbrio periclitante do edifício, pois quem as executou começou por arrancar a vegetação que revestia o telhado. A hera agora erradicada substituía as telhas em falta e, agarrando-se às traves e às pedras, tecia com os seus caules uma espécie de rede de sustentação; quem sabe se a última que mantinha de pé a débil estrutura. Aquela casa ainda vai ser notícia nos jornais.

E nem só à hera se resumia a vida vegetal que se acolhera ao telhado e ao muro. Não havia Primavera em que os alfinetes (Centranthus ruber) se esquecessem de montar a sua multicolorida banca de flores. Menos vistosos, adivinhavam-se os umbigos-de-vénus, a cimbalária e os diversos arrozes. É possível que tudo isto regresse, mas vai levar o seu tempo, e é preciso que a casa não caia nem seja sujeita a limpezas periódicas.

Quem alguma vez tenha reparado na tenacidade com que os Sedum colonizam os lugares mais inóspitos (rochas, telhados, muros e até o asfalto das auto-estradas) não pode deixar de os admirar. São plantas suculentas que têm por vocação estender mantos de flores em lugares onde a vida parece não ser possível. Algumas espécies, com notável espírito de sacrifício, recusam todo o alojamento mais aconchegante: qualquer vestígio de solo as afugenta. Outras estão abertas ao compromisso, admitindo ocupar habitats variados. O Sedum album, por exemplo, além de ser visto nos tradicionais telhados e muros, frequenta ainda as dunas da nossa costa. Não que as areias marítimas sejam lugares de vida fácil - mas pelo menos lá este Sedum tem a companhia de numerosas outras plantas.

04/10/2010

Hércules e o centauro


Centaurium maritimum (L.) Fritsch

A mitologia grega, além de mostrar os deuses movidos por paixões tão caprichosas e irracionais como as que afligem os humanos, oferece-nos, para cada uma das suas narrativas, um emaranhado de versões contraditórias. Dá ideia que o Olimpo não dispunha de porta-vozes nem de centrais de comunicação para propagar versões oficiais que depois os repórteres da época (poetas, dramaturgos, filósofos) se encarregassem de difundir. Assim, cada um usava as fontes que conseguisse reunir; e, na falta de testemunhas oculares dos acontecimentos, inventava.

Assim aconteceu com Quíron, o mais distinto dos centauros: versado em astrologia e reputado curandeiro e naturalista, teve Aquiles e Asclépio entre os seus discípulos. A controvérsia gira à volta da sua morte. Segundo alguns, ela terá resultado de uma flecha envenenada desferida por Hércules. Segundo outros, Quíron, como todos os da sua espécie, era imortal, e não morreu com a seta, mas sim em consequência de um acordo depois firmado com Zeus: Quíron terá oferecido a sua vida em troca da salvação de Prometeu, o mesmo que ensinou os homens a usar o fogo e estava a ser comido vivo por uma águia. Reforçando esta segunda versão, conta-se ainda que Quíron recorreu aos seus amplos conhecimentos de plantas medicinais para se curar da ferida que Hércules lhe causara. Outros contrapõem que Quíron, para sua grande frustração, foi incapaz de se curar a si próprio - e quem sabe se não foram o desgosto e o incómodo, mais do que o altruísmo, que o levaram a sacrificar a vida.

Para efeitos taxonómicos, devemos aceitar que Quíron se auto-medicou com sucesso, e que a planta de que se socorreu é precisamente aquela a que hoje, em sua homenagem, chamamos Centaurium. O mundo e a arte de curar deram entretanto muitas voltas, os centauros e outras criaturas imortais desapareceram da face da Terra, e já ninguém é susceptível ao efeito placebo de uma ervinha desacompanhada de receita médica. Ainda assim, o Centaurium foi tradicionalmente usado, mesmo em Portugal, para preparar infusões que, por serem amargas como o fel, eram obrigadas pela lei das compensações a ter alguma virtude terapêutica. O nome popular da espécie mais comum em Portugal, C. erythraea, é justamente fel-da-terra.

Apesar de essas plantas, inexplicavelmente, quase não serem cultivadas em jardins, o fel-da-terra não é o único Centaurium ao alcance da nossa admiração: das cerca de vinte espécies do género, a maioria delas europeias, pelo menos nove são espontâneas em Portugal. Em geral são herbáceas anuais ou bienais, com flores cor-de-rosa (ou, mais raramente, amarelas ou brancas) dotadas de longos cálices tubulares, e folhas sésseis dispostas aos pares. Ficam-se pelos 20 a 40 cm de altura, florescem na Primavera, e gostam de lugares soalheiros como dunas, prados ou falésias.

O C. maritimum, que encontrámos em Vagos e na foz do Cávado, é especial por ter flores amarelas. O C. tenuiflorum, por sua vez, foi fotografado junto à pequena lagoa de Alvados. Distingue-se facilmente do C. erythraea pelas flores de menor tamanho e de um cor-de-rosa mais intenso.


Centaurium tenuiflorum (Hoffmanns. & Link) Fritsch

17/09/2010

As unhas na praia


Ononis diffusa Ten.

Esta planta gosta tanto de espolinhar-se na praia que as suas hastes viscosas ficam quase camufladas de areia. Mas, como nas brincadeiras infantis, a cabeça de fora (ou, neste caso, a flor) permite detectá-la sem dificuldade. Ainda que seja de pequeno tamanho (cerca de 15 mm), a corola rosada é suficientemente contrastante com o amarelo pálido do areal para não passar despercebida. E as flores, que são seguro de vida para uma planta anual, não têm o menor interesse em esconder-se: é preciso que as abelhas as vejam e façam o seu serviço, ou a espécie desaparece.

Apesar de os manuais asseverarem que a Ononis diffusa ocorre em todo o litoral português (e, mais geralmente, em toda a costa ibérica desde Cantábria até Valência), a verdade é que pouco se vê; nós só a encontrámos no concelho de Esposende, já perto da foz do Neiva. As plantas dunares vivem encurraladas entre duas ameaças: o mar que vai roendo a costa e o homem que a vai ocupando desvairadamente. E ainda há o pisoteio dos veraneantes e o assédio de invasoras como as acácias e os chorões. Muitas espécies sobrevivem a estas contingências, e algumas até têm melhorado de vida com a moda (excelente) de instalar passadiços nas dunas. Mas a O. diffusa parece fazer parte do grupo das perdedoras - que inclui, por exemplo, a Honckenia peploides, em sério risco de se extinguir em Portugal.

O género Ononis poderia confundir-se com outras leguminosas como o trevo (Trifolium) e a a luzerna (Medicago) se não fossem as flores comparativamente grandes, com estandarte bem maior do que a quilha (ler aqui uma explicação destes termos), agrupadas em pequeno número. As folhas imparipinadas, com três a nove folíolos, também apresentam margens com recorte característico. O género, que inclui arbustos, herbáceas perenes e plantas anuais, conta com umas 75 espécies, a maioria delas europeias, com nada menos que 43 presentes na Península Ibérica. Ocupa habitats variados: dunas, falésias, lugares pedregosos, matos rasteiros e prados.

06/09/2010

Água, sal & sol


Ponte sobre o rio Cávado - EN 308-4


Foz do Cávado

Cumprido mais um mês de Agosto, um relativo sossego terá regressado à foz do Cávado. É um rio que agrega muitas das paisagens marcantes do norte de Portugal. No Gerês vemo-lo desgraciosamente inchado por duas grandes barragens: a da Paradela e a da Caniçada. É lá que os aceleras de estrada se mudam para a água e dão asas à sua compulsão velocista com redobrado estrépito. Antes de chegar às barragens, porém, ou depois de escapar delas, o Cávado é um fio de água límpida saltitando de rocha em rocha com muitas árvores a servir-lhe de escolta. Junto à ponte sobre o rio logo acima da Paradela reúnem-se tantas e tão diversas plantas higrófilas (como esta) que não conheço local mais indicado para uma aula de botânica ao ar livre.

No estuário do Cávado há muito que ficou para trás o torturado relevo do Gerês. Em vez de cortar a direito para a foz, o rio ensaia uma curva para entrar no mar segundo uma trajectória quase tangencial à linha da costa. É na restinga que acompanha o rio nas suas centenas de metros finais, e também no sapal que se estende pela margem esquerda entre os núcleos urbanos de Fão e Esposende, que se encontra a justificação para se ter incluído esta área no Parque Natural do Litoral Norte (PNLN). Mas a ocupação desregrada de caminhos, dunas e pinhais pelos veraneantes, juntando-se à construção caótica que avassalou a zona (torres de Ofir e não só), torna inverosímil que este seja um espaço protegido.

Que há valores naturais a proteger, não se duvida. Porém essa protecção não surge magicamente com o decreto que cria uma área protegida. É preciso impor regras e vigiar o seu cumprimento, tarefas em que o PNLN é manifestamente omisso.


Armeria maritima Willd.

Uma das preciosidades do sapal (ou juncal) do Cávado, também presente na foz do vizinho rio Neiva, é a Armeria maritima, que florece vistosamente na Primavera e se dá bem em águas salobras. Em Portugal há muitas espécies de Armeria, mas aquelas que preferem zonas costeiras (como a A. welwitschii) estão concentradas no centro e sul do território. Pelo litoral norte ficamos só com a A. maritima e a mais discreta A. pubigera, que no nosso país são exclusivas do Douro Litoral e do Minho.

A A. maritima tem uma distribuição global muito ampla, abrangendo a América, a Europa e a Ásia. Na Europa ocorre não só em toda a costa atlântica desde o norte de Portugal, mas também na Grã-Bretanha, Itália e Balcãs.

10/07/2010

Sapeando nas dunas




Honckenya peploides (L.) Ehrh.

Como nós, esta planta aprecia a maresia e a água fresca. No caso dela porque é mais fácil fixar-se na areia grossa que dá forma ao topo das dunas embrionárias - que são contudo as mais próximas da borrasca e as mais vulneráveis à erosão - ao mesmo tempo que beneficia da presença dos polinizadores que um curso de água doce naturalmente atrai. Por isso, instala-se em areias marítimas vizinhas da foz de rios. Pode encontrar-se em toda a costa da Europa ocidental, de Portugal até ao Ártico, mas esta opção pelo risco está a comprometer a sua existência: ou a praia lhe foge, desalojando-a, ou a enterra viva, ou as suas sementes não vingam em ambiente com tão poucos nutrientes e chão tão movediço. Por exemplo, no Mindelo e em Esposende, onde houve registo de populações numerosas, não restarão mais de 4 ou 5 metros quadrados de área ocupada pelo sapinho-das-areias. Em algumas regiões costeiras da Europa, ganhou finalmente estatuto de espécie protegida; por cá, é mais provável que o decreto não chegue a tempo.

A beldroega-do-mar é planta perene, glabra e carnuda, com talo anguloso e folhas sésseis, ovais, imbricadas em pares opostos e dispostas em patamares, evocando cada torre um pequenino templo japonês. As flores medem cerca de 7 mm de diâmetro e as cinco pétalas brancas são menores do que as sépalas. O fruto parece uma ervilha amarela (as das fotos) com vincos por onde se abrirá para libertar as sementes.

Há quem lhe chame Honkenya para poupar nos c's do nome do botânico alemão Gerhard August Honckeny (1724-1805), a quem esta designação é dedicada. Uns insistem que o termo peploides sublinha a parecença com a beldroega (do latim peplion); outros adoptam a conexão com peplo (do latim peplum), manto ornamentado usado por deuses e heróis; a terceira de muitas versões correntes lembra a semelhança da ramagem desta planta com a do género Peplis, designação atribuída por Dioscorides a uma eufórbia do Mediterrâneo.

03/07/2010

À beira-mar sem trabalhar



Orobanche arenaria Borkh.

.....Estirado na areia, a olhar o azul,
.....ainda me treme o parvalhão do corpo,
.....do que houve que fazer para ganhar o nosso,
.....do que houve que esburgar para limpar o osso,
.....do que houve que descer para alcançar o céu,
.....já não digo esse de Vossa Reverência,
.....mas este onde estou, de azul e areia,
.....para onde, aos milhares, nos abalançamos,
.....como quem, às pressas, o corpo semeia.

.....
Alexandre O'Neill, Fim de semana (Poesias Completas, 1951/1986, INCM)