Bolseiro numa universidade do centro de Inglaterra de 1988 a 1991, a minha relação com esse país não foi de amor à primeira vista. Pelo contrário: a comida insípida, os hábitos de convívio em que não conseguia integrar-me, a própria paisagem das Midlands, ainda muito marcada pelas feridas da industrialização - tudo contribuiu para acentuar uma rejeição que nunca se dissipou por completo nos três anos da estadia.
Tudo o que via ou experimentava era filtrado pelo meu desafecto. Entre os defeitos que não me cansava de comentar avultava o gosto britânico pela hipérbole: a desfaçatez com que se proclamava que um tal museu era o melhor do mundo, a loja de discos em Oxford Street a maior do mundo, a inenarrável combinação de fish & chips o mais delicioso prato do mundo, e por aí fora. Que mundo tão pequeno o deles, tão virado para o umbigo!
Mas o afastamento e o passar dos anos foram matizando essas impressões; e, a cada curto regresso, em férias ou em trabalho, ia-se revelando um país que se mantivera misteriosamente oculto durante os meus anos de residência. Abriram-se-me os olhos para o encanto da paisagem ordenada: os prados bordejados por sebes e maciços de grandes árvores; as povoações, com as torres em agulha das igrejas, aninhadas em espessos mantos de um verde acolhedor; os bairros de tijolo vermelho com os pequenos jardins invariavelmente primorosos. Todo o país parece partilhar o gosto pelo ar livre e o apego à terra. Ainda que sem rasgos deslumbrantes, esta paisagem é produto de milénios de civilização e de uma evolução sem rupturas, testemunha de um bom senso que se diria inato na domesticação humanizada do território.
Fui percebendo que sob o humor omnipresente dos britânicos palpita um orgulho afectuoso pelas pequenas e grandes coisas que fazem a identidade do país; e é à luz desse humor, desse afecto recatado, que se devem entender as proclamações grandiloquentes que chocaram a minha ressentida ingenuidade. Seria ridículo, para o temperamento britânico, declarar em público o amor desmesurado que na verdade sente pelas suas coisas; e a saída é dizer, meio a brincar, que elas são as melhores do mundo. Que o sejam ou não importa-lhe muito pouco.
[Como seria bom se em Portugal houvesse o mesmo apreço pelo que marca a nossa identidade. Quem dera, por exemplo, que tivéssemos orgulho na melhor calçada portuguesa do mundo ou nos mais bonitos canteiros floridos do mundo. Mas não: liderados por arquitectos provincianos, escondemos envergonhadamente o que é nosso para, como no tempo de Eça, nos vestirmos pelo figurino de Paris.]
A que propósito vem este arrazoado? É que, depois de anos de ausência, voltei a Inglaterra. Desta vez fiquei por Londres, onde o prato forte foram dois dias de visita aos Kew Gardens, o melhor jardim botânico do mundo. Neste caso a hipérbole é perfeitamente credível, mesmo para o visitante que desconheça o trabalho científico que faz destes 120 hectares na margem sul do Tamisa muito mais do que um diversíssimo mostruário de plantas. O que de imediato salta à vista é a pujança das árvores: acarinhadas, com amplo espaço para espreguiçarem as suas ramadas, plantadas em alinhamentos de efeito cénico deslumbrante ou isoladas para melhor se mostrarem - são sem dúvida as árvores mais felizes do mundo. Mais do que feliz, a árvore da foto - um castanheiro-da-Índia de uma espécie originária dos Himalaias (Aesculus indica) que nunca vi em Portugal - estava ridente ao sol da manhã, com as suas flores como velas acesas a pontilhar de rosa pálido a rotundez da copa. A sua visão mais do que compensou o meu desapontamento por já ter passado o auge da floração das azáleas e rododendros.
Fotos: pva 0506 - Aesculus indica - Royal Botanic Gardens, Kew