Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens

11/02/2011

O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família

Rio Arado, Gerês
O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (...)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (...)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco, O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

06/04/2007

Quedas de Fervença




Se as águas do rio Leça, aqui tão perto da nascente, soubessem das ignomínias que lhes estão reservadas nos mais de 40 quilómetros que lhes faltam percorrer até à foz, no porto de Leixões, por certo desistiriam do seu curso e, contrariando a gravidade, remontariam ao aconchego limpo de onde saíram. Mas ei-las vivas e fervilhantes de espuma, saltitando inocentemente de pedra em pedra, enquadradas pelos amieiros que já vão brotando folhagem nova neste começo de Abril, muito longe de imaginar que delas se vai fazer o rio mais poluído da Europa.

Para visitar as quedas de Fervença, esse infantário onde um rio Leça menino aprende a brincar, comece por estudar num mapa de estradas o trajecto até Monte Córdova, freguesia do concelho de Santo Tirso onde Camilo Castelo Branco quis que vivesse uma bruxa. É lá que fica o carvalhal de Valinhas, de onde parte um caminho pedestre, algo acidentado e declivoso, que se estende por algumas centenas de metros entre matas de eucaliptos. O rio Leça, atencioso com os caminhantes, faz-se ouvir quando o caminho se bifurca, apontando a direcção a tomar. E ei-lo ao fundo da ribanceira, intervalo inesperado de vida e frescura no monótono eucaliptal.

17/09/2005

Árvore dos morangos

Este é um arbusto que se sabe enfeitar: no Outono cobre-se de cachos de flores brancas, pequeninos tubos mais estreitos na ponta, e ao mesmo tempo alinda-se com os frutos vermelhos, já maduros, do ano anterior. Estes têm polpa agridoce e textura de morango (que sugere o nome inglês, strawberry tree), com pequenas protuberâncias na casca.


Foto: pva 0411

Espontâneo nas Serras de Monchique, Espinhaço e Cão, o medronheiro (Arbutus unedo) é uma ericácea essencial à economia de muitas gentes nas serranias do Algarve que conseguiram, com boa mão, paladar exigente e um prático "pesa-espíritos" (que indica a graduação alcoólica da bebida), dar fama à sua aguardente de medronho (conhecida em francês como l' eau-de-vie d'arbouse). Uma boa aguardente de medronho é transparente, com aroma e gosto da fruta, e 50º de teor alcoólico. Tal percentagem de álcool é naturalmente fonte de preocupações, e não apenas entre personagens da literatura:

A vida íntima é cheia de passagens ridículas. A gente, que escreve casos tristes, se lhes não joeirasse a parte cómica, não arranjava nunca uma tragédia. Estava ali naquela desgraçada mulher sobre as brasas do seu suplício, e à volta dela a bruta vida de seus pais - ele a esconder o pipo da aguardente de medronho, a mãe a pisar a erva semprónia, e a pedir sinceramente ao céu que lhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras.
[Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (in Novelas do Minho), 1876]

O regionalismo ervado, que designa o medronheiro nestas serras, deriva de erbatus, e esta palavra de arbutus. Unedo significa "só como um", porque o fruto é alegadamente demasiado insípido para ser apreciado em quantidade. O género Arbutus abriga cerca de 12 espécies endémicas na América do Norte, Ásia e Europa, sendo o A. unedo mais frequente na faixa oeste da costa mediterrânica.

08/08/2005

A "acácia" do Jorge


Foto: pva 0508 - Robinia pseudoacacia frente à Casa de Camilo, São Miguel de Seide

Jorge, o "filho louco" de Camilo Castelo Branco, plantou em 1871, tinha então 8 anos, uma árvore junto à escadaria de pedra no terreiro da casa de S. Miguel de Seide. A esta árvore se refere Camilo várias vezes, como em Durante a febre:

Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez inflore,
Chamai-me, que eu de Abril nas auras voltarei
.

A árvore não é uma acácia, mas uma robínia. Um deslize em taxionomia que não ofusca o apego de Camilo ao convívio com a natureza, alimentado pelas léguas palmilhadas desde a infância em pedregosas ladeiras de serra. Camilo chegou a ser um peregrino convicto de arvoredos, córregos e morros de terra agreste, aldeias, costumes e lendas populares, que depois transfigurou em palco de prosa admirável.

Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. (...) Seria engodo ao riso andar-me eu aqui abraçando árvores, se alguém me visse. Que o não saibam os tolos, nem os felizes. (...) Quando eu lá ia [às matas do Bom Jesus do Monte], voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral.

12/06/2005

Dos Jornais: Árvore de Camilo vai ser protegida

«Câmara quer transformar local num marco da passagem do escritor pela Maia - Na freguesia de Barca, junto à igreja paroquial existe uma árvore muito especial, uma vez que se pensa ter sido plantada por Camilo Castelo Branco. Um "louro cerejo", como é designado pela população, que vai ser protegido pela Câmara Municipal da Maia. Uma notícia que foi avançada pelo JANEIRO em 2002, mas que só neste Verão se deverá concretizar. » in O Primeiro de Janeiro
adenda
(julho 2007) Ler A Árvore de Camilo in maiacultura — maiacultura