26.5.08

As portas do Paraíso



Kensal Green - Londres

......My friends, we will not go again or ape an ancient rage,
......Or stretch the folly of our youth to be the shame of age,
......But walk with clearer eyes and ears this path that wandereth,
......And see undrugged in evening light the decent inn of death;
......For there is good news yet to hear and fine things to be seen,
......Before we go to Paradise by way of Kensal Green.

......
G. K. Chesterton, The Rolling English Road (1914)


No passado mês de Abril, a junta de Baguim do Monte, em Gondomar, comunicou a todos os habitantes da freguesia e demais possíveis interessados que, até final da semana, seriam cortados os eucaliptos que tinham crescido junto ao muro do cemitério «e cujas copas invadiam e sujavam as campas». A remoção de tais empecilhos era desejo antigo do povo local, finalmente consumado graças ao tacto e elevação com que a junta tratou do assunto e à atitude colaborante dos proprietários das árvores. (Comunicado completo n'A Sombra Verde.)

Se, por artes do Maligno, se desse tal reviravolta no espaço-tempo que a mesma junta de freguesia se visse com o cemitério de Kensal Green à sua guarda, é de crer que os nossos autarcas desfalecessem de horror ainda antes de porem mãos à obra: árvores grandes e muitas, alimentado-se dos mortos e lançando ao chão cascatas de imundíssimas folhas; vegetação rompendo por entre pedras tumulares quebradas, abraçando lápides caídas ou em desequilíbrio; relvados há muito por aparar; e, por todo o lado, a exuberância indecorosa das flores silvestres. Mas em pouco tempo o brio arboricida luso faria o seu trabalho; e Kensal Green ficaria tão despido e asséptico como o cemitério de Baguim do Monte - ou, para ficarmos por Londres, como o cemitério católico de St. Mary, que com ele confina a poente.



Kensal Green - Londres

Inaugurado em 1833, Kensal Green foi o primeiro cemitério de Londres a ser concebido como jardim. [Essa mesma ideia, importada de França, inspirou os cemitérios portuenses do Prado do Repouso (1839) e de Agramonte (1855) - os quais, apesar de menos frondosos do que deveriam ser, contrastam vivamente, pela muita vegetação que acolhem, com o típico cemitério português.] Desenvolvendo-se simetricamente, com caminhos de terra batida, ao longo de um eixo longitudinal pontuado por uma rotunda arborizada, ocupa um terreno de 29 hectares na zona postal NW10, entalado entre Harrow Road e o braço do Grand Union Canal que segue até Paddington. Entre sepultados e cremados, foi a última morada de mais de 250 mil pessoas, e continua até hoje em funcionamento. Não é um cemitério para elites, embora muita gente famosa lá tenha sido enterrada (não foi esse, porém, o caso de Chesterton). Harrow Road e os bairros contíguos são pobres e pouco atraentes: a mistura étnica que potenciou o sucesso de Notting Hill não fez aqui brotar lojas trendy nem despoletou qualquer boom turístico.

Tudo somado, Kensal Green é dos sítios mais bonitos de Londres. É um lugar de morte mas também de esperança; um lugar onde a vida se perpetua na folhagem nova das árvores, no canto insistente das aves, na azáfama miúda dos insectos. Encontrei lá borboletas, pássaros e flores como em nenhum outro parque londrino. Pude admirar árvores soberbas: tílias (1.ª foto), carvalhos, áceres, azinheiras, castanheiros-da-Índia (2.ª foto), faias, carpas e até um sobreiro, coisa rara nestas latitudes. A nível do solo, o amarelo dos ranúnculos disputava a primazia a uns bluebells miscigenados, hesitantes entre o azul, o branco e o rosa (3.ª foto). E não havia campa que a natureza se houvesse descurado de enfeitar com flores frescas.

6 comentários :

Lucia disse...

Deve ser assim mesmo as portas do Paraíso: jardins cheios de pequenas flores azuis, brancas, rosas, suaves frescas e lindas! Ah precisamos manter estes paraísos os construidos e os naturais!

Paulo disse...

Tanto desleixo e tantas flores vadias, sinos azuis a despontarem por onde lhes apetece, sem se cingirem a canteiros destinados para o efeito... Não, isso não é coisa digna de um cemitério decente. Vê-se logo que falta ali a boa mão severa dos peritos de jardinagem de uma Junta de Freguesia competente.

patologista disse...

Estando eu a morar em Baguim do Monte, tenho de arranjar forma de vir a ser enterrado noutro lado!
O que devem pensar de mim os meus vizinhos que todos os dias andam de mangueira a limpar os seus pátios de cimento, quando olham para o meu jardim a abarrotar de àrvores, essas poluidoras cheias de folhas!!!

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

...Ou, dito por outras palavras, os nossos cemitérios foram concebidos para uma mórbida perpetuação da morte, enquanto estes cemitérios, concebidos como "espaços de vida", celebram a morte como o natural culminar de uma vida.

A "morte" como desculpa para cortar ou podar árvores foi talvez a mais absurda, de todas as aburdas razões, com que o povo luso auto-justifica a sua "dendrofobia".

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelos oportunos comentários. Ainda tenho mais um cemitério londrino para mostrar, que aparecerá nos próximos dias. O Pedro tem toda a razão: os nossos cemitérios querem não só enterrar os mortos como negar qualquer possiblidade de vida. É como se cada morto transportasse consigo o fim do mundo.

Já agora: nunca visitei o cemitério de Baguim do Monte, e baseei-me unicamente no comunicado da junta que o Pedro divulgou na Sombra Verde. Talvez seja injusto destacar um cemitério que é igual a tantos outros e uma atitude (derrubar árvores por tudo e por nada) que é afinal vulgaríssima em todo o país. Mas enfim, quem se põe a jeito, como fez a junta de Baguim do Monte, merece servir de exemplo ilustrativo de um mal generalizado.

bettips disse...

Natureza, terra e ar.
Acho que os mortos respiram flores e nos descansam da morte, assim como aqui os vemos - (sem plástico nem eucalipto, cheiroso e poluidor...).
Mas isto são...cismas!
Ainda bem que assim fotografados, "vivemos" os olhos verdes do além.
(em Hampstead Heath há um belíssmo, de veredas...)
Abç