2.6.08

Necroturismo (2.ª parte)


Laburnum anagyroides

Sete anos mais novo do que Kensal Green, Highgate foi a segunda necrópole londrina que visitei em princípios de Maio. Estendendo-se por uma colina a leste de Hampstead Heath e confinando a norte com o Parque de Waterlow, é bissectado por Swains Lane, uma alameda íngreme onde desembocam perpendicularmente três ou quatro ruas residenciais de acesso reservado. Nem nessas ruas, nem mais acima, em Highgate Village, parece morar gente pobre. Mas em 1975, quando a companhia (privada) que geria o cemitério decidiu encerrar a metade oeste, a venda de sepulturas já não era lucrativa. Talvez por a cremação se ter já então vulgarizado, nem tão rica vizinhança de potenciais clientes salvou o negócio. Desde 1981, Highgate está a cargo de uma associação de amigos que recuperou o cemitério, organiza visitas guiadas à parte oeste, e mantém a parte leste em funcionamento normal.

Diz quem viu, e há muitos testemunhos na internet a confirmá-lo, que, das duas partes que compõem o cemitério, Highgate West é aquela que mais vale a pena visitar, por ser a mais monumental e misteriosa. Highgate East é uma extensão que só foi inaugurada em 1854, 15 anos depois do cemitério original, e é de presumir que não tenha sido planeada com requinte comparável. Acontece que já visitei Highgate East três vezes - e, por não querer esperar pelas visitas guiadas, nunca entrei em Highgate West. Com a ligeireza que só a ignorância permite, atrevo-me a dizer, contudo, que quem prefira a companhia das árvores à dos monumentos em pedra pouco perde em trocar o oeste pelo leste.


Karl Marx

Na verdade, mesmo entre os que prezam mais o granito esculpido do que a vida vegetal há quem se fique pelo leste, por ser lá o túmulo de um barbudo que moldou a história do século XX já depois de morto - e que, ainda hoje, perante uma audiência de defuntos onde é escassa ou nula a representação proletária, não se cansa de exortar os trabalhadores de todo o mundo a unirem-se.


Fraxinus excelsior

A ruína de muitas das esculturas e mausoléus não foi o único resultado da falta de manutenção de Highgate durante a segunda metade de novecentos: ela permitiu também o desenvolvimento de um autêntico bosque natural onde a discreta presença das pedras tumulares mal chega a recordar-nos que estamos num cemitério. Os freixos que se perfilam nas costas de Karl Marx formam uma mata espontânea tão cerrada como os nossos eucaliptais, com a diferença de abrigarem, a seus pés, uma grande diversidade de plantas herbáceas.


Anthriscus sylvestris

Por altura da minha visita, os caminhos eram marginados pelo branco de uma umbelífera (Anthriscus sylvestris) a que nós chamamos erva-cicutária ou cicuta-dos-bosques (embora ela não seja venenosa nem deva ser confundida com a verdadeira cicuta, Conium maculatum), mas a que os ingleses preferem chamar cow parsley. Combatendo a hegemonia branca da salsa-das-vacas, via-se o azul dos miosótis e dos omnipresentes bluebells. Outra árvore que em Highgate tirou partido da falta de vigilância para se multiplicar livremente foi o Acer pseudoplatanus. Encontram-se ainda cerejeiras (Prunus sp.), carvalhos e, nas partes mais compostas, bonitas árvores ornamentais como laburnos, cedros e tílias. A riqueza e importância deste habitat semi-natural levaram-no a ser declarado, em 1988, pelas autoridades londrinas, como sítio de importância metropolitana para a conservação da natureza.

5 comentários :

Paulo disse...

Os londrinos que não se admirem se começarem a notar, nos próximos tempos, procissões de turistas leitores deste blogue, de mapa na mão, à procura dos cemitérios.

Anónimo disse...

Mas que lugar magnífico para fugir ao euro 2008 , AOS TELEJORNAIS repletos de "Selecção"e aos projectos milionários dos jogadores e dos seleccionadores ...Antes a proximidade do silêncio , da eternidade ...( com ou sem mapa!)

Anónimo disse...

Ainda bem que gosta de visitar cemitérios já não me sinto diferente porque nas minhas viagens fora do país tenho visitado alguns embora por razões diferentes.Gostava muito de fazer uma rota por jardins.Será que pode dar sugestões na Europa ou indicar bibliografia?


traço

bettips disse...

Lendo por aí acima e abaixo, parei no sítio de descanso. Desde nova que me sentava/passeava no Prado do Repouso, até porque sabia que disfrutava da paz que os vivos não dão. E da beleza de quem se julgava eternizar em casas e estátuas! E francamente, a pujança das árvores e flores, faz-me (um pouco) meditar na regeneração da natureza, com o seu grande regaço condescendente para todos os males.
Assim, esses lugares "de conservação" em Londres me são também referência.
Abraços a vós!

Helena Nascimento disse...

Gosto imenso de cemitérios.Gostaria de ter mais informações sobre os nossos cemitérios Podem ajudar me?