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02/03/2016

Arroio com flores


Alisma lanceolatum With.


Efemerófito: é este, segundo a Flora Ibérica, o possível estatuto da Alisma gramineum na Península Ibérica, uma vez que, depois de recolhida para herbário em arrozais de Coruche, no Ribatejo, e na serra de Vicor, em Zaragoza, ninguém mais a avistou nestes locais. Sendo planta vivaz, decerto terá sido a má conservação dos habitats com muita humidade, como ela exige, que a terá erradicado da flora peninsular. Mas este facto, em si preocupante, tem a vantagem de reduzir a duas espécies (Alisma plantago-aquatica ou Alisma lanceolatum) o problema de identificação da planta das fotos.

Recorremos primeiro às imagens da Flora-On, mas julgamos que a vitrine da Alisma mostra a A. plantago-aquatica. Consultámos então a chave da Nova Flora de Portugal (vol. III, fasc. 1), de Amaral Franco e Rocha Afonso: para além das diferenças no genótipo, de verificação difícil mas segura, a distinção entre as duas espécies faz-se através da morfologia das folhas e das faces dos aquénios. Como não vimos frutos, prestámos atenção apenas às flores e às folhas. Em ambas as espécies, as flores de três pétalas são pequeninas, hermafroditas e dispostas no cimo de escapos; os seis estames rodeiam uma coroa central de muitos carpelos unidos. Contudo, na A. plantago-aquatica, a mais frequente por cá em margens de rios e lagoas, as flores têm em geral pétalas brancas; e, mais importante, as folhas são ovadas (como as do Plantago major), subcordadas ou truncadas na base, e com uma razão comprimento/largura menor do que três. Em contraste, na A. lanceolatum, as flores são em geral lilacíneas e as folhas (como informa o epíteto específico) são lanceoladas, acunheadas na base e com um quociente comprimento/largura maior do que três. Arriscando, concluímos face a estes dados que a planta das fotos, fotografada num regato em Matosinhos, é da espécie A. lanceolatum. Fica a sugestão, a quem possa, de verificar os dados genéticos para não restarem dúvidas.

Não há registo de nomes vernáculos em português para a A. lanceolatum, embora esta espécie ocorra em várias províncias do país, de norte a sul. Por gentileza, a A. plantago-aquatica bem lhe poderia emprestar algum dos vários que tem, como alface-dos-arrozais, colhereira, pão-de-rã, orelha de mula ou erva-couveira.

11/10/2013

Chão que foge




Sagittaria subulata (L.) Buchen.

As flores no bordo da lagoa funcionam como isca - não para os peixes, mas para os humanos interessados em plantas. O objectivo é que eles se aproximem confiantes na solidez do chão que pisam, até que o que era consistente deixe repentinamente de o ser, e botas e calças se afundem até aos joelhos numa sopa de lama. Não é uma armadilha perigosa, apenas ridícula e incómoda. As plantas que preparam tal engodo só querem rir-se do rei da criação, outrora assim chamado por inspiração bíblica. Pena não o poderem ver mais tarde, numa estação de serviço, de mangueira em punho, a regar-se a si próprio com um jato de água, fazendo alastrar em seu redor uma mancha cor de terra.

A burlesca cena teve lugar na Terceira, perto da gruta do Natal, o segundo buraco vulcânico que, com o Algar do Carvão, constitui o pacote dois-pelo-preço-de-um que os turistas avisados não deixam de experimentar. Optámos por não visitar a gruta, porque o tempo era curto e o nosso interesse é por aquilo que vive à luz do sol. E a lagoa do Negro, a 50 m da casa de acesso à gruta, merecia uma inspecção atenta, que a presença das florinhas brancas amplamente justificou.

A Sagittaria subulata, que talvez não se chame assim, é uma planta aquática originária da costa oeste dos EUA. É muito cultivada em aquários, dando-se bem mesmo quando completamente submersa, e propagando-se rapidamente através de rizomas. As folhas podem atingir os 60 cm, às vezes com extremidades flutuantes, mas em geral ficam-se pelos 5 a 10 cm. As flores aparecem em hastes que emergem da água. O nome científico levanta dúvidas, pois parece haver duas espécies distintas às quais ele vem sendo aplicado, e é a outra espécie que tem prioridade para reter a designação (mais detalhes aqui).

Exótica nos Açores, até hoje, no arquipélago, a planta só foi assinalada na ilha Terceira, e talvez só na lagoa do Negro. Como o primeiro registo data de 1993, e desde então ela pouco ou nada se terá disseminado, não parece haver risco de se tornar invasora na ilha, pecado de que não está isenta noutras paragens. É provável que a sua chegada à Terceira se deva à presença americana nas Lajes, pois entre os militares estacionados na base aérea haverá certamente quem tenha o hobby da aquariofilia. Conjectura-se, aliás, ser essa mesma a razão para o aparecimento da Marsilea hirsuta (ex-M. azorica) no pico da Bagacina.

22/11/2011

Águas passadas


Baldellia repens subsp. cavanillesii (J. A. Molina, A. Galán, J. M Pizarro & Sardinero) Talavera

Segundo Amaral Franco e Rocha Afonso (Nova Flora de Portugal, vol. III), ocorrem em território português duas espécies de Baldellia, que se distinguem pelas folhas: a B. alpestris, endemismo ibérico, tem-nas elípticas; as da B. ranunculoides, nativa da Europa, norte de África e Macaronésia, são lanceoladas. Porém, a Flora Ibérica é de opinião diferente: as plantas do género Baldellia identificam-se por outros detalhes que não apenas as folhas e, para começo de conversa, por cá não há B. ranunculoides, que na Península se fica por terras de Espanha. O que temos, além da B. alpestris, são duas subespécies de B. repens (uma terceira subespécie, B. repens subsp. baetica, é um endemismo espanhol de distribuição restrita).

A razão desta destrinça está nos escapos das flores e nos frutos. Com paciência, tempo e atenção, há que observar as folhas, depois esperar pelas flores e pelos frutos (que são poliaquénios) e entretanto reparar que:
  1. Na B. repens, as anteras são maiores (mais ou menos um milímetro), o fruto ovóide é mais pequeno (com cerca de 20 aquénios), e cada aquénio (visto ao microscópio) exibe umas pequenas protuberâncias filiformes na superfície. Além disso, nota-se a produção de estolhos radicantes de onde nascem rosetas de folhas e flores axilares. Mesmo as hastes de flores lançam ramificações folhosas que se enraízam e dão origem a novas plantas, cumprindo um plano de disseminação vegetativa.
  2. Na B. ranunculoides, o fruto é fusiforme, tem em geral mais de 30 aquénios, e não há as tais protuberâncias. Esta espécie também lança estolhos e nós que se enraízam, mas sem a presença de folhas.
Com tanta minúcia, ganhámos, em troca da espécie perdida, duas subespécies de B. repens: a B. repens subsp. repens, que se restringe ao Algarve e ao Baixo Alentejo, e tem um fruto mais papiloso do que a outra, a B. repens subsp. cavanillesii. Esta ocorre em quase todas as províncias, as folhas medem 8 a 25 cm, o pedúnculo cerca de 15 cm e as três pétalas rosadas (raramente brancas) têm dimensões que rondam os 7 mm x 10 mm e um centro amarelo onde se juntam seis estames.

As nossas três baldélias são plantas perenes, armazenando reservas num «tuberobolbo» agasalhado por folhas velhas. E são ripícolas, de margens de lagoas, turfeiras e represas, de preferência com substrato ácido. Por isso estão ameaçadas pelas práticas, tão frequentes em Portugal, que levam à destruição ou degradação dos lugares húmidos. Os poucos exemplares que encontrámos nos canais que desaguam na lagoa de Paramos são forte indício de que este risco não é mera opinião.

30/06/2011

Águas paradas



Baldellia alpestris (Coss.) M. Laínz

Enquanto que a sua prima se contenta em molhar o pé na água, a Baldellia gosta de mergulhar nela de corpo inteiro. Ficam à tona umas folhas a flutuar e umas flores esparsas que mal levantam o pescoço acima do nível da água. A diferença não está no caudal disponível, mas na envergadura das duas plantas: 15 cm para uma contra dez vezes mais da outra. Ainda assim, as flores de três pétalas (que na Baldellia alpestris surgem solitárias, cada uma na sua haste) são um inconfundível traço de união familiar. Aliás, o género Baldellia, baptizado pelo botânico Filippo Parlatore em 1848 em homenagem ao fidalgo toscano Bartolommeo Bartolini Baldelli (1804-1868), fora antes incluído por Lineu no género Alisma.

Segundo a Flora Ibérica, ocorrem em Portugal e Espanha três espécies de Baldellia. As flores de todas elas têm vida curta: as pétalas caem três a sete horas depois de abrirem. A B. alpestris, que é um endemismo do noroeste peninsular, vive em riachos, lagos ou turfeiras, em altitudes geralmente superiores a 500 m. Não desdenha porém frequentar regiões mais baixas, pois, além de a termos visto no Gerês e em Corno do Bico (Paredes de Coura), também a encontrámos em Alfena (Valongo). Graças aos seus caules estolhosos, chega a formar tapetes consideráveis. Tanto as folhas como os pedúnculos florais emergem directamente do caule, e a planta floresce de Abril a Julho.

27/06/2011

Couve, alface e colher



Alisma plantago-aquatica L.

Na Poça da Ladra, em Francelos (litoral de Gaia), o único sinal de gatunagem é terem roubado a água quase toda. Antes havia ali uma verdadeira lagoa onde desaguavam vários ribeiros. Com a urbanização acelerada das últimas décadas do século XX, os ribeiros foram entubados ou desviados e a lagoa foi entulhada: no lugar que antes lhe pertencia há agora ruas e moradias com relvados e palmeiras. O pouco que sobrou não se chama lagoa nem charco, mas sim poça: alimentada exclusivamente pela água da chuva, nos anos de estiagem está praticamente seca logo no início da Primavera. A vegetação aquática vai desaparecendo, vitimada tanto pela míngua de água como pelo cerco das canas (Arundo donax) e dos chorões (Carpobrotus edulis).

De modo que esta população de colhereira, erva-alface ou erva-couveira (tudo nomes certificados pela Flora Digital de Portugal), a única que conhecemos em todo o concelho de Vila Nova de Gaia, está a prazo condenada ao desaparecimento. Como este episódio gaiense anda longe de ser caso único a nível nacional, é de recear que a Alisma plantago-aquatica, planta que já foi vulgar no nosso país, tenha conquistado o direito a figurar no sempre adiado Livro Vermelho da Flora Vascular de Portugal.

O que lhe vale é ser ela uma cidadã do mundo, presente como nativa em grande parte do hemisfério norte, desde a América à Europa e ao Extremo Oriente. É uma planta vivaz, que vive em lagos pouco profundos ou nas suas margens, e que, com as suas hastes floridas muito ramificadas, pontilhadas pelas diminutas flores (1 cm de diâmetro), é capaz de atingir um metro e meio de altura. Tem folhas exclusivamente basais, com cerca de 30 cm de comprimento, pontiagudas e dotadas de pecíolos longos. A sua floração, pelo menos no litoral, começa logo em Abril e estende-se até Julho ou Agosto.

23/10/2007

Jardim de memórias



Hydrocleys nymphoides / Sagittaria latifolia

Durante cerca de um ano o Jardim Botânico do Porto esteve a aformosear-se. Quando reabriu encontrámos um espaço mais arrumado, com novos percursos e alguns recantos associados às obras de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A. Estes nichos, onde além das plantas há sugestões de leitura, formam um jardim de ler e propõem uma aventura que complementa com boa dose de fantasia as visitas científicas ou de carácter mais académico.

Um deles é inspirado no livro O rapaz de bronze, em cujas noites as flores conversam, passeiam, dançam e se enleiam em amizades - e, numa especial, de lua cheia, organizam uma festa como as que vêem acontecer entre pessoas. Neste jardim contado havia «um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze

No jardim real a decoração é outra. O rapaz de bronze é de facto uma senhora elegante que guia um repuxo airoso, a taça do chafariz não está coberta de fetos e o lago não tem só folhas. Com os pés na água flutuam duas espécies com flores de três pétalas: a papoila-de-água (Hydrocleys nymphoides), sul-americana, de folhas circulares semi-caducas e flores cor-de-limão; e a erva-seta (Sagittaria latifolia), da América tropical, de folha perene, triangular, com dois lóbulos, formato que a taxonomia relaciona com a nona constelação do Zodíaco.

Mas o jardim encantado ainda perdura. E no «lugar de suspiros» de Ruben A o vento insiste em espalhar perfumes e flores, num eterno eco do antigo convite para a festa.