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03/12/2009

Árvores




Plátanos (Platanus orientalis var. acerifolia) - Caldas de Moledo

Que árvores tem a Régua? Três ou quatro, e essas mesmo desenhadas num papel ou esculpidas em cimento armado. Se assim não fossem, já não existiam. A Régua, por influência do nome, só admite árvores regulares. Árvores que cresçam torto, pisem o risco ou abram os braços, não servem. (...) Seja assim nos sítios em que as árvores irregulares estorvem. Fora desses sítios, plantem-se árvores que vivam à lei da Natureza. (...)

[Admite-se que um belo renque de árvores, numa rua, possa incomodar o Menino Isaac, tão melindroso, que se constipa quando vê uma folha. Arrumadas as árvores num parque, é de supor que não incomodem ninguém.]

Parque, salvo seja, é coisa catita, imaginada e mantida por cabeleireiro. A Régua tem obrigação de idear e enraizar uma frondosa mata. (...) O nosso fim é coagir a Régua, suavemente, a ir plantando alguns milheiros de árvores. Na Chafarica ou onde melhor pareçam e se desenvolvam, sem as obrigarmos a mudar de poiso de oito em oito dias e a fazer a barba
às quartas e sábados.

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (Imprensa do Douro, 1977)

17/04/2008

Mesuras


Silene nutans subesp. nutans (nutans = inclinada, obsequiosa, reverente)

«Quem viveu tempo bastante para comparar costumes velhos com costumes novos concluirá que foi mais simples ontem do que hoje a maneira de tratar pó levantado. Os prenomes, isto é, os títulos que precedem nomes próprios ou apelidos (...) eram adminículos simples como rosas bravas. Hoje, dobram-se e redobram-se com sete camadas de pétalas multicores. Antes de cada nome, devem figurar todos os arreios, franjas e campainhas que berrem à vista e ao ouvido. (...)

Eram mais simples os tempos de ontem. O título de doutor não compreendia, como agora, três espécies: Doutor por extenso, Dr. abreviado e dr. minúsculo, reduzido a duas cíbalas de pulga indecentes. Havia um, que era o Dr. - fosse ou não fosse de borla.

Ninguém sabe distinguir, na pronúncia, as três espécies. Há quem proponha, para remediar, uma vénia para o dr. pequenino, duas para o Dr. mediano e três para o Doutor de via larga - único verdadeiro.

Respeitem-se os prenomes, que a sociedade não pode viver sem eles. São, como dizia o Abade de Baçal, o chocalho que distingue o indivíduo. Mas, não se respeite mais o chocalho que a pessoa - como sucede a cada passo.

João de Araújo Correia, Ecos do País (Imprensa do Douro, 1967)

05/03/2008

Bolsa-de-pastor


Capsella bursa-pastoris (Capsella rubella) - vale do Tua

«Ao fundo do meu quintal, à mão esquerda, há um miradoiro ou, melhor dizendo, um coradoiro, um pedaço de terra livre de arvoredo, mas coberto de erva macia e sempre verde. Ali coravam a roupa, com maternal solicitude, as minhas rudes criadas, no tempo em que as havia e se corava roupa. Hoje, é apenas um logradoiro do meu quintal, mas logradoiro sem utilidade. Nem sequer o aproveito como vigia do panorama que me cerca. Deixei de o visitar.

Desse retalho de terra, sempre verde, avistava eu, ao desenfado e sempre que queria, um velho amigo, um trabalhador incansável, que me viu nascer e me abandonou de um dia para o outro. Quero referir-me a um rio arcaico, milenário, que me contava uma história, cheia de pavores e doçuras, quando me via sentado, num banco de pinho, ao fundo do meu quintal.

Esse rio morreu. Deixou de ser rio para ser um lago artificial imenso, parado ou pasmado a meus pés, como cadáver que a morte dilatasse. O dinheiro dos homens, para se multiplicar, a troco de dar luz e energia ao mundo, pega no meu rio, que era bravo e impetuoso como um toiro, e amansa-o em lago. Fez dele um boi no pasto ou uma choca no fim de uma toirada.

O meu rio, que era poeta heróico e poeta idílico, ao sabor das horas, que as contava de todos os feitios, era também artista. Com que paciência, durante séculos e séculos, não foi esculpindo, na rocha dura, maravilhas de arte... Hoje, lago empanturrado, mais rico do que um porco, já não tem força e até se envergonha de pegar no maço e no cinzel. Deixá-lo, que o progresso manda...»

João de Araújo Correia, Rio Morto (1973)

10/08/2007

Reedição da obra de João de Araújo Correia

Uma boa notícia: a Imprensa Nacional - Casa da Moeda iniciou a reedição da obra do duriense João de Araújo Correia, um dos grandes contistas e cronistas portugueses do século XX e um prosador exemplar. O livro acabado de sair intitula-se Contos e Novelas I, e colige os três primeiros livros de contos publicados pelo autor: Contos Bárbaros (1939), Contos Durienses (1941) e Terra Ingrata (1946). O segundo destes livros não conhecia edição desde 1970, mas os outros dois haviam sido reeditados em 1983 e 1985 pela Editorial Estampa, cuja projectada reedição das obras completas de JAC se gorou ao fim de quatro volumes. Em 1999 a Campo das Letras fez sair uma descuidada antologia com o título O Mestre de Todos Nós - e é tudo quanto a edições de JAC nos últimos 30 anos, numa rarefacção que, se dificultou a sua chegada aos leitores, fez esfregar as mãos de contentes aos alfarrabistas.

Como os nossos visitantes mais assíduos poderão saber, João de Araújo Correia foi também (e por isso já aqui o trouxemos muitas vezes) um incansável defensor das árvores nas crónicas que escrevia regularmente para a imprensa - e isto num país onde quase toda a gente as desdenha. Nada melhor para comemorar esta edição do que (re)lermos hoje uma dessas crónicas.

.......Passarinhos
.......Júlio Brandão queixa-se no Janeiro da falta cada vez maior de passarinhos na terra portuguesa e atribui essa calamidade, pungente para o seu coração de poeta, à sanha com que o rapazio persegue a ave no ninho e fora do ninho.
.......Há muitos anos se afirma que os pássaros vão rareando. Eu era estudante e seria quando ouvi dizer a um médico militar da minha terra, Canelas do Douro, que as miríades de pássaros da sua infância estavam reduzidas a meia dúzia de bicos.
.......- Já não há pássaros, concluía.
.......O que não lhe ouvi foi explicar a causa da extinção das avezinhas. Não a atribuiu ao rapazio. Não a atribuiu a nenhum outro malefício.
.......Fiquei sem saber o motivo do êxodo dos pássaros até ao dia em que minha mãe me contou a história das árvores na nossa aldeia. História simples, breve, dolorosa como é quase sempre história de árvores em país idólatra de descampados. Narrava minha mãe que o terreiro onde se fazia a feira, a rua de S. Vitorino e a colina sobranceira ao povo eram rios e mares de verdura. Rematava, dizendo que esse arvoredo fora sacrificado a caprichos públicos e particulares. Lo de siempre, como diria o Campoamor se escrevera sobre árvores uma dolora.
.......Minha mãe, coeva do médico, deu-me sem querer a explicação que ele omitira. Se a nossa aldeia tinha sido toda ela uma árvore e a árvore tombara, com ela tinham perecido os passarinhos que a habitavam.
.......No tempo em que a minha aldeia era arvoredo, embora os rapazes se entretivessem a matar os pássaros, não os matavam todos. Ficavam bandos deles para regalo de ouvidos e olhos sentimentais. Não é certo que a maior parte das avezinhas vivem nos ramos?
.......A destruição das árvores, na minha opinião, é a causa do sumiço das aves da minha aldeia. Foi, pelo menos, causa importante. Na terra pelada, não cantam aves.
.......O que sucedeu lá em cima, no meu povoado, sucedeu por esse país fora... Jurou-se guerra à árvore em nome de qualquer princípio de mim desconhecido. Ouvi dizer que é por higiene, estética ou urbanismo que as árvores se arrancam ou degolam. Eu creio que sim, que é por isso tudo, mas a higiene, estética e urbanismo dos arboricidas estão acima do meu entendimento. Paciência... Sei ao menos que a falta da folhagem é causa de nos ir faltando em cada Primavera a poesia dos ninhos e das asas. Faz que a paisagem emudeça quando devia cantar.
.......Não será apenas o arboricídio o motivo de tão lúgrube mudez. É crível que os naturalistas lhe assinalem outro. Não estará a Natureza cansada de produzir pássaros para olhos cegos e ouvidos surdos? Não sei. Sei que os pássaros faltam e que a falta é demasiado grave para certas almas.
.......A educação do rapazio seria óbice ao desaparecimento das aves se fosse possível realizá-la a tempo... Não é. O rapazio é bárbaro por inocência. Destrói o ninho e mata o pássaro com impassível candura. Cuida que faz bem. É milagre vencer-se uma obstinação angélica. A espingardinha é uma açucena.
.......Coibir a guerra à passarinhada seria acertado... O pior é que exigiria um polícia ao pé de cada moço - um polícia que talvez se entretivesse a ensinar pontaria ao menino bonito.
.......Meu caro poeta Júlio Brandão: os pássaros ainda cantam. São poucos? Contentemo-nos com migalhinhas.
.......Originalmente publicado no Jornal de Notícias
.......
Incluído em Três meses de inferno (1947)

01/08/2006

João de Araújo Correia no Dias com Árvores:

«O nosso único parque»

O duriense João de Araújo Correia (1899-1985), um dos maiores contistas e prosadores portugueses de sempre, dedicou muitas crónicas à Régua, sua terra natal. Foi também um dos mais constantes defensores da árvore em Portugal e um verdadeiro ecologista avant-la-lettre; outra das suas preocupações insistentes, como já dissemos ontem, foi a triste decadência das Caldas de Moledo. A crónica que a seguir transcrevemos, e que ainda hoje os autarcas da Régua e de muitos outros concelhos do nosso castigado país poderiam ler com proveito, apareceu em Agosto de 1970 numa publicação local e foi incluída no livro Pátria Pequena, de 1977:

«O vício de ler também obriga a sofrer. Quem lê jornais e revistas fica apavorado com a perspectiva de morrermos todos se continuarmos a poluir o ar, a água e a terra. Automóveis, fogões de gás, fumos de fábrica, poluem o ar. Insecticidas e outros venenos poluem a terra e, por sua vez, todas as águas. Não haverá, dentro de poucos anos, se continuarmos a envenenar o mundo, lugar em que se viva. A Terra, como a Lua, girará pasmada, na sua órbita, como cão morto que quisesse morder o rabo. Imagine-se a tristeza dos anjos e dos bem-aventurados quando a virem passar tão morta como louca. À poluição do ar poderíamos opor, como contra-veneno, o oxigénio proveniente da vegetação. Mas, em vez de semelhante medida, recorremos a outra, que é uma rica vasilha com o fundo virado para cima. Com herbicidas, machado e serrote, destruímos a vegetação. Destruímos as fontes de oxigénio. Não nos passa pela cabeça oca a impossibilidade de vivermos sem ele. Pensamos até que não existe, porque ninguém o palpa. É, porventura, uma quimera de sábios.

Se assim é o homem do povo, se assim é o lavrador, e até o homem medíocre, dotado de instrução elementar, não deve ser assim o homem que governa. Esse, por amor ao oxigénio, benção de que não duvida, respeitará a árvore onde quer que exista. Se lhe faltar a sensibilidade precisa para se comover diante de uma árvore, suplique-a a Nosso Senhor nas suas orações.

Desapareça o tempo em que os governantes, nas cidades e vilas portuguesas, fizeram de cada árvore uma ré condenada ao patíbulo sem defesa. A olhos de poeta, não há canto de Portugal que não chore, como viúvo, a árvore que o embelezou.

Pelo que toca à nossa terra
[Régua], são horas de nos iniciarmos no respeito devido a cada árvore - fonte de vida e de beleza. São horas, mais do que horas, de plantarmos o nosso parque, fazermos da nossa zona verde, pura ficção, uma realidade.

Enquanto não houver parque municipal, gozemos e amemos o do Moledo, que também é nosso como principal adorno das nossas ricas termas. Não se diga, por vergonha nossa, que não temos árvore capaz de abençoar e amparar o viajante cansado.

O parque do Moledo é o nosso único parque. Ame-se e defenda-se, enquanto não tivermos outro e depois de termos outro. Quanto mais arvoredo, mais beleza e mais saúde...»

31/07/2006

Caldas de Moledo - rolagem em "plátanos ancestrais"


Rolagem em plátanos e tílias- Caldas de Moledo - Janeiro de 2004 e Abril de 2006
clicar nas imagens para aumentar



Quando ancestral deixa de rimar com ornamental...

Alguns dos plátanos ancestrais da Estância Termal das Caldas de Moledo- como são designados no site da Câmara Municipal da Régua - têm vindo a ser repetidamente submetidos a podas drásticas. Quando os vi pela primeira vez, em Janeiro de 2004, pensei que a rolagem tinha sido recente! Mas não, acontecera dois ou três anos antes, como me informaram da Junta de freguesia de Fontelas para onde telefonei. Segundo o mesmo funcionário, o problema tinha sido uma doença "de que se não lembrava o nome", diagnosticada por entidades competentes da UTAD -que, frisou, não tinham sido os autores dessas "podas entre aspas camarárias" (sic). Em resposta ao meu protesto e desgosto pelo tristíssimo e degradante espectáculo, a mesma pessoa afiançou-me que se lá fosse em Junho encontraria "as árvores compostinhas e tudo muito bonito".

Só voltei em Abril deste ano e ia prevenida por uma pessoa amiga que passa semanalmente pelo local: tal como nos anos anteriores, as árvores tinham sido de novo radicalmente podadas. Aliás não são os únicos plátanos de grande porte barbaramente tratados: na cidade da Régua é chocante a visão de exemplares que se adivinha serem centenários e terem sido gigantescos, com as copas truncadas. De referir em local público desta cidade, um plátano de 120 anos que se encontra num pequeno jardim (rua Dr. José de Sousa) e se salvou intacto da barbárie, provavelmente por ter sido classificado árvore de interesse público em 1999 (juntamente com um Cedrus deodara de 200 anos).

Agora que se fala de modo mais insistente sobre uma futura requalificação deste espaço histórico (ver aqui e aqui) haja discernimento suficiente para impedir que se repitam actos como este - e coragem para retirar as pobres árvores (pobres de nós) decepadas.

É pena que a legislação não preveja punição consequente para os responsáveis. E lamentável não se ouvir, não se ver mais gente a clamar contra atentados desta natureza.

Sabemos de alguém- caso ainda estivesse entre nós- que de certeza não se manteria calado: referimo-nos a um dos mais distintos contistas portugueses, João de Araújo Correia, duriense apaixonado pela sua terra e por árvores, e que muito apreciava o Parque de Moledo. O seu nome, aliás, foi atribuído ao "balneário principal"- «uma forma simbólica de lhe prestar uma homenagem (...) dado que nos arquivos consta que foi um dos Homens que muito lutou para que as Termas não conhecessem o desfecho "encerramento" » -como nos é explicado aqui (reportagem Notícias do Douro).

Adenda: ler- «O nosso único parque» por João Araújo Correia

Publicado também no Dias sem Árvores

07/03/2006

Ofício de jardineiro

«Não há ofício mais lindo que o de jardineiro. O contacto diário com flores afina a sensibilidade, o gosto. O exercício suave, a luz do sol matutino e a sombra fresca ao pino do meio-dia retemperam o corpo. Adelgaçam-no, tonificam-no e revestem-lhe a pele de um doirado velho, que não só parece como cheira bem. Ser jardineiro é ser beneficiário de todas estas influências robustecedoras e afinadoras. Em contra-partida, é votar à terra e ao ar livre, como geradores de belezas múltiplas e variadas, um amor de raiz. O jardineiro é o único agricultor que ama a terra. Qualquer outro que nela esgravate derreado, mal alimentado, pèssimamente vestido, para auferir do trabalho bruto contra o cascalho uma côdea de centeio ou de milhão, olha para a terra com desdém, se é que a não odeia. O jardineiro é o cavador estilizado em príncipe do feno.»

João de Araújo Correia, Cinza do lar (1951)


Margarida-amarela (Rudbeckia hirta)

04/06/2005

Nota crepuscular

Todos os dias se condena uma árvore sem julgamento. A árvore, rica de tudo, não tem dinheiro com que se defenda.
João de Araújo Correia, in Pó levantado (1970

15/04/2005

As últimas amoreiras


Fotos: pva 04/05 - folhas de Morus alba (Quinta de Sto. Inácio); Morus nigra no Inverno (Palácio de Cristal)

«Não cabe aqui a história do bicho-da-seda nem a do tecido proveniente do casulo. Essas duas histórias, a natural e a industrial, deparam-se ao leitor nas enciclopédias. (...) Lembre-se aqui apenas que Portugal, entre os países da velha cristandade, foi o primeiro que produziu seda. E veio a suceder que Trás-os-Montes foi a província que mais produziu durante séculos. Houve fábrica em Chacim e importantes filatórios noutros povoados. Mas, em qualquer casa rural se cultivava o bicho. Dava dinheiro e era fácil de criar. (...) Trás-os-Montes, principalmente Bragança, foi empório do sirgo. Pobre insecto, a troco de folhas de amoreira, seu único alimento, enriqueceu Trás-os-Montes.

Mas, não há bem que sempre dure. No século XVIII, apareceram nas sirgarias de França várias doenças que dizimaram o bicho. Essas doenças, a pouco e pouco, propagaram-se a Portugal. (...) O sirgo transmontano resistiu à epidemia por obséquio da natureza. Foi-lhe propício o clima. Atribuiu-se a resistência à qualidade da folha. Mas, não havia folha que chegasse na maré alta das exportações. Fome e má higiene das oficinas enfraqueceram o bicho a ponto de contrair a peste. Neste conflito, acudiu à seda o governo português, mandando plantar amoreiras nos baldios, praças públicas e caminhos. À parte outras provisões, insistiu no plantio da amoreira branca, porque a preta não serve. O bicho é esquisito.

Devem datar de 1863 as últimas amoreiras que nós por aí vemos, na estrada de Lamego, na do Rodo e na de Vila-Real. A indústria do sirgo foi suplantada pela indústria da seda vegetal. (...) Portugal abandonou uma cultura que, noutros países, ainda é fonte de receita. Não há seda como a seda natural.

Tornemos às nossas amoreiras. Inclinadas e carcomidas, ainda se revestem de esplêndida folhagem. Lembram, à beira das estradas, uma riqueza perdida. (...) À memória de uma indústria poética extinta deveria erguer-se um monumento. Seria, em cada cidade, vila e aldeia dos nossos sítios uma rua plantada de amoreiras. As amoreiras são ornamentais, ó municípios!»

João de Araújo Correia, Pátria pequena (1964)

10/03/2005

Ramada Alta

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Foto mdlramos: 0402

Pode ler-se num jornal da cidade que, no âmbito do processo de acompanhamento do estado sanitário do arvoredo, a Câmara do Porto decidiu abater um dos liquidâmbares localizados na Praça Coronel Pacheco e uma tília de grande porte, no Largo da Ramada Alta. Estas árvores, parte da memória da cidade, deveriam ser alvo de medidas que lhes melhorassem a saúde e evitassem a solução drástica do abate. Ficamos aturdidos com um tal desbarato do nosso património.

Sobre a tília, e o Largo da Ramada Alta, escreveu João de Araújo Correia em Pó levantado (1970):

Sempre que passo à Ramada Alta, nas minhas idas ao Porto, fico encantado com aquele recanto de província, miraculosamente conciliado com a passagem de tanto automóvel. Digo entre mim: qualquer dia, desaparecem a capela e aquelas duas árvores, aquelas duas tílias que lhe fazem sentinela. O largo, que ainda se chama largo e que até se chama da Ramada Alta, nome antigo, de arredor de cidade, morrerá ou se crismará em praceta, sem capela e sem árvores ou só com dois palitos, floridos de cimento, como homenagem à natureza extinta. É preciso que a Ramada Alta mude de nome, que não cante ali nenhum pássaro, nem ali se fabrique, em folha natural, o velho oxigénio, um anacronismo, e que o ar se polua e engrosse com as emanações de tanto automóvel. Só assim o larguinho, com o nome de praceta, merecerá o bilhete oficial, que o acredite como coisa citadina. (...)

Sempre que passo à Ramada Alta, fico encantado com aquele pedaço de coisa antiga ainda viva e até com o seu ar de vivedoira. (...) Começa hoje a pensar-se, lá fora, que o melhor processo de fixar boa gente, nas cidades, é não as desfigurar. Se o mau urbanismo as desfigura, substituindo por monstruosidades as coisas graciosas, o morador que trabalha foge para o campo. Se lhe falta ar respirável, ar de família, emanado de alguma coisa velha, com sua tradição, deserta. Entrega a cidade ao banditismo, que se apodera de bairros construídos, de um dia para o outro, por arquitectos sem alma.

O Porto, que vai sacrificando a um progresso mal compreendido os seus velhos palácios, que arranca árvores por dá cá aquela palha progressista, vai perdendo, de ano para ano, o ar tripeiro. Começou a perdê-lo com a destruição do convento da
Avé Maria, o prolongamento da Praça da Liberdade e o suplício do palácio de Cristal. Substituiu-o por horroroso sapo-concho. A população do Porto aumentou muito nos últimos anos. Mas, se o Porto se envergonhar da fisionomia tripeira, verá o que lhe pode acontecer. Obrigará à deserção os que se não contentam com o funcional. (...)

O Largo da Ramada Alta, se não morrer (...), será um elo capaz de prender ao Porto uma ou duas almas incompatíveis com o banditismo.

27/11/2004

Ecos da discórdia

1970 foi o Ano Europeu da Conservação da Natureza. Nesse âmbito, e entre as iniciativas de índole mais duradoira, propôs-se que todos os países promovessem homenagens anuais à árvore. Por cá, vivia-se desde 1917 na ressaca de uma polémica inusitada em torno da festa da árvore, que gerou reacções de alguma virulência, como esta no periódico A Democracia, em 1914:

Os católicos não podem colaborar nesta festa naturalista e ateia,(...) explorada pelo sectarismo maçónico que lhe manda imprimir feição panteísta e genuinamente pagã.
- entremeadas de outras opiniões de sinal contrário:
Não tem padres a festa, nem nela se observa a liturgia romana? E é isso coisa necessária para que a árvore crie raízes, cresça, lance a ramagem, frutos e flores? In Jornal de Guimarães (1914)

(Textos completos em "Árvores, Florestas e Homens" de José Neiva Vieira)

Aqui ficam as palavras de alguém que testemunhou estes acontecimentos e saudou em 1971 o regresso do Dia da Árvore:

«Tenho sido mais combativo, em defesa da árvore, quanto mais a vejo condenada por quem a não sente, por quem não sabe o que lhe deve, por quem desconfia do oxigénio, por quem dispensa a chuva, por quem não aprecia a sombra em dias de calor, nem o colorido, carregado de aromas, da Primavera. (...)

Querem agora os Serviços Florestais que se consagre à árvore o dia 26 de Novembro de cada ano. Melhor seria que os Serviços Florestais lhe consagrassem todos os dias que Deus deita ao mundo. Vinte e quatro horas, em cada ano, é pouco. Mas, se for bem aproveitado, poderá render cem por um em benefício da árvore. Bem hajam os Serviços Florestais.

Vamos ter, outra vez festa da árvore? Oxalá que sim. Essa festa, criada em horas estelares, foi vítima de sonhos tenebrosos. Matou-a quem imaginou que Deus Nosso Senhor, depois de criar a árvore, se arrependeu a ponto de pedir aos crentes que lha excomungassem bem excomungada. Chegou a dizer-se, no auge desse delírio, que boas almas de santos, amigos do arvoredo, tinham sido escorraçadas do céu para o inferno.

A festa da árvore deve ser comunhão de crentes e descrentes. Deve congraçar, num minuto, quantos filhos de Deus houver dotados de inteligência. Os espoliados, se não concordarem com ela, que abanem as orelhas... Mas, ninguém lhes reconheça, como da outra vez, o direito de proscrever uma festa divina.»

João de Araújo Correia, Pó levantado (28 Novembro de 1970)

21/10/2004

Em terra pelada, não cantam aves

«Eu adoro Lamego, mas, qualquer dia... deixo de lá ir. Consta-me que a velha cidade, para se modernizar, adoptou o único processo modernizador conhecido em algumas cidades e vilas portuguesas. Esse processo consiste em arrancar árvores e pôr no lugar delas o cimento armado em forma de pias, gamelas, caixotes, alqueires, quartas, meias-quartas e tudo o mais que seja frio, chato, liso, cúbico, prismático. Lamego, pelo que me consta, vai ficar sem uma árvore para ficar com miríades de pias - salvo seja. (...) Não concebo esta cidade sem grandes troncos e copas guedelhudas. Sinto mais que se derrua uma árvore do que se destrua monumento de outra espécie. (...) Pedras, só pedras, sem a doçura de uma mancha verde, só servem para cansar a vista. Lamego sem árvores é uma velha com o caco ao léu. É uma caveira. Poderá rir, mas, a respeito de sorriso, disse! (...)

O que acontece em Lamego tem acontecido em quase todas as terras do país. Os grandes reformadores de província reformam, destruindo. Se precisam de construir uma choupana, destroem um palácio. Se lhes falta um jardim, cortam um bosque. Se querem erigir um candeeiro, abatem uma árvore. (...) O lado perigoso da maior parte dos vícios reformatórios sertanejos está na complacência de toda a gente com eles. Se o maioral de uma terra quiser secar o rio que banha essa terra, ninguém lhe impede a obra secativa. Nas farmácias e nas barbearias, toda a gente murmura contra a mão secadora, mas, se essa mão surgir de repente a pedir uma barba ou uma pastilha, toda a gente a beija. Não me parece nobre de mais esta atitude dos murmuradores. Nobilíssimo seria que procurassem o lorde maior e lhe dissessem:

- Senhor, não seque o rio! Deixe-o continuar húmido. Olhe que um rio, senhor, parece-nos que tem alguma utilidade...

Quem diz rio diz árvores; tanto diz economia como diz beleza - diz quanto é sagrado.»

João de Araújo Correia, Três meses de inferno (1947)

P.S. (de 2004). E que entendimento têm hoje das árvores no espaço urbano os novos autarcas do Portugal democrático? É caso para dizer: mudam-se os tempos, ficam as más vontades. Porque, embrulhada num novo discurso, quantas vezes enfeitado com chavões ambientalistas, persiste a vontade de modernizar a régua e esquadro, com sacrifício de todas as árvores que não se encaixem na geometria do projecto. As vilas e cidades de Portugal parecem, cada vez mais, cenários postiços acabados de inaugurar: não há uma árvore que as ligue ao seu passado.

Para dar mais um triste exemplo, foi noticiado anteontem no
Público que a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim aprovou a construção de um parque de estacionamento subterrâneo ao longo de uma avenida com 1 Km de extensão. (Os parques subterrâneos são a nova fétiche dos autarcas portugueses: já não têm conta as praças destruídas e as árvores derrubadas por essa praga.) A notícia informa que «à superfície irá desaparecer a actual faixa central para peões - onde pontificam grandes e frondosas árvores cujas raízes tornaram o pavimento ondulado». Quantas árvores isso dá: 50, 100? A oposição votou contra, mas, pelo conteúdo da notícia, ninguém considerou que o abate de tão grande número de árvores adultas fosse razão para desistir da obra. Terá algum vereador, num assomo de desculpável lirismo e só para constar do livro de actas, ousado exprimir alguma leve compunção? Ou não pode usar-se de indulgência, ainda que retórica, com árvores que se atreveram a «tornar o pavimento ondulado»?

A conclusão é que há um assunto em que toda a nossa classe política - a de ontem e a de hoje, a de esquerda e a de direita, a de todas as cores do arco-íris e de todos os pontos do compasso - está em perfeito acordo. Esse credo unânime foi há tempos brilhantemente
sintetizado pelo Arq. Ricardo Figueiredo, recém-desempossado vereador da Câmara do Porto: «Há que acompanhar a evolução natural das coisas. Uma obra não vai deixar de ser erguida por causa de meia dúzia de árvores. Há que ajustar e modernizar (...)»

30/08/2004

Espaços verdes de papel

«Há palavrões modernos, que são espantalhos. Inventam-se para espantar, fazer fugir ou pôr de boca aberta as criaturas simples. Levam a palma aos figurões de cartola, postos de sentinela no topo das figueiras para amedrontar a pardalada. Levam-lhes a palma, porque não guardam coisíssima nenhuma. Se há figos a defender, justifica-se o espantalho no alto da figueira. Mas, os palavrões que se inventam para impor respeito ou meter medo não correspondem à realidade. Correspondem a mitos, poeticamente inventados para iludir pategos.

Zona Verde, mais que palavrão, é um desses espantalhos. Não há zonas verdes num país que jurou guerra de morte ao arvoredo. Mas, inventaram-se, como flores de retórica, para se dizer que são indispensáveis em terra esperta, conhecedora dos segredos do oxigénio, coisa muito fina e que faz bem à saúde.

Não há terra nem terrinha que não tenha destruído árvores para se civilizar. Todas entendem que o ideal da civilização é a eira varrida, limpa de praganas. Mas, por sábio respeito às magias do oxigénio, concordam com as zonas verdes, sob condição de nunca reverdecerem. (...)

Também a nossa vila tem zona verde. Por ser nossa, é a mais bonita de quantas luzem, no papel, por esse país fora. (...)

O Turismo é fonte de receita. Mas, sem fontes de água e sem árvores, sem agasalho doce, o Turismo não pega. Para haver Turismo, são indispensáveis os requisitos de hospitalidade. No pino do Verão, à parte a mesa bem servida e cama limpa, um dos requisitos é a água, a sombra, a frescura, o canto dos passarinhos, uma boa migalha de natureza.»

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (1977)

07/08/2004

Árvore feliz

«Deparou-se-nos há dias (...) uma árvore feliz. Foi um acontecimento! Árvore feliz é coisa rara como homem feliz. (...) Ficaríamos a contemplá-la até ao fim do mundo se ninguém nos dissesse: vamos, que são horas.»

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (1961)

06/07/2004

Desmundo

«Abençoado torrão, onde medram árvores deste porte! E novas! São como belas mulheres sadias, bem especadas nas suas colunas. Altas e fortes, não vibram a qualquer pé-de-vento. (...) São árvores honestas. Cheias de riso franco, lembram plácidas virgens saciadas de sol. Oh! Quem me dera a saúde destas árvores!
Namoro-as da janela. Penso que a Régua seria feliz se possuísse e amasse mil árvores assim. À sua sombra viriam acolher-se as almas doloridas. Seria, na escaldada terra duriense, oásis procurado por caravanas sequiosas.
Sem árvores, qualquer povoado é repulsivo. A Régua é linda. Em dias soalheios, vista de longe, do alto desses montes que a circundam, à beira da água, faiscante de jóias, é princesa. Mas... princesa calva! Princesa sem bosques onde corram gamos, sem espessuras onde gemam rolas, sem alfombras que sepultem o ruído dos passos, não é princesa real. É princesa do sabão e do petróleo.
A Régua precisa dum grande mata. A presença de enormes manchas verdes dulcificar-lhe-ia a rudeza nativa, atrairia hóspedes espirituais. Sem árvores, é inóspita como um deserto. Os próprios naturais enriquecidos a abandonam...
A Régua, por honra sua, deve perder o ar de coisa provisória. Deve enraizar-se como povoação definitiva. Plante árvores. A árvore é o símbolo do apego à terra.
Debruçado no peitoril da janelinha, os olhos embebidos na beleza de meia dúzia de álamos e cedros, cismo...
Retirando-me, gabo à dona da casa a regalia daquele postigo, onde, senhora viúva, a qualquer hora pode espairecer.
- As árvores? Nem me fale nisso. Roubaram-me as vistas. Quando o Camilo Guedes foi administrador do concelho, ainda lhe pedi que as mandasse cortar. Nem sei que resposta ele me deu... Paciência.»

João de Araújo Correia, Sem método (1983 - 1ª edição de 1938)

A noite é vasta

«O Sr. Barroso de Moura, regente-agrícola, não errou a vocação. É homem votado à terra, que não pode ver nua. Sente-se bem dentro do seu cargo. Dedica-se à arborização, que elogia e defende como técnico devoto. Sonha com incêndios, que podem destruir, num sopro, todos aqueles pinhais que vão revestindo as serras próximas (...) O Sr. Barroso não come nem dorme sossegado. Come com o fogo e dorme com o fogo. (...). Crê o Sr. Barroso que o fogo das matas é fogo posto. Digo que sim, mas, é difícil surpreender no trabalhinho os incendiários. Só a educação do povo, teimosa como a gota de água em pedra dura, o poderá amolecer no sentido de amar o arvoredo. Mas, onde se hão-de recrutar os educadores? Em mil portugueses, haverá um, por milagre, que não odeie as árvores. A maioria quer tudo amplo...»
João de Araújo Correia, Pó levantado (1970)