11.9.04

Dois pontos de vista

«O castanheiro de que eu conheço melhor a história está no meu jardim, no Porto. É duas ou três vezes centenário e já lá estava quando todos aqueles terrenos eram demarcados por vinhateiros. (...) O castanheiro é duma beleza impressionante, pelo porte elevadíssimo e o frondoso dos ramos. Dantes, cantava lá, à noite, um rouxinol e um mocho também lá vivia. Eu nunca tinha ouvido um rouxinol cantar. Garanto-vos que é uma coisa deliciosa, que suspende o bater do nosso coração.
Quando se traçaram os acessos da ponte da Arrábida, a Rua do Gólgota, que é onde eu vivo, foi separada, ficando dividida em dois troços. E o castanheiro esteve ameaçado de ser abatido. Porém, ele impunha-se pela sua majestade e fazia mover os largos ramos como se dissesse que o ar era da sua responsabilidade. As rolas abrigavam-se nele e faziam ouvir o canto amistoso. Talvez isso comovesse os homens e, para surpresa do mundo, pouparam o castanheiro, mudando os planos que já tinham traçado. E o castanheiro continuou de pé, mais alto e peregrino nos ares da cidade cada vez mais turvos e pesados. A sombra dele é fresca como nenhuma outra e, mesmo quando despido de folhas, tem a grandeza dum universo.»

Agustina Bessa-Luís, Contemplação carinhosa da angústia (2000)

«Há que acompanhar a evolução natural das coisas. Uma obra não vai deixar de ser erguida por causa de meia dúzia de árvores. Há que ajustar e modernizar (...)»

Ricardo Figueiredo, Vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, ao jornal Público de 7 de Setembro de 2004

1 comentário :

manueladlramos disse...

Duvido seriamente que tenham poupado o castanheiro porque este de alguma forma 'comovesse os homens'... O mais provável foi por se encontrar no jardim de tão prestigiada senhora. E ainda bem.