6.7.04

A noite é vasta

«O Sr. Barroso de Moura, regente-agrícola, não errou a vocação. É homem votado à terra, que não pode ver nua. Sente-se bem dentro do seu cargo. Dedica-se à arborização, que elogia e defende como técnico devoto. Sonha com incêndios, que podem destruir, num sopro, todos aqueles pinhais que vão revestindo as serras próximas (...) O Sr. Barroso não come nem dorme sossegado. Come com o fogo e dorme com o fogo. (...). Crê o Sr. Barroso que o fogo das matas é fogo posto. Digo que sim, mas, é difícil surpreender no trabalhinho os incendiários. Só a educação do povo, teimosa como a gota de água em pedra dura, o poderá amolecer no sentido de amar o arvoredo. Mas, onde se hão-de recrutar os educadores? Em mil portugueses, haverá um, por milagre, que não odeie as árvores. A maioria quer tudo amplo...»
João de Araújo Correia, Pó levantado (1970)

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