31.7.06

Caldas de Moledo - rolagem em "plátanos ancestrais"


Rolagem em plátanos e tílias- Caldas de Moledo - Janeiro de 2004 e Abril de 2006
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Quando ancestral deixa de rimar com ornamental...

Alguns dos plátanos ancestrais da Estância Termal das Caldas de Moledo- como são designados no site da Câmara Municipal da Régua - têm vindo a ser repetidamente submetidos a podas drásticas. Quando os vi pela primeira vez, em Janeiro de 2004, pensei que a rolagem tinha sido recente! Mas não, acontecera dois ou três anos antes, como me informaram da Junta de freguesia de Fontelas para onde telefonei. Segundo o mesmo funcionário, o problema tinha sido uma doença "de que se não lembrava o nome", diagnosticada por entidades competentes da UTAD -que, frisou, não tinham sido os autores dessas "podas entre aspas camarárias" (sic). Em resposta ao meu protesto e desgosto pelo tristíssimo e degradante espectáculo, a mesma pessoa afiançou-me que se lá fosse em Junho encontraria "as árvores compostinhas e tudo muito bonito".

Só voltei em Abril deste ano e ia prevenida por uma pessoa amiga que passa semanalmente pelo local: tal como nos anos anteriores, as árvores tinham sido de novo radicalmente podadas. Aliás não são os únicos plátanos de grande porte barbaramente tratados: na cidade da Régua é chocante a visão de exemplares que se adivinha serem centenários e terem sido gigantescos, com as copas truncadas. De referir em local público desta cidade, um plátano de 120 anos que se encontra num pequeno jardim (rua Dr. José de Sousa) e se salvou intacto da barbárie, provavelmente por ter sido classificado árvore de interesse público em 1999 (juntamente com um Cedrus deodara de 200 anos).

Agora que se fala de modo mais insistente sobre uma futura requalificação deste espaço histórico (ver aqui e aqui) haja discernimento suficiente para impedir que se repitam actos como este - e coragem para retirar as pobres árvores (pobres de nós) decepadas.

É pena que a legislação não preveja punição consequente para os responsáveis. E lamentável não se ouvir, não se ver mais gente a clamar contra atentados desta natureza.

Sabemos de alguém- caso ainda estivesse entre nós- que de certeza não se manteria calado: referimo-nos a um dos mais distintos contistas portugueses, João de Araújo Correia, duriense apaixonado pela sua terra e por árvores, e que muito apreciava o Parque de Moledo. O seu nome, aliás, foi atribuído ao "balneário principal"- «uma forma simbólica de lhe prestar uma homenagem (...) dado que nos arquivos consta que foi um dos Homens que muito lutou para que as Termas não conhecessem o desfecho "encerramento" » -como nos é explicado aqui (reportagem Notícias do Douro).

Adenda: ler- «O nosso único parque» por João Araújo Correia

Publicado também no Dias sem Árvores

3 comentários :

APOBO disse...

Cara Manuela Ramos
É no mínimo "chocante" este tipo de "tratamento" dado às árvores do nosso país... Alguém dizia há tempos que este é um país pequenos, de pessoas pequenas e árvores pequenas. Resta acrescentar e de "mentalidade pequena". Não admira que continuemos a baixar no "ranking". Não percebo como ainda pertencemos à Comunidade Europeia... De facto só autênticos mentecaptos é que poderão autorizar este tipo de barbárie e são "esses" que nos governam... Neste caso parece ser a entidade que tutela a estrada a responsável pela destruição. Há que apurar responsabilidades (esta já é a zona classificada como Património Mundial...) e manifestarmo-nos, sempre, de cada vez que acontecem atentados como este...
Enfim... fica o desabafo.
Abraço
Manuel da Cerveira Pinto

António disse...

É de facto aberrante o que se passa neste país, no que toca à fraca estima que damos às nossas árvores.
É ainda mais chocante quando os próprios responsáveis pelas podas reconhecem que é uma conduta contra-natura, pois se não podaram as árvores classificadas de interesse público, é como se com a sua conduta fossem dizendo que as árvores que não estão classificadas, não têm interesse público, e pelos vistos nunca vão ter.

bettips disse...

Fico pasmada, sempre que isto surge, assim, cepos virados para o céu. Tanto faz serem da cidade (perto de Serralves, como nos mostraram) ou da aldeia, ou da vila. É uma moda criminosa. Gostava eu de saber onde param os distintos drs. da UTAD e outras univ. onde se estuda a flora e os cuidados a ter com as árvores. Li eu algures e não estudo nada disso, que se poda for necessária é conservando a forma da árvore e aparando-lhe, assim, os ramos. Ou estou a sonhar? E as Caldas de Moledo continuam abandonadas? Ao menos as copas das árvores encobriam-lhe a miséria!