1.8.06

«O nosso único parque»

O duriense João de Araújo Correia (1899-1985), um dos maiores contistas e prosadores portugueses de sempre, dedicou muitas crónicas à Régua, sua terra natal. Foi também um dos mais constantes defensores da árvore em Portugal e um verdadeiro ecologista avant-la-lettre; outra das suas preocupações insistentes, como já dissemos ontem, foi a triste decadência das Caldas de Moledo. A crónica que a seguir transcrevemos, e que ainda hoje os autarcas da Régua e de muitos outros concelhos do nosso castigado país poderiam ler com proveito, apareceu em Agosto de 1970 numa publicação local e foi incluída no livro Pátria Pequena, de 1977:

«O vício de ler também obriga a sofrer. Quem lê jornais e revistas fica apavorado com a perspectiva de morrermos todos se continuarmos a poluir o ar, a água e a terra. Automóveis, fogões de gás, fumos de fábrica, poluem o ar. Insecticidas e outros venenos poluem a terra e, por sua vez, todas as águas. Não haverá, dentro de poucos anos, se continuarmos a envenenar o mundo, lugar em que se viva. A Terra, como a Lua, girará pasmada, na sua órbita, como cão morto que quisesse morder o rabo. Imagine-se a tristeza dos anjos e dos bem-aventurados quando a virem passar tão morta como louca. À poluição do ar poderíamos opor, como contra-veneno, o oxigénio proveniente da vegetação. Mas, em vez de semelhante medida, recorremos a outra, que é uma rica vasilha com o fundo virado para cima. Com herbicidas, machado e serrote, destruímos a vegetação. Destruímos as fontes de oxigénio. Não nos passa pela cabeça oca a impossibilidade de vivermos sem ele. Pensamos até que não existe, porque ninguém o palpa. É, porventura, uma quimera de sábios.

Se assim é o homem do povo, se assim é o lavrador, e até o homem medíocre, dotado de instrução elementar, não deve ser assim o homem que governa. Esse, por amor ao oxigénio, benção de que não duvida, respeitará a árvore onde quer que exista. Se lhe faltar a sensibilidade precisa para se comover diante de uma árvore, suplique-a a Nosso Senhor nas suas orações.

Desapareça o tempo em que os governantes, nas cidades e vilas portuguesas, fizeram de cada árvore uma ré condenada ao patíbulo sem defesa. A olhos de poeta, não há canto de Portugal que não chore, como viúvo, a árvore que o embelezou.

Pelo que toca à nossa terra
[Régua], são horas de nos iniciarmos no respeito devido a cada árvore - fonte de vida e de beleza. São horas, mais do que horas, de plantarmos o nosso parque, fazermos da nossa zona verde, pura ficção, uma realidade.

Enquanto não houver parque municipal, gozemos e amemos o do Moledo, que também é nosso como principal adorno das nossas ricas termas. Não se diga, por vergonha nossa, que não temos árvore capaz de abençoar e amparar o viajante cansado.

O parque do Moledo é o nosso único parque. Ame-se e defenda-se, enquanto não tivermos outro e depois de termos outro. Quanto mais arvoredo, mais beleza e mais saúde...»

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