Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens

24/06/2010

Fogo preso

Geum urbanum L. — frutos
     Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

Jorge de Sena, Sinais de Fogo (Asa, 1995)

16/06/2005

Introdução à Inglaterra


Foto: pva 0506 - plátano em Hampstead Heath, Londres

«Eu sei que é ridículo em Portugal amar outros países, quando é hábito, e mesmo uma instituição nacional, fazer profissão de amor pelo nosso. É precisamente isto que eu acho um pouco ridículo, um pouco ingénuo, talvez como que a suspeitosa necessidade de reafirmar patriotismo, peculiar às pátrias muito jovens ou bastante provectas. (...) Os portugueses não têm, em geral, destas segundas pátrias, uma vivência profunda, talvez porque não saibam verdadeiramente viver, de ponta a ponta, lucidamente, a vida que racionalmente criaram. (...)

Para um natural de um país onde tudo desaparece, onde as memórias (históricas ou individuais) são um exercício convencional, é sentimentalmente agradável e espiritualmente de uma suave amargura viver num país cuja vida é socialmente um exemplo da lei de Lavoisier ou, mais latamente, do princípio da conservação da energia... Aqui, nada se perde, tudo se transforma; é possível viver-se, sem nostalgias literatas ou patrioteiras, no real rio sempre fugidio da vida, sabendo que as águas não são as mesmas, mas o rio é. (...)

Em Portugal, é diferente: tudo se perde, e nada se transforma. Aqui, perto de mim, nesta aldeia do Buckinghamshire de onde escrevo(*), para além destas árvores magníficas onde há pássaros e passeiam esquilos, está o velho cemitério acerca do qual Gray escreveu um dos mais belos poemas do século XVIII (**). Toda a gente aqui sabe disto, e é difícil distinguir quem está em dívida, se o velho cemitério à volta da igrejinha, se o sábio e catedrático Gray.»

Jorge de Sena, Sobre Literatura e Cultura Britânicas (ed. Relógio D'Água, 2005)

(*) Stoke Poges
(**) Elegy Written in a Country Church-Yard de Thomas Gray (1716-71)