12.10.04

Os nomes das árvores #1

Enviei, em tempos, umas perguntas para o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Verifiquei hoje que tiveram a gentileza de responder (ver aqui)
As perguntas: «A minha dúvida prende-se com a estranheza que me causa a ocorrência dos nomes de países com letra minúscula em designações por exemplo de árvores. Ex: pinheiro-do-brasil; pinho-do-paraná; araucária-da-austrália, etc. Será devido à utilização dos hífens? São correctas as versões dessas palavras sem hífen e com o nome dos países (estados, etc.) em letra maiúscula? Que regra é esta que transforma assim um nome próprio? Por ser elemento da palavra composta perde o seu estatuto?»

A resposta: «(...) A lógica, sendo 'Brasil, Paraná e Austrália' topó[ô]nimos, era que se escrevesse: 'pinheiro do Brasil', 'pinho do Paraná', 'araucária da Austrália'. No entanto, nestas grafias poderia ficar a ide[é]ia de que tais árvores seriam exclusivas de cada um destes países, o que não é o caso: por hipótese, todas elas poderão ser plantadas em países diferentes daquele que lhes deu a designação, isto é, do país ou localidade que figura como elemento comum no nome de várias árvores da mesma natureza. E como o conjunto forma um sentido único, este nome tem os seus substantivos, ambos comuns, unidos por hífen, numa palavra única, composta: pinheiro-do-brasil, pinho-do-paraná, araucária-da-austrália/-do-chile/-da-caledó[ô]nia/-do-japão. Da mesma maneira que escrevemos, por exemplo: erva-de-santa-maria, ou água-de-coló[ô]nia, embora Maria e Coló[ô]nia sejam nomes próprios. Ao seu dispor, D' Silvas Filho»

Ficam desde já aqui os meus agradecimentos. Todavia não fiquei ainda esclarecida se, de acordo com os distintos especialistas do Ciberdúvidas, a utilização da letra maiúscula nos nomes compostos hifenizados é aceitável (por ex: pinheiro-do-Brasil, araucária-da-Austrália, etc..). Que se usam, usam!

7 comentários :

Teixeira disse...

Com todo o respeito, estou em completo desacordo com o Prof. Silvas Filho. A soberana lei gramatical não pode jamais alterar-se ou ajustar-se a lógicas aparentes. Um nome próprio escreve-se com inicial maiúscula, ponto final. É preciso que o conjunto forme um «um sentido único»? Exacto: por esse motivo o conjunto será hifenizado. Esta norma tem sido em geral observada pelas autores das obras de referência nos domínios dicionarístico e enciclopédico (ex.: Grande Enc. Portuguesa e Brasileira), também pelos divulgadores botânicos (ex.: recente obra «Portugal Botânico de A a Z»). Claro que existem excepções, entre as quais o Dicionário da Academia e o Aurélio, que seguiram a teoria das «expressões consignadas pelo uso corrente», o se me afigura francamente inaplicável. Será de uso corrente a expressão «Larício-do-japão»? Ou «Quássia-da-jamaica»? E que dizer dos nomes vernaculares que integram o próprio nome do botânico primeiro classificador, homenageado por essa forma pelos seus colegas e cuja adopção foi depois feita pela população? Há um bom exemplo português: uma certa leguminosa daninha que aparece nas searas e cujo nome vernacular era, no século XIX, «Erva-de-Brotero».
Para terminar, permita-se-me que considere infelizes os exemplos apresentados. A «Água-de-Colónia» não poderá dissociar-se da «água-ancestral-da-cidade-alemã-de-Colónia», mesmo sendo a mesma produzida numa aldeia portuguesa do Ribatejo. E sendo bom o produto, poderá acontecer que passe a denominar-se «Água-do-Ribatejo» e consumido igualmente em Colónia...
Apresento ao meu oponente as mais cordiais saudações.
Pedro Teixeira

manueladlramos disse...

E não se poderão utilizar várias formas, todas elas correctas? Na prática usa-se por exemplo araucária do Brasil, araucária-do-Brasil, e araucária-do-brasil. Confesso que desgosto desta última... Para juntar ao que diz no seu comentário e já que estamos a referir fontes, esta última forma (hifenizada e com minúscula) aparece no Houaiss, na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura (nos artigos do prof. João do Amaral Franco, os primeiros a suscitarem a minha dúvida)e já agora num texto de 2003 do Prof. Jorge Paiva sobre a mata do Buçaco (ou Bussaco? : -)

Teixeira disse...

Regressemos então ao tempo das classes primárias. Existem 18 situações em que se emprega a letra maiúscula. Lembremos aquelas que são absolutamente básicas e que aprendemos no início da aprendizagem da escrita:
- Em começo de período ou citação.
- Nos antropónimos (nomes próprios)
- Nos topónimos (nomes de continentes, países, cidades, regiões, etc.).
Não há notícia de alguém competente na matéria ter aberto excepções a estas regras básicas. Nenhuma gramática portuguesa exceptua o princípio, que se afigura óbvio. Mas vejamos o que diz a obra magna de Celso Cunha e Lindley Cintra («Nova Gramática do Português Contemporâneo», Ed. Sá da Costa, 1984). Depois de dedicarem espaço alargado ao tema do hífen e da formação de expressões por composição, os autores fazem este alerta significativo: «Reitere-se que o emprego do hífen é uma simples convenção ortográfica» (p 107). Ora mal se entenderia que «uma simples convenção» destronasse num sopro uma norma básica tão estruturante da língua escrita.
O erro de alguns dicionaristas (também de botânicos, como assinalou Manuela) é o de entenderem que um substantivo próprio pode converter-se em comum no contexto de uma designação popular. Nada de mais ilógico. Servindo-me dos próprios exemplos aqui apresentados e depois comentados pelo Prof. Silvas Filho: quando se escreve «Pinheiro-do-Brasil» (porque está convencionado que as palavras que integram os nomes vernaculares deverão ser separadas por hífen) queremos identificar uma espécie de pinheiro que teve a sua origem no país com o nome Brasil e que pode estar plantada no Japão! De contrário estaremos a despatriar a planta! Creio não haver nenhuma roseira nativa de Portugal, mas havendo sentiríamos certamente um nervoso miudinho ao ler: «Roseira-de-portugal». É também o caso, já aqui citado, da «Erva-de-Brotero». Escreveríamos de ânimo leve «Erva-de-brotero» quando o propósito da designação vernacular é evocar o génio Avelar Brotero?
Quase diria que esta questão não é propriamente gramatical, antes de bom-gosto e sensatez.

Anónimo disse...

Conheço apenas uma excepção à norma gramatical do uso da letra maiúscula: o poeta valter hugo mãe não admite nos seus livros (ao que parece por uma razão de «estética»)a letra maiúscula. A começar pelo próprio nome! Fora esta situação excêntrica, que podemos interpretar como uma liberdade poética (e eu muito admiro a poesia deste autor), não consigo encontrar justificação para se escrever o nome de um país ou de uma pessoa com inicial minúscula. Esse princípio anómalo poderá até suscitar equívocos como os que apresento a seguir (intencionalmente grafei as denominações em minúsculas):
- Alho-dos-açores (Nothoscordum gracile)... porque a parte foliar destes alhos fazem parte do menú da ave açor. Ou... será que esta planta é originária do arquipélago dos Açores?
- Bálsamo-do-peru (Myroxlon balsamum) ... porque a ave peru recorre a esta planta nos momentos de grande stress, no auge da quadra do Natal. Ou... será que esta planta é originária do país Peru?
- Gerânio-da-madeira (Geranium madarense) ... porque o respectivo caule é tão lenhoso que é aproveitado na indústria da construção naval. Ou... será que esta planta é originária da ilha da Madeira?
- Castanheiro-do-cabo (Calodendrum capense)... porque, segundo a lenda, esta árvore foi descoberta por um cabo-do-mar, que logo foi agraciado com a promoção a sargento. Ou... será que esta árvore é originária da região do Cabo?
- Benesse-da-beira (Viola canina)... porque, de cada vez que lhe minimizam ortograficamente a sua região de origem, esta planta fica à beira de um ataque de nervos. Ou... será que esta planta é mesmo originária da Beira?
- Cardamomo-dos-camarões (Aframomum hanburyi)... porque as respectivas flores sugerem os crustáceos de cor avermelhada. Ou... será que esta planta é originária da floresta tropical da costa oeste africana, outrora Império dos Camarões, actual República dos Camarões?
- Figueira-de-bengala (Ficus benghalensis)... porque esta espécie tem a particularidade de, ao envelhecer, configurar a extremidade dos ramos em forma de bengala. Ou... será que esta árvore é originária de uma região da Índia com o nome de Bengala?
Concluindo, prezada Manuela Ramos, fizeram muito bem os autores dessa obra admirável que é «À Sombra de Árvores com História» em adoptar a boa norma da inicial maiúscula. Não só por isso, mas também por isso, vocês três (em particular a Manuela) mereciam a oferta de um grande ramo de Manuelas (Tritonia crocata).

FOYOS (desta vez, provocantemente, com todas as letras maiusculizadas).

manueladlramos disse...

Comentários preciosos!!!
Estou sem palavras mas ainda encontro algumas para agradecer o ramo ;-) a que juntei (eu sei que posso hifeniza-los) umas flores de Pau(lo)-Maria (Calophylum inophylum).

Teixeira disse...

Não seria interessante encaminhar todo este ramalhete de comentários e reflexões para os senhores do Ciberdúvidas?

manueladlramos disse...

Também pensámos que seria interessante e, ainda antes da girândola com que nos brindou Pedro Foyos, comuniquei ao Ciberdúvidas uma ligação para este post, referindo que a resposta do ExmºProf.D'Silvas Filho tinha suscitado uma série de comentários que eventualmente poderia ter interesse em conhecer.