9.10.19

Cores do deserto



Um deserto não é um lugar vazio: tem plantas e tem bichos, embora pouco de cada. A água que não se vê e quase nunca cai do céu esconde-se nas profundezas ou condensa-se com a friagem nocturna, e há sempre plantas capazes de aproveitar essa improvável e invisível humidade. Desertos há muitos e variados: há os de areia como o de Sahara; os de terra vermelha e pedregosa, ornamentada com cactos, como os que aparecem nos westerns; e os desertos de lava onde a cobertura vegetal obliterada pelas erupções vulcânicas ensaia um regresso que é trabalho para séculos.

O Parque Nacional de Tymanfaya, no sudoeste da ilha de Lanzarote, é um deserto do último tipo. As erupções que deram origem a esta paisagem de pedra negra semeada de vulcões iniciaram-se em 1730, duraram seis anos, e tiveram um encore um século mais tarde, em 1824. O regresso da vegetação tem sido vagaroso, mas o negro absolutamente dominante já vai admitindo algumas tímidas pinceladas de verde, difíceis de detectar à distância. Nas bermas dos caminhos, a maior acumulação de solo, ajudada pela grande carga de visitantes, tem permitido o estabelecimento de uma vegetação de carácter sobretudo ruderal. Certamente para impedir essa contaminação, e para que a vegetação evolua de forma o mais possível natural, boa parte do Parque de Tymanfaya foi vedada a visitantes. Mesmo na parte acessível, as tabaibas e outras plantas nativas vocacionadas para a secura têm colonizado esparsamente campos de lava, fendas de rocha e zonas cascalhentas.



Polycarpaea divaricata (Aiton) Poir.


Pese embora a nudez aparente da paisagem, a lista da flora do Parque Nacional de Tymanfaya não é curta: dados oficiais reportam mais de 300 espécies de plantas vasculares, a que se somam umas 150 espécies de briófitos, fungos e líquenes. A Polycarpaea divaricata, acima ilustrada, é uma das duas espécies do seu género que ocorrem em Tymanfaya. Endémica das Canárias, presente em todas as ilhas do arquipélago, é conhecida como pata conejo (= pata de coelho), nome também dado a outras congéneres suas. É uma planta rasteira, glabra ou com pubescência rala, de textura herbácea mas às vezes com base lenhosa, com folhas lanceoladas ou espatuladas, de ápice agudo ou arredondado. As inflorescências são terminais, ramificadas, com uma atraente coloração entre verde, rosa e laranja que é dada pelas sépalas. As flores são diminutas, com cinco pétalas brancas e cinco estames, e parecem abrir cada uma de sua vez: a cada momento a maioria delas apresenta-se fechada.

A Polycarpaea nivea (em baixo), que encontrámos também em Lanzarote, é uma planta mais encorpada, que alcança porte quase arbustivo e que, pelo menos nessa ilha, vive apenas em areias e rochas litorais. As dunas a norte da ilha, encaixadas entre o Malpaís de La Corona e o porto de Orzola, não são muito extensas, mas são das mais bonitas que alguma vez vimos. Elegantes arbustos da família Chenopodiaceae (Suaeda, Salsola, Atriplex, etc.) acolhem a surpresa amarela da Cistanche lutea, aqui e ali surgem tapetes coloridos de Frankenia, um malmequer de flores amarelas (Senecio leucanthemifolius) forma compactas almofadas de folhas carnudas, e até a nossa bem conhecida Euphorbia paralias faz uma breve aparição. É a essa colecção que se junta a Polycarpaea nivea, planta de folhas suculentas, densamente coberta de penugem prateada, que surge em todas as ilhas do arquipélago canário com excepção de La Gomera. Está também assinalada em Marrocos, Mauritânia e Cabo Verde, quase sempre em zonas costeiras muito áridas.

O nome feminino Polycarpaea significa "com muitos frutos". É um género sobretudo africano, sem representantes na flora europeia. Polycarpon, que significa exactamente o mesmo mas no masculino, é nome de um género diferente (embora pertença à mesma família), esse sim integrando espécies europeias. Entre elas avulta o Polycarpon tetraphyllum, uma pequena herbácea anual muito comum no nosso país, sendo até usual encontrá-la em muros urbanos.


Polycarpaea nivea (Aiton) Webb

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