Bella de risco
A Grã-Canária, quando vista do céu, parece um cone cujo topo (o Pico de las Nieves) está a cerca de 1950 metros de altura. O centro frio e montanhoso é o local da Bacia de Tejeda e do Parque Rural El Nublo, onde parte da água da chuva é recolhida em albufeiras para irrigar os vales agrícolas até a costa. A ilha não tem rios permanentes por causa do clima cada vez mais seco e deste formato vulcânico, em que a água pluvial, se não fosse artificialmente retida, se escoaria rapidamente por ravinas e penhascos até ao mar. Em vez de rios, a ilha possui profundíssimos leitos de antigos rios, os barrancos, onde se refugia uma vegetação notável e corre alguma água nas raras ocasiões de forte pluviosidade. Foi nesse habitat montanhoso com réstias de humidade e vestígios de laurissilva, a cerca de 1500 metros de altitude e perto de Degollada Becerra, que encontrámos em Maio uma população bem desenvolvida, e em flor, da Scrophularia endémica da Grã-Canária.



As plantas desta espécie formam arbustos perenes com base lenhosa de até 1,5 metros de altura, com talos erectos de secção quase quadrada como é característico do género Scrophularia. As folhas, de faces com tons de verde lustroso e margens serradas, atingem os 20 cm de largura e nascem opostas, com 3 a 7 folíolos peciolados e um revestimento glanduloso denso. Têm alguma parecença com as da S. grandiflora, que ocorre na região calcária em redor de Coimbra e cujas flores se agrupam em verticilos. As inflorescências da S. calliantha formam espigas terminais muito vistosas entre Maio e Agosto, com lindas flores (calliantha) de cerca de 2,5 cm de diâmetro, cálice de cor púrpura e corola vermelha com uma garganta amarela salpicada de gotinhas. Estas são pequenas glândulas que segregam aromas para atrair polinizadores, e que criam uma textura rugosa na superfície das pétalas que orienta os polinizadores até ao néctar. Este material pegajoso funciona também como barreira protectora contra os pequenos insectos que tentam comer a flor e roubar-lhe o néctar sem a polinizar. É que a S. calliantha desenvolveu um sistema único de polinização mista: ao contrário de outras espécies do género que dependem quase unicamente de vespas ou formigas, esta é polinizada maioritariamente por pássaros e lagartos.
A população da ilha, e os inúmeros turistas que a visitam durante todo o ano, é abastecida de água do mar dessalinizada. Mas a rara água doce das montanhas sabe muito melhor, acreditem, e é canalizada para uso de quem mora no centro da ilha. Por isso, o habitat da S. calliantha, sujeito actualmente a longos períodos de seca, está em declínio. Acrescente-se a competição com espécies invasoras e a ameaça directa a plantas jovens por coelhos e cabras, e entende-se por que razão esta espécie não está a regenerar-se a uma taxa saudável. Lamentavelmente, não basta estar num espaço natural protegido para sair da lista de espécies ameaçadas das Canárias.
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