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22/08/2017

Águas entubadas



Bolboschoenus glaucus (Lam.) S. G. Sm.



Desde os humildes regatos aos grandes rios, os cursos de água assumem os mais variados tamanhos, mas todos eles porfiam por alcançar o mar. Alguns fazem-no directamente, outros entregam-se como afluentes aos que já romperam caminho para a costa. Com o crescimento das cidades, as ribeiras de pequeno caudal que as atravessavam foram sendo entubadas, por serem incompatíveis com o cimento e o asfalto ininterruptos sobre os quais nos habituámos a fazer a nossa vida. Uma vez escondidas dos nossos olhos, podiam ainda, ignominiosamente, ser convertidas em esgotos. Os lugares onde as águas, finalmente a descoberto, chegavam ao mar (ou a um rio que, pela sua dimensão, não pudesse ser ocultado) tornavam-se então focos de sujidade e de cheiros pestilentos. Porque a espécie humana sente uma repugnância paradoxal pela porcaria que ela própria produz, não é essa a vizinhança preferida de quem vai à praia para banhos de sol ou de mar. A solução era prolongar o entubamento pelo mar fora, fazendo com que a água choca saísse a umas centenas de metros da praia.

Felizmente muito mudou nas últimas décadas, e essa é uma conquista civilizacional que merece ser celebrada. Em Gaia e em Matosinhos, muitas ribeiras foram despoluídas e (parcialmente) desentubadas, desaguando agora no areal sem incómodo para os veraneantes e sem lhes pôr a saúde em risco. É até didáctico: às crianças que se entretêm a fazer castelos de areia podem agora os pais mostrar um rio em miniatura chegando à foz. Entre a flora dunar beneficiada por esta melhoria conta-se a Honckenya peploides, que vive em areias de beira-mar mas precisa de molhar as raízes em água doce. Em Matosinhos não é invulgar encontrá-la debruçada nestes ribeiritos que meandram preguiçosamente pelo areal. A sul do Douro ela rareia, e há dois ou três anos que não conseguimos detectá-la nos pontos do litoral gaiense onde costumava existir. Oxalá reapareça. Em compensação, na Aguda, onde um curso de água recém-libertado forma um pequeno charco na areia, surgiu uma população, concentrada mas numerosa, de uma das ciperáceas mais raras do país, o Bolboschoenus glaucus. Trata-se de uma planta com caules com cerca de 1 m de altura, de secção triangular, encimados por espiguetas dispostas em fascículos longamente pedunculados; no seu congénere B. maritimus, bastante mais comum em Portugal, todas ou quase todas as espiguetas são sésseis. As duas espécies vivem sempre com um pé na água, mas o Bolboschoenus glaucus é exclusivo de águas doces e o B. maritimus (que existe com abundância, por exemplo, na lagoa de Paramos) dá-se bem em águas salobras.

Se as plantas se conformassem com o que os estudiosos escrevem sobre elas, o Bolboschoenus glaucus nunca apareceria em Gaia, pois a Flora Iberica apenas reporta a sua ocorrência no centro e sul do país. Mas, para uma espécie cuja área de distribuição natural vai da Europa até à Índia, não custará muito transpor as curtas distâncias dentro deste nosso ocidental rectângulo.

25/04/2012

Salsa-veneno na Primavera

Iris pseudacorus L. / Oenanthe crocata L. — ribeira do Espírito Santo (Miramar — V. N. Gaia)
Entre Abril e Maio, a ribeira do Espírito Santo, em Miramar, é uma fita multicolor com predominância do amarelo e do branco, a que se acrescentam discretas pinceladas de laranja, azul e vermelho. Efeito da Primavera, que não se conforma com as limpezas indiscriminadas a que a vegetação das margens é regularmente sujeita. Há plantas que sabem baixar a cabeça no momento certo, ficando reduzidas a rizomas ou bolbos, e só a levantam quando os dias amenos anunciam tréguas temporárias na guerra que lhes é movida. Pois mesmo o mais cego dos roçadores acharia estranho que o mandassem decepar os lírios. Os lírios-amarelos (Iris pseudacorus), que são presença habitual em zonas alagadiças, funcionam como alerta amarelo contra limpezas fora de época.

Falta averiguar do branco que, de tão exuberante, quase não deixa entrever a fita de água nem sempre azul encravada entre as duas margens. Será salsa? Parece demasiado crescida para isso. Umas fotos mais podem ajudar.

Oenanthe crocata L.


Além do grande tamanho (pode chegar ao metro e meio de altura), o que mais chama a atenção nesta planta, de seu nome Oenanthe crocata, é a forma das inflorescências: várias dezenas de pedúnculos que fazem lembrar varetas de um guarda-chuva irradiam de um mesmo ponto na extremidade de cada haste; e cada pedúnculo sustenta um cacho achatado de várias dezenas de flores. Ou seja, cada inflorescência é ela própria um colectivo de pequenas inflorescências. A planta cumpre a duplicar os requisitos para pertencer à família das umbelíferas — o que, longe de ser caso único, todavia a distingue de plantas de floração mais modesta como a Sanicula europaea.

Se a hiper-inflorescência pode ter uns 15 cm de diâmetro, já as flores que a compõem andam pelos 2 mm, e os frutos pouco maiores são. Para distinguirmos a Oenanthe crocata de outras umbelíferas, o que é de suma importância dado tratar-se de uma planta mortalmente venenosa, melhor será atendermos a outras características: aos sulcos que marcam o caule (visíveis na penúltima foto) e ao recorte variável das folhas, que podem ter segmentos de triangulares ou ovados a quase lineares. A ecologia também dá uma ajuda: a salsa-dos-rios (um dos seus nomes comuns) prefere, já se adivinha, sítios húmidos, embora nem sempre tenha o pé mergulhado na água. É uma planta perene, dotada de raízes tuberosas, vulgar de norte a sul do país e, mais geralmente, em toda a Europa central e ocidental.

28/09/2007

Quinta do Cravel

Os dicionários de português, renitentes em abonar novidades ou pouco atentos à evolução da língua, ainda definem quinta como «propriedade rústica, cercada ou não de árvores, com terra de semeadura e, geralmente, casa de habitação», ou então como «casa de campo». Estas acepções do termo são, pelo menos em português de Portugal, evidentes arcaísmos, e como tal deveriam ser ressalvadas; esperemos que as próximas edições dos dicionários correntes (usei o da Porto Editora) façam a correcção que se impõe. Como se sentirá um estrangeiro que, após laboriosa consulta do dicionário, decida visitar a Quinta da Seara, em Gaia, e, em vez de ondulantes campos de trigo e uma ou outra vaca ruminando em verde pasto, encontre isto? Achará no mínimo que fizeram pouco dele. Senhores lexicólogos: a língua não é estática e, hoje em dia, como se vê pelo exemplo citado (e dezenas de outros poderiam ser invocados só em Gaia), quinta significa «empreendimento imobiliário, geralmente de grandes dimensões, que veio ocupar terrenos antes cultivados ou arborizados». O Google não tem qualquer dúvida sobre o assunto: encontrou-me 886 páginas, todas elas portuguesas, onde aparece a expressão «empreendimento quinta».

Algumas destas defuntas quintas, ou talvez mesmo a maioria delas, não eram quintas de lavoura: eram quintas de recreio onde ricos privilegiados cultivavam jardins ao gosto ostentatório da época. A sua imolação à voracidade imobiliária tem um sabor de vingança - mas uma vingança tardia e equivocada. Na revolução francesa cortavam as cabeças dos nobres; na nossa revolução plebeia, mais pacífica e diferida no tempo, cortamos árvores e cimentamos quintas. Não havendo já tal casta de privilegiados, desforramo-nos na beleza que foi privilégio deles.



Apesar das aparências - pois existe realmente um emprendimento imobiliário com esse nome -, a Quinta do Cravel, em Gaia, é uma excepção à regra destruidora, já que a construção se concentra nas franjas da propriedade e a sua rica mata foi quase toda preservada. Os terrenos da quinta, com mais de 10 hectares arborizados, estendem-se desde a fábrica Coats & Clark, à EN 222, até às instalações da RTP, no Monte da Virgem. A intenção do promotor é reservar o usufruto da mata aos moradores do empreendimento, mas parece-me demasiado optimista esperar que eles paguem sem protesto a manutenção regular dos 10 hectares de arvoredo. (Conheço prédios no centro do Porto onde os condóminos se recusam a pagar até as despesas do jardim.) Por que não fazer uma parceria com a Câmara de Gaia, com a contrapartida de uma abertura (controlada) da mata ao público? Afinal não abundam no concelho espaços verdes desta dimensão (públicos só existem dois: o Parque Biológico de Gaia e o Parque da Lavandeira).

Há uma parte da Quinta do Cravel que foi aberta ao público sem restrições e onde funciona agora um restaurante de cozinha italiana. Partindo da rotunda de Santo Ovídio, o acesso faz-se pela estrada do Monte da Virgem: pouco antes da RTP, uma tabuleta à esquerda indica a Quinta do Cravel; uma vez na rua do empreendimento, um cartaz aponta o restaurante, ao qual se chega descendo por um caminho de terra batida. Mesmo que não se almoce, vale bem a pena a visita; e os mais atrevidos, como nós, não deixarão de atravessar o discreto portão que, nas traseiras do restaurante, dá acesso à parte reservada da quinta.

Que árvores se encontram nos jardins e mata que vão trepando encosta acima? Muitos eucaliptos, a permanente ameaça das acácias (desbastadas há pouco tempo, voltam a despontar em grande número), mas também pinheiros-bravos, carvalhos-alvarinhos, sobreiros, medronheiros, bétulas, sanguinhos-de-água (Frangula alnus), grandes japoneiras, árvores de fruto, cedros, ciprestes, e uma avenida de árvores ornamentais com faias, magnólias e carvalhos-americanos. Uma riqueza e diversidade arbóreas incomparavelmente maiores, por exemplo, do que as da Quinta de Marques Gomes ou do Parque da Lavandeira. Oxalá esteja em boas mãos.

08/06/2007

Jardim centenário a estrear




Boa notícia para os fotógrafos que documentam para os álbuns de recordações os casamentos celebrados na Conservatória do Registo Civil de Vila Nova de Gaia: as sessões fotográficas com os recém-casados e respectivos pais, padrinhos e toda a corte de familiares e amigos podem voltar a realizar-se no local do costume. Na quinta-feira, dia 30 de Maio, foi inaugurado pelo presidente da Câmara o novo Jardim Soares dos Reis. Claro que ele não é exactamente novo: embora não pareça, este que é um dos raros jardins no centro urbano de Gaia já existe desde 1904. Contudo, as árvores que o compõem, mesmo as de maior porte, aparentam poucas décadas de vida. Há registo de o espaço ter sido alterado em 1974, e é provável que o arvoredo tenha sido então todo substituído. A intervenção que agora se completou, embora ocasionada pela construção de uma via rápida, deixou um rasto menos destruidor, pois as árvores na metade sul do jardim não foram afectadas pela gigantesca trincheira que obliterou a metade norte, e puderam na sua maioria ser poupadas. A excepção mais assinalável é que, no lugar dos mirrados ciprestes (Cupressus sempervirens) que acompanhavam a sucessão de espelhos de água, há agora um duplo alinhamento de loureiros (Laurus nobilis). Regista-se assim uma louvável continuidade entre o jardim que havia e o que agora se fez: nenhum gaiense se sentirá, como se sentem os portuenses que visitam a Cordoaria ou os Aliados, orfão de um lugar que já só existe na memória; e, se o gaiense se quiser sentar no Jardim Soares dos Reis, não lhe faltarão bancos nem lhe irão doer as costas por falta de encosto.

A grande novidade é que, tapada a trincheira, o trânsito em volta do jardim foi confinado à parte sul, enquanto que a parte norte, que surge agora como prolongamento pedonal das ruas adjacentes, foi estendida até ao bordo do largo Soares dos Reis. Os moradores ficam a poder sair de casa directamente para o relvado. A nova extensão do jardim, embora ainda muito despida e mostrando as costuras da colocação apressada dos tapetes de relva, cola muito bem com a parte antiga, tanto no desenho dos percursos e na modelação do terreno como nos materiais empregues. Há novos carvalhos-americanos, bétulas, camélias, azáleas, rododendros e magnólias, mas a escadaria seria mais alegre se se tivessem mantido os nenúfares.

Não poderá a Câmara de Gaia desistir de uma vez por todas do estacionamento subterrâneo no Jardim Soares dos Reis? Que gosto há em desbaratar aquilo que agora tão bem se fez? As árvores pedem tempo para crescer: deixe-se o jardim em paz para que, daqui a vinte ou trinta anos, com mais sombras e recantos, ele se assemelhe mais à idade que tem.

12/02/2007

Maiores não se fazem



Alberto Rocha, que conhecemos na noite de lançamento do livro, bem nos tinha dito, abrangendo com um gesto a ampla sala onde tinha decorrido a sessão: ela não cabe aqui dentro. E no passado sábado, quando visitámos o jardim da Sra. Joaquina Moreira, no lugar de Crasto, em Perosinho (Gaia), as expectativas ainda foram ultrapassadas: esta Camellia japonica é de facto um portento, levando de vencida, na amplitude da copa e na espessura do tronco, outras japoneiras descomunais como as da Quinta da Aveleda e do Prado do Repouso aqui apresentadas. Para nosso embaraço, e como esta campeã dá flores de uma variedade diferente, a descoberta obriga-nos a emendar a teoria então formulada, que fica agora assim: as pompónias são vice-campeãs.

Uma particularidade da árvore é que a sua base está soterrada, fazendo-a parecer mais baixa do que na realidade é. Estando ela situada em terreno inclinado, o solo tinha tendência a deslizar, deixando-lhe as raízes a descoberto; construiu-se por isso à sua frente um muro de 76 cm de altura, formando uma espécie de caldeira que depois se encheu de terra.



Numa altura em que recrudesce a curiosidade internacional pelas monumentais camélias portuguesas, uma árvore como esta não poderia continuar indefinidamente no anonimato. Clara Gil de Seabra, directora da secção portuguesa da Sociedade Internacional das Camélias, visitou-a em 2003 e sobre ela publicou, no mesmo ano, um artigo no International Camellia Journal. Tendo em conta as medidas que encontrou (13,15 m de diâmetro da copa; 5,18 de perímetro na base do tronco; 3 m de PAP), Clara Gil «compara favoravelmente» esta camélia com outras consideradas muito antigas com base apenas no tamanho: as de Campo-Bello (em Gaia), a da Quinta da Aveleda, e uma outra já morta em Vila Boa de Quires (que tinha também 13 m de diâmetro de copa). Interpretamos este comparar favoravelmente como significando que esta é pelo menos do tamanho das outras, se não for maior. Apesar disso, Clara Gil atribui-lhe uma idade provável máxima de 200 anos, quando das camélias de Campo-Bello se chegou a escrever terem quase 500. O problema é que a entrada oficial das camélias no nosso país ocorreu apenas há dois séculos; e, na falta de documentos e de datações cientificamente rigorosas, não se pode tomar o tamanho destas árvores como prova indiscutível de antiguidade, pois é certo que as camélias no norte de Portugal crescem mais e mais depressa do que noutros países europeus e até do que na sua região de origem (China e Japão).



Seja qual for a sua verdadeira idade, foram já inúmeras as gerações que conviveram com esta árvore. A Sra. Joaquina Moreira, que sempre a conheceu deste tamanhão, conta que em 1930, por causa de um ciclone, o tronco pareceu inclinar-se e teve que ser escorado com um pilar de granito. Quando se quis remover o pilar, em 1993, não houve outra solução se não quebrá-lo, pois o seu topo tinha-se incrustado no tronco, onde ainda hoje se mantém. Há alguns anos, a vida da árvore voltou a correr perigo: sem se saber porquê, as folhas começaram a amarelecer e os ramos a secar. Lembrando-se do que lera num livro de jardinagem, a Sra. Joaquina atribuiu a moléstia à prática de regar a árvore com «água choca», como então se fazia às couves no quintal. Supensa a nefasta dieta, a árvore recuperou rapidamente a saúde. Mas a Sra. Joaquina não tem dúvidas, pela sua experiência, de que o que matou a árvore de Vila Boa de Quires foi terem construído uma vacaria mesmo ao lado.

05/01/2007

Dendronudismo (2.ª lição)



Catalpa bignonioides - Jardim do Morro - Vila Nova de Gaia

Em contraste com o plátano, que não muda de personalidade conforme a estação do ano, a catalpa tem duas faces bem distintas, mas ambas perfeitamente reconhecíveis. Ela é talvez, de entre as árvores ornamentais comuns nos nossos jardins, a que apresenta folhas de maior tamanho: ovais e de ápice pronunciado, podem medir até 30 cm. As suas flores - brancas com manchas amarelas e roxas, delicadamente fragrantes, semelhantes na forma às do jacarandá (que pertence à mesma familia, a das Bignoniáceas) - ganham em ser vistas de perto, ao contrário das do seu primo tropical, que valem mais pelo conjunto. Os frutos da catalpa são falsas vagens, estreitas e muito compridas; levam um ano a amadurecer e atingem os 40 cm, permanecendo na árvore durante todo o Inverno. Essa profusão de «vagens» pendentes, lembrando pedaços de corda que algum brincalhão com infinita paciência se lembrou de pendurar nos galhos, permite-nos identificar sem hesitação a árvore despida. (Clique na foto da esquerda para ver melhor.)

A catalpa é originária dos EUA. É uma árvore de porte médio que desenvolve uma copa ampla, juntando assim ao valor ornamental a utilidade de uma boa sombra. Além dos exemplares no Jardim do Morro, em Gaia, encontramo-la do outro lado do rio bem representada no bairro Gomes da Costa, junto a Serralves, onde é usada na arborização de algumas ruas. No próprio Parque de Serralves há duas ou três bonitas catalpas; e, ainda no Porto, há outra, digna de realce pela sua envergadura, perto do largo do Padrão, na rua D. João IV.

07/11/2006

Jardim Soares dos Reis: destruição consumada


(antes)

Com a inauguração há poucos meses do Corte Inglês na avenida da República, que se juntou ao Arrábida Shopping, Gaia Shopping, Carrefour e Aki, Vila Nova de Gaia deve ter assegurado, por larga margem, o título de campeã nacional de shoppings e monstros aparentados. Mas tal galardão não basta ao ambicioso munícipio, que persegue outro título de modernidade com incansável denodo: o do concelho do país com maior número de zonas urbanas ou residenciais dilaceradas por vias rápidas. Um peão desprevenido que deambule por alguma velha rua de Santa Marinha ou de Mafamude vê-se de repente, sem saber como foi lá parar, empoleirado num viaduto sobre um trânsito atroador ou encurralado por uma rotunda intransponível.

Sem se poderem considerar aprazíveis (poucas zonas urbanas de Gaia o são), as ruas confluentes com o Jardim Soares dos Reis compunham um quadro urbano aceitável, misturando habitação, escolas e algum pequeno comércio. Em poucos anos tudo mudou: a gigantesca torre na rua Visconde das Devesas onde funciona um hotel (e cuja atribulada construção se arrastou por mais de uma década) violentou toda a escala dos edifícios envolventes; e as vias rápidas, que com o seu trabalho de toupeira iam minando o lugar das Devesas, atacaram o jardim, pulmão e oásis de toda a zona.

Sabia-se desde Fevereiro passado, como aqui anunciámos, que as obras planeadas - construção de um túnel e de estacionamento subterrâneo - iriam afectar consideravelmente o jardim. O que não adivinhávamos é que a destruição atingisse tal grau, com a metade norte do jardim, já de si pequeno, engolida por obras ou cortada para desvio do trânsito - e isto enquanto uma zona de estacionamento contígua permanece intacta. Salgueiros, carvalhos, choupos, camélias e numerosos outros arbustos desapareceram sem dó e sem medida: aquele que era o único espaço de lazer de muitos moradores foi selvaticamente amputado.

Ao desbaratar sem compunção um dos dois escassos jardins públicos do seu centro urbano, Gaia mostrou em definitivo que não tem categoria nem vocação para ser cidade. Os seus parques verdes - poucos e pequenos para um concelho com 300.000 habitantes e área quatro vezes superior à do Porto - não substituem os lugares de convívio à porta de casa que são os jardins urbanos. É com gente a pé, e não ao volante de um automóvel, que se cose o tecido social e se promove a apropriação pública dos espaços; de outro modo, em vez de cidades, o que temos são dormitórios.


(depois)

24/02/2006

38 toneladas de ferro


Foto: pva 0509 - estufa da Quinta da Lavandeira, Oliveira do Douro (Gaia)

Quem visita o Parque da Lavandeira depara, atrás de uma cerca de arame e quase oculta por densa mata de acácias, com uma grande estrutura de ferro forjado: parece despojo de civilização extinta engolido pelo avanço da selva; e, num certo sentido, é isso mesmo. Hoje imaginamos com dificuldade uma época em que a ostentação consistia em ter o jardim com as plantas mais raras ou, como neste caso, em erguer a estufa mais grandiosa. A estufa - ensina a brochura editada aquando da inauguração do Parque, em Agosto de 2005 - foi completada em 1883 a mando do Conde da Silva Monteiro (1822-1885), proprietário da Quinta da Lavandeira e presidente da Associação Comercial do Porto entre 1875 e 1877. Embora esteja fora do domínio municipal, a Câmara de Gaia entendeu proteger a estufa iniciando o processo para a sua classificação; espera-se que posteriormente a adquira para a recuperar e abrir ao público.

Sobre a estufa, a brochura reproduz um elucidativo artigo de José Duarte de Oliveira publicado no Comércio do Porto em Agosto de 1883:

«A estufa do Sr. Conde da Silva Monteiro é um documento eloquente do progresso que a arte e a indústria têm feito em Portugal, porque, nessa edificação, nova no seu género entre nós, encontramos uma e outra levadas a um grau de perfeição que pode fazer a inveja de engenheiros distintos. (...) Não se procurou, como se vê, fazer uma edificação vulgar, uma estufa como todas as outras. Recorreu-se à arte, pensou-se muito na parte ornamental, e é este o seu maior mérito. Conhecemos as principais estufas e jardins de Inverno da Europa, em geral umas construções simples, pouco ou nada arquitctónicas, e que, portanto, diferem muito desta. Aqui, o desenhador pegou no lápis e foi descrevendo traços sobre o papel, à medida que a fantasia divagava pelos domínios da arte dos séculos passados. Não se pode dizer que seguisse rigorosamente este ou aquele estilo, mas o conjunto é agradável à vista.
A porta do centro é ampla (3m,30 de largo), elegante, bem proporcionada, e as laterais condizem com o resto do edifício. Os rendilhados da cobertura são todos de ferro e de uma leveza tão extraordinária, que mais parecem recortes feitos em papel transparente. O corpo principal é sustentado por quatro arcos, nos quais se observa o mesmo estilo da parte exterior, que recorda muito o gótico. Nesta edificação é tudo harmonioso e bem proporcionado. Tem 24 metros de frente, 12 de altura no centro e 12 de fundo. Quando estiver povoada de plantas, deve produzir efeito surpreendente. Daqui se vê que esta estufa é uma das maiores que existem em Portugal e a primeira entre todas quantas possuem os amadores portugueses.
Na parte exterior da estufa há uma escada que dá acesso a todos os pontos, o que é importante, porque facilita muito qualquer reparo que se torne necessário fazer. Segundo nos informaram os construtores, a organização dos moldes em madeira, chumbo e zinco levou 883 dias a um entalhador, e a fabricação das suas diferentes peças 2372 dias a um serralheiro. O peso total do ferro empregado na sua construção é de 38 285 quilos. A estufa ficou pronta por 10 000 $ 00 réis.»

21/02/2006

Onde comprar camélias portuguesas


Foto: pva 0602 - camélias nos Viveiros Mário Mota - Carvalhos (Gaia)

Quando há dias celebrámos a camélia «Augusto Leal de Gouveia Pinto», supúnhamos que ela seria difícil de encontrar em viveiros comerciais. Na verdade, comprovámos posteriormente não ser assim tão difícil: o que é preciso é ir ao local certo. Claro que nesses viveiros de berma de estrada, simples entrepostos de plantas lustrosas importadas da Holanda, nada há de especial quanto a camélias - pelo menos nada que tenha a ver com a nossa tradição de cultivo da planta. Mas, bem perto de nós, no concelho de Gaia, há dois viveiristas exemplares que prolongam essa tradição, cultivando e vendendo uma grande diversidade de camélias portuguesas, além de outras de várias proveniências. São eles:

1) Viveiros Mário Mota - Rua Gonçalves de Castro, 537 - 4415-379 Pedroso - tel. 227842015
Como chegar. Tome a IC2 da Ponte da Arrábida até à EN1 (Carvalhos); na EN1 vire à esquerda imediatamente antes do Colégio dos Carvalhos, e continue até um largo arborizado (Largo de França Borges); a Rua Gonçalves de Castro começa no extremo sul desse largo.
O que lá encontrámos. Augusto L.G.P., Dona Herzília II, Villar d'Allen e muitas mais camélias portuguesas, além de uma grande colecção de sasanquas, reticulatas e outras raridades. Ainda que especializado em camélias, o horto vende também outras árvores e plantas.

2) Horto Luís Faria & Filhos - Largo de São Martinho do Além - Vilar do Paraíso - 4405-905 V. N. Gaia - tel. 227110562
Como chegar. Tome a IC2 a partir da Ponte da Arrábida, depois a IC1 para sul até à primeira saída (VL3), onde deve seguir para leste; na primeira rotunda tome a saída à esquerda (Rua de Gramoinhos), e encontra o Largo de São Martinho do Além logo a seguir.
O que lá encontrámos. Não pudemos entrar por estar fechado ao domingo, mas o que vislumbrámos por cima do muro faz-nos querer voltar; além do mais, os nossos vizinhos galegos amigos das camélias já por lá andaram e contaram do que viram.

3) A estes dois viveiristas o aficcionado deve juntar Villar d'Allen, nome incontornável quando se fala de camélias portuguesas: aí, além de se poder visitar a preciosa colecção de camélias oitocentistas, vendem-se variedades exclusivas produzidas não só nessa quinta mas também na Quinta de Santo Inácio.

A propósito de camélias portuguesas, não podemos deixar de lamentar que, nas recentes obras de beneficiação do Parque de Serralves, em geral bem conduzidas, se tenham importado todas as novas camélias (e restantes plantas) de Itália. Os conhecedores, quando visitam jardins, gostam de lá encontrar o que é característico de cada país; não vêm a Portugal para ver o que é italiano. É triste que Serralves, por ignorância ou mal avisada poupança, tenha rompido com a tradição da camélia portuguesa.

12/02/2006

Pinheiro manso "desclassificado"- Gaia

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Pinheiro manso (Pinus pinea)
- altura total: 21 m - P.A.P.: 3,5 m - diâmetro da copa: 18 m
- idade provável: centenária
- localização: Av. da República (gaveto com a rua D. Pedro V), freguesia de Mafamude, concelho de Vila Nova de Gaia
- "Árvore de porte elevado que serve de referencial a esta zona da cidade"
- classificada em 25-Janeiro-1993
In Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público, 1995 -Instituto Florestal, DGRF
.............................................................................

-"desclassificada" em ???
-abatida em???

(resposta à pergunta que Bruno santos deixou aqui)

08/02/2006

Estacionamento comestível



Têm sido desencontradas as notícias sobre a sorte do Jardim Soares dos Reis, um dos dois únicos jardins públicos existentes no centro urbano de Vila Nova de Gaia (o outro é o Jardim do Morro). Garantido é que pelo menos até final de 2006, enquanto prossegue a construção do túnel rodoviário que completa a IC23, o jardim está convertido em estaleiro e vedado ao usufruto público. É triste sinal de menosprezo pelos jardins públicos este uso como estaleiros de obras que nada têm a ver com a sua vocação. A razão para tal procedimento, que nos últimos anos ganhou carácter epidémico, é que os jardins são terreno municipal e a sua ocupação não onera as autarquias. Mas a degradação da paisagem urbana e a perda de qualidade de vida enquanto duram essas expropriações deveriam pesar bem mais na balança de quem pondera custos e benefícios. E, no que toca às obras agora em curso, a situação agrava-se com as denúncias de achados arqueológicos no subsolo do jardim que não terão sido devidamente valorizados e protegidos.

Entretanto, soube-se há dias que, no final das obras, com a reorganização do trânsito em seu redor, o jardim crescerá cerca de 2400 m^2. Uma indiscutível boa notícia, para mais apresentada com declarações que só podemos saudar, como esta do Presidente da Câmara gaiense: «O impacto que o último troço do IC23 vai criar, com a passagem de 70 mil carros por dia, teria de ser minorado com algo de qualidade que sirva a cidade e evite que espaços públicos se transformem em locais de marginalidade.»

Só que, embrulhada na boa notícia, vinha a desagradável promessa de construir um parque de estacionamento sob o jardim; e igualmente foi divulgada, há tempos, a intenção da Câmara de construir estacionamento subterrâneo no Jardim do Morro. Ora sabe-se que, por muitos cuidados que se tenham nessas empreitadas (e a regra é nem haver tais cuidados), os jardins sofrerão sempre graves amputações; e que as condições vegetativas das árvores nunca serão as mesmas se, no subsolo, houver uma placa de betão em vez de terra viva e permeável. De pouco vale a prometida ampliação do Soares dos Reis se entretanto as árvores tiverem sido abatidas ou seriamente debilitadas. Um jardim não se faz à pressa, nem se confunde com uma superfície arrelvada camuflando uma laje de cimento: é antes o resultado de um processo de crescimento e maturação que dura décadas, e que obras insensatas como estas, feitas em prol do já sufocante domínio do automóvel no espaço público urbano, ameaçam desbaratar brutalmente.

Ontem os jornais noticiaram que o lançamento do concurso para a construção e exploração do estacionamento no Soares dos Reis foi aprovado pelo executivo camarário gaiense. Ilda Figueiredo, honra lhe seja feita, quebrou a unanimidade da vereação ao alertar para o que na verdade está em causa: «o equipamento terá impactos fortes negativos num dos poucos jardins dignos desse nome, em Gaia».

A mentalidade dos restantes vereadores é lapidarmente resumida por um deles, Barbosa Ribeiro, quando declara (segundo o jornal Público) que a zona de Soares dos Reis «precisa de estacionamento como de pão para a boca». Tomáramos nós ouvir o político que dissesse, com muito mais acerto, que Gaia precisa de jardins como de ar para os pulmões.


Fotos: pva 0504

28/10/2005

Dezasseis anos depois



Fotos: pva - plátano na marginal de Gaia - Dezembro de 1989 / Outubro de 2005

O ano de 1989 terminou atribulado para os habitantes das zonas ribeirinhas do Douro, com o rio a subir-lhes até ao primeiro andar das casas. O plátano na marginal de Gaia junto à Ponte D. Luiz I, já diminuído por poda que lhe reduzira a copa a meia dúzia de tocos, ainda suportou a indignidade de mergulhar o tronco nas águas turvas do rio. Afinal sobreviveu à agressão humana e ao ímpeto das águas, e ei-lo em 2005, com a copa reconstituída, pronto para vencer mais um século. São retalhos da memória, os das fotos separados por dezasseis anos e outros que elas não mostram, que a mesma árvore renovada ajuda a entretecer nestes dias de chuva redentora.

02/09/2005

Araucaria araucana no Parque da Lavandeira


Fotos: pva 0508/0506 - Washingtonia robusta e Araucaria araucana no Parque da Lavandeira (Gaia) / A. araucana nos jardins da Chiswick House (Londres)

Apesar de ser esta esta a única espécie de Araucaria mencionada no recém-reeditado guia FAPAS, Árvores de Portugal e Europa, a verdade é que a chilena A. araucana é bem pouco vulgar no nosso país, ao contrário da australiana A. heterophylla e da brasileira A. angustifolia. Encontram-se alguns exemplares jovens em jardins particulares, mas árvores adultas são uma raridade (no Porto, por exemplo, só conhecemos uma, na rua de S. Roque da Lameira): o clima português não será muito indicado para o desenvolvimento desta espécie andina, que prefere regiões mais frias. É significativo que Ernesto Goes, no seu livro Árvores Monumentais de Portugal, não refira nenhuma araucana, mas dedique várias páginas a araucárias notáveis de cinco outras espécies.

Por isso a descoberta, no Parque da Lavandeira, de um exemplar adulto de A. araucana é notícia de primeira página. A árvore apresenta algumas feridas no tronco e o seu aspecto geral é débil, mas deve levar-se em conta as condições em que ela sobreviveu durante décadas, sufocada por vegetação daninha, e ter esperança na sua recuperação.

Nos climas mais frios do norte da Europa, a A. araucana é naturalmente mais comum; é mesmo a única araucária que cresce ao ar livre em Inglaterra (e por isso os guias ingleses de árvores, como aquele que o FAPAS traduziu, omitem todas as outras). No muito recomendável livro The Heritage Trees, editado em 2004 sob os auspícios do Tree Council britânico, fala-se da maior araucana (ou monkey puzzle) na Grã-Bretanha, hoje com 26 metros de altura e plantada em 1843 como parte de uma alameda de 50 monkey puzzles. Essa alameda com 460 metros de extensão, situada no parque do Bicton College (escola agrária associada à Universidade de Plymouth), no condado de Devon, ainda hoje existe, tendo as 23 árvores que entretanto se perderam sido substituídas por outras criadas de sementes produzidas pelas originais. A monkey puzzle recordista tem ainda a distinção de ser uma das 50 Great British Trees, eleitas em 2002 pelo Tree Council para celebrar o cinquentenário do reinado de Isabel II.

01/09/2005

Jardim de dálias


Parque da Lavandeira: lago e salgueiros (Salix atrocinerea)

Na brochura sobre o Parque da Lavandeira, da autoria da equipa do Parque Biológico de Gaia que dirigiu a intervenção recente nesta antiga quinta, pode ler-se a promessa de que lá se irão instalar alguns jardins temáticos: o Jardim Aquático, o das Gramíneas, o Interior, o do Labririnto, o Natural, o Oriental, o das Suculentas, o da Fantasia, o dos Fetos, o Francês e o das Palmeiras. Muitas lições em projecto, motivo para múltiplas visitas.

A propósito, no Jardim Portuense, jornal publicado em 1843 e 1844, percursor no conteúdo, forma e estilo do Jornal de Horticultura Prática, há uma referência elogiosa a esta quinta numa crónica sobre Novas dahlias portuenses: «Não terminaremos este artigo sem rendermos também os devidos encómios aos beneméritos floristas e apaixonados, que se esmeram em mandar vir de fóra do paíz as mais primorosas Dahlias, que com tanto mimo cultivam nos seus jardins. Não mencionaremos os nomes de todos estes jardins e de seus proprietários, para não sermos demasiado extensos; porém é de justiça que não deixemos de especificar a quinta da Lavandeira pertencente ao Snr. Conselheiro Lima, e o jardim do Snr. D. R. de Faria, como os famosos recintos onde se encontram as Dahlias estrangeiras mais bellas, mais variadas e mais novas.»

Aqui fica a sugestão: que se continue este capítulo da história desta quinta criando-se no Parque da Lavandeira também um Jardim de Dálias.



Dálias no Jardim Botânico do Porto
Fotos: pva 0508

25/08/2005

Lavandeira


Foto: pva 0508 - Largo da Lavandeira, Oliveira do Douro (Gaia)

No passado sábado, 20 de Agosto, foi inaugurado na freguesia de Oliveira do Douro, em Gaia, o Parque da Lavandeira, uma nova área verde com cerca de onze hectares. Lavandeira! Conheço este nome desde criança, pois, embora não morássemos lá mas numa rua próxima, cruzávamos diariamente, eu e a minha família, o Largo da Lavandeira: era aí que tomávamos transporte para o Porto; é aí que desemboca a Rua Raimundo de Carvalho, que liga à Avenida da República (antes chamada Avenida do Marechal Carmona); no largo existia e existe a oficina onde muitas vezes mandei consertar a bicicleta. Passei pelo largo milhares de vezes; também milhares de vezes fiz a pé os 2 Kms até Gaia, onde estudava (Oliveira do Douro não era Gaia).

Impressões de um regresso fortuito? Toda a freguesia foi retalhada, por vezes brutalmente, pelas novas vias rápidas e nós de acesso. Só por loucura me aventuraria agora a pé pelo antigo percurso; e só pais irresponsáveis consentiriam hoje que os seus filhos cometessem tal caminhada. A Rua Raimundo de Carvalho foi alargada e asfaltada, mas continua sem passeios; e surgiram duas gigantescas rotundas que nenhum peão poderá circundar sem perigo de vida. As urbanizações, que começaram em Mafamude, em torno do cemitério e do liceu, vieram alastrando, engolindo campos agrícolas, e ocupam já a ladeira que antecede o largo. Só a Lavandeira continua inalterável: os mesmos prédios, as mesmas lojas, o mesmo cedro no jardim do prédio à entrada do largo, os mesmos plátanos bordejando a placa triangular. E só agora tomo consciência de que este é o único largo arborizado em toda a freguesia, e estes quinze plátanos são quase as únicas árvores em espaço público num território de 7,5 Km2 com mais de 23000 habitantes. (Não é exactamente assim: há árvores junto à igreja paroquial e na rua que a ela conduz; e o Areinho e o Monte da Virgem, locais bem arborizados, ainda pertencem à freguesia. Mas largo como este, com casas à volta e árvores no meio, não há outro em Oliveira do Douro.)

Cá estamos no Largo da Lavandeira. Por onde se entra no Parque? Não é pelo portão da Quinta da Lavandeira, que ainda dá acesso a propriedade privada. Avançamos pela Rua do Conde Silva Monteiro e, uns seiscentos metros adiante, numa Rua de Almeida Garrett com ar de recém-estreada, vê-se o anúncio do Parque da Lavandeira em letras garrafais; ao lado, e um pouco abaixo do nível da rua, abre-se uma vasto estacionamento. É óbvio que o Parque da Lavandeira não quer conversa com o Largo da Lavandeira: não é um parque urbano, integrado na malha de ruas e na vivência quotidiana de um lugar, mas tão só um parque para quem chega e parte de automóvel.

Tirando isso (e tirar isso é tirar muito), o parque é resultado de trabalho meritório, tanto paisagístico como no aproveitamento da vegetação remanescente de uma propriedade que ficou ao abandono durante décadas. A brochura sobre o parque e a história da antiga quinta, concebida pela equipa do Parque Biológico de Gaia (que também dirigiu os trabalhos do novo parque), está bem elaborada e é muito informativa. Voltaremos ao assunto.

16/05/2005

Palestra: Árvores notáveis do Porto e de Gaia


Fotos: pva 0504 - Solar dos Condes de Resende - Canelas - Vila Nova de Gaia

No próximo sábado, dia 21 de Maio, às 15h, e a convite da Associação Cultural Amigos de Gaia, os autores deste blog irão apresentar, no Solar Condes de Resende, em Canelas, Gaia, uma viagem fotográfica comentada por algumas árvores notáveis do Porto e de Gaia. Enquanto que do Porto a ênfase vai para algumas das árvores que celebramos no nosso livro À sombra de árvores com história, de Gaia falamos sobretudo de lugares, tentando esboçar um roteiro de jardins e parques com património arbóreo assinalável.

O Solar Condes de Resende é desde 1982 propriedade de Câmara Municipal de Gaia, que aí instalou a Casa Municipal de Cultura. A propriedade senhorial, referenciada desde 1042, esteve ligada também a Eça de Queiroz, que em 1886 casou com Maria Emília de Castro Pamplona, irmã do 5.º Conde de Resende. No pequeno e cuidado jardim, situado ao nível do 1.º andar, destacam-se as camélias multicentenárias, as sebes de buxo cuidadosamente talhadas que delimitam canteiros de roseiras, e a estátua em bronze de Eça de Queiroz da autoria de Helder de Carvalho.

Sábado - 21 de Maio - 15h00
Solar Condes de Resende, Travessa Condes de Resende, Canelas
Tel./Fax 227625622

Entrada livre

07/05/2005

A quimera do luxo



Fotos: pva 0504 - Hospital Santos Silva - Gaia: tílias (1.ª foto); sobreiro, castanheiro e tília (2.ª foto); tílias, veigelas, pinheiros e hortênsias (3.ª foto); carvalho-alvarinho (4.ª foto)

O Hospital Eduardo Santos Silva, no Monte da Virgem (Gaia), está situado num recinto amplo em terreno onduloso e densamente arborizado: inúmeras árvores de grande porte, sombras frondosas, recantos ajardinados e, como moldura de todo o complexo, uma mata de sobreiros e carvalhos forrando a encosta. Apesar do mau estado dos edifícios, o ambiente repousante é já meio caminho para a cura. Para compreender o privilégio que é para a população gaiense ter o seu hospital num local assim, basta recordar a história recente dos dois maiores hospitais do Porto: a ampliação do Santo António, há uma década, sacrificou todo o seu antigo jardim; no São João, os sucessivos acrescentos ao edifício original (incluindo centro comercial e hotel!), e mais recentemente as obras do Metro, fazem temer que a envolvente arbórea do hospital, que começou por ser generosa, desapareça quase por completo.

Se os edifícios fossem recuperados ou reconstruídos, poderia Gaia ter um dos mais acolhedores hospitais do país. A ideia de hospital acolhedor nada tem de contra-senso, e decorre até do humanismo mais básico: trata-se de apaziguar a tragédia da doença com um ambiente aconchegante, que não se assemelhe ao de uma prisão ou quartel. Como este modo de pensar é pouco correntio mesmo entre políticos ex-médicos, planeava-se, até há poucos dias, construir o Hospital de Gaia noutro local, destinando-se os terrenos no Monte da Virgem ao inevitável condomínio de luxo. O que sem dúvida tem a sua coerência: num concelho onde escasseiam os locais aprazíveis, é natural que eles sejam um luxo só acessível a meia-dúzia de afortunados. A urbanização do actual recinto hospitalar até poderia conservar todas as árvores, mas o comum dos cidadãos deixaria de usufruir delas; e a multiplicação de condomínios fechados, de vidas que se resguardam do contágio de outras vidas, é uma fractura que vai minando o próprio conceito de cidade.

E como não pôr em dúvida a razoabilidade económica da edificação galopante que vai avassalando Gaia? Mesmo em prédios novos e em zonas comparativamente apetecíveis, como a vizinhança do Jardim Soares do Reis, são muitos os apartamentos devolutos. A Câmara tarda em compreender que, não sendo cada português obrigado por lei a ter mais do que uma residência, só pela valorização do espaço público pode o negócio imobiliário ter futuro. Pois quem se deixa iludir pelo condomínio dito de luxo se tudo à volta é inóspito, sem jardins, sem espaços para crianças, tantas vezes sem passeios nas ruas?

O caso do Hospital de Gaia registou há poucos dias uma feliz evolução: o Ministro da Saúde, na passada segunda-feira, declarou que a decisão de se construir o hospital noutro local será reavaliada, ponderando-se a hipótese de ele se manter onde está com instalações remodeladas. Oxalá que, mesmo com a discordância do Presidente da Câmara, entusiasta defensor do condomínio de luxo, essa sábia decisão não seja revertida.

29/04/2005

No interior da outra margem


Frondosa sombra dos plátanos no Parque de Nossa Senhora da Saúde, Carvalhos, Gaia

Tirando os meses iniciais e um interregno de três anos quando já adulto, Vila Nova de Gaia foi a minha casa durante os meus primeiros trinta anos de vida. Este preâmbulo é necessário para que o que se segue não seja tomado como apontamento sobranceiro de quem paira acima da miséria alheia.

Gaia, propriamente falando, não existe: o seu miolo urbano reduz-se ao casario ribeirinho e a uma longa faixa rectangular centrada na avenida da República. O que há é uma colecção de antigas povoações (vilas umas, aldeias outras) que, por conveniência administrativa, foram agregadas num mesmo concelho: Valadares, Canelas, Avintes, Afurada, Pedroso e tantas outras que, no pouco que mantêm do seu carácter original, dificilmente poderiam ser mais contrastantes. Mas o rolo compressor de uma modernidade sem freio vai esbatendo essas diferenças: por todo o lado se rasgam vias rápidas e se erguem casas e prédios desordenados; novos moradores, aos milhares, caem de pára-quedas numa terra de ninguém.

Gaia é um território vasto, labiríntico, semeado de aleijões. Tirando um ou outro taxista, nenhum gaiense verdadeiramente conhece ou quer conhecer Gaia: pois que pode mover o morador de um subúrbio incaracterístico a uma incursão noutro subúrbio idêntico no mesmo concelho?

E que dizer de jardins, de lugares onde possamos exercitar os sentidos que se fazem apáticos para se defenderem da fealdade? Há poucos jardins públicos em Gaia: não mais que meia-dúzia e, com excepção do Jardim do Morro, muito pequenos; a sua área total é insignificante se comparada com a dos hipermercados e grandes centros comerciais que nas duas últimas décadas se multiplicaram por todo o concelho. Mas há ainda alguns locais arborizados que, com adequado tratamento paisagístico, poderiam vir a ser parques urbanos aprazíveis: por exemplo, o Parque de N. Sr.ª da Saúde, nos Carvalhos, e o Monte da Virgem, em Vilar de Andorinho. Em ambos os casos, haveria que disciplinar o estacionamento e, no que toca à vegetação, substituir gradualmente, nas matas circundantes, eucaliptos e acácias por espécies autóctones. Essa regeneração teria importância especial no Monte da Virgem, onde subsistem povoamentos de sobreiros e carvalhos.

A terminar, duas curiosidades. No topo do Monte da Virgem, em redor da igreja, todas as árvores (até as vadias das acácias!) vestem meia-calça branca como em sinal de pureza. E no Parque de N. Sr.ª da Saúde locais há, como o prado sombreado por plátanos que se vê na foto acima, onde, avisam as tabuletas, não é permitido jogar a bola, jogar a malha ou andar a cavalo. A terceira proibição terá sido lembrança de última hora, não fosse parecer que só os divertimentos da classe popular estariam interditos: é que no Monte da Virgem há avisos de teor semelhante, mas não se excluem os cavalos; e, em todo o caso, quem anda a cavalo terá sítios melhores para ensaiar os seus trotes.


Tílias de meia-calça - Monte da Virgem, Gaia
Fotos: pva 0405