17/04/2022
11/03/2011
Vida ao lado

Primeiro num vaso, depois em outro, e logo em latas e canteiros de caixotes, o homem plantou bulbos e ficou à espera das flores.
Mas antes das flores ou de qualquer germinar, ervas daninhas começaram a despontar na plantação. Atento, o homem arrancou uma por uma, sacudindo bem as raízes para poupar a terra preciosa. E mais regou, sabendo que as flores logo chegariam.
Despontaram as primeiras flores prenunciando jacintos e narcisos, e já as daninhas se multiplicavam, ameaçando sufocar a brotação delicada. Novamente o homem foi obrigado a intervir, arrancando impiedosamente as invasoras.
Até a chegada daqueles dias mais amenos em que, uma por uma, as flores começaram a se abrir, encharcando o ar de perfume, colorindo os canteiros de matizes. Aproximou-se o homem com seu canivete e, escolhendo as mais bonitas, degolou-lhes o caule, empunhando o buquê que levaria para enfeitar alguma casa. Não teve tempo de fazê-lo. Antes que deixasse o jardim, as flores o arrancaram, daninho.
Marina Colasanti, Com a chegada da Primavera (Contos de amor rasgados, Ed. Record, 2010)
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Maria Carvalho
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11.3.11
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31/12/2010
Passagem
Atravessavam uma floresta. Sem feras, que ali não as havia, um ou outro lobo, talvez, javalis. Nenhum tigre lhes saltaria às costas. E no entanto, avançando na penumbra lançada pelas copas fechadas, entre as colunatas dos troncos, todos aqueles homens valentes sentiam-se perpassar por uma ponta de estremecimento, cada qual levando seu próprio tigre no peito.
Marina Colasanti, Um homem, frente e verso ( 23 histórias de um viajante, Global Ed., 2005)
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Maria Carvalho
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31.12.10
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23/10/2010
Eufórbia cigana
.....Enfrentando difícil viagem, foi consultar o oráculo sagrado, embora sabendo que há anos mantinha-se mudo. "Comigo falará", pensou cheio de fé, prostrando-se no templo, sob o olhar vigilante dos sacerdotes.
.....Mas por mais que implorasse, o silêncio foi único eco à sua pergunta, nenhum som varando os vapores que envolviam o oráculo.
.....Pago o tributo, saiu na praça ensolarada. Uma nova alegria parecia explodir em cada canto, transbordando risos e brindes pelas ruas, escorrendo danças até o mercado. E ao indagar o porquê de tão súbita felicidade, soube que enfim, consultado por um estrangeiro, o oráculo havia falado.
.....Só ele, o estrangeiro, nada ouvira.
.....Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (2010)
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Maria Carvalho
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23.10.10
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09/10/2010
Flor-de-sal
Ao amanhecer, quando vindo do mar começava a soprar leve vento, subia o rapaz no alto daquele prédio, e empinava a pipa amarela. Batendo o tênue corpo de papel contra as varetas, serpenteando a cauda, lá ficava ela no azul até que o final da tarde engolia a brisa, halitando então a terra sobre o mar, e descendo o rapaz para a noite.
Assim, repetia-se o fato todos os dias. Menos naquele em que, por doença ou sono, o rapaz não apareceu no alto do terraço. E a brisa da manhã começou a soprar. Mas não estando a âncora amarela presa ao céu, o edifício lentamente estremeceu, ondulou, aos poucos abandonado seus alicerces para deixar-se levar pelo vento.
Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (Ed. Record, 2010)
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Maria Carvalho
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9.10.10
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10/04/2010
Orquídea dos colarinhos
Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E, a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.
Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos da boca.
Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho húmido e, silenciosa, ligou o ferro.
Marina Colasanti, Um espelho de Marfim e Outras Histórias (Figueirinhas, 2004)
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Maria Carvalho
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10.4.10
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13/03/2010
Para sentir seu leve peso
Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol
empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria. Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na
caixinha.Marina Colasanti, Um espelho de Marfim e Outras Histórias (Figueirinhas, 2004)
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Maria Carvalho
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13.3.10
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