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01/09/2022

Margarida galega



Entrando na Galiza pela ponte de Cerveira, e seguindo pela costa até Baiona, observamos na paisagem, tanto natural como construída, uma óbvia continuidade com o território minhoto. É o mesmo povoamento intermitente de casas à beira da estrada em que o urbano e o rural nunca estão verdadeiramente apartados; são os mesmos pinhais e eucaliptais, as mesmas rotundas, idênticos supermercados, iguais postos de combustível. As diferenças ficam mais nítidas quando paramos para almoçar em algum restaurante, mas não pelas vozes que agora se ouvem. Afinal, em Valença e até no Porto, tantos e tão loquazes são os espanhóis em passeio que nas ruas se ouve mais o castelhano do que o português. É pela comida que não é igual à nossa, pelos horários tardios das refeições e, sobretudo, pelos preços praticados, adaptados a um poder de compra que já não é o nosso.

Mesmo que a ocupação do território siga padrão semelhante, este pedaço de costa galega é muito mais escarpado e pedregoso do que o litoral minhoto. Entre a desembocadura do rio Minho e Baiona, são 35 km de rochas e falésias sem um único areal onde os veraneantes possam estender toalhas. No Minho, por contraste, as praias sucedem-se umas às outras com apenas breves interlúdios rochosos na Areosa e em Montedor. Enquanto a erosão costeira não lhe devorar todas as praias, o Minho manter-se-á imbatível na atracção de famílias em férias. Mas quem prefira ocupar-se em actividades mais enérgicas do que apanhar banhos de sol — na observação de plantas, por exemplo — tem bons motivos para visitar esta costa galega que promete resistir ao avanço do mar até ao fim dos tempos.

Leucanthemum merinoi Vogt & Castrov.


Existindo em abundância, do lado de lá da fronteira, um tipo de habitat que é escasso do nosso lado, é natural que algumas plantas não transponham o rio Minho e abdiquem de ser portuguesas. Podem, noutras épocas, ter ensaiado incursões para reconhecimento do terreno, mas acabaram por não se instalar por falta de condições apropriadas. E foram pelo menos duas as plantas apanhadas nessas incursões minhotas por botânicos ávidos de enriquecer a flora nacional: a Angelica pachycarpa (que afinal já era portuguesa por morar nas Berlengas) e este Leucanthemum merinoi (a que chamamos margarida-galega). Nenhuma delas conseguiu (ou pôde) manter-se no litoral do Minho, e já não é por lá avistada há mais de vinte anos.

O caso da margarida-galega é particularmente vexatório, pois a planta — que em meados de Junho já leva a floração avançada — é irritantemente fácil de observar nos taludes da estrada que liga A Guarda a Baiona. Não estamos pois a falar de uma raridade que se acantona em recantos frágeis e desaparece à menor perturbação do habitat. Custava-lhe assim tanto flexibilizar as exigências ecológicas para se instalar a título definitivo no nosso país?

Antes que venha um compatriota nosso anunciar que já viu por cá essas margaridas e até lhe apareceram algumas no quintal, convém esclarecer que, de facto, o género Leucanthemum está bem representado na nossa flora, havendo uma espécie (L. pseudosylvaticum) que é frequente na metade norte do país. A variação entre as espécies de Leucanthemum é pequena, podendo a distinção entre elas ser problemática e não raro controversa. Contudo, o Leucathemum merinoi é distintivo por ter base lenhosa, por formar toiças de caules robustos, e por ter folhas rijas, quase carnudas. Uma planta adulta, bem desenvolvida, tem um aspecto arbustivo muito contrastante com o ar grácil das demais espécies do género.

02/08/2022

Nas montanhas, para sempre

Para alguns, a separação pelo género das crianças nas escolas primárias (e secundárias) é uma memória penosa de um tempo de preconceito, ignorância e má pedagogia. Não havia ciência, social ou psicológica, que justificasse uma tal segregação, mas muitos pais apreciavam as redomas em que então viviam as suas filhas, e não hesitavam em as resguardar em colégios internos, geridos por religiosas de rédea firme e doutoradas em castigos. Era tudo pelo bem da família, séria e virtuosa. Enquanto isso, muitas crianças noutros mundos, ditos incivilizados, viviam felizes a partilhar a escola, o ginásio, o rio, a pesca, os passeios de barco, a Coca-cola ou o sorvete ao fim da tarde, a ida ao pão de madrugada, o chapinhar na chuva grossa dos trópicos, os dias quentes e sonolentos na rede, os filmes à beira-mar. Não consta que fossem menos dotadas, ou tenham sido desafortunadas por essa infância menos vigiada.

Vem este comentário a propósito das plantas dióicas, isto é, aquelas em que as flores femininas estão em plantas distintas das masculinas. Essa separação parece desvantajosa, na capacidade reprodutiva e de disseminação, relativamente às outras plantas, sejam elas monóicas (em que cada planta gera flores femininas e masculinas, mas estas são distintas) ou com flores hermafroditas (reunindo os dois tipos, a morfologia mais frequente). Senão vejamos: (a) Não sendo possível a auto-polinização, as plantas dióicas estão menos bem preparadas para uma falha na provisão de polinizadores. (b) Só parte da população consegue produzir frutos. (c) E, sobretudo, apenas as viagens dos polinizadores das flores masculinas para as femininas permitem gerar sementes, sendo essencial que haja plantas dos dois tipos suficientemente próximas. Apesar de todos estes entraves, as espécies dióicas não desapareceram do planeta e, por vezes, até mantêm populações robustas. O que fazem para mitigar o impacto das desvantagens que listámos?

Alguns estudos revelam que as plantas dióicas têm de facto algumas cartas na manga. Por exemplo, são em geral perenes e florescem mais precocemente, isto é, demoram menos tempo a tornarem-se adultas. Desse modo, estão disponíveis para a reprodução durante mais tempo, há mais plantas a participar no processo e, talvez mais importante, produzem-se sementes antes que algum azar aconteça — estatística de oportunidades que lhes é decerto favorável. Além disso, não são caprichosas quanto ao tipo de polinizador, e estes são incentivados, e devidamente recompensados, a moverem-se das flores masculinas (em geral maiores e em arranjos mais densos) para as femininas (em indivíduos menos floridos). Os frutos, de várias sementes, são carnudos e apreciados por pássaros, que dispersam as sementes de barriguinha cheia por longas distâncias. É tanto o engenho, que até parece que as plantas, sempre tão caladas e sossegadas, passam o tempo a investigar, a experimentar e a resolver eficientemente estes problemas difíceis de sobrevivência.



A planta dióica que vos mostramos hoje é uma descoberta recente. Na semana passada, de muito calor e pouca brisa, refugiámo-nos numa montanha alta em Ourense. Peña Trevinca ultrapassa os 2100 metros de altura e, quase no cimo, o tempo estava fresco e havia ainda muitas plantas em flor. Trevinca lembra a serra da Estrela, mas parece que lá neva mais e por mais tempo, e por isso há ainda alguns habitats bem conservados.

Vimos dezenas de exemplares em flor de Gentiana luteaSilene ciliata, Eryngium duriaei e Campanula hermini, muitos tufos do feto Cryptogramma crispa, e mais umas tantas preciosidades que nos habituámos a ver na serra da Estrela. E em locais mais secos, a formar tapetes, estava a Antennaria dioica, uma asterácea minúscula (tem uns 20 cm de altura) com folhas basais acinzentadas e tomentosas. A floração já ia adiantada, e as fotos não ilustram bem as diferenças entre os dois tipos de flores, mas para o ano voltaremos a Trevinca mais cedo para registar estes pormenores: as inflorescências femininas tendem a ser rosadas, e as masculinas são mais claras, com os estames salientes (como antenas) e no topo de hastes mais curtas.

Antennaria dioica (L.) Gaertn.


Os britânicos conhecem esta espécie como mountain everlasting e também como catsfoot, porque o arranjo das flores lembra as almofadinhas que acomodam as unhas dos gatos. O género Antennaria conta com umas 50 espécies, das montanhas frias no norte da Europa, Ásia e América.

04/10/2020

Angélica galega


Angelica pachycarpa Lange


É de alguma injustiça que, no comércio hortícola internacional, esta planta seja conhecida como Portuguese Angelica. Um nome muito mais apropriado, e neutro quanto à nacionalidade, é Shiny Angelica — o brilho lustroso das suas folhas é notório nas fotos aí em cima. E por que não deve a Angelica pachycarpa ser vendida como portuguesa? Acontece que esta endémica do noroeste peninsular, típica de falésias costeiras, é muito mais frequente na Galiza do que em Portugal, onde só ocorre ao largo de Peniche, nas Berlengas. Tratando-se de uma planta bienal (as folhas brotam num ano e a planta floresce no ano seguinte, morrendo após a dispersão dos frutos), o número de exemplares na natureza pode oscilar de ano para ano, mas calcula-se que nas Berlengas elas nunca ultrapassem as duas centenas. Conhecendo a sua abundância em certos pontos da costa galega (cabo Silleiro, por exemplo), temos que admitir que as angélicas (verdadeiramente) portuguesas são uma pequeníssima minoria dentro da população global da planta. E, como nunca fomos às Berlengas e apenas a vimos na Galiza, é angélica galega que gostamos de lhe chamar.

Se a Angelica pachycarpa aparece, e com frequência, entre Baiona e A Guarda, ali mesmo junto à foz do Minho, por que não dá ela o salto para terras de Caminha ou Viana? Acontece que já deu, mas da incursão resultou apenas uma população escassa e efémera. Em 1999, Henrique Nepomuceno Alves encontrou menos de uma dezena de plantas nas dunas atlânticas de Caminha, junto à mata do Camarido, e o encontro repetiu-se em várias ocasiões até 2009, mas depois disso ninguém mais logrou avistar a Angelica pachycarpa na costa norte de Portugal. Talvez alguma intervenção destrutiva nas dunas tenha apressado o desaparecimento, mas a verdade é que a ecologia estava errada: a Angelica pachycarpa não é uma planta de dunas; não está equipada para lidar com a instabilidade do solo arenoso, e precisa da dureza da rocha para se firmar. No litoral minhoto, as altas falésias em que a Angelica pachycarpa poderia ser feliz, e que são tão frequentes na costa galega, estão quase totalmente ausentes, assinalando-se o promontório de Montedor como única excepção de monta. (Esta lembrança de que as linhas costeiras do Minho e da Galiza têm fisionomias muito contrastantes é o nosso contributo para incentivar o intercâmbio turístico entre as duas regiões.)

Embora de porte modesto para o seu género (menos de 1 m de altura), a Angelica pachycarpa tem um aspecto muito robusto, com grandes folhas semi-suculentas e caules sólidos e ramificados. O epíteto pachycarpa significa frutos grossos, referindo-se à espessura da membrana que os envolve. No aspecto geral, e mesmo em alguns detalhes morfológicos, a Angelica pachycarpa é uma versão reduzida da magnífica Angelica lignescens açoriana. Mas aqui talvez a ordem dos factores esteja trocada: não sendo improvável que a planta insular descenda directamente da planta continental (estudo que, tanto quanto sabemos, está por fazer), é mais correcto dizer que a A. lignescens é uma versão aumentada da A. pachycarpa.

Nota. Atendendo ao magro contingente da espécie em território nacional, e ao seu presumível desaparecimento da costa minhota, a Lista Vermelha da Flora de Portugal atribuiu à A. pachycarpa o estatuto de "em perigo".

01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo — veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia — nas dunas de Corrubedo, Galiza

18/07/2017

Novos embudes


Oenanthe lachenalii C. C. Gmel.



Quando os ribeiros emagrecem por falta de chuva é que os embudes engordam. Embude é nome vernáculo para uma das umbelíferas mais comuns em Portugal continental, a Oenanthe crocata, omnipresente em pequenos, médios e grandes cursos de água, e aventurando-se até em lugares de onde a humidade há muito se evaporou. Talvez a sua abundância se deva não apenas à grande produção de sementes mas também à toxicidade que os herbívoros, com um instinto desconcertante, aprenderam a evitar. Contudo, outros embudes do nosso território, como esta Oenanthe lachenalii, não souberam usar o veneno como arma de expansão, pelo que a sua escassez se explicaria por uma frutificação menos prolífera ou por uma menor versatilidade ecológica. A desfavor da segunda hipótese joga o facto de a O. lachenalii nada se importar com a salinidade da água, dando-se igualmente bem em água doce ou nas águas salobras de rias e estuários. A preferência por substratos arenosos acaba por limitar as suas escolhas de habitat, mas, apesar de esparsamente distribuída pelo país, não está de modo nenhum confinada ao litoral, como se vê pelo mapa de distribuição no portal Flora-On. Um dos nomes populares que a imaginação dos botânicos lhe atribuiu, bruco-de-Salvaterra, dá conta da sua existência nas margens alagadiços do Tejo, o que o dito mapa corrobora, embora obrigue a planta a saltar o rio de Salvaterra (na margem sul) para a Azambuja (na margem norte). Deverá o povo corrigir-lhe o nome para bruco-da-Azambuja? As plantas das fotos vivem não em Portugal mas na lagoa costeira de Vixán, um dos poucos lugares da Galiza onde a espécie está assinalada. Não sendo os galegos menos conhecedores da distribuição das raridades botânicas do que os portugueses, é de supor que lhe chamem bruco-de-Vixán.

A O. lachenalii distingue-se sem dificuldade da O. crocata por ser uma planta de menor porte (é raro ultrapassar os 80 cm de altura), por ter uma umbela mais compacta, e por apresentar folhas de lóbulos mais estreitos e compridos. Há porém duas outras espécies em Portugal (e em grande parte da Europa) com idênticas preferências de habitat que com ela se podem confundir: trata-se da Oenanthe fistulosa (que tem as folhas muito menos recortadas — veja-se aqui) e da Oenanthe globulosa (com inflorescências ainda mais compactas e menor número de frutos em cada umbélula — confira-se aqui). Encontrar qualquer uma das três espécies é um feito só ao alcance de quem esteja disposto a calçar galochas e não receie chafurdar em terrenos lodosos.

06/12/2016

Memória das Índias

Logo à entrada do Parque Natural de Corrubedo (complexo dunar e lagoas de Carregal e Vixán), na Galiza, há avisos mais ou menos explícitos para que cada visitante cumpra todas as directivas que minimizem o impacto da sua presença naquele ecossistema. Mas o excelente estado de preservação deste vasto habitat, que então testemunhámos, não se devia apenas a esta sinalética de advertência. O parque contava com um grupo de biólogos rodeados de Floras que, além de receberem os visitantes esclarecendo-os sobre a biodiversidade que ali poderiam apreciar, garantiam primorosamente a conservação do parque. Alguns de nós tiveram até a ventura de receber uns guias de bolso muito bem elaborados sob a égide da Xunta de Galicia, da Dirección Xeral de Conservación da Natureza e da Consellería de Medio Ambiente e Desenvolvemento Sostible, com informação detalhada sobre aves, coleópteros, anfíbios e répteis, orquídeas e outra flora. Na nossa primeira visita a Corrubedo, demos sobretudo atenção às populações de Epipactis palustris e de Omphalodes littoralis (esta guardada por um verdadeiro polícia), mas, entusiasmados, agendámos uma segunda visita para admirar o resto.

Quando lá voltámos uns anos depois, a equipa de biólogos e vigilantes da natureza tinha sido dispensada, e o centro de atendimento de visitantes encerrara de vez. Lamentámos que o investimento na divulgação e promoção da ciência não tivesse escapado, pela sua importância, ao crivo da austeridade. E, tristonhos, seguimos para a lagoa de Vixán porque íamos à procura da Glaux maritima, uma Primulacea que já terá frequentado os estuários da costa norte portuguesa mas de que não há registos actuais. Sem sucesso, porém. Apesar de termos encontrado vários exemplares de uma planta que, segundo a foto de um dos livrinhos que nos ofereceram em Corrubedo, é a Glaux maritima.



Bacopa monnieri (L.) Wettst.


Mas não é. Trata-se de uma espécie perene de margens de regatos perto do mar, com talos rasteiros, folhas opostas, espatuladas, suculentas e pintalgadas de glândulas, que tem alguma tendência invasora. É famosa (como denunciam as inúmeras designações em inglês: waterhyssop, brahmi, thyme-leafed gratiola, herb of grace, Indian pennywort) em ervanária por conter alcalóides antioxidantes prescritos para fortalecer a memória (ainda que estas virtudes não estejam acima de qualquer dúvida). Mais frequentemente, é usada para ornamentar aquários. Tem uma distribuição cosmopolita, preferindo no entanto regiões tropicais, mas é nativa da Índia, Austrália, parte da Europa, África, Ásia, América do Norte e do Sul. Em Portugal, ter-se-á instalado no Minho, mas nunca lá a vimos e é certamente (ainda) rara.

Crê-se que o epíteto monnieri homenageia Louis Guillaume Le Monnier (1717-1799), um médico e naturalista francês que foi professor de Botânica no Jardin du Roi (mais tarde Jardin des Plantes) em Paris.

22/11/2016

O futuro é amarelo

Face à tragédia de migrantes e refugiados a que, lamentavelmente, o mundo todo-poderoso não consegue pôr termo, quem deprecia uma espécie exótica, quando ela se revela uma ameaça para a flora endémica de uma região, pode ser apontado como defendendo abusivamente a reserva de um território para os seus habitantes autóctones. Eliminemos, porém, desde já este mal-entendido. Sabemos que não há fronteiras para a fauna ou para a flora, e que declarar uma espécie nativa de um local é uma decisão datada, ainda que tenha fundamento científico. Decerto há plantas em Portugal cujos progenitores terão aqui aportado, vencido a competição com outras espécies e visto alterar-se a sua herança genética pela adaptação a novos polinizadores ou pela colonização de um substrato diferente, tornando-se a pouco e pouco, num processo evolutivo admirável, parte do que hoje, milhões de anos depois, consideramos flora endémica lusitana. O impacto desses imigrantes nos ecossistemas de então seria, por algumas normas actualmente em vigor, comparável à de uma invasão por extraterrestres perigosos. Que razões há então, afora o apelo estético e o interesse botânico, para a erradicação de espécies invasoras, para a listagem cuidadosa das espécies nativas em situação vulnerável e para os programas de conservação, se afinal o futuro pode, sem a nossa (por vezes danosa) intervenção, destinar ao planeta não um deserto mas um coberto vegetal homogéneo, formado por um limitadíssimo número de espécies muito resistentes e bem adaptadas?

Há pelo menos um motivo a que é prudente prestarmos toda a atenção: a sobrevivência da humanidade pode depender, mais do que supõe ou consegue aferir, dos benefícios da biodiversidade. É que tem sido essa variedade biológica e a cooperação entre espécies, num plano de subsistência mútuo, que nos tem garantido alimento, saúde, energia, recursos para a pesquisa tecnológica e a descoberta de novos remédios; e o que poderá assegurar uma resposta eficiente às mudanças no clima. A sustentabilidade da vida na Terra só será possível se os ecossistemas tiverem múltiplos meios de preservar impolutas as fontes de água, de manter a fertilidade do solo arável, de produzir ingredientes variados para a nossa dieta equilibrada, de reciclar os nutrientes do planeta, de travar o declínio dos polinizadores, salvaguardando o seu pacto com as plantas, de renovar as virtudes da nossa atmosfera e, não menos importante, de usufruir da diversidade genética em redutos silvestres.



Vem este arrazoado a propósito de mais uma espécie exótica, originária da América Central e do Sul, que vimos na lagoa de Vixán, na costa da Galiza. Pela sua grande capacidade invasora, a Ludwigia grandiflora é uma forte ameaça a este formoso espaço natural. Herbácea perene, alta, de flores solitárias mas vistosas no Verão e absoluta dependência de solos encharcados, consegue reproduzir-se vegetativamente e aprecia sobremaneira ribeiros de fraca corrente, remansos, arrozais e represas. Os frutos são cápsulas longas com uma coroa de sépalas e sementes firmemente incrustadas, que, mal se libertam, flutuam na água ou se disseminam arrastadas pelo vento. Para travar a propagação da planta, em alguns países da Europa são proibidos tanto a sua comercialização como o seu transporte.



Ludwigia grandiflora (Michx.) Greuter & Burdet

Cremos, porém, que ela não tardará a chegar ao Minho. Das três espécies do género Ludwigia que ocorrem na Península Ibérica, só a L. palustris, de flores muito discretas, é autóctone e tem populações conhecidas em Portugal.

07/12/2011

Taça armadilhada

Dipsacus fullonum L.


Nomes vulgares: cardo-penteador; wild teasel
Ecologia: solos húmidos e nitrificados, em valetas, margens de regatos, prados-juncais, etc.
Distribuição global: Europa, norte de África e sudoeste da Ásia; naturalizado na América do Norte
Distribuição em Portugal: sobretudo no norte (Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa), mas também no Ribatejo
Época de floração: Julho-Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2008, Devon, Inglaterra (foto 1); Agosto de 2010, Corrubedo, Galiza (restantes fotos)
Informações adicionais: herbácea bienal que floresce no seu segundo ano de vida, lançando então uma haste espinhosa que pode ultrapassar 1,5 m de altura; as suas sementes são muito procuradas por pássaros, mas a planta é perigosa para os insectos, que correm o risco de se afogar na água acumulada nas «taças» formadas por cada par de folhas (com proveito para a planta, que parece ser carnívora)

01/12/2011

Debaixo dos pinheiros

Monotropa hypopitys L.
O género Monotropa contém duas espécies perenes, a M. uniflora L. (Indian's pipe) e a M. hypopitys L. (Dutchman's pipe), originalmente da família Monotropaceae mas agora colocadas na família Ericacea, onde coabitam com plantas com que parecem ter reduzido parentesco, como os rododendros. Contudo, a flor das monotropas (única no caso da M. uniflora, em cacho terminal na M. hypopitys), com quatro ou cinco pétalas, é de facto semelhante às dos medronheiros, urzes e mirtilos. Quando nasce, no fim da Primavera, mantém a corola voltada para baixo para que alguma chuva que caia não dilua o néctar que está na base das pétalas, ou comprometa a facilidade do pólen em se colar aos insectos. No Verão levanta-a ligeiramente, não vá a excessiva cautela deixá-la sem visitas. Finalmente em Setembro, quando polinizada, ergue a corola para que murchem convenientemente as componentes que não fazem falta ao fruto, uma cápsula com aberturas laterais por onde as sementes aladas se escapam. [Esta época de floração varia com a região; as plantas com flores mais tardias tendem a ser menos glabras e avermelhadas.]

Monotropa significa uma volta, aludindo à posição unilateral das flores. Hypopitys deriva do termos gregos hypo (abaixo) e pitys (pinheiro), em referência ao habitat sombrio que é natural para esta herbácea — que também ocorre em matas caducifólias húmidas, com outras coníferas ou faias, e até em algumas dunas. Na Península Ibérica prefere a metade mais fria; por cá, vê-se cada vez menos nas montanhas do norte e centro (o primeiro exemplar que vimos vive na mata da Margaraça). É espontânea, embora em geral rara, em boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte.

Vivendo assim em condições extremas de falta de luminosidade, e não exibindo folhas verdes (as folhas são as escamas transparentes de aspecto ceroso que abraçam o caule), desconfia-se que se alimente da matéria em decomposição que abunda nas florestas densas ricas em humidade. Engano nosso, esta não é uma planta saprófita. Na verdade tem um rizoma carnudo que se reveste de fungos cuidadosamente seleccionados, e são estes que lhe fornecem alimento. O negócio funciona do seguinte modo. As árvores sintetizam açúcares nas folhas, com luz, clorofila e dióxido de carbono, e enviam-no para toda a planta, incluindo as raízes. Aqui os fungos retiram uma porção, que dividem com a Monotropa, pagando à árvore em nutrientes minerais, especialmente fósforo, e ajudando-a a absorver água. O negócio é proveitoso para o fungo e para a árvore, mas também para a oportunista Monotropa, que talvez tenha aprendido/ensinado a esta orquídea, com a qual é frequentemente confundida, uma tal estratégia barata de alimentação. Não é porém clara a razão para os dois parceiros, árvore e fungo, cooperarem no sustento destas parasitas.

14/10/2011

É favor não pisar


Anchusa calcarea Boiss.


Para guardarem os centavos da República, os coleccionadores de moedas usam umas páginas em plástico com bolsas quadradas, uma para cada moeda, num arquivo esmerado onde elas estão protegidas da oxidação. Nos lugares vazios, há quem coloque fotos das moedas, retiradas de livros de numismática ou da internet, na esperança de um dia as substituir pelos originais em metal. Do mesmo modo, a nossa colecção de anchusas tinha, até há uns tempos, uma foto de livro com esta planta, pouco esclarecedora quanto aos detalhes; desde a nossa última visita à Galiza, dispomos já do original — que, na verdade, é também uma imagem, mas com mais memória nossa.

Esta erva-de-n-línguas é um endemismo do oeste e sul da Península Ibérica. Segundo a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, ocorre em todos os areais costeiros, mas nós nunca a vimos nas praias do norte (Douro ou Minho). O que não nos surpreende pois, por razões ocultas, as plantas da beira-mar preferem enfrentar o perigo — que é real, não falta à-vontade no pisoteio aos veraneantes, sempre ansiosos por chegar à espuma — a terem de se acotovelar dentro das cercas que os zeladores prestimosamente espalham pelos areais.

É herbácea perene ou bienal de duna fixa, com lanugem de dois tamanhos no caule e folhas, uma opção atinada que a protege da erosão do par areia + vento. As folhas são pecioladas, crenadas e, as mais baixas, arrosetadas; podem chegar aos 15 cm de comprimento. As flores tubulares, com brácteas conspícuas e penugentas, são pequeninas e nascem na Primavera: os cálices têm cerca de 1 cm e são fendidos até 1/4 do seu comprimento; a corola, azul ou púrpura, ronda os 8 mm de diâmetro.

Desviei-me do assunto, desculpem. O que queria dizer é que nos falta um exemplar português, o tal centavo precioso.