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01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo - veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia - nas dunas de Corrubedo, Galiza

18/07/2017

Novos embudes


Oenanthe lachenalii C. C. Gmel.



Quando os ribeiros emagrecem por falta de chuva é que os embudes engordam. Embude é nome vernáculo para uma das umbelíferas mais comuns em Portugal continental, a Oenanthe crocata, omnipresente em pequenos, médios e grandes cursos de água, e aventurando-se até em lugares de onde a humidade há muito se evaporou. Talvez a sua abundância se deva não apenas à grande produção de sementes mas também à toxicidade que os herbívoros, com um instinto desconcertante, aprenderam a evitar. Contudo, outros embudes do nosso território, como esta Oenanthe lachenalii, não souberam usar o veneno como arma de expansão, pelo que a sua escassez se explicaria por uma frutificação menos prolífera ou por uma menor versatilidade ecológica. A desfavor da segunda hipótese joga o facto de a O. lachenalii nada se importar com a salinidade da água, dando-se igualmente bem em água doce ou nas águas salobras de rias e estuários. A preferência por substratos arenosos acaba por limitar as suas escolhas de habitat, mas, apesar de esparsamente distribuída pelo país, não está de modo nenhum confinada ao litoral, como se vê pelo mapa de distribuição no portal Flora-On. Um dos nomes populares que a imaginação dos botânicos lhe atribuiu, bruco-de-Salvaterra, dá conta da sua existência nas margens alagadiços do Tejo, o que o dito mapa corrobora, embora obrigue a planta a saltar o rio de Salvaterra (na margem sul) para a Azambuja (na margem norte). Deverá o povo corrigir-lhe o nome para bruco-da-Azambuja? As plantas das fotos vivem não em Portugal mas na lagoa costeira de Vixán, um dos poucos lugares da Galiza onde a espécie está assinalada. Não sendo os galegos menos conhecedores da distribuição das raridades botânicas do que os portugueses, é de supor que lhe chamem bruco-de-Vixán.

A O. lachenalii distingue-se sem dificuldade da O. crocata por ser uma planta de menor porte (é raro ultrapassar os 80 cm de altura), por ter uma umbela mais compacta, e por apresentar folhas de lóbulos mais estreitos e compridos. Há porém duas outras espécies em Portugal (e em grande parte da Europa) com idênticas preferências de habitat que com ela se podem confundir: trata-se da Oenanthe fistulosa (que tem as folhas muito menos recortadas - veja-se aqui) e da Oenanthe globulosa (com inflorescências ainda mais compactas e menor número de frutos em cada umbélula - confira-se aqui). Encontrar qualquer uma das três espécies é um feito só ao alcance de quem esteja disposto a calçar galochas e não receie chafurdar em terrenos lodosos.

06/12/2016

Memória das Índias

Logo à entrada do Parque Natural de Corrubedo (complexo dunar e lagoas de Carregal e Vixán), na Galiza, há avisos mais ou menos explícitos para que cada visitante cumpra todas as directivas que minimizem o impacto da sua presença naquele ecossistema. Mas o excelente estado de preservação deste vasto habitat, que então testemunhámos, não se devia apenas a esta sinalética de advertência. O parque contava com um grupo de biólogos rodeados de Floras que, além de receberem os visitantes esclarecendo-os sobre a biodiversidade que ali poderiam apreciar, garantiam primorosamente a conservação do parque. Alguns de nós tiveram até a ventura de receber uns guias de bolso muito bem elaborados sob a égide da Xunta de Galicia, da Dirección Xeral de Conservación da Natureza e da Consellería de Medio Ambiente e Desenvolvemento Sostible, com informação detalhada sobre aves, coleópteros, anfíbios e répteis, orquídeas e outra flora. Na nossa primeira visita a Corrubedo, demos sobretudo atenção às populações de Epipactis palustris e de Omphalodes littoralis (esta guardada por um verdadeiro polícia), mas, entusiasmados, agendámos uma segunda visita para admirar o resto.

Quando lá voltámos uns anos depois, a equipa de biólogos e vigilantes da natureza tinha sido dispensada, e o centro de atendimento de visitantes encerrara de vez. Lamentámos que o investimento na divulgação e promoção da ciência não tivesse escapado, pela sua importância, ao crivo da austeridade. E, tristonhos, seguimos para a lagoa de Vixán porque íamos à procura da Glaux maritima, uma Primulacea que já terá frequentado os estuários da costa norte portuguesa mas de que não há registos actuais. Sem sucesso, porém. Apesar de termos encontrado vários exemplares de uma planta que, segundo a foto de um dos livrinhos que nos ofereceram em Corrubedo, é a Glaux maritima.



Bacopa monnieri (L.) Wettst.


Mas não é. Trata-se de uma espécie perene de margens de regatos perto do mar, com talos rasteiros, folhas opostas, espatuladas, suculentas e pintalgadas de glândulas, que tem alguma tendência invasora. É famosa (como denunciam as inúmeras designações em inglês: waterhyssop, brahmi, thyme-leafed gratiola, herb of grace, Indian pennywort) em ervanária por conter alcalóides antioxidantes prescritos para fortalecer a memória (ainda que estas virtudes não estejam acima de qualquer dúvida). Mais frequentemente, é usada para ornamentar aquários. Tem uma distribuição cosmopolita, preferindo no entanto regiões tropicais, mas é nativa da Índia, Austrália, parte da Europa, África, Ásia, América do Norte e do Sul. Em Portugal, ter-se-á instalado no Minho, mas nunca lá a vimos e é certamente (ainda) rara.

Crê-se que o epíteto monnieri homenageia Louis Guillaume Le Monnier (1717-1799), um médico e naturalista francês que foi professor de Botânica no Jardin du Roi (mais tarde Jardin des Plantes) em Paris.

22/11/2016

O futuro é amarelo

Face à tragédia de migrantes e refugiados a que, lamentavelmente, o mundo todo-poderoso não consegue pôr termo, quem deprecia uma espécie exótica, quando ela se revela uma ameaça para a flora endémica de uma região, pode ser apontado como defendendo abusivamente a reserva de um território para os seus habitantes autóctones. Eliminemos, porém, desde já este mal-entendido. Sabemos que não há fronteiras para a fauna ou para a flora, e que declarar uma espécie nativa de um local é uma decisão datada, ainda que tenha fundamento científico. Decerto há plantas em Portugal cujos progenitores terão aqui aportado, vencido a competição com outras espécies e visto alterar-se a sua herança genética pela adaptação a novos polinizadores ou pela colonização de um substrato diferente, tornando-se a pouco e pouco, num processo evolutivo admirável, parte do que hoje, milhões de anos depois, consideramos flora endémica lusitana. O impacto desses imigrantes nos ecossistemas de então seria, por algumas normas actualmente em vigor, comparável à de uma invasão por extraterrestres perigosos. Que razões há então, afora o apelo estético e o interesse botânico, para a erradicação de espécies invasoras, para a listagem cuidadosa das espécies nativas em situação vulnerável e para os programas de conservação, se afinal o futuro pode, sem a nossa (por vezes danosa) intervenção, destinar ao planeta não um deserto mas um coberto vegetal homogéneo, formado por um limitadíssimo número de espécies muito resistentes e bem adaptadas?

Há pelo menos um motivo a que é prudente prestarmos toda a atenção: a sobrevivência da humanidade pode depender, mais do que supõe ou consegue aferir, dos benefícios da biodiversidade. É que tem sido essa variedade biológica e a cooperação entre espécies, num plano de subsistência mútuo, que nos tem garantido alimento, saúde, energia, recursos para a pesquisa tecnológica e a descoberta de novos remédios; e o que poderá assegurar uma resposta eficiente às mudanças no clima. A sustentabilidade da vida na Terra só será possível se os ecossistemas tiverem múltiplos meios de preservar impolutas as fontes de água, de manter a fertilidade do solo arável, de produzir ingredientes variados para a nossa dieta equilibrada, de reciclar os nutrientes do planeta, de travar o declínio dos polinizadores, salvaguardando o seu pacto com as plantas, de renovar as virtudes da nossa atmosfera e, não menos importante, de usufruir da diversidade genética em redutos silvestres.



Vem este arrazoado a propósito de mais uma espécie exótica, originária da América Central e do Sul, que vimos na lagoa de Vixán, na costa da Galiza. Pela sua grande capacidade invasora, a Ludwigia grandiflora é uma forte ameaça a este formoso espaço natural. Herbácea perene, alta, de flores solitárias mas vistosas no Verão e absoluta dependência de solos encharcados, consegue reproduzir-se vegetativamente e aprecia sobremaneira ribeiros de fraca corrente, remansos, arrozais e represas. Os frutos são cápsulas longas com uma coroa de sépalas e sementes firmemente incrustadas, que, mal se libertam, flutuam na água ou se disseminam arrastadas pelo vento. Para travar a propagação da planta, em alguns países da Europa são proibidos tanto a sua comercialização como o seu transporte.



Ludwigia grandiflora (Michx.) Greuter & Burdet

Cremos, porém, que ela não tardará a chegar ao Minho. Das três espécies do género Ludwigia que ocorrem na Península Ibérica, só a L. palustris, de flores muito discretas, é autóctone e tem populações conhecidas em Portugal.

07/12/2011

Taça armadilhada



Dipsacus fullonum L.

Nomes vulgares: cardo-penteador; wild teasel
Ecologia: solos húmidos e nitrificados, em valetas, margens de regatos, prados-juncais, etc.
Distribuição global: Europa, norte de África e sudoeste da Ásia; naturalizado na América do Norte
Distribuição em Portugal: sobretudo no norte (Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa), mas também no Ribatejo
Época de floração: Julho-Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2008, Devon, Inglaterra (foto 1); Agosto de 2010, Corrubedo, Galiza (restantes fotos)
Informações adicionais: herbácea bienal que floresce no seu segundo ano de vida, lançando então uma haste espinhosa que pode ultrapassar 1,5 m de altura; as suas sementes são muito procuradas por pássaros, mas a planta é perigosa para os insectos, que correm o risco de se afogar na água acumulada nas «taças» formadas por cada par de folhas (com proveito para a planta, que parece ser carnívora)

01/12/2011

Debaixo dos pinheiros


Monotropa hypopitys L.

O género Monotropa contém duas espécies perenes, a M. uniflora L. (Indian's pipe) e a M. hypopitys L. (Dutchman's pipe), originalmente da família Monotropaceae mas agora colocadas na família Ericacea, onde coabitam com plantas com que parecem ter reduzido parentesco, como os rododendros. Contudo, a flor das monotropas (única no caso da M. uniflora, em cacho terminal na M. hypopitys), com quatro ou cinco pétalas, é de facto semelhante às dos medronheiros, urzes e mirtilos. Quando nasce, no fim da Primavera, mantém a corola voltada para baixo para que alguma chuva que caia não dilua o néctar que está na base das pétalas, ou comprometa a facilidade do pólen em se colar aos insectos. No Verão levanta-a ligeiramente, não vá a excessiva cautela deixá-la sem visitas. Finalmente em Setembro, quando polinizada, ergue a corola para que murchem convenientemente as componentes que não fazem falta ao fruto, uma cápsula com aberturas laterais por onde as sementes aladas se escapam. [Esta época de floração varia com a região; as plantas com flores mais tardias tendem a ser menos glabras e avermelhadas.]

Monotropa significa uma volta, aludindo à posição unilateral das flores. Hypopitys deriva do termos gregos hypo (abaixo) e pitys (pinheiro), em referência ao habitat sombrio que é natural para esta herbácea - que também ocorre em matas caducifólias húmidas, com outras coníferas ou faias, e até em algumas dunas. Na Península Ibérica prefere a metade mais fria; por cá, vê-se cada vez menos nas montanhas do norte e centro (o primeiro exemplar que vimos vive na mata da Margaraça). É espontânea, embora em geral rara, em boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte.

Vivendo assim em condições extremas de falta de luminosidade, e não exibindo folhas verdes (as folhas são as escamas transparentes de aspecto ceroso que abraçam o caule), desconfia-se que se alimente da matéria em decomposição que abunda nas florestas densas ricas em humidade. Engano nosso, esta não é uma planta saprófita. Na verdade tem um rizoma carnudo que se reveste de fungos cuidadosamente seleccionados, e são estes que lhe fornecem alimento. O negócio funciona do seguinte modo. As árvores sintetizam açúcares nas folhas, com luz, clorofila e dióxido de carbono, e enviam-no para toda a planta, incluindo as raízes. Aqui os fungos retiram uma porção, que dividem com a Monotropa, pagando à árvore em nutrientes minerais, especialmente fósforo, e ajudando-a a absorver água. O negócio é proveitoso para o fungo e para a árvore, mas também para a oportunista Monotropa, que talvez tenha aprendido/ensinado a esta orquídea, com a qual é frequentemente confundida, uma tal estratégia barata de alimentação. Não é porém clara a razão para os dois parceiros, árvore e fungo, cooperarem no sustento destas parasitas.

14/10/2011

É favor não pisar




Anchusa calcarea Boiss.

Para guardarem os centavos da República, os coleccionadores de moedas usam umas páginas em plástico com bolsas quadradas, uma para cada moeda, num arquivo esmerado onde elas estão protegidas da oxidação. Nos lugares vazios, há quem coloque fotos das moedas, retiradas de livros de numismática ou da internet, na esperança de um dia as substituir pelos originais em metal. Do mesmo modo, a nossa colecção de anchusas tinha, até há uns tempos, uma foto de livro com esta planta, pouco esclarecedora quanto aos detalhes; desde a nossa última visita à Galiza, dispomos já do original - que, na verdade, é também uma imagem, mas com mais memória nossa.

Esta erva-de-n-línguas é um endemismo do oeste e sul da Península Ibérica. Segundo a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, ocorre em todos os areais costeiros, mas nós nunca a vimos nas praias do norte (Douro ou Minho). O que não nos surpreende pois, por razões ocultas, as plantas da beira-mar preferem enfrentar o perigo - que é real, não falta à-vontade no pisoteio aos veraneantes, sempre ansiosos por chegar à espuma - a terem de se acotovelar dentro das cercas que os zeladores prestimosamente espalham pelos areais.

É herbácea perene ou bienal de duna fixa, com lanugem de dois tamanhos no caule e folhas, uma opção atinada que a protege da erosão do par areia + vento. As folhas são pecioladas, crenadas e, as mais baixas, arrosetadas; podem chegar aos 15 cm de comprimento. As flores tubulares, com brácteas conspícuas e penugentas, são pequeninas e nascem na Primavera: os cálices têm cerca de 1 cm e são fendidos até 1/4 do seu comprimento; a corola, azul ou púrpura, ronda os 8 mm de diâmetro.

Desviei-me do assunto, desculpem. O que queria dizer é que nos falta um exemplar português, o tal centavo precioso.

13/06/2011

Língua desaparecida



Ophioglossum vulgatum L.

Nenhum observador ocasional chamaria feto a esta planta, mas é isso mesmo que ela é. A sua parte aérea, que tem 10 a 20 cm de altura, consiste numa folha mais ou menos carnuda, de ápice arredondado, que forma na base uma bainha de onde sai uma haste preenchida na parte terminal com uns vinte a trinta pares de esporângios. O formato dessa haste - a que os entendidos gostam de chamar fronde fértil - foi a óbvia inspiração para os nomes viperinos (língua-de-cobra, adder's tongue) pelos quais a planta é conhecida. É um feto que, preferindo solos pouco ácidos, vive em prados húmidos e clareiras de bosques. A altura ideal para o detectarmos é quando põe a língua de fora, entre Abril e Junho.

Em Portugal é pouco provável que alguém encontre uma destas línguas-de-cobra por acaso. No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, de João do Amaral Franco e Maria da Luz da Rocha Afonso, publicado em 1982, ficamos a saber que o Ophioglossum vulgatum, no nosso país, só se encontra no litoral entre o Douro e o Ave, e ainda no distrito de Bragança já perto da fronteira. Mas as herborizações mais recentes de que temos notícia, na Boa Nova e na Praia da Memória, datam de 1893 e de 1907; e as transformações que esse território entretanto sofreu não permitem grandes optimismos. Quanto a Bragança, Carlos Aguiar, na sua tese de doutoramento sobre a flora e a vegetação do Parque de Montesinho e da Serra da Nogueira, datada de 2000, não refere a existência de qualquer Ophioglossum naqueles lugares. Assim, e até prova em contrário, é de admitir que o Ophioglossum vulgatum já não exista em Portugal.

Na Galiza aqui tão perto a destruição do litoral não atingiu o paroxismo lusitano. E foi na ria de Vigo, junto às dunas que escondem uma praia de nudistas, num prado húmido que ocupou um antigo campo futebol de que ainda sobram as balizas, que vimos todas estas línguas a agitar-se ao vento.

17/03/2011

Erva da raiva

Alyssum loiseleurii P. Fourn.

Sou uma pessoa pouco informada acerca de doenças. Se não me protegesse pela ignorância voluntária, iria em imaginação desenvolver os sintomas mais preocupantes. Na adolescência, quando não tinha ainda plena consciência desse meu pendor hipocondríaco, foram muitas as vezes em que me supus atingido por doenças implacáveis, que em poucos dias iriam desfigurar-me, prostrar-me em delírio comatoso ou reduzir o meu cérebro a farinha. Quando os dias passavam sem que a doença registasse progressos, acabava por acreditar que o auto-diagnóstico fora precipitado. Estóico por natureza, só uma vez revelei aos meus pais a doença que estaria prestes a fulminar-me: tratava-se da raiva. Se o socorro viesse prontamente, ainda poderia salvar-me.

O médico nosso vizinho riu-se quando lhe contei como teria sido infectado: durante uma brincadeira, fui mordido de raspão pela nossa cadela labrador, a Diana. A raiva, disse-nos ele, há muitos anos que em Portugal não era detectada em animais domésticos. Foi remédio santo: os sintomas incipientes desvaneceram-se num ápice. Optei contudo por não confessar que a verdadeira causa da minha maladie imaginaire tinha sido o conto O Morgado de Pedra-Má de José Rodrigues Miguéis (incluído em Léah e Outras Histórias - 1958), em que o protagonista sofre morte horrível após ter sido mordido por um cão raivoso. O livro - uma bonita edição da Estampa, editora que agora se dedica ao esoterismo - ainda tem lugar de honra nas estantes cá de casa, mas prefiro não reler o conto.

O contraponto das doenças inexistentes são os remédios ou mezinhas que só funcionam na imaginação. Alyssum vem do grego, e indica que a planta assim nomeada seria útil para curar a raiva. O que, como hoje sabemos, é absurdo, pois antes de Pasteur quem fosse infectado pela doença tinha a morte como certa. Como a Alyssum loiseleurii e as suas congéneres não têm, ao que sei, qualquer virtude medicinal, o melhor é esquecer as doenças e falar da planta.

As cinco espécies de Alyssum que ocorrem em Portugal, e das quais nunca me calhou encontrar nenhuma, revelam acentuada predilecção pelas serras transmontanas; mas a Alyssum loiseleurii, inexistente em território português, trocou as montanhas pela beira-mar, frequentando as dunas do sudoeste de França e do norte da Península Ibérica. É uma planta perene, de base algo lenhosa, cujas hastes prostradas, revestidas por folhas de um verde prateado, não vão além dos 20 cm de comprimento. Pode ver-se em flor em Julho e Agosto nalgumas praias menos pisoteadas da costa galega - por exemplo em Corrubedo e em O Grove. As suas populações são poucas e escassas, e a sua sobrevivência está ameaçada pela cada vez mais intensa ocupação humana do litoral.

25/02/2011

Navegar é preciso


Punta Carreirón, Ilha de Arousa (Pontevedra, Galiza)

Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos marinha.

A Pedro Nunes está em tal estado que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco. O Mindelo tem um jeito: é andar de lado; e uma teima – deitar-se. No alto mar, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais da marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. O Mindelo é um esquife – a hélice. A Napier saiu um dia para uma possessão: chega, e não pode voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier insensível não se mexeu. (...) Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. Quem ousa atacar as cãs de um velho?

Tem-se tentado muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos decrépitos alguns navios novos, robustos e sanguíneos. Tentou-se primeiro comprá-los. Sucedeu o caso da corveta Hawks: era esta corveta uma carcassa britânica, que o almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro pelo peso. Por esse tempo o governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks. Inexperiente com corvetas, achou-a nova, virgem, distinta, forte, – comprou-a. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks com um pudor abjecto – desfez-se-lhe nas mãos. (...)

Tentou-se então construir em Portugal. Sabia-se que o arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem direcção, nem instrumentos, nem engenheiros, nem trabalho, nem organização. Tentou-se, todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Gastaram com ela 156 contos. Foi a Inglaterra meter máquina, mas quando chegou – oh maravilha das dissoluções orgânicas! – a jovem Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre! Nova tentativa. (...) Fundo podre! O arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente anti-patriótica! Os engenheiros em Inglaterra já não se aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés... e com lenço no nariz. (...)

O arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, foguetes, bandeirolas, e a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado, e a lancha imóvel! Mas de repente move-se: alegria inesperada e desilusão imediata! A lancha recuava: tinha-se erguido uma brisa que a repelia. Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava para trás. Para diante não ia. Pegava-se. O arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar... puxada a bois. O país riu durante um mês.

O arsenal roeu a humilhação, e encetou a espécie caique. Ainda o havemos de ver, no género construção em madeira, cultivar... o palito!

Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, As Farpas (edição Principia, 2004)

14/01/2011

Nos primeiros dias do mundo, à sombra de uma árvore


Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Direcção Única são as duas palavras postas ao lado uma da outra para indicar o único caminho por onde deve seguir toda a gente. E, para que não haja confusões possíveis, encontramos pelas esquinas e encruzilhadas uns discos pintados de encarnado, servindo de fundo e chamariz a umas letras brancas que dizem claramente, para quem quer que seja, e até para os cegos e para os analfabetos: direcção proibida.
Ora, as direcções proibidas não nos interessam absolutamente nada. Não quer isto dizer que vamos desprezar esses discos das direcções proibidas e desobedecer às suas ordens dadas tão visível e intimativamente para todos sem excepção. Não senhor, não é nada disso. Pelo contrário: até lhes agradecemos de todo o coração a esses avisos tão bem postos aí nos seus lugares, que ninguém pode vir depois com desculpas de não ter sido avisado a tempo. A nós não nos interessam as direcções proibidas pela simples razão de que só nos importa a direcção única. Temos todo o nosso tempo muito certinho muito bem contado, e é o justo para podermos seguir em linha recta pela direcção única. Se nos enganássemos e fôssemos por qualquer descuido ou capricho nosso por alguma das muitíssimas direcções proibidas que nos aparecem a cada passo, a cada esquina, a cada momento, em todas as encruzilhadas, arriscávamo-nos a não chegar a horas ao fim da nossa viagem, que é como quem diz, ao fim destas linhas que V. Ex.as tão amáveis, estão escutando com tanta atenção. (...)
Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe:
— Toma para ti, tudo isto tem uma direcção única.
E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direcções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas. Mas contemos exactamente como as coisas se passaram.
Comecemos exactamente pelo princípio. Pois ao princípio não havia nada. Mas mesmo o que se chama nada. E sete dias depois já estava feito tudo. Mas mesmo o que se chama tudo. E tudo isto que levou sete dias a fazer foi tudo feito expressamente para uma pessoa só. Foi esta, minhas senhoras e meus senhores, a primeira vez que uma pessoa se viu sozinha neste mundo. Era um homem. Um pobre homem. Fazia dó vê-lo ali sozinho, metido no meio de todas as riquezas do mundo. Tudo aquilo só para ele e para mais ninguém. Pois se havia só ele em todo o mundo! Há-de haver muita gente a quem faça inveja uma situação tão desafogada como esta, contudo foi esta a primeira desgraça humana que houve no Mundo. Todas as riquezas da Terra não eram o bastante para que ele não caísse na tristeza do isolamento, na angústia da solidão, nesse inferno–verdadeiro ao ar livre. Mas Deus reparou logo nessa sua falta e emendou a mão. (...)
E já estamos no dia oito do mundo. E quando em todo o mundo não há senão duas pessoas, e que estas são precisamente um homem e uma mulher, não há perigo de haver engano: foram feitos um para o outro. Mas Deus, que vê muito mais longe que as pessoas, não havia maneira de se esquecer daquele horroroso espectáculo que oferece uma pessoa quando está sozinha neste mundo, e então tomou as suas precauções para que aquilo não se tornasse a repetir. E fez então a mulher para que fossem duas pessoas e uma única combinação entre elas. (...) Foi esta a condição que Deus pôs a todos os que entrassem no Paraíso Terrestre para gozarem todas as riquezas da Terra: que viessem aos pares, que fossem sempre juntinhos os dois, como os pombinhos, como as cegonhas, como os elefantes, como os cavalos, como os burros, ambos ao mesmo tempo por toda a parte, sem ter cada um nada que pensar em si-próprio, sendo-lhes apenas consentido pensarem nos dois ao mesmo tempo. Numa palavra: a direcção única. A direcção única era os dois ao mesmo tempo. E as direcções proibidas cada um para seu lado. (...)
Pois este par andou por toda a terra, pelas cinco partes do mundo, o qual por esse tempo era todo conhecido e não tinha ainda nenhum pedaço por descobrir; conheceu e gozou todas as maravilhas, todas as fortunas, todas as riquezas, todas as infinitas felicidades que Deus deitou ao Mundo, até que um dia, dia maldito na História do nosso planeta, depois de já terem feito o que lhes estava permitido fazer, já não tinham mais novidades do que aquelas que eram as proibidas. Oh curiosidade! Oh apetite! E claro está também fizeram o que era proibido. Dizem que foi ela quem começou, mas fosse qual fosse, isso é secundário, o importante é que acabaram os dois. E então foi o diabo! Desde esse momento escangalhou-se tudo. Tudo! E foi-se por água abaixo a primeira colaboração que se fazia no mundo. Cada um para seu lado, cada um no seu isolamento, cada qual na sua solidão. Exactamente como se em vez de um houvesse dois mundos iguais e uma pessoa só para cada mundo. (...) Desde esse mesmo instante todas as coisas deste mundo perderam o seu único sentido e ficaram com vários, um único bom e todos os outros maus, dificílimo de distinguir os maus do bom, parecidíssimos todos, uma trapalhada. (...)
Pedimos a V. Ex.as a fineza de repararem em que a História da Humanidade começa exactamente por um fracasso, o fracasso da primeira colaboração entre pessoas.

Lisboa, Abril 1932.
José de Almada Negreiros

09/12/2010

Águas perdidas



Polygonum amphibium L.

     Nomes vulgares: polígono-anfíbio, water knotweed
     Distribuição global: Eurásia e América do Norte; naturalizado noutros continentes
     Distribuição em Portugal: embora raro, parece ocorrer em quase todas as províncias
     Época de floração: Junho a Setembro 
     Data e local das fotos: lagoa A Bodeira, O Grove (Pontevedra, Galiza), Agosto de 2010

03/12/2010

O jardim não mudou, o silêncio está intacto


Miradouro da Siradella (O Grove, Pontevedra, Galiza)

...No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. (...)
...Mas olhemos com mais pormenor para os pormenores.
...Em primeiro lugar há a constatação de um facto: o jardim não mudou.
...O importante - no entanto - é, de imediato, perguntar: em que pode mudar um jardim?
...Há dois tipos de resposta: ou um jardim muda tanto que deixa de ser um jardim e passa, por exemplo, a ser o edifício de um Banco que se construiu em cima; ou um jardim muda pouco e, em vez de ter vinte e três flores, passa a ter vinte e duas porque uma foi arrancada por três crianças sem consciência botânica. Entre uma mudança brusca (um jardim inteiro desaparecer) e uma mudança suave (uma flor do jardim desaparecer) há uma significativa distância. Esclarecer como é que o jardim não mudou parece-nos, pois, indispensável. O jardim de que fala o narrador do verso de Auden não mudou porque não desapareceu? Ou não mudou porque manteve as suas vinte e três flores?
(...)
...O homem prático pede que o avisem quando alguma coisa muda. Um poeta como Auden, ao contrário, insiste em avisar o mundo de que algumas coisas não mudam e que esse é, afinal, o seu fascínio.

...
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências (Editorial Caminho, 2010)

28/10/2010

Lagoa dos limónios



Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

O Parque Natural das Dunas de Corrubedo e lagoas de Carregal e Vixán ocupa quase mil hectares do concelho galego da Ribeira, na província da Corunha. É lá que os aficcionados portugueses de orquídeas podem, entre Julho e Agosto, admirar a Epipactis palustris, espécie que até à primeira metade do século XX era abundante no litoral centro de Portugal (em especial na zona de Ílhavo) mas que desde então parece ter-se sumido do país. São porém muitos os motivos para visitar essa zona húmida noutras alturas do ano. No conjunto de habitats lá representados (sapal, prados arenosos húmidos, dunas, rochas costeiras, matos e bosques) vivem 247 espécies de plantas, algumas raras ou ausentes de Portugal, e o rodopio de aves residentes ou migratórias é um grande atractivo para ornitólogos amadores ou profissionais. O pessoal do centro de atendimento, ao contrário do que é regra em Portugal, conhece o património natural à sua guarda e sabe dar indicações úteis aos visitantes. E não tem só indicações para dar. A junta da Galiza fez publicar seis brochuras a cores, de 60 a 90 páginas cada, sobre os diversos aspectos do parque natural: guia das aves, guia dos répteis e anfíbios, dos coleópteros, da flora, dos orquídeas, dos percursos. São livrinhos com boas fotos e bons textos, de qualidade mais que aceitável para serem vendidos ao público, mas que são oferecidos a quem os solicite - e eu até preferia tê-los pago. E torna-se inevitável comparar a informação disponibilizada nesse parque natural galego com o que se passa, por exemplo, no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nas «portas» do PNPG, os funcionários que nos atendem - admito que com simpatia -, além de não saberem rigorosamente nada, só têm para venda, a 1 euro por unidade, uns folhetos sem qualquer informação útil. Um deles, sobre turfeiras, continha só generalidades que poderiam ter sido tiradas da Wikipedia, nada dizendo sobre a flora específica ou a localização das turfeiras do PNPG.

As fotos em cima mostram a lagoa de Carregal na maré vaza. Mais uma ou duas horas e o mar começaria a meandrar pelos canais que cruzam as dunas, enchendo de água salgada a extensa concavidade arenosa. Há zonas que ficam submersas e outras a que só chega um fio de água, distinção de que as duas espécies de Limonium que ali coexistem bem sabem tirar partido. O Limonium vulgare, de maior envergadura, gosta de locais encharcados: ocupa as margens da lagoa mas avança também para o seu interior. Para o L. binervosum, essas margens marcam uma linha que ele se recusa a ultrapassar, preferindo concentrar-se nos lugares onde a água nunca chega ou o faz só raramente.



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O L. binervosum tem folhas de 2 a 6 cm de comprimento dispostas em roseta basal, e hastes florais esparsamente ramificadas que podem chegar aos 45 cm de altura. As flores, que aparecem entre Julho e Setembro, são pequenas - até 7 mm de diâmetro - e não param quietas à menor brisa, boicotando seriamente o trabalho do fotógrafo. O efeito ornamental destas plantas em flor, quando reunidas em grande número, não fica aquém do da Armeria, outra planta da mesma família que frequenta habitats costeiros. Mas, vá-se lá saber porquê, pouca gente se lembra de gabar a beleza dos limónios.

A consulta dos manuais não esclareceu cabalmente se o Limonium binervosum ocorre ou não em Portugal. Entre a Nazaré e Peniche há muitos limónios, mas por ser comum a hibridação entre espécies é difícil distingui-los. O mais frequente parece ser o L. virgatum, que não anda longe de ser um sósia perfeito do L. binervosum. Para agravar a confusão, existe em rochedos e falésias da costa cantábrica da Galiza uma espécie muito semelhante, o L. dodartii, tão raro que se considera em perigo em extinção. Contudo, há quem defenda que L. dodartii e L. binervosum são sinónimos - e este último, a avaliar pela amostra na lagoa de Carregal, não é de modo nenhum escasso.