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12/03/2008

Fuji


Wisteria floribunda

O prato da foto é uma porcelana Nabeshima, do período Edo (1700-1730), propriedade do Museu de Kyushu e que esteve em exibição no Museu Soares dos Reis, no âmbito da exposição temporária Obras-primas da cerâmica japonesa. Tem cerca de 30cm de diâmetro e está decorado com glicínias de flor branca penduradas numa pérgula e pintadas sobre nuvens azuis e brancas. A disposição do fundo e o desenho requintado e perfeito reforçam a tradicional associação desta planta à nobreza. E nota-se grande cuidado nos pormenores: as glicínias estão sublinhadas com linhas finas vermelhas, mas as flores brancas resultam da não aplicação de cor; as gavinhas enrolam-se em volta da grade em sentido horário, o que nos permite identificar a espécie, Wisteria floribunda; além disso, a cor nas folhas não é apenas verde, há algumas a amarelecer, detalhe que ainda mais aproxima a representação da realidade.

Fora do prato, as glicínias de flor lilás (Wisteria sinensis) já estão a florir, cobrindo o negrume dos muros e alterando os aromas na cidade. Até Abril, seguir-se-ão as de flores brancas, de cachos maiores mas de perfume mais ténue.

O género Wisteria tem quatro espécies da China e Japão, onde é uma das trepadeiras mais populares, e duas da América do Norte. Começou por se chamar Glycine (do grego glykys, doce), fonte da designação vernácula portuguesa e francesa, género a que pertence a soja (G. max). O nome actual, atribuído pelo botânico Thomas Nuttall, homenageia Caspar Wistar (1761-1818), um professor talentoso, inspirado e popular entre os seus alunos na Universidade da Pennsylvania.

08/01/2008

O artista da sua terra


Amieiro na margem direita do Lima

Houve um tempo em que o caderno de encargos do artista estava definido com clareza: o poeta celebrava em versos de rigorosa métrica as belezas (naturais ou humanas) da sua terra, e o pintor cumpria igual tarefa com óleos e aguarelas. O âmbito geográfico restrito dos motivos de inspiração não tolhia o surgimento de vocações universais: o artista podia ser do mundo inteiro sem deixar de ser da sua aldeia. Mas hoje, com o descrédito da rima e da arte figurativa, e sobretudo com as facilidades de locomoção, só os artistas menores se refugiam na celebridade local e no patrocínio das juntas de freguesia; e mesmo esses têm o mundo inteiro, ou a aparência fugaz dele, à distância de um voo low cost. Já ninguém põe em verso a vida rústica. Alberto Caeiro, o último poeta rural português, cantou o bucolismo abstracto de uma aldeia imaginária, numa época em que já todos os seus confrades tinham desistido da aldeia real.

Lembrei-me disto ao ver a exposição de António Cruz (1907-1983) que está no Museu Soares dos Reis até ao fim de Janeiro. Eis um pintor que, sem ser figurativo, fixou nas suas aguarelas uma cidade brumosa em cujos volumes e contornos esfumados o Porto facilmente se reconhece. António Cruz é sem dúvida um artista portuense; de facto, nunca terá havido artista mais portuense, mas essa condição bairrista só o engrandece. O poeta e diplomata António Feijó (1859-1917) é outro caso de apego às raízes. Nascido em Ponte de Lima, cônsul geral de Portugal em Estocolmo durante mais de duas décadas, acabou por morrer no exílio «polar» da capital nórdica. Só foi poeta da sua terra quando já lá não podia voltar: à «neve cobrindo tudo» e aos «anos inteiros sem primavera» da sua vivência sueca contrapunha a memória do Minho soalheiro, com «verdes colinas» e «águas claras».

Não estou certo de que António Feijó quisesse reconhecer a sua terra natal nesta foto do rio Lima em tarde de má catadura. Não era das névoas de Inverno que ele tinha saudades - dessas estava ele bem servido na Escandinávia -, mas do ar luminoso e transparente dos dias primaveris. António Cruz, por seu lado, gostava era do Inverno, com árvores nuas e vultos incertos despontando do nevoeiro. Não teria sido surpresa encontrá-lo, numa tarde como esta, de cavalete montado à beira-rio.

29/10/2007

Jardim da nossa vergonha

Além da exposição permanente de pintura e escultura portuguesas dos séculos XIX e XX e da colecção de artes decorativas, tudo bons motivos para se visitar o Museu Soares dos Reis, há, na galeria de exposições temporárias, uma atracção de monta até 2 de Dezembro: trata-se da já aqui anunciada mostra de Obras-primas da Cerâmica Japonesa. Outra atracção, originária também do extremo oriente, é uma Camellia sasanqua de excelente porte, que exibe as suas flores, enquanto elas durarem e a esplanada abrir à hora do almoço, no pátio interior do museu; para vê-la nem é preciso pagar bilhete de entrada.

A arte do Japão reflecte uma compreensão minuciosa da natureza: este desenho de folhas outonais de ácer boiando num turbilhão de azul revela detalhes (como a venação das folhas e as margens finamente serradas) que só um observador atento poderia captar, e não tem comparação possível com os motivos botânicos estereotipados da vulgar cerâmica ocidental. São lendários o requinte e a espiritualidade que os japoneses põem na concepção dos seus jardins.

Faço votos de que os responsáveis japoneses por este evento não tenham visitado o jardim nas traseiras do museu, logo acima da galeria de exposições - jardim que, aliás, se encontra fechado ao público há anos. Vendo, no espaço de um dos nossos principais museus, os canteiros secos, invadidos por capim, e as árvores mutiladas ou sufocadas por hera, com que ideia ficariam esses visitantes do valor que em Portugal se dá aos jardins e à natureza? Uma ideia que por certo nos envergonharia, mas que seria inteiramente justa.



Jardim do Museu Soares dos Reis - Porto

12/10/2007

À la carte

At that moment an extremely superior brand of French head waiter manifested himself beside our table, announced his presence with a discrete cough, and led off with, "Madame, messieurs. Tonight Jean-Pierre recommends, for the main course, la poésie de la poitrine du canard aux céleris et épinards crus."

"Poésie..." Hilda sounded delighted and kindly explained, "That's poetry, Rumpole. Tastes a good deal better than that old Wordsworth of yours, I shouldn't be surprised."

John Mortimer, Rumpole (The Folio Society, 1994)



Tendo em conta que a gastronomia japonesa é a mais preocupada com a estética, em cujas receitas se encontram pássaros diáfanos feitos de nabo, lagos de arroz onde se reflectem luas de soja, pagodes de gengibre ou peixes filosoficamente crús, é natural encontrar na longa tradição oleira do Japão pratos que sirvam natureza. No da foto, de porcelana Nabeshima do período Edo (1690-1730), exploram-se vários tons de azul-cobalto para se representar com minúcia um pé de hortênsia, encimado por uma mancha mais escura que sugere uma atmosfera nublada, chuvosa mas serena, açoriana. Há mais prodígios como este na exposição Obras-primas da Cerâmica Japonesa, no Museu Soares dos Reis até 2 de Dezembro.


A propósito, não foram só as criptomérias que emigraram da Ásia para a ilha Terceira, ali se instalaram e têm agora porte e beleza exaltados por todos, apesar dos malefícios ambientais da sua presença. As lindas hortênsias (Hydrangea macrophylla), hoje imagem de marca dos Açores, encontraram nas ilhas o torrão de salinidade variada que lhes permite florir abundantemente, com cores que noutros lugares não se vêem. E por isso transformaram-se num pesadelo: segundo o livro Flora of the Azores, de Hanno Schafer (Margraf Publishers, 2005), já escaparam das bermas de estrada onde foram plantadas e, num esforço conjunto com a conteira (Hedychium gardnerianum), estão a colocar em risco o remanescente da vegetação rasteira endémica das ilhas.

26/05/2005

Os jardins do Museu Soares dos Reis


Foto: pva 0501 - pátio do Museu Soares dos Reis, Porto

A rua D. Manuel II, no Porto, é um campo de batalha: trincheiras, barricadas, nuvens de poeira, peões metidos ao trânsito, cartazes vociferantes, manifestações espontâneas de protesto. Num passe de mágica a merecer estudo por parte dos aprendizes de demagogo, o responsável pelo pandemónio conseguiu fazer crer à populaça que a culpa era de outrem: ora da Oposição, ora do IPPAR do Porto, ora do IPPAR de Lisboa, ora de Lisboa, ora do Museu Soares dos Reis, ora da Ministra, ora da nova Ministra, ora do Primeiro-Ministro, ora dos tribunais. Todos juntos contra o Porto - contra ele que, sozinho e contra todos, defende o Porto.

Recuemos então para trás da barricada - toneladas de entulho a gritar bem alto em tom de escárnio toma lá que já aprendeste - e entremos no sitiado Palácio dos Carrancas. É aqui que mora o Museu Soares dos Reis, o segundo maior museu do país, mas desconhecido dos portugueses em geral e dos portuenses em particular: os nomes de Silva Porto ou Henrique Pousão não lhes dizem nada; nunca visitaram a exposição permanente de faiança e outras artes decorativas; as multidões que vão a Serralves admirar abstrusas exposições de arte moderna ignoram amostras temporárias como as de Carlos Relvas ou Guilherme Camarinha. A crise orçamental e a falta de funcionários agravam este panorama, obrigando por vezes ao fecho de várias salas de exposição.

Em 2001, após anos de encerramento, o Museu reabriu com novo edifício anexo contendo um auditório e uma galeria de exposições temporárias. Na inauguração, houve festa para crianças, com música e palhaços, no jardim das traseiras do Museu, alvo também de beneficiações. Foi essa a única vez que visitámos esse tesouro escondido atrás dos muros, onde tílias enormes alteiam as copas por entre enigmáticos blocos de pedra talhada. Desde então o jardim não voltou a abrir ao público: por não haver jardineiro, todo o espaço está ao abandono.

Um outro bonito jardim, este de camélias, ocupa o pátio interior do Palácio dos Carrancas. Nesse recinto, mais pequeno, não se notam sinais de desleixo. Há de facto quem cuide do jardim, mas não um jardineiro: é uma funcionária que, embora com outras atribuições, tem o brio de lhe fazer a manutenção regular.

Se a Câmara, em vez de fazer guerra ao Museu, estivesse preocupada com a imagem da cidade, bem poderia ceder os seus jardineiros para tratar desses jardins. Até porque, como alguém já aqui observou, a progressiva abolição dos canteiros de flores na cidade poderá deixar muitos desses profissionais sem ter que fazer.