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01/10/2010

O ritmo das formas

Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia
.....CALIBAN
.....The isle is full of noises,
.....Sounds, and sweet airs, that give delight and hurt not.
.....Sometimes a thousand twangling instruments
.....Will hum about mine ears, and sometime voices
.....That if I then had waked after long sleep
.....Will make me sleep again; and then in dreaming
.....The clouds methought would open and show riches
.....Ready to drop upon me, that when I waked
.....I cried to dream again.

  .....W. Shakespeare (The Tempest)

30/01/2010

Sementes de vento

Serra do Anjo da Guarda, Ansião


.....We are such stuff
.....As dreams are made on, and our little life
.....Is rounded with a sleep.

.....Shakespeare (The Tempest)

27/10/2009

Salgueirinha

Have you not a moist eye, a dry hand, a yellow cheek, a white beard, a decreasing leg, an increasing belly? Is not your voice broken, your wind short, your chin double, your wit single, and every part about you blasted with antiquity?
....Shakespeare, Henry IV (Parte 2)


Lysimachia vulgaris L.

O amarelo é cor de simbologia ambígua. Tanto serve a primazia da vida, tingindo as espigas do milho maduro, a gema de ovo e o pólen, como veste a mansidão do Outono, a decadência e a morte. É a cor do ouro e do poder, seja ele diabólico enxofrado ou angélico com um bizarro halo pálido; e também da irritabilidade associada a uma bílis imperfeita. Unido ao preto, não raro indicia perigo; precaução é afinal o que este alegre pigmento aconselha.


Argiope bruennichii (não clique que aumenta; note a teia em ziguezague)

As fontes de amarelo que se usam em pintura variam com o lugar e os meios. Pode vir do âmbar - uma resina fóssil que o contacto da água transforma em gotas de amarelo - e de plantas como o dispendioso açafrão (Crocus sativus), a tóxica Garcinia hanburyi ou a deliciosa mangueira (Mangifera indica). Algumas são venenosas, o que muitos pintores (crê-se que também Van Gogh) descobriram tarde de mais, mas terão por isso protegido muitas pinturas famosas do ataque de insectos.

Também esta lisimáquia, com floração no Verão, fornece corante amarelo, embora sejam mais aclamadas as suas qualidades medicinais, nomeadamente o efeito cicatrizante e febrífugo. É planta vivaz da Europa e Ásia, de folhagem caduca, que se multiplica facilmente por divisão das raízes. Habita ambientes ripícolas, apreciando a humidade que ajuda os rizomas a fixarem-se em solo novo.

O género Lysimachia contém cerca de 150 espécies de herbáceas no hemisfério norte (11 europeias - ou 10, uma vez que a L. minoricensis Rodr. é dada como extinta -, cerca de 130 chinesas, algumas descobertas recentemente, e 9 na América do Norte) e mais umas 30 espalhadas por África, Austrália e América do Sul. As folhas de L. nummularia L. e a L. quadrifolia L. foram em tempos usadas como substituto do chá.

20/06/2009

Amor em linha



.....Love alters not with his brief hours and weeks,
.....But bears it out even to the edge of doom.
.....If this be error and upon me proved,
.....I never writ, nor no man ever loved.
.....William Shakespeare


O 5º Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima termina a 31 de Outubro. O tema deste ano é As artes no jardim, mantendo-se a intenção de relançar o culto pela jardinagem e de permitir aos visitantes conhecer perspectivas distintas sobre a concepção de um jardim como componente obrigatória de encantamento na paisagem.

Um júri seleccionou onze projectos, e estas imagens mostram o Jardim dos Sentimentos. Os autores (António La Greca e Cláudia Sá Lima) escolheram como inspiração os bordados dos «lenços dos namorados», objectos tradicionais minhotos associados ao ritual amoroso. Com pedras, madeira e flores criaram um lenço tridimensional onde sobressaem roseiras de cores e fragâncias distintas que desse modo sublinham as diferentes gradações de sentimento e compromisso. Transcrições de textos mais ou menos ingénuos e coraçõezinhos, usuais nestes bordados, foram pintadas em numerosos pilares de madeira, que, da pureza inicial da terra, nos restituem à natureza artificial da arte.

22/11/2007

Planimundo

Imagine uma maçã a ser fatiada por uma faca: cada fatia é uma figura plana com um formato que recorda o da maçã inteira. Mas, se sempre tivesse vivido confinado a um plano, conheceria apenas as fatias isoladas da maçã: conseguiria ainda assim reuni-las mentalmente e adivinhar a forma tridimensional do fruto?

Este é um dos desafios que Edwin A. Abbott (1838-1926) propõe em Flatland: a romance of many dimensions (1884), uma aventura de percepção num mundo plano, com personagens inspiradas na matemática e regras de relacionamento copiadas da sociedade inglesa do século XIX. Tal como em Platão, estes seres só têm acesso a impressões que resultam de sombras de objectos sólidos projectadas numa parede. Mas é cenário propício para uma sátira aos preconceitos da Inglaterra vitoriana, onde a ascensão social não se fazia por mérito e poucas mulheres tinham acesso ao ensino.

As personagens masculinas, que corporizam o saber racional, são circunferências ou polígonos (triângulos, quadrados, pentágonos,...), sendo tanto mais sábias quanto mais lados tiverem. Os soldados são triângulos, as circunferências - que, encaradas como polígonos com infinitos lados, representam a sabedoria suprema- são os sacerdotes desta história. Nesta sociedade, os filhos nascem com mais um lado do que os pais, o que significa que cada geração sobe um degrau na escala social; mas, naturalmente, os sacerdotes estão impedidos de procriarem. As figuras femininas, que personificam o saber intuitivo, e também conceitos abstractos como a lealdade ou o amor, são meros segmentos de recta. Sendo tão estreitas e tão pouco inteligentes, mal compreendem a linguagem masculina, cujos meandros lhes são propositadamente ocultados. Mas são seres perigosos e temidos: têm o poder de se tornarem invisíveis (um segmento visto da extremidade reduz-se a um ponto) e de, usando o seu formato de agulhas, furarem e destruírem os polígonos.

Hábil no manejo da ironia, Abbott, ao contrário do que é usual em relatos de viagens a mundos exóticos, dá voz de narrador ao anfitrião (um quadrado) e não ao visitante; e o quadrado vai mudando de perspectiva, e de sensibilidade, por influência do que vai ouvindo ao estranho que vem do espaço, apesar das naturais dificuldades de comunicação. Pelo caminho, cruzamo-nos com várias pérolas da geometria que, interpretadas neste mundo, são acessíveis a matemáticos e a leigos.

Abbott foi também estudioso de Shakespeare e são muitas as alusões ao dramaturgo neste livro. Algumas distorcidas, como «One touch of nature makes all worlds akin» - que, no original, da tragicomédia Troilus and Cressida, é «One touch of nature makes the whole world kin». Contudo o livro não refere plantas neste universo achatado; por isso fomos à procura de uma que se pudesse encaixar numa espessura mínima sem se deformar em demasia. Deveria ser vulgar no nosso mundo, para que a reconhecêssemos facilmente mesmo num contexto incomum; e certamente teria de ser uma trepadeira, das que ascendem unidas às paredes da cidade como uma segunda pele, que não temem a ausência de sombra e que pintam aguarela que disfarça o tédio das nossas esquinas.

Ficus pumila

06/05/2005

Beijá-la




Os ramos arqueados da espécie Weigela florida estarão até ao Verão vergados pelas copiosas fiadas de flores de cor vermelha, rosa ou branca, afuniladas, com corola campanulada e um característico estame comprido encimado por uma bolinha que lhes dá o formato de um sininho. De origem asiática, este arbusto é uma trepadeira ágil e vigorosa, de folha caduca, oposta, finamente serrada no bordo e com um ápice pronunciado. O nome do género homenageia Christian Ehrenfried von Weigel (1748-1831), professor de botânica e figura relevante na história da ciência farmacêutica.

A família Caprifoliaceae (honeysuckle em inglês, chèvrefeuille em francês, madressilva entre nós) tem muitos géneros e cultivares no mercado hortícola, apreciados como ornamentais pela folhagem verde que enrubesce no Outono e pelas flores perfumadas cujo néctar atrai especialmente os beija-flores. Esta família está amplamente representada no Jardim de Shakespeare, no Central Park em Manhattan; espalhadas pelo jardim estão placas que citam os versos de Shakespeare que motivaram a plantação, como esta passagem de Midsummer Night's Dream:

So doth the woodbine the sweet honeysuckle
Gently entwist; the female ivy so
Enrings the barky fingers of the elm.



Fotos: pva - Primavera de 2005 em Serralves e Quinta de Sto. Inácio

23/04/2005

"When proud-pied April, dress'd in all his trim..."

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From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress'd in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laughed and leapt with him.

Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer's story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:

Nor did I wonder at the lily's white,
Nor praise the deep vermilion in the rose;
They were but sweet, but figures of delight,

Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seemed it winter still, and you away,
As with your shadow I with these did play.

Soneto XCVIII [ in "William Shakespeare's Sonnets formatted for WIkisource's Complete Works of William Shakespeare from a public domain text file"]

Hoje é o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou Dia do Livro e da Rosa (...)
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