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13/01/2015

Leiteira de vida curta


Polygala monspeliaca L.
As cores obtidas com pastel, suaves e esbatidas, têm uma aparência aveludada que não sabemos a que atribuir. São comuns, e famosas, em lambretas, mas não é surpresa que raramente as vejamos em plantas, que parecem fazer um uso escrupuloso da cor no seu ciclo de vida. Tais matizes atenuadas (Lineu chamou-lhes cores rudimentares) são, porém, vantajosas quando olhamos o mundo querendo recolher apenas o essencial.

A foto mostra a inflorescência frouxa de uma das quatro espécies de Polygala que ocorrem em Portugal, sendo este um género populoso, com mais de setecentas espécies. Das quatro, esta herbácea pequenina é a única anual, com uma haste floral de cerca de 10 cm de altura onde as flores parecem tristemente penduradas, à excepção da do topo, e sem a companhia de folhas. Ora, não é bem assim: quase toda a flor é feita de folhas alteradas. Vejam-se as sépalas de cor verde ou rosa-pastel, com nervuras salientes e a fingirem-se de folhas para mais bem protegerem a corola; repare-se nas duas sépalas enormes como orelhas e nas três pétalas a formarem um chapéu e uma quilha, onde se resguarda a coluna de estames (como costumamos ver nas leguminosas, e está comprovada a proximidade genética entre as famílias Fabaceae e Polygalaceae). Dizem que só polinizadores espertos como as abelhas sabem invadir este refúgio. Por certo, a crista fimbriada branca que se vê na foto não é só um enfeite, mas não sabemos que benefício retira dela a flor (ou, de resto, qual a vantagem desse apêndice nos galos).

A Polygala monspeliaca deve o epíteto a Montpellier, no sul da França, mas é nativa da região mediterrânica, Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África. Em Portugal continental só há, de momento, registo dela no centro e sul. Este exemplar é de Sintra, de uma clareira de um mato de solo seco perto do mar; mas também vimos esta planta nas margas escorregadias do Horst de Cantanhede.

07/05/2010

Deste leite não beberei

Polygala vulgaris L.
Para não nos acusarem de só ligarmos às plantas raras, aqui fica, depois de termos apresentado um endemismo ibérico, uma Polygala que ocorre em toda a Europa. Ou, para sermos rigorosos, em quase toda a Europa: a excepção é a Islândia, ilha inóspita onde praticamente só há vulcões. (Há umas semanas toda a gente começou a dissertar sobre a vulcanologia no Atlântico Norte. Nós teríamos feito o mesmo se não nos constrangesse o estreito âmbito temático do blogue.)

A Polygala vulgaris ocupa habitats variados (prados, terrenos incultos, matagais, bosques) de norte a sul do continente português, estando apenas ausente do interior alentejano e algarvio. É uma planta de base lenhosa, geralmente prostrada mas por vezes erecta, que floresce de Março a Julho. As flores, cor-de-rosa ou azuis e dispostas em espiga, são diminutas, de 6 a 8 mm de comprimento, exibem duas sépalas laterais em forma de asa, e têm o lábio inferior da corola rematado por uma franja.

Polygala, palavra de raiz grega, significa muito leite, e essa mesma secreção reaparece nos diversos nomes vernáculos da planta: erva-leiteira em português, milkwort em inglês, laitier ou herbe au lait em francês. Não que a planta em si forneça leite, mas considerava-se na antiguidade que as mães a quem a planta fosse administrada dariam mais e melhor leite.

30/03/2010

Azul na terra como no céu

Polygala microphylla Link
Perhaps the finest flower of Northern Portugal and the neighbouring part of Spain, which hangs from the shady banks and is literally covered with blue flowers in myriads. P. L. Giuseppi, Portugal and its Plants, Bull. Alp. Gard. Soc. 14, 1946 (transcrito de Polunin & Smythies, Flowers of South-West Europe, Oxford University Press, 1997)

Convictos de que este ano o mundo está a funcionar normalmente — se dúvidas houvesse, bastar-nos-ia esta chuva inesgotável, entre outros tormentos mais civilizados, para as dissipar —, aceitámos resignados o formato simplificado das flores desta Polygala, sem o ápice fimbriado que é usual no género. Afinal não é defeito, a espécie é celebrada e esse detalhe até ajudou a identificá-la.

É uma herbácea vivaz baixinha (não mais de 10 cm de altura; as sépalas em asa não excedem 1 cm) que vive em rochedos e bosques ensombrados por sobreiros ou pinheiros do norte de Portugal. As folhas, pequenas e lineares, pouco duram, deixando as flores hermafroditas sozinhas em palco entre Fevereiro e Junho.

Das cerca de quinhentas espécies de Polygala, dezassete são europeias e, delas, apenas seis escolheram a Península Ibérica como casa. A das fotos, rara, talvez esteja a mudar de endereço.

19/08/2006

Sempre-em-flor



O arbusto-borboleta é um excelente corta-vento, de crescimento rápido, folhagem de um lindo verde-azulado, e floração contínua ao longo do ano embora mais abundante no Verão. Pertence ao género Polygala, fácil de identificar pelas flores. Elas agrupam-se nos extremos dos ramos e lembram barquinhos com um penacho no topo da quilha. Cada flor tem três a cinco sépalas e três pétalas; duas das sépalas são maiores, parecem pétalas desenhadas com veios escuros e estão dispostas como duas asas; uma das pétalas tem forma de canoa e suporta um tufo fimbriado.

Cosmopolita, a família Polygalaceae - geneticamente muito próxima da Leguminosae - abriga cerca de vinte géneros e umas mil espécies maioritariamente africanas. A Polygala myrtifolia, de flores roxas, de que vimos muitos exemplares nos jardins de Ponte de Lima, ocorre naturalmente na África do Sul onde são tradicionalmente exploradas as suas propriedades antibacterianas.

O nome Polygala deriva do grego polys, muito, e gala, leite, por se acreditar que a presença desta erva nos pastos promove uma maior produção de leite - o que justifica a designação erva-leiteira que lhe é atribuída em algumas regiões portuguesas.