20.1.19

Malva das falésias

A par das longas expedições científicas, só possíveis com o financiamento de reis ou mecenas, os botânicos dos séculos XVIII e XIX tinham um outro meio de, sem viajar, conhecer plantas de regiões longínquas: recebiam, de amadores ou naturalistas, plantas para herbários ou sementes que tentavam germinar. Exemplos profícuos deste tipo de cooperação científica à distância, que já aqui referimos, são o do Padre Miranda Lopes e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho, e o do Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius.



Lavatera acerifolia Cav.



A história da chegada de sementes desta Lavatera endémica das Canárias ao Jardim Botânico de Madrid (JBM) resulta de mais uma instância desse intercâmbio, num tempo em que viajar era caro, demorado e quase sempre perigoso. O essencial é contado por Antonio J. Cavanilles em Observaciones botánicas y descripcion de algunas plantas neuvas, nas páginas dedicadas ao reyno vegetal dos Anales de Ciencias Naturales de 1803. E a primeira descrição desta espécie, que Cavanilles designou Lavatera acerifolia mas foi transferida para o género Malva em 1862 (embora nem todos os botânicos aceitem esta alteração), é precisamente a desse exemplar migrante, nascido a partir de sementes de Tenerife enviadas ao JBM por um tal Sr. Broussonet. O arbusto que assim se criou no Jardim tinha uns cinco pés de altura, ritidoma cinzento e folhas parecidas com as do Acer campestre. Cavanilles informa ainda que a floração decorreu entre Junho e Setembro, e que as flores são axilares, solitárias, de pétalas cordiformes de tom rosa-claro com a base mais escura, do centro das quais sobressai uma coluna púrpura de estames e anteras.

Os exemplares que vimos na estrada do Teno eram mais altos do que a planta descrita por Cavanilles e, em Dezembro, exibiam racimos terminais de flores de cor malva, por vezes brancas, com pedúnculo longo. De provável ascendência mediterrânica, a L. acerifolia cresce em lugares secos e soalheiros, especialmente em bosques termófilos e zonas rochosas entre os 200 e os 400 m com vista para o mar.

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