9.2.19

Bicos & patas


Geranium reuteri Aedo & Muñoz Garm. [sinónimo: Geranium canariense Reut.]



Muitas espécies de Geranium e Erodium, dois géneros aparentados, têm, em várias línguas, nomes comuns que evocam bicos de aves, sejam elas cegonhas, grous ou pombas. A inspiração para tais nomes vem dos frutos estreitos e muito compridos (o bico da pomba, porém, é grosso e curto, o que torna inexplicável a escolha dessa ave neste contexto), cujas paredes laterais se enrolam explosivamente, arremessando as sementes para longe como catapultas (foto aqui).

O bico não é a única parte da anatomia das aves associada aos gerânios. A forma das folhas justifica que, nas Canárias, se chame pata-de-galo ao endémico Geranium reuteri (ex-Geranium canariense), comparação que, pelo testemunho das fotos, é um tudo-nada forçada. E não há nenhum rei de capoeira com patas de 25 cm de largura, pois são essas as medidas das folhas do avantajado gerânio canarino, uma planta que, quando em flor, pode atingir um metro de altura, envergadura inalcançável por galináceos normais.

Este gerânio perene, tão característico das zonas mais umbrosas e húmidas das ilhas Canárias, está apenas ausente das duas ilhas mais áridas (Lanzarote e Fuerteventura). Em Tenerife aparece na metade norte e é muito frequente na laurissilva de Anaga, bordejando a estrada com mantos de flores roxas durante doze meses por ano.

Os nossos gerânios continentais (veja aqui uma galeria de retratos) fazem figura humilde face a este gigante, mas as semelhanças são muito vincadas (particularmente com o Geranium robertianum) e sugerem que estas plantas têm antepassados próximos comuns. São muitos os exemplos de plantas que na Europa eram ervitas humildes e nos arquipélagos atlânticos cumpriram uma insuspeitada vocação de grandeza. No que toca a gerânios, foi na Madeira, e não nas Canárias, que essa vocação mais plenamente se realizou: o gerânio-da-Madeira (Geranium maderense), que ao florir parece uma descomunal lanterna-chinesa presa ao chão em vez de pendurada no tecto, leva a palma a todos os seus congéneres em tamanho e beleza, e seduziu jardineiros em todo o mundo (excepto talvez em Portugal). É uma planta monocárpica: floresce uma única vez durante longos meses, quando já tem três ou quatro anos de vida, e logo depois morre; a sua descendência fica assegurada pelos milhares de sementes que liberta.

É também na Madeira que vive o Geranium palmatum, muito mais comum nos bosques da laurissilva do que o G. maderense. É muito semelhante ao gerânio das Canárias tanto no hábito como na folhagem, e as duas espécies são amiúde confundidas no comércio hortícola. Contudo, o G. palmatum tem flores bastante maiores (até 4,5 cm de diâmetro, contra 3 cm do G. reuteri), com o centro escuro (as do G. reuteri têm centro claro) e pétalas mais largas e arredondadas. Há também diferenças, embora não tão pronunciadas, na forma das folhas.

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