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03/01/2017

Flores de outras heras


Glechoma hederacea L.


Para as plantas herbáceas perenes, o Inverno é tempo de descanso forçado pelas poucas horas de sol e pelas longas noites frias. A maioria delas resguarda-se no subsolo, pacientemente à espera de Março. Algumas, porém, apreciadoras de sombra e humidade, aproveitam esse recolhimento geral para avançarem determinadas pelo solo, enraizando os caules e garantindo para si na Primavera os melhores recantos. Parece ser o caso da herbácea rasteira das fotos. Outrora com uso medicinal e culinário, alguns chamam-lhe erva-de-São-João, outros ground-ivy. Para quem, como nós, insiste em procurar plantas que não estão em flor nesta altura do ano, estes são os exemplares que, de tão sozinhos, reconhecemos pelas folhas. As da Glechoma hederacea lembram as da hera (do género Hedera), e são reniformes com margens dentadas ou crenadas.

Esta é a única espécie do género Glechoma que ocorre na Península Ibérica, onde parece restringir-se ao norte e oeste. A descrição da Flora Ibérica sugere que é abundante em bosques caducifólios de quase toda a Europa e parte da Ásia, mas por cá tem sido raro encontrá-la. As fotos são de espécimes de Macedo de Cavaleiros (junto ao rio Azibo), mas poderiam ser do Gerês (perto da albufeira de Salamonde) ou de Chaves (nas margens do rio Mousse). A preferência por habitats ribeirinhos fartamente arborizados, ainda não convertidos em praias fluviais, confina esta espécie, no nosso país, a uns poucos e recatados lugares.



Com o perfil e formato típicos da família das labiadas, as flores de Glechoma (femininas ou hermafroditas) usam, além do aroma, sinais de cor no espectro ultravioleta que guiam os polinizadores até ao néctar — e que são desligados quando a polinização acontece. Nos refúgios com parca luminosidade onde estas plantas vivem, a cor roxa suave que vemos na corola das flores surge ao olhar dos insectos claramente dividida em duas zonas de tonalidade distinta, realçando-se desse modo o centro da flor onde estão os nectários e a polinização se pode efectuar. É uma conversa silenciosa esta que as flores mantêm com os insectos.

08/11/2016

Trifloricos

Depois de alguns anos de passeios botânicos, entendemos agora melhor as associações entre plantas a que se referem, em latim, os artigos científicos, e aprendemos a valorizar o tipo de solo que elas preferem, ou exigem, por ser esse um indicador fiável para as encontrarmos. Por isso, decidimos consultar uma lista de geossítios afamados do nordeste do país e visitar alguns dos afloramentos calcários que dela constam. Em Macedo de Cavaleiros, os que não são pedreiras desactivadas talvez tenham menos interesse para os geólogos, por esconderem pormenores da rocha, mas são os de maior potencial para quem quer ver plantas. Lembram os anfiteatros esbranquiçados das serras de Aire e Candeeiros, também eles quase sem flores em Novembro. E, como prevíramos, ali estavam muitos exemplares de Spiranthes spiralis. Ao lado, num talude de solo bem drenado, soalheiro e virado a sul, avistámos, já em fim de ciclo, exemplares deste raro Erigeron.

Erigeron acris L.

Neste género, conhecíamos os floricos rasteiros dos muros (o mexicano E. karvinskianus) e o fantástico E. alpinus que vimos em prados de montanha na Cantábria. O das fotos é anual, ocasionalmente bienal ou mesmo vivaz; em cada Outono, o talo rugoso e solitário, de uns 40 cm de altura, tinge-se com um atraente tom púrpura. Nas inflorescências, com cerca de 18 mm de diâmetro e de pés altos, notam-se as «pétalas» pequenas e de cor lilás dos numerosos florículos externos; os do disco central, em contrapartida, dão uma coloração amarela ao conjunto. Vista de longe, esta combinação de cores parece azul, daí a designação comum inglesa, blue fleabane. E se observarmos melhor os capítulos florais, notamos um terceiro tipo de florículos, com os papilhos que mais tarde serão os pára-quedas dos frutos. Formam um anel, que se nota bem entre o bordo e o centro da inflorescência na segunda foto. Por esta peculiaridade, estas plantas já estiveram no género Trimorpha.

A floração decorre de Junho a Setembro. A par das associações vegetais e do tipo de habitat, este é mais um parâmetro a ter em conta aos programar os seus passeios — ou terá de os repetir no ano seguinte, como nós, para obter fotos mais expressivas.

08/10/2016

Salsifis

As plantas do género Tragopogon têm inúmeras designações populares graças ao seu uso em culinária. Comecemos pelas de língua inglesa. O nome do género (do grego tragos, bode, e pogon, barba, em alusão ao enorme fruto com penachos cedosos) terá sugerido ou sido escolhido a partir de goatsbeard. Mas como as flores se fecham ao meio-dia, jack-go-to-bed-at-noon é também uma alcunha que lhes atribuem. Porém, é muito mais vulgar ouvir-se tratá-las por salsify, a que se acrescenta um qualificativo (common, meadow, western, wild, woolly, pasture, yellow, purple) para se distinguirem as várias espécies. Procurámos num dicionário a etimologia desta palavra, mas sem sucesso, pois lemos que deriva do francês salsifis ou do italiano salsefica, ambos de origem desconhecida. Certo é que o género é comum em alguns locais na Europa e Ásia, onde ainda se cultiva para se consumirem as longas raízes (que, dizem os entendidos, sabem a ostra), os talos, as folhas finas como relva, a seiva leitosa, as flores ou as sementes. No livro Portugal Botânico de A a Z (de Francisca M. Fernandes e Luís M. Carvalho), a designação vernácula adoptada para as espécies de Tragopogon aí listadas é cersefi, palavra que soa a uma variante fonética de salsify. Curiosamente, o nome salsifi é reservado nessa obra para a Scorzonera hispanica, de cujas raízes (com casca escura e miolo branco) cristalizadas se faz (ou fazia) no Alentejo uma guloseima, conhecida como escorcioneira, que mereceu a distinção de constar na Ark of Taste, uma versão da arca de Noé para alimentos bem concebidos e realmente saborosos.


Tragopogon porrifolius L.



Vimos o T. porrifolius em Maio junto a Alcobaça, com a ajuda do João Gomes. As hastes florais são altas de um metro e meio, e as flores (ainda as vimos abertas, era de manhã) medem uns 5 cm de diâmetro.


Tragopogon crocifolius L.


Tragopogon dubius Scop.
Estas duas outras espécies têm porte mais modesto e foram fotografadas em Junho, numa berma de estrada junto a um prado em Macedo de Cavaleiros forrado de orquídeas, galocristas e rainhas-dos-prados. Como se pode ver, a cor das flores neste género varia bastante. Os botânicos que as estudam asseguram que as espécies de Tragopogon hibridam com facilidade, havendo reconhecimento recente de novas espécies na natureza, poliplóides para poderem ser férteis, originadas por cruzamento espontâneo entre T. dubius e T. porrifolius, ou entre T. dubius e T. pratensis.

12/04/2013

Vida ultrabásica

Notholaena marantae (L.) Desv. [= Cheilanthes marantae (L.) Domin]


Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.

O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.

À hora e no local previstos, deparámos com a Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.

Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas nothos (= falsa) e chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma Nothochlaena. O epíteto marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.

01/04/2013

Flor da serpentina

Saxifraga dichotoma Willd.


Há quem lhe chame uvas-de-gato, em alusão talvez aos bolbilhos acobreados nas axilas das folhas basais, que seriam subterrâneos se esta planta não optasse por fendas de rocha. Apesar de, em Espanha, ela se distribuir amplamente em pastos de solo arenoso acima dos 600 metros, em Portugal só há registo da sua ocorrência no nordeste, em afloramentos de rochas ultrabásicas. Sendo assim rara, foi uma sorte vê-la nos primeiros dias de Março já em flor, até porque a floração oficial decorre de Março a Maio. É parecida com a Saxifraga granulata, mas as flores são menores, têm pétalas brancas tingidas de rosa com página superior glandulosa, e as folhas (as basais com pecíolo longo, as caulinares sésseis), além do contorno reniforme, exibem seis ou mais lóbulos muito recortados, como dedinhos todos iguais, cada um deles depois novamente dividido.

Esta saxífraga é perene e nativa da região mediterrânica ocidental (Espanha, norte de Portugal, norte de Marrocos e Argélia) e de zonas montanhosas no interior da Península Ibérica. O género Saxifraga abriga ainda um endemismo português de que vos falaremos em breve.

29/03/2013

Linho das lagartixas

Asterolinon linum-stellatum (L.) Duby
Desta vez o título absurdo não é culpa portuguesa, mas sim do nome que em Espanha é dado a esta discreta planta anual. Não se vê que relação possa ter ela com as lagartixas, a não ser talvez a preferência — que lhe é atribuída pelos manuais, mas nem sempre é respeitada — por sítios secos e soalheiros. A alusão ao linho, que remonta pelo menos a Lineu, primeiro descritor da planta, é de mais fácil entendimento, e justifica-se pela semelhança de porte e folhagem entre os dois géneros. Ambas as plantas têm folhas pontiagudas, lanceoladas e sésseis, mas só no Asterolinon elas se dispõem aos pares ao longo do caule. À semelhança morfológica não correspondem predicados equiparáveis, e não consta que o Asterolinon forneça, como o linho-comum (Linum usitatissimum), boa fibra para confecção de tecidos, ou que das suas sementes se extraia alguma essência medicinal.

Num raro exemplo de dupla redundância, o nome científico da planta refere por duas vezes tanto o linho como as estrelas; dado que ela não tem nome em português, iremos tratá-la por linho-das-estrelas. As estrelas, no formato estilizado das cinco pontas, são os cálices das flores, que têm corola diminuta, branca, quase invisível a olho nu, e são sustentadas por pedúnculos filiformes que brotam das axilas das folhas. Tudo no linho-das-estrelas é miniatural: a planta fica-se pelos 5 ou 6 cm de altura (as mais altas podem chegar aos 18), as flores (incluindo cálice) medem um máximo de 4 mm de diâmetro, e as folhas terão 5 a 6 mm de comprimento. O seu breve ciclo de vida cumpre-se entre o fim do Inverno e os primeiros calores de Verão. Por ser efémera, pequena e pouco vistosa, é frequente a planta passar despercebida. A sua silhueta é, no entanto, inconfundível; e, em condições favoráveis, ela é capaz de formar populações muito numerosas.

O linho-das-estrelas está presente em todas as províncias portuguesas e em toda a Península Ibérica, em altitudes variando desde o nível do mar até mais de 1000 m. Globalmente a sua distribuição abrange a bacia mediterrânica e ainda as Canárias.

28/01/2013

De pólen azul

Geranium columbinum L.


Nome comum: Bico-de-pomba-maior
Ecologia: Erva ruderal, surge em prados, bermas de caminhos, baldios, campos cultivados e bosques
Distribuição global: Europa, excepto o extremo norte, região mediterrânica e Médio Oriente, sudoeste da Ásia e noroeste de África.
Distribuição em Portugal: Segundo a Flora Ibérica, há registo da sua presença no Alto Alentejo e Algarve, Beiras Alta, Baixa e Litoral, Estremadura, Douro Litoral e Minho. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, considera-o raro a norte.
Época de floração: Abril a Setembro
Data e local das fotos: Maio de 2012, Macedo de Cavaleiros
Informações adicionais: Esta é uma herbácea anual peludinha com caules frágeis que podem atingir os 60 cm de altura. As folhas palmadas, de contorno orbicular, são recortadas quase até à base em segmentos que, por sua vez, parecem trifurcados. Cada pedúnculo, bastante maior do que o pé das folhas que saem do mesmo nó, é encimado por duas flores com pétalas roxas, anteras azuladas e estigmas cor de rosa. Tem parecença acentuada com o G. dissectum, mas neste último, que é densamente pubescente, as hastes florais são notoriamente mais curtas e as sépalas têm uma pragana [= filamento aguçado na ponta da sépala como os que se vêem na última foto] menor.

14/01/2013

Vénus ao toucador

Scandix pecten-veneris L.


Confesso que não fiz busca aturada, e nem sequer tive o cuidado de consultar dicionários botânicos. É sempre desagradável quando a realidade desmente algumas das nossas construções mentais favoritas. Além de sermos despojados de possíveis tópicos de conversa (pois um resquício de honestidade nos impede de propagar aquilo que sabemos ser falso), neste caso particular ficava o texto sem aquela assertividade que compensa o pouco saber pelo muito atrevimento.

Esta planta põe o selo de indiscutível na teoria que a avenca já insinuava: Vénus, a deusa romana do amor, é a única representante autorizada da feminilidade em taxonomia botânica. Ou da feminilidade do pescoço para cima. Ou pelo menos da que diz respeito às artes do toucador. Lineu, não satisfeito em enfeitar Vénus com uma peruca de negros fios de avenca, ainda lhe ofertou um pente tirado do mesmo grande armazém da natureza. É pouco comparado com o arsenal de tratamentos hoje disponível nos salões de beleza, mas os tempos eram outros e Vénus, como todos os deuses e deusas, usaria os seus poderes sobrenaturais para ultrapassar as limitações dos artefactos rústicos.

Impõe-se um interlúdio taxonómico-linguístico. A avenca que é espontânea em Portugal e na Europa (há espécies tropicais à venda em floristas) tem o nome científico, dado por Lineu, de Adiantum capillus-veneris, onde o capillus-veneris significa (quem diria?) "cabelos de Vénus". Na pequena umbelífera que hoje nos ocupa, e que fora do Olimpo é conhecida como agulha-de-pastor ou erva-agulheira, viu Lineu o "pente de Vénus" (pecten-veneris). São os frutos muito compridos e rígidos, filtrados pela imaginação, que explicam tanto o pente como as agulhas. Claro que esse "muito comprido" (uns 6 a 8 cm) deve atender às dimensões gerais de uma planta de porte modesto, em geral aquém dos 40 cm de altura.

A agulha-de-pastor, que é nativa da Europa, Ásia e norte de África, e que em Portugal só parece estar ausente do quadrante noroeste, é uma planta anual de campos agrícolas e baldios, em declínio como tantas outras por causa do uso generalizado de pesticidas.

21/12/2012

Ranúnculo ouriçado

Ranunculus arvensis L.


Nomes vulgares: ranúnculo-dos-campos, gata-rabiosa; corn buttercup
Ecologia: campos cultivados ou em pousio
Distribuição global: Europa, Ásia e norte de África
Distribuição em Portugal: referenciado em todas as províncias portuguesas com excepção da Beira Alta
Época de floração: Março (um pouco mais tarde no norte da Europa) a Agosto
Data e local das fotos: 19 de Maio de 2012, Macedo de Cavaleiros
Informações adicionais: herbácea anual pubescente com folhas caulinares liciniadas (recortadas em tiras estreitas); corolas de cor amarelo-limão, com cerca de 1 cm de diâmetro e farto néctar; sépalas patentes (abertas em ângulo quase recto) e cálice penugento; os frutos são aquénios espinhosos como ouriços; outrora tido como raro apenas no norte do país, este ranúnculo está hoje em declínio por causa do crescente uso de agro-químicos, fatalidade que comunga com o Agrostemma githago

22/11/2012

Tremoços de Espanha

Lupinus hispanicus Boiss. & Reut.


A julgar pela Flora Ibérica, que indica Trás-os-Montes como a única região do país onde ocorre este tremoceiro, esta espécie de Lupinus seria de facto não rara mas essencialmente espanhola. O engano, resultado talvez da insuficiente consulta de fontes portuguesas, pode comprovar-se por artigos científicos recentes sobre este endemismo ibérico (do centro e oeste da Península) que registam populações de outras províncias do nosso país. Ressalvemos, contudo, que as mudanças na prática agrícola e o alargamento das estradas têm feito rarear muitas plantas arvenses ou ruderais como esta. Sendo optimistas, estaremos atentos entre Abril e Junho para o reencontrarmos nas regiões assinaladas por Amaral Franco na Nova Flora de Portugal.

Os tremoceiros ibéricos são plantas anuais (com a possível excepção do L. polyphyllus Lindl. cuja origem não está ainda deslindada) que se reconhecem pelas folhas em estrela com folíolos estreitos de margens mucronadas ou peludinhas, pelos cachos de flores com quilha (a que os ingleses chamam bonnets) agrupados em verticilos perfeitos, e pelos feijões empinados com um espinho curvo no topo. Este Lupinus, que é perfumado ou não (há divergências quanto a isso), tem flores de um tom rosa azulado. As fotos mostram exemplares num talude da margem do rio Sabor, em Macedo de Cavaleiros, a cerca de 200 m de altitude.

O feijão-de-lobo prefere lugares soalheiros de solo quase arenoso e ácido, em campos de cereais, vinhas, olivais, bermas de estrada ou taludes. A genética confirma que é parente próximo do L. luteus; e os programas de hibridação para produção de melhores forragens têm beneficiado das inúmeras qualidades das duas espécies.

Algumas referências aludem a duas subespécies deste Lupinus, o L. hispanicus subsp. bicolor (Merino) Gladst. e o L. hispanicus Boiss. & Reut. subsp. hispanicus. A primeira é a espécie Lupinus gredensis Gand.; a segunda é o tremoceiro das fotos.

09/10/2012

Leopardo verde

Silybum marianum (L.) Gaertn.


Quando uma planta sem eira nem beira tem nome em quase todas as línguas, é garantido que ela nos andou a tratar da saúde. As sementes do cardo-leiteiro ou cardo-de-Santa-Maria (milk thistle em inglês, chardon-Marie em francês, cardo mariano em italiano e em espanhol, Mariendistel em alemão) têm a reputação, firmada ao longo de séculos, de serem eficazes contra as doenças do fígado e da bexiga, e úteis como antídoto em caso de envenenamento. Como bónus, as folhas e hastes da planta são comestíveis em salada enquanto tenras. Se a isto somarmos a beleza da inflorescência e das folhas marmoreadas de verde e branco, não surpreende que o Silybum marianum tenha sido amplamente cultivado desde a antiguidade e, nativo do sul da Europa, se tenha espalhado pelos quatro cantos do mundo. Fê-lo de modo tão aguerrido que na Austrália e na Nova Zelândia é tido como invasor pernicioso.

Nesta época de racionalismo científico não há santo que esteja seguro no seu altar. As virtudes das plantas ditas medicinais são postas em dúvida; e, mesmo quando o seu valor terapêutico é reconhecido, considera-se preferível, a bem da economia global, que elas sejam vendidas pela indústria farmacêutica sob a forma de comprimidos com a dosagem correcta. Os ensaios clínicos com o Silybum marianum, porém, além de não lhe confirmarem a reputação medicinal, alertaram ainda para efeitos secundários indesejáveis. Parece, portanto, que a planta se irá manter nas franjas dúbias da medicina e não fará a transição dos ervanários para as farmácias.

Em Portugal, onde o cardo-de-Santa-Maria é espontâneo no continente e introduzido nas ilhas, a sua presença é cada vez mais esporádica. No Minho e Douro Litoral converteu-se numa raridade. No interior transmontano, beneficiando do abandono agrícola e de um uso menos obsessivo dos agro-químicos, ainda se vai vendo ocasionalmente. Muito antes de lhe conhecermos as inflorescências, já encontráramos no vale do Tua a grande roseta de folhas raiadas de branco a que se reduz durante o Inverno, mas foi só em Macedo de Cavaleiros, nos baldios e terrenos de má fama da sua predilecção, que o vimos em flor.