28.7.04

Nem pela sombra as perdoam

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É quase inevitável perguntarmo-nos se os arquitectos que planeiam os "requalificados" espaços públicos do Porto ainda circulam a pé pela cidade, ou se a sua vida decorre, entre casa, carro e escritório, só em ambientes artificializados. Porque, nos dias de maior calor, atravessar a extensão granítica de uma praça escaldante é, à escala reduzida, um feito comparável à travessia de um deserto: na praça, como no deserto, não há vegetação que dê sombra ou permita repousar a vista.

Olhemos para Campanhã: havia, no largo da estação, um soberbo plátano, sobrevivente da primeira fase das obras do Metro, que era a única sombra num lugar de resto desgracioso; agora só lá temos as superfícies lisas e envidraçadas da novíssima gare intermodal. E, em frente do Hospital de Santo António, o mesmo arquitecto que criou os granitões dos Leões, de Parada Leitão e do largo da Cadeia da Relação repetiu a sua obsessiva receita com mais um larguíssimo passeio de granito, onde não deixou sequer lugar para uma flor.

Espaços como estes, por serem hostis à permanência de pessoas, matam o convívio na cidade. Um castigo merecido, ainda assim suave, para quem os planeia, seria obrigá-los a ficar de pé nesses lugares, sem a protecção de uma sombra, durante uma tarde de calor.

Os outros, os que não tiveram culpa e sofrem a cidade que os burocratas lhes impuseram, ainda se vão podendo abrigar à sombra das árvores que foram poupadas. Quando posso, escolho um plátano: árvore robusta e de sombra fiel, uma benção que a cidade tudo tem feito para desmerecer. Da minha janela vejo dois plátanos, ambos ameaçados por obras (presentes ou futuras), mas cumprindo até ao fim o seu nobre destino.

E, por falar em plátanos, leiam aqui sobre as heróicas árvores da Praça do Marquês de Pombal, no Porto.
(Adenda: Saudades do Marquês - 9.6.05)

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