22.12.09

Verde vegetal

Em 1845, era a ilha de Hong Kong britânica, a França enviou à China uma equipa de negociadores (Fortune, Randot e De Montigny) para fomentar, na nova conjuntura, as trocas comerciais. Voltaram anos depois com alguns objectos na bagagem, um deles de valor menos óbvio mas que se revelaria o mais precioso: um pote de argila verde, o lo kao.

Até essa altura, colorir tecidos de verde significava mergulhá-los numa cuba de azul e depois noutra de amarelo. Para além do problema de conseguir os mordentes adequados para fixar o pigmento, o processo raramente permitia obter matizes idênticos porque estes dependiam da concentração dos ingredientes e da temperatura desses caldos. Exigências que encareciam o corante: Robin Hood e os seus companheiros vestiam verde-Lincoln não para se camuflarem mas porque esta cor, feita de azul extraído de Isatis tinctoria L. e amarelo da Reseda luteola L., era muito cara, e por isso um bom exemplo do que devia ser roubado aos ricos e distribuído pelos menos afortunados.

A lama verde lo kao era obtida de duas espécies chinesas, Rhamnus utilis Dcne. e Rhamnus chlorophorus Dipp. Na Europa, era conhecido o uso de plantas do género Rhamnus para a confecção de tintas: por exemplo, as folhas de Rhamnus cathartica L. eram utilizadas para produzir amarelo; e as bagas, brevemente fervidas com alúmen, cozinhavam uma seiva esverdeada, tida contudo como um verde de fraca qualidade. Os chineses, porém, produziam o seu verde a partir da casca daqueles arbustos, e dispensavam o uso de mordentes. A cor intensa e resistente à luz era o sedimento, vendido a alto preço, que resultava de um método moroso e complexo. Por isso foi dos primeiros pigmentos a ser substituído na Europa, em 1870, por versões sintéticas que passaram a rumar à Ásia. Os que antes celebravam a natureza renderam-se sem agravo à tecnologia.


Rhamnus alaternus L.

As flores amarelas de R. alaternus (o sanguinho-das-sebes), planta dióica de folhagem perene abundante na região mediterrânica, não têm pétalas. As 5 sépalas das flores masculinas são reflexas, as das femininas são erectas. (Reveja as fotos, estimado leitor, para as identificar.)


Frangula alnus Mill.

Dos ramos de Frangula alnus (ou Rhamnus frangula L., o sanguinho-das-ribeiras da Europa, Ásia e Norte de África), um arbusto lenhoso de folha caduca, com flores verdes hermafroditas de 5 pétalas e 5 sépalas (maiores), e que pode chegar aos 5m de altura, faz-se o melhor carvão para desenho - ou, por ser leve, para o fabrico de pólvora.

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