Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens

19/03/2016

Analfabetismo ambiental

(Clique para ver em tamanho grande numa nova janela)

A nefasta peça de propaganda acima reproduzida foi publicada anteontem, dia 17 de Março de 2016, no suplemento Se7e da revista Visão. Por ela ficamos a saber, nós os continentais, que, se quisermos ter em casa uma amostra da genuína flora açoriana, devemos dirigir-nos ao viveiro mais próximo para comprar uma hortênsia - uma planta que, segunda a mesma revista, faz «parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores». É de bradar aos céus. Todos os que vivem nos Açores ou visitam o arquipélago deveriam já saber que a Hydrangea macrophylla não só não é açoriana como é uma invasora capaz de causar os maiores estragos às plantas indígenas. Acontece que essa necessária pedagogia, por muito empenhada que seja, é permanentemente boicotada por uma indústria turística que promove uma imagem estereotipada dos Açores, vendendo paisagens humanizadas com pastagens, vacas e hortênsias como se de natureza em estado puro se tratasse. Não era contudo de esperar, de uma revista como a Visão, que publica anualmente uma edição verde sobre boas práticas ambientais, tamanho grau de iliteracia. Por isso escrevi à revista a carta que a seguir transcrevo:

«No suplemento Se7e da Visão de 17/III/2016, as jornalistas Florbela Alves e Susana Lopes Faustino, ao apresentarem as hortênsias como representantes da flora açoriana e "parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores", cometem um erro de palmatória capaz de descredibilizar todo o trabalho de sensibilização ambiental em que a Visão se tem regularmente empenhado.

A hortênsia (nome popular da Hydrangea macrophylla) é uma planta originária do Japão, e é tão açoriana como o eucalipto é português. Foi introduzida em Portugal e em muitos outros países ocidentais em meados do século XIX como planta de jardim. Nos Açores ganhou popularidade não tanto pelas qualidades ornamentais mas por ser imbatível na formação das sebes impenetráveis que dividem as pastagens e marginam estradas e caminhos. O azul das hortênsias sublinhando o traçado sinuoso das estradas encantou os visitantes e, com o crescimento do turismo, acabou por se tornar símbolo dos Açores. Um símbolo equivocado e perigoso de que o arquipélago deveria ser capaz de se libertar sem que o turismo sofra com isso. Em Viana do Castelo, afinal, também deixou de se fazer (e ainda bem!) a Festa da Mimosa, e não consta que a capital do Alto Minho sofra hoje com falta de visitantes.

Bastaria a circunstância de a hortênsia não ser açoriana para ser estranho elegê-la como símbolo do arquipélago. Há muitas plantas genuinamente açorianas, e não menos bonitas, que cumpririam essa função com muito mais propriedade. Entre elas avulta a endémica vidália (Azorina vidalii), uma planta que dá flores que fazem lembrar sinos e não se parece com nenhuma outra deste mundo. Mas, além de não fazer parte da "paisagem natural" das ilhas, tratando-se em vez disso de um acrescento postiço, a hortênsia contribui activamente para a degradação dessa mesma paisagem, pondo em risco alguns dos últimos redutos da vegetação nativa ao invadir caldeiras, linhas de água e florestas naturais. A rocha dos Bordões na ilha das Flores e a Caldeira da ilha do Faial, ambas pintadas de alto a baixo no Verão com o azul das hortênsias, fornecem prova assustadora da perigosidade deste arbusto para a flora endémica do arquipélago.

O turista comum, mal informado ou desinformado, enche os olhos com o azul das hortênsias e não quer saber de mais nada. Está no seu direito. Mas um jornalista tem obrigação de saber um mínimo sobre aquilo que escreve, pois a sua função não é disseminar a ignorância mas sim informar quem o lê. Há nos Açores quem se preocupe com a educação ambiental das gerações mais novas (e também das mais velhas), ensinando-as a conhecer o genuíno e tão ameaçado património natural do arquipélago. Ao publicar este pedaço de desinformação, a Visão torpedeia o trabalho dos educadores e dá força à ignorância.»

24/09/2015

Vá aos Açores sem sair de casa


A Ç O R E S

Conhece a vidália? Já viu o pau-branco ou o cedro-do-mato? Já alguma vez encontrou os cubres, a alfacinha ou a erva-do-capitão? Sabe que nos Açores existem quatro orquídeas endémicas? Se vive nos Açores, o portal Flora-On ensina-o a reconhecer as plantas que tem à porta de casa, muitas delas exclusivas do arquipélago. Se mora longe e planeia uma visita, o Flora-On proporciona-lhe uma quase completa antevisão (com fotos, mapas de distribuição e informações ecológicas) da extraordinária e tantas vezes ignorada flora endémica das ilhas.

19/07/2014

Ruiva das ilhas



Rubia agostinhoi Dans. & P. Silva


A ruiva-brava, ou Rubia peregrina de seu nome científico, é uma das plantas da flora portuguesa que se encontra amiúde de norte a sul do país, em lugares onde ainda subsiste alguma vegetação natural. Outra é a gilbardeira (Ruscus aculeatus), misteriosamente protegida por lei apesar da sua óbvia abundância. Que do Minho ao Algarve haja traços constantes é uma evidência da pequenez do nosso território e só pode reforçar a ideia da unidade nacional. Voltando à ruiva-brava, que é esse o nosso assunto, trata-se de uma trepadeira algo lenhosa na base, muito ramificada, reconhecível pelos seus verticilos de quatro a oito folhas por nó e pelos cachos de bagas pretas. Ainda que a ruiva-brava não tenha usos tradicionais, uma das suas congéneres, a asiática Rubia tinctoria, a que poderíamos chamar ruiva-mansa, foi amplamente cultivada na Europa pelo corante vermelho extraído das raízes.

Se do continente saltarmos para os arquipélagos atlânticos da Madeira e dos Açores, continuamos a ver a ruiva, embora, olhando bem (fotos acima), a planta tenha feito alguns ajustes na sua indumentária: os saiotes dos nós são agora formados por folhas mais estreitas e numerosas (em geral 8, mas podem ir de 6 a 10), e as flores são mais diminutas e escassas, em cachos mais discretos. Esta ruiva-das-ilhas, que porém também existe no sul de Espanha (Cádiz e Málaga) e em Marrocos, é assaz distintiva para merecer dos taxonomistas a graça de um nome só seu. Justiça feita em 1973, quando o português Pinto da Silva e o francês P. M. Dansereau publicaram na Agronomia Lusitana a descrição da nova espécie, a que chamaram Rubia agostinhoi. Não sendo talvez tão comum nos Açores como a sua congénere é no continente, a ruiva-das-ilhas encontra-se com alguma facilidade, ocupando habitats variados desde florestas e matos naturais até muros e plantações de criptomérias. Contudo, nunca lhe vimos os frutos, ou porque eles são poucos, ou porque os pássaros os comem todos, ou porque o nosso calendário de visitas ao arquipélago não o permitiu.

Pinto da Silva e Dansereau descreveram a Rubia agostinhoi a partir de exemplares colhidos em São Miguel, na lagoa das Sete Cidades, e o epíteto escolhido sublinha a ligação aos Açores, prestando homenagem ao tenente-coronel José Agostinho (1888–1978). Nascido em Angra do Heroísmo, onde também morreu, José Agostinho combateu na 1.ª guerra mundial como militar de carreira, mas regressou aos Açores (a São Miguel) em 1918 para trabalhar nos serviços metereológicos locais, que dirigiu durante mais de 30 anos, até se aposentar em 1958. Distinguiu-se como cientista na sua área de especialidade, mas também se interessou por múltiplos outros temas, como a sismologia, o estudo das aves, a conservação da natureza, a história e a etnologia. Foi um naturalista versátil e, em vocação exercida ao longo de vinte anos de palestras radiofónicas na Rádio Clube de Angra, um pedagogo que muito teria honrado a universidade açoriana se ela tivesse existido à época em que esteve activo.

23/12/2013

A dança das orquídeas


Platanthera pollostantha R. M. Bateman & M. Moura / Erica azorica Hochst. (ilha de Santa Maria)

Na quarta-feira, dia 11 de Dezembro, deu-se na imprensa escrita portuguesa um fenómeno nunca visto: dois jornais (o Público e o Diário de Notícias) fizeram chamadas de primeira página com uma orquídea silvestre portuguesa. A notícia era a descoberta, por uma equipa de botânicos composta por dois britânicos (Richard Bateman e Paula Rudall, dos Kew Gardens) e uma portuguesa (Mónica Moura, da Universidade dos Açores), de uma nova espécie de orquídea nos Açores, a terceira do género Platanthera endémica do território. A nova orquídea, de que se encontraram apenas 250 exemplares em flor numa única ilha do arquipélago, a de São Jorge, foi de imediato alçada pelos seus descobridores à categoria da mais rara da sua família em toda a Europa. E foi essa distinção - que, muito mais do que um dúbio galardão, deve servir de alerta aos organismos regionais e nacionais de protecção da natureza - que fez convergir a atenção dos jornais. As fotos da raridade (uma haste singela armada com flores discretas, pequenas e verdes) terão provocado a perplexidade dos muitos leitores para quem as orquídeas são aquelas coisas vistosas e multicoloridas originárias dos trópicos. Haverá quem tenha aprendido alguma coisa lendo a notícia, mas outros, instalados no conforto de uma ignorância empedernida, quiseram partilhar connosco o seu vácuo mental, comentando assim a notícia no DN:

«Muita feia. Nem flor tem. A orquidea mais bonita é a Tailandesa.»

«Pois. Avancem já umas verbas prá protecção. Temos que deslocar uma equipa de vinte pessoas, mais o equipamento, o hotel e a alimentação para 6 meses (pelo menos). E, hã... as ajudas de custo, claro. Até fica barato, tendo em conta que vamos fazer mais quatro doutoramentos. Quanto à orquídea... [expressão de baixo calão].»

«Leiloa uma mudinha, algum colecionador vai querer pela raridade, apesar de na minha opinião não ser tão bonita assim. Com o dinheiro dá para investir na preservação da espécie.»

É bom esclarecer, antes que alguém se deixe empolgar por tão luminosa ideia, que as orquídeas europeias não têm qualquer interesse para coleccionadores. Passam 11 meses em cada ano reduzidas a tubérculos subterrâneos, só se deixando ver na época de floração; e, como dependem de micorrizas para a sua subsistência, são incapazes de sobreviver num jardim ou noutro meio artificial, morrendo rapidamente quando transplantadas. Colher estas orquídeas com intenção de as cultivar em vaso é uma idiotice e uma destruição pura e simples. O único modo de conservar a «orquídea mais rara da Europa» é (como sucede com todas as suas irmãs açorianas ou continentais) cuidar do habitat onde ela escolheu morar.

Ainda não dissemos que nome tem a nova Platanthera açoriana, e de facto até temos medo de pronunciá-lo. O feliz anúncio da descoberta de uma nova orquídea endémica, e para mais uma que se distingue claramente (sobretudo no tamanho e morfologia das flores) das suas duas conterrâneas, vem embrulhado numa revolução taxonómica capaz de provocar uma balbúrdia épica. Assim, a nova espécie fica a chamar-se Platanthera azorica; a espécie que antes tinha esse nome chama-se agora Platanthera micrantha; e aquela que se chamava Platanthera micrantha foi agora rebaptizada como Platanthera pollostantha (ilustrada nas fotos; o epíteto significa «a menor das flores»). Resumindo: há uma nova espécie e um novo nome, mas este não foi atribuído àquela; e nenhuma das espécies anteriormente conhecidas manteve o nome que tinha.

Ninguém propõe tal dança de nomes por gosto ou simples recreação. Richard Bateman et al. tiveram o maior cuidado em explicar, no artigo em que relatam a descoberta (Systematic revision of Platanthera in the Azorean archipelago: not one but three species, including arguably Europe’s rarest orchid, publicado on-line em 10 de Dezembro de 2013), que a responsabilidade do imbróglio cabe ao há muito falecido Moritz August Seubert (1818-1878), autor da primeira Flora Azorica (1844). Seubert, que nunca pôs os pés nos Açores, baseou as suas descrições no material de herbário recolhido pelos Hochstetter pai e filho, que percorreram o arquipélago em 1838. Essas descrições são, de um modo geral, pouco minuciosas ou mesmo vagas. Seubert descreveu e ilustrou duas Platantheras (embora tenha usado o nome genérico Habenaria), a P. micrantha e a P. azorica, que posteriores estudiosos da flora insular sempre acreditaram ser as duas espécies que, até ao passado dia 9 de Dezembro, ostentavam esses nomes, e que ocorrem na maioria das ilhas açorianas. Em Junho de 2011, em visita a São Jorge, Mónica Moura descobriu uma população de Platantheras bem diferentes daquelas que já conhecia. Richard Bateman, botânico especializado em orquídeas, confirmou tratar-se de uma nova espécie. A história só não ficou por aí porque os cientistas insistiram em ver os espécimes (ou holótipos) em que Seubert baseou as suas descrições. Ao receberem o material de herbário (enviado da Universidade de Tubinga, na Alemanha), Bateman et al. constataram serem três e não duas as espécies de Platanthera de que Karl Hochstetter (o filho) havia recolhido amostras; que a espécie encontrada por Mónica Moura em São Jorge (e que Hochstetter, não tendo visitado São Jorge, terá colhido em alguma outra ilha) tinha servido de base à descrição da P. azorica por Seubert, mas há 173 anos que não era vista; que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. azorica tinha afinal servido de base à descrição da P. micrantha; e que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. micrantha (de longe a mais comum no arquipélago) não tinha servido de base a qualquer descrição publicada por Seubert, e por isso, face ao código internacional de nomenclatura botânica (ICBN), não dispunha de nome válido.

Queixam-se os autores de que foram os ditames desse mesmo inflexível ICBN que os obrigaram, com «grande relutância», a uma revisão taxonómica que por certo se revelará fértil em trapalhadas e equívocos. E é de fraca ajuda que, em 2011, seguindo o exemplo de vários autores que nunca viram as plantas na natureza, a IUCN, ao actualizar a sua lista de espécies em perigo, tenha decidido que as duas Platantheras até então conhecidas no território formavam afinal uma única espécie, a que chamou P. micrantha, correspondente à actual P. pollostantha. Por ironia, das três espécies que agora sabemos existirem nos Açores, a P. pollostantha é a única cuja sobrevivência não suscita preocupações.

16/12/2013

Verde, logo azul


Vaccinium myrtillus L.
Nos países frios do norte da Europa, a apanha de mirtilos silvestres é bastante mais comum do que em Portugal a colheita de amoras. Não se trata de obter proventos comerciais, mas de recuar à infância da humanidade, ao tempo em que não havia agricultura e o sustento era assegurado pela produção espontânea da natureza. Talvez porque o nosso gosto refinado rejeite os sabores rudes e não padronizados dos frutos silvestres, ou talvez por simples ignorância, o certo é que a actividade de recolecção não tem entre nós muitos adeptos. Amoras, pilritos e medronhos abundam de norte a sul do país, mas - tirando a colheita de medronhos para aguardente na serra algarvia - pouca gente tira proveito de tão copiosa oferta. Nas terras altas do noroeste a ementa é enriquecida pelo mirtilo, fruto que, por motivos bem compreensíveis, ninguém tem o hábito de colher: embora o arando (Vaccinium myrtillus) seja relativamente frequente em carvalhais, matos e até plantações florestais em altitudes elevadas (em geral superiores a 800 m), as condições climatéricas do nosso país não favorecem a produção de frutos. Um dia inteiro de colheita pela serra dificilmente daria matéria prima para um miniatural frasco de compota.

Apesar disso, e como o leitor pode verificar com uma breve googlada, desde há 18 anos que, com grande sucesso, se cultivam mirtilos na região centro do país, especialmente em São Pedro do Sul e Sever do Vouga. Só que, apesar da semelhança dos frutos, as variedades cultivadas são de origem norte-americana e nada têm a ver com o nosso mirtilo espontâneo, que tão fraca vocação mostra para a produção intensiva. É de facto incorrecto, como se faz nesta página, descrever o mirtilo como um fruto silveste. O mirtilo cultivado é tão silvestre como uma maçã golden, o que por certo não o impede de ser delicioso.

O melhor mirtilo genuinamente português, tanto pelas virtudes ornamentais como pela abundante produção de frutos, mora em pleno oceano Atlântico, nas ilhas dos Açores: trata-se da uva-da-serra, ou Vaccinium cylindraceum, um arbusto que é endémico do arquipélago mas é ignorado pela população local. Façamos votos para que a compota de uva-da-serra seja algum dia tão obrigatória em mercearias e supermercados açorianos como são hoje o doce de capucho e o licor de maracujá.


Vaccinium cylindraceum Sm. - exemplar albino - ilha Terceira

19/11/2013

Quatro, cinco ou nada



Potentilla anglica Laichard.


É comum nos Açores, entre a vegetação dos sítios húmidos (categoria que inclui a maior parte dos espaços naturais do território), encontrar em profusão as pequeninas flores amarelas (uns 5 a 8 mm de diâmetro) da tomentilha, ou Potentilla erecta de seu nome científico. A mesma planta é frequentadora assídua de habitats semelhantes em território continental, mais típicos da metade norte do país. Uma variação dessa planta, a Potentilla reptans, distingue-se por ter flores de cinco pétalas (as da P. erecta costumam ter quatro), pelo seu hábito prostrado (o caule enraíza nos nós), e pelas folhas mais largas, com maior número de folíolos. Em Portugal continental a P. reptans aparece no leito de cheia de alguns rios e ribeiros, apreciando particularmente as margens de calhau rolado. Nos Açores, onde é tida, com alguma incerteza, como exótica naturalizada, vê-se raramente, e só em quatro ilhas do arquipélago: São Miguel, São Jorge, Pico e Corvo.

Para compensar essa escassez, ocorre em todas as ilhas açorianas a Potentilla anglica, que não aparece no continente. Uma comparação das fotos acima com as da P. reptans torna clara a afinidade entre as duas espécies. De facto, a forma mais segura de as destrinçar é notar que a primeira sofre de uma hesitação patológica quanto ao número de pétalas com que enfeita as flores: a mesma planta tanto as dá com quatro como com cinco. Nesse e noutros detalhes morfológicos a P. anglica apresenta um carácter vincadamente intermédio entre a P. erecta e a P. reptans. A suspeita de que tenha origem numa hibridação entre as duas espécies é reforçada pela contagem dos cromossomas: a P. anglica é tetraplóide (56 cromossomas) e as outras duas são diplóides (28 cromossomas).

Ainda que não seja improvável vê-las juntas, a P. erecta e a P. anglica mostram, nos Açores, preferências ecológicas distintas. A P. anglica adopta um comportamento mais ruderal e frequenta locais mais secos, aparecendo mesmo em bermas de estrada e em caminhos de saibro. Ambas têm um perído floração alargado, que começa cedo na Primavera e se estende até Novembro.

04/10/2013

Feto de imitação




Dryopteris aemula (Aiton) O. Kuntze

Não sendo este feto menos genuíno do que outros que por aqui têm desfilado, e muito menos sendo feito de plástico, por que o acusamos de ser um feto de imitação? É que a palavra latina aemulus, da qual deriva o epíteto aemula, significa «que procura imitar». Fica então estabelecido que, na opinião de quem primeiro baptizou o feto - o escocês William Aiton (1731-1793), que lhe chamou Polypodium aemulum -, ele é culpado de alguma tentativa de imitação. Imitação de outros fetos, entenda-se. Ele será pois especialmente confundível com certos outros fetos, sem que, misteriosamente, esses outros sejam no mesmo grau confundíveis com ele. Mas é melhor não aprofundarmos o assunto, pois a taxonomia botânica não é um ramo das ciências exactas e não tem obrigação de se subordinar à lógica.

Nas ilhas açorianas há bons motivos para o feto-de-imitação ser confundido com alguns dos seus congéneres, especialmente com aqueles a que está ligado por laços de seiva (equivalente vegetal dos laços de sangue). Do matrimónio do D. aemula com o endemismo açoriano D. azorica nasceu um outro feto endémico do arquipélago, o arrepiado D. crispifolia. Os três apresentam folhas com formatos semelhantes, e o D. aemula, como documentam as fotos acima, não está livre de arrepios, embora se mostre bastante menos espasmódico do que o seu descendente. Contudo, as frondes do D. aemula, com 30 a 60 cm de comprimento, são mais curtas do que as dos outros dois, que podem medir até 90 cm (as do D. crispifolia) ou 1,5 m (as do D. azorica); são, além disso, de um verde claro e baço, em contraste com o tom mais escuro e brilhante do D. azorica. E há um detalhe morfológico importante para distinguir os dois consortes: nas pinas basais do D. aemula, a primeira pínula inferior junto à ráquis é mais comprida do que as restantes (confira na 3.ª foto), enquanto que, no D. azorica, a segunda e terceira pínulas são mais compridas do que a primeira (veja aqui).

Embora em algumas ilhas seja pouco comum, o D. aemula faz o pleno do arquipélago açoriano, no que está acompanhado pelo D. azorica. A parceria desfaz-se no resto da área de distribuição do primeiro (Península Ibérica, desde a Galiza ao País Basco, costa atlântica francesa, Grã-Bretanha e Irlanda, Turquia, Cáucaso, Madeira e Canárias), pois o segundo, em obediência ao seu estatuto de endemismo açoriano, está proibido de emigrar para outras paragens. Com o resultado de o D. aemula, qual marinheiro de longo curso, ter ensaiado outras aventuras amorosas nos seus vários portos de abrigo. Um desses casos aconteceu com o D. maderensis, endémico da ilha da Madeira, e deu origem ao D. guanchica - um feto que, tal como o seu progenitor mais viajado, tem poiso nas ilhas atlânticas (Madeira e Canárias) e no continente europeu (só Península Ibérica).

20/12/2011

Diabelhas do mar e da serra



Plantago coronopus L.

Eis uma planta a quem a revolução filogenética liderada pelo Angiosperm Philogeny Group expandiu desmesuradamente o clã familiar. Antes, a família das plantagináceas era formada por três únicos géneros, Bougueria, Littorella e Plantago, os dois primeiros com uma a três espécies cada, o terceiro com um expressivo contigente de mais de duzentas espécies distribuídas por todos os continentes habitados. A verdade é que as tanchagens (nome português para os plantagos) não são modelos de formosura nem se fazem cobiçadas pela raridade. Não esperavam por certo ser postas à cabeça de uma família onde se incluíssem plantas tão apreciadas como as verónicas, as bocas-de-lobo, as linárias e as dedaleiras. A sua predilecção pelo anonimato é tão vincada que até hoje não tinham querido mostrar-se no Dias com Árvores, falha que hoje remediamos em dose dupla.

(Diga-se que o alargamento da família Plantaginaceae tem os seus detractores: a Flora Ibérica, por exemplo, não a reconhece. E, mesmo entre os que aceitam a nova circunscrição da família, há quem defenda que ela deve ter como líder uma planta mais vistosa, preferindo assim designá-la por Veronicaceae ou Antirrhinaceae.)

As tanchagens são ervas anuais ou perenes formadas por uma roseta de folhas basais e por características hastes florais rematadas por espigas. As flores, minúsculas e discretas, embora dotadas de todas as componentes prescritas pelos manuais de morfologia vegetal, abrem de baixo para cima e secam rapidamente; cada espiga não costuma ter mais que uma pequena franja florida. Depois há que dosear os ingredientes - folhas mais ou menos largas, número de hastes, comprimento das espigas - para os combinar em diferentes espécies. As que hoje aqui trazemos são pequenas e têm folhas estreitas; a primeira é conhecida nos Açores por diabelha; a segunda, não sendo muito diferente, merece o mesmo nome.

O Plantago coronopus, que forma bonitas rosetas perfeitamente circulares, é uma planta euro-asiática que gosta de dunas e de maresia mas é suficientemente versátil para quase fazer o pleno das províncias portuguesas; só a Beira Alta lhe escapa. Nos Açores, onde a fotografámos, é uma planta nativa que surge esporadicamente nas falésias negras de lava à beira-mar.



Plantago holosteum Scop.

A diabelha-da-serra (nome inventado agora mesmo para o Plantago holosteum) é uma planta muito mais desgrenhada, restrita às zonas montanhosas da Península Ibérica e da bacia mediterrânica, e em Portugal ao extremo norte (Beira Alta, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes). Aprecia os ares frescos da serra e os solos ruins e pedregosos - e, menos bisonha do que as suas congéneres, consegue dar nas vistas pelo amarelo vivo das suas flores.

28/07/2011

Sanguinho das ilhas


Frangula azorica V. Grubow

O sanguinho-das-ilhas (Frangula azorica) é a versão açoriana do sanguinho-de-água (Frangula alnus), árvore frágil e de pequeno porte que surge esparsamente junto a rios e ribeiras na metade norte do país. Na sua encarnação atlântica, ganha um porte mais robusto (até 10 m de altura) e folhas maiores (10 a 15 cm contra 3 a 7 cm da F. alnus); e, talvez por a chuva no arquipélago ser um fenómeno quotidiano, perde a compulsão de viver junto a cursos de água. Gosta da companhia de loureiros e juníperos na floresta de nuvens, mas também aparece dispersa em ravinas e sebes. De todas as ilhas açorianas, só não está presente em Santa Maria, Graciosa e Corvo. Embora não seja rara, o pastoreio, o abate e a invasão de exóticas têm vindo a depauperar as suas populações, a ponto de ela ter sido listada na Directiva Habitats (Decreto-Lei n.º 140/99). Na Madeira, onde também terá existido, só subsistem dela vestígios fósseis.

Contrariando a opinião do seu predecessor Tournefort (1656-1708), Lineu, no seu Species Plantarum (1753), incluiu estas árvores no género Rhamnus. Foi Phillip Miller, em 1768, que emancipou o género Frangula, caracterizando-o pelas flores hermafroditas de cinco pétalas. Nos arbustos do género Rhamnus, por contraste, as flores têm quatro pétalas e são de dois tipos: masculinas ou femininas. (Veja as fotos acima e também aqui.)

Por muito insignificantes que pareçam - e a verdade é que ninguém planta sanguinhos pelo seu valor ornamental -, as flores são um bilhete de identidade que raramente engana. Antes de os estudos genéticos virarem a taxonomia às avessas, era a morfologia das flores que ditava a fixação dos géneros e das famílias botânicas. Por isso não se entende que uma obra tão conservadora como a Flora Ibérica (que persiste, por exemplo, em reconhecer a circunscrição tradicional da família Scrophulariaceae) queira suprimir o género Frangula, diluindo-o novamente no género Rhamnus. Mas, visto que o tomo correspondente ainda não viu o prelo, talvez a omissão seja um lapso ainda a ser corrigido.