15.5.18

Ervilhas quadradas

Tantas plantas, tão sábias e tão silenciosas! Desde o início, parecem sobreviver sem apelar a sons, embora não saibamos se o nosso ruído as beneficia, as desgosta, ou se nem reparam nele. Experimentamos esse mundo surdo e mudo em que a flora vegeta quando passeamos em locais onde não se ouvem passarinhos ou rãs, nem o quebrar de folhas sob os pés, nem o embate da chuva no chão. Um sossego, retemperador para os desgastados pela agitação da cidade, dirão; mas a proximidade do vazio é pouco agradável, e o nada no escuro causa mesmo algum receio. Todavia, se alguma vez as plantas adquirirem voz que oiçamos, com as árvores animadas em longas conversas nas noites de Verão, as herbáceas a cavaquearem diariamente e as flores a sussurrarem entre si sem descanso, teremos de abandonar o planeta para local mais sereno.


Tetragonolobus maritimus (L.) Roth



Até lá, conversemos sobre ervilhas quadradas. O termo ervilha tanto designa a semente polposa de algumas fabáceas (tal qual as que se usam no arroz-de-ervilhas), como se refere à vagem que as contém. Este invólucro das sementes é espalmado no feijão-verde mas não no caso da planta das fotos. O fruto dela tem secção transversal que parece um anel com quatro apêndices exteriores. O arranjo resulta da presença de quatro asas salientes nas duas faces da vagem, que, como é usual nestes frutos, se abre ao longo de duas costuras para libertar as sementes. Essas asas formam os quatro ângulos a que alude o nome tetragonolobus; a configuração final sugeriu uma curiosa designação vernácula para este género de plantas, dente-de-dragão. Não havia ainda frutos do T. maritimus para fotografar, mas pode verificar este pormenor morfológico nas imagens do Tetragonolobus conjugatus ou do Tetragonolobus purpureus, duas espécies que ocorrem em Portugal continental. Ou, em alternativa, analisar os diagramas elucidativos da Flora Ibérica.

O T. maritimus é espécie perene, de folhas glaucas e exuberantes flores amarelas com o dorso do estandarte pintalgado de vermelho. Nativa da Europa, norte de Africa e Ásia, floresce no Verão e, diz a Flora Ibérica, aprecia prados húmidos em pleno sol. Os exemplares que vimos em Soncillo, na província de Burgos (Cantábria), cobriam luxuriantes o (de resto deselegante) talude do caminho que acompanha uma das margens do ribeiro Saúl.

1 comentário :

bea disse...

Bem verdade. Se um dia desatem a falar, temos de usar tampões.