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07/06/2019

Histórias da Lista Vermelha: Allium schmitzii

Allium schmitzii Cout.


Um mês antes do São João já os alhos-porros silvestres (Allium ampeloprasum) começam a despontar nos campos. Foi talvez a sua aparição que nos incentivou a renovar as buscas por um outro alho que há seis ou sete anos faz parte da nossa lista de desejos. Em 2012, quando nos encontrámos em Lisboa para o lançamento do portal Flora-On, o Carlos Aguiar dera-nos a dica: a jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, o Allium schmitzii é tão abundante que o seu cheiro se sente à distância. Fomos lá em Junho de 2013, já a canícula anunciava o inferno em que a Régua se transforma no Verão, mas desses alhos não detectámos qualquer rasto visual ou olfactivo, talvez porque a busca tivesse sido mal planeada, ou a época fosse tardia, ou esse ano a floração fosse escassa. Em 2017, o biólogo Paulo Pereira, ao serviço da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF), visitou a área e confirmou a existência e relativa pujança do Allium schmitzii na Régua, tendo contado uns duzentos exemplares. Dois anos depois, chegou a vez de a nossa insistência ser recompensada, ainda que in extremis. O início de Maio deverá ser a melhor altura para observar a planta. Chegámos com três semanas de atraso, vimos-lhe os frutos (muitos) e quase nos escapavam as flores.

Endémico da Península Ibérica, o Allium schmitzii vive em leitos de cheias de rios. Em Portugal foi assinalado nas bacias do Douro, Tejo, Guadiana e Sado; em Espanha aparece sobretudo na província de Salamanca, com ocorrências isoladas na serra Madrona e nas montanhas do Sistema Ibérico. O seu habitat tem vindo a a diminuir gradualmente desde meados do século XX, quando em Portugal se iniciou o período de construção de grandes barragens. A planta já não existe nas margens do Tejo em Vila Velha de Rodão, local onde foram colhidos os exemplares usados por António Xavier Pereira Coutinho, em 1897, para descrever a espécie no n.º XIII do Boletim da Sociedade Broteriana. O enchimento da barragem de Alqueva, em 2002, quase a fez desaparecer da bacia do Guadiana. E na bacia do Douro ela parece ter sobrevivido em apenas três lugares: Régua e Bemposta, no rio Douro; e Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo), na margem portuguesa do rio Águeda. No decorrer dos trabalhos da LVF, a existência da planta só pôde ser confirmada no Douro (Régua e Bemposta) e no Tejo (Tramagal): a somar aos duzentos exemplares na Régua, avistaram-se oito em Bemposta e uns cinquenta no Tramagal. Dir-se-ia que a sobrevivência do Allium schmitzii no nosso país está por um fio. Contudo, a prospecção foi tida como insuficiente para se obterem estimativas populacionais fiáveis, e por isso na LFV foi-lhe apenas atribuído o estatuto de "Vulnerável".

No mesmo artigo em que apresenta o Allium schmitzii, Coutinho descreve outro alho semelhante, esse colhido nas margens rochosas do rio Minho entre Monção e Melgaço, a que chama Allium schmitzii var. duriminium. O primeiro distingue-se do segundo, na opinião do autor, por ter flores menores com pedúnculos mais compridos, pelos estames salientes, pela umbela mais ampla — e, de um modo geral, pelo porte mais avantajado. Ambos estes alhos têm semelhanças marcantes, mais acentuadas na var. duriminium, com o Allium schoenoprasum, que é o cebolinho cultivado nas nossas hortas. Assinale-se porém que as flores do cebolinho, além de terem pedúnculos muito curtos que dão à umbela um aspecto compacto, são quase tubulares, com as tépalas muito mais compridas do que os estames. Na sua Flora de Portugal (1.ª edição em 1913), Coutinho muda de opinião sobre a var. duriminium, acabando por subordiná-la ao Allium schoenoprasum.

Seja ele uma variedade do A. schmitzii ou do A. schoenoprasum, esse alho duriminium parece existir apenas no rio Minho, o que faz dele um endemismo de distribuição muito mais restrita do que o A. schmitzii propriamente dito. Porém, como o troço fronteiriço do rio Minho não foi até hoje adulterado por barragens, o habitat tem-se mantido intacto, e a população de "Allium duriminium" atinge certamente as dezenas de milhares de plantas, ultrapassando largamente a do A. schmitzii. Quem visitar as pesqueiras do rio Minho por estes dias (a floração decorre principalmente em Junho) não poderá deixar de o ver.

As fotos abaixo, obtidas em Melgaço há já uns anos, permitirão ao leitor ajuizar das diferenças e semelhanças entre os dois alhos. A ecologia dos dois não é exactamente a mesma: o "A. duriminium" aparece exclusivamente em fendas de rochas, enquanto que, pelo menos na Régua, o A. schmitzii parece ausente dos afloramentos rochosos, vivendo em solos que estão encharcados ou mesmo submersos durante boa parte do ano.


Allium schoenoprasum var. duriminium (Cout.) Cout.

08/08/2017

Flor das lampreias



Hieracium umbellatum L.


Na verdade, as lampreias que sobem o rio Minho e ficam presas nas redes armadas nas pesqueiras nunca olham para estas flores. Não porque sejam pouco dadas à contemplação, ou porque os desesperados esforços para se libertarem da armadilha não lhes permitam essa disponibilidade mental. Afinal que sabemos nós do que vai na cabeça dos bichos que matamos para comer? O desencontro entre a lampreia e este (chamemos-lhe assim) dente-de-leão é ditado pelo desfasamento temporal. É entre Fevereiro e Abril que a lampreia sobe o rio Minho para acabar nas mesas dos restaurantes a 35 euros a meia dose; e é de Julho a Setembro, quando o caudal baixa e as pedras à beira-rio escaldam ao sol, que o Hieracium umbellatum se entrega à tarefa de florir. Seria a mais tardia das plantas que enfeitam muros e rochas das pesqueiras, não fosse, em algumas lagoas e charcos, a florida companhia da Nymphoides peltata.

Uma outra asterácea de grandes capítulos amarelos, a Inula salicina, compartilha com o Hieracium umbellatum este habitat semi-natural em que os muros parecem, como as rochas, ter saído das mãos do Criador. Começa a florir dois meses antes, e diferencia-se pelas brácteas involucrais mais desenvolvidas e pelo disco central formado por florículos tubulares — em contraste, os capítulos do Hieracium umbellatum são formados apenas por florículos ligulados (fotos 4 e 5 acima). As duas asteráceas que a lampreia nunca pôde ver também não são vistas por muita gente. A maioria das pesqueiras são pouco acessíveis, e quase ninguém as frequenta passada a faina da lampreia. Nas pesqueiras de Monção e Melgaço tanto uma como outra são fáceis de encontrar, mas de resto, a fazer fé no portal Flora-On, só aparecem em pouquíssimos lugares do Minho e de Trás-os-Montes. A sua preferência por afloramentos rochosos no leito dos grandes rios — o tipo de habitat que o criminoso programa nacional de barragens tem vindo sistematicamente a afogar — não lhes augura longo futuro.

Hieracium vem do nome grego para o falcão, ecoando a crença de que esta ave se alimentava da planta para tornar a vista mais apurada (como antes se dizia às crianças que as cenouras fazem os olhos bonitos). Assim se explica que os anglo-saxónicos chamem hawkweed às plantas do género. A outra coisa que sobre elas convém saber é que têm uma taxonomia terrivelmente enredada. A hibridação, a poliploidia e a apomixia (capacidade de produzir sementes férteis sem fecundação) fazem com que o número de espécies descritas, muitas delas pouco se distinguindo umas das outras, se situe, só na Europa, entre 5000 e 10000. Nenhuma flora que tentasse descrever todas estas espécies teria qualquer utilidade prática, de modo que os especialistas se puseram de acordo em destacar um certo número de espécies principais, suficientemente disseminadas, que se foram combinando para dar origem a todas as outras. Na Península Ibérica supõe-se que essas espécies principais não sejam mais que 26, contando-se entre elas o Hieracium umbellatum. O formato das folhas, a disposição dos capítulos em umbelas (i.e., elevando-se todos mais ou menos à mesma altura — confira aqui ou aqui) e a ecologia permitem-nos supor, com alguma confiança, que foi essa a espécie que encontrámos nas pesqueiras. Certeza, porém, é coisa que não está ao nosso alcance.

24/02/2016

Solaris



Potamogeton perfoliatus L.



Nas primeiras imagens do filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a câmara mostra-nos em pormenor um lago junto a uma casa com janelas amplas, cores luminosas e decoração esmerada. Servem para que guardemos inúmeros detalhes na memória, lembranças a que mais tarde o oceano inteligente do planeta Solaris acederá, construindo com elas uma linguagem com que tenta comunicar com os humanos. Um aspecto em que a câmara se demora é a vegetação submersa no lago, plantas que se adaptaram à vida dentro da água num processo que, imaginamos no fim do filme, uma das personagens terá de dominar.

Deixando, a custo, o filme de lado, procurámos saber como sobrevive uma planta dentro de água. A ciência parece convencida de que as plantas aquáticas de maior porte descendem de vegetação terrestre que entretanto colonizou o habitat marinho ou fluvial. Mas como conseguem elas não apodrecer com a humidade excessiva? O que lhes permite resistir intactas à água mole que fura a pedra dura? Como se realiza a fotossíntese, tendo em conta a pior exposição à luz e a menor concentração de oxigénio e dióxido de carbono num meio aquoso? E, havendo marés, não precisam elas de saber funcionar também como seres terrestres, tal qual as baleias? O que se segue é apenas um resumo sobre mecanismos de adaptação à vida submersa, alguns dos quais o leitor poderá confirmar na planta das fotos.

Não lhes convém ter raízes ou caules demasiado rígidos, ou quebrariam com uma ondulação mais forte. Obviamente, não precisam deles para absorver, reter e conservar água, como sucede às plantas terrestres. De facto, estes são sobretudo âncoras (nem sempre necessárias pois, ao contrário do ar, a água permite que as plantas se sustenham sem esforço) que retiram oxigénio da água. Os talos são flexíveis, por vezes com nós que se fixam no fundo, mas frequentemente ocos ou com câmaras de ar para melhor flutuarem; neles a planta guarda a sua reserva privada de oxigénio, uma função semelhante à da estrutura análoga das plantas terrestres onde elas conservam nutrientes e água. E há a solução dos narizes exteriores, claro.

As folhas são finas, planas, por vezes largas ou longas para se manterem estáveis sem resistência às ondas, e realizarem a fotossíntese com eficiência. O pigmento verde está em geral concentrado na face superior, a que recebe luz, e há vários modos de fotossintetizar, nem todos eles inteiramente compreendidos. Em algumas espécies, as folhas parecem ter textura de borracha, e são decerto difíceis de rasgar. Além disso são sésseis, de modo que a sua ligação aos ramos é mais firme. E, sobretudo, são à prova de água: não têm, como as plantas terrestres, tecido protector ou poros com um sistema rigoroso de abertura que, em plantas em terra, são essenciais para reduzir a perda de água, seja pelo calor ou por outro factor ambiental; e a face superior das folhas está coberta com uma camada cerosa que repele a água, caso precisem de emergir, e mantém os poros livres para a transferência de oxigénio e dióxido de carbono, ou para selectivamente expelir certos iões e manter o equilíbrio químico das células.

Com as flores todo o cuidado é pouco, e elas nascem em hastes, ou espigas, que se erguem acima da água. A fertilização, na ausência de polinizadores, exige astúcia e alguma sorte — e há espécies que, em vez de largar o pólen ao acaso na água, na esperança de que atinja o estigma de alguma flor feminina, formam, com as pétalas das flores masculinas, pequenos botes que deslizam à bolina até colidirem com a haste feminina.

Por cautela, às vezes as sementes germinam ainda ligadas à planta-mãe, para depois, quando soltas, terem maior viabilidade. Disseminadas as sementes, pela água e ar, ou garantida a reprodução vegetativa através de pedaços da planta capazes de formar clones, ela hiberna ou morre, garantindo com os restos da folhagem ou dos rizomas fibrosos um substrato rico no fundo de lago, que assim se eleva, ajudando os rebentos a sobreviver e permitindo a formação de colónias mais ou menos densas.

As plantas das fotos são do rio Minho, algures entre Monção e Melgaço — talvez o último local do nosso país onde esta espécie (uma das que vemos no filme de Tarkovsky) ainda resiste. Por trás do areal da primeira imagem esconde-se um pequeno lago com uma população mimosa de Nymphoides peltata.

13/02/2016

Giesta dos espinhos



Genista hystrix Lange


Para compensar a pouca atenção que damos aos verdadeiros tojos, assunto espinhoso em muitos sentidos, aqui vai um falso tojo menos eriçado e traiçoeiro, mas capaz também de picadas agressivas. Cada haste da Genista hystrix é rematada por um forte espinho, parecendo que isso lhe basta como defesa, pois de resto a planta é desprovida de acúleos. Essa relativa mansidão, assim como o porte erecto, permitem diferenciá-la, na ausência de flores e de folhas, do Echinospartum ibericum, uma leguminosa bastante mais espinhenta que forma característicos almofadões em zonas pedregosas de montanha. Havendo flores, a diferença entre as duas espécies é óbvia: as do E. ibericum são menores e têm um cálice muito mais lanudo.

A Genista hystrix, cujo epíteto é o nome grego para ouriço-cacheiro, é um arbusto que não costuma ultrapassar um metro do altura. Em cada estação de crescimento, flores e folhas só aparecem nos ramos novos, que têm uma textura acetinada; os ramos velhos são glabros e grossos, profundamente marcados por 10 a 12 estrias. É um endemismo do NW peninsular, que vive perto de rios em locais rochosos de média altitude, em geral longe da costa. Escasseia no Minho e na Galiza, mas vai-se vendo em Trás-os-Montes ao longo das bacias dos maiores afluentes do Douro. As fotos que ilustram o texto foram porém captadas nas margens do rio Minho, algures nas pesqueiras de Melgaço, onde a G. hystrix surge na companhia de muitas outras plantas improváveis que ali se instalaram por engano — engano esse que nos serve de desculpa para lhe termos dado, inicialmente, o nome errado. Foi o João Lourenço, que de tojos verdadeiros ou falsos percebe muito mais do que nós, quem nos apontou o lapso.

Quando não temos a prudência de estudar uma chave de identificação, deixando-nos guiar pelas primeiras impressões, a geografia, que neste caso confundiu, pode de facto dar uma ajuda. Fica então o leitor prevenido de que, se estiver no Alentejo ou no Algarve passeando pelas margens pedregosas de algum rio, e lhe parecer reconhecer a Genista hystrix, então o que está a ver é de facto outra coisa, a Genista polyanthos, que se distingue por caracteres demasiado subtis para serem aqui explicados. Estas duas Genistas gémeas, ambas endémicas da Península Ibérica, uma do norte e outra do sul, têm distribuições praticamente disjuntas, embora com alguns pontos de contacto na Extremadura espanhola.

10/02/2015

Agrião do rio Minho


Rorippa palustris (L.) Besser


Chamamos agrião a esta planta por ela ser aparentada com o verdadeiro agrião (Rorippa nasturtium-aquaticum). Na aparência as duas plantas pouco têm em comum, divergindo tanto na cor das flores como na morfologia das folhas; mas quem sai aos seus não degenera, e sob um disfarce tão enganador a Rorippa palustris pode, ao que consta, ser usada nos mesmos preparos culinários que deram fama à sua congénere. À pergunta que o leitor gourmet, ávido por novos sabores, não deixará de colocar, que é onde posso eu colhê-la?, respondemos com um desencorajador em Portugal não é fácil. A menos (continuando com a resposta, após pausa teatral) que o leitor viva no Minho e perto do rio com o mesmo nome, e consulte o horário das marés para não ser apanhado pela repentina subida das águas quando for, cesta na mão, abastecer-se de verduras para a salada. Há-de então notar que muitos dos rebentos mais desejáveis escolheram instalar-se em lugar que volta e meio fica submerso, apresentando-se revestidos com uma pouco apetitosa crosta de lama. E, se o rigor taxonómico não for a sua prioridade, talvez lhe aconteça colher amostras de um terceiro agrião, Rorippa sylvestris, que tem flores mais vistosas mas pouca diferença fará no sabor.

Planta anual ou mais raramente bienal, costumando ficar-se pelos 20 a 30 cm de altura mas capaz de duplicar esse valor, florindo ao longo da Primavera e do Verão, o agrião-das-marés (nome inventado agora mesmo para a Rorippa palustris) é nativo de uma vasta porção do hemisfério norte, incluindo Europa, Ásia e América, e está naturalizado na Austrália e na América do Sul. Em território português a sua presença é residual: no rio Minho sobrevive em abundância graças à ausência de barragens no troço internacional do rio, mas nos rios Tejo, Douro e Tâmega, onde também terá existido, não é certo que ainda se mantenha.

23/05/2014

Grinaldas minhotas

Spiraea hypericifolia L. subsp. obovata (Waldst. & Kit. ex Willd.) H. Huber
Antes de visitarmos as margens do rio Minho em Melgaço, consultamos o horário das marés. É que, apesar de estar a uns 50 km da foz, estas variações do nível da água também lá se sentem. Nota-se que, depois de o volume de água começar a subir, o nível máximo é rapidamente atingido, mas é longo o intervalo que leva a baixar (impressões sobre a velocidade que ilustram um resultado matemático famoso). Sem este cuidado, resta-nos a arrelia de, uma vez iniciado o caminho, a água de repente nos dar pelos joelhos, ou, se tivermos já chegado à meta, termos de esperar, entre resmungos, que o chão enxugue para podermos regressar.

Programada a jornada para que ela se faça na maré baixa, seguimos pelo leito do rio a descoberto como quem marcha em terra seca. O destino é um rochedo cinzento e silencioso, rodeado de calhau rolado, que é uma ilha na maré cheia mas agora é acessível a pé enxuto. Neste recanto, sem relvados verdejantes nem arvoredo frondoso que dê colorido, pende-nos a atenção para as pequenas coisas. E foi entre inúmeros pés de Allium schmitzii, a rescender a alho como se estivéssemos numa cozinha em pleno vapor, e abundantes rebentos de Vincetoxicum nigrum já com botões de flores de cor castanho-púrpura, que atingimos o bordo da rocha e vimos, pendurado de uma das fendas, o pequeno arbusto das fotos. E, estando nós por certo em maré de sorte, também por ali floriam alguns exemplares de Allium scorzonerifolium.

A planta, com uns 80 cm de altura, lembrou-nos, até pelo perfume, as suas congéneres de jardim (Spiraea cantoniensis ou Spiraea japonica), frequentemente usadas em sebes. A ecologia da Spiraea minhota revela idêntica vocação: ela aprecia estar à margem, seja de rios ou de bosques, desde que haja bastantes rochas a que se agarrar. A outra população desta planta que agora conhecemos está também no norte, junto a um riacho farto que corre num bosque muito bem preservado e com sombra generosa. Este é um habitat escasso ou em declínio por cá, e talvez por isso os registos desta planta em Portugal sejam tão raros.

Nas imagens pode notar alguns detalhes da planta. Por exemplo, que os caules floríferos são arqueados, de modo que as cimeiras de flores parecem flutuar, enquanto os estéreis são erectos. E que as folhas, de textura coriácea, exibem por vezes uns graciosos dentinhos no ápice. As flores são pequeninas — as pétalas medem cerca de 3 mm de diâmetro, tanto quanto os estames; na última foto, a maioria dos estames ainda não se desenrolou e forma uma coroa engraçada no centro das flores.

20/05/2014

Teoria dos três nervos


Moehringia trinervia (L.) Clairv.
As margens do rio Minho em Melgaço são a secção de perdidos e achados da flora portuguesa. Há uma ervita listada nas floras de Portugal que há anos ninguém vê e que se receia ter desaparecido do nosso país? Então vamos a Melgaço, expomos o nosso problema às águas do rio ou à folhagem rumorejante dos carvalhos, damos uma volta para espairecer, et voilá que sem aviso prévio a desejada se materializa à nossa frente. Aconteceu isso com a Nymphoides peltata, com o Thelypteris palustris, com a Inula salicina, com a erva-dos-três-nervos (nome inventado para a planta de hoje), e com várias outras que ainda havemos de contar. E a milagrosa eficiência do serviço público assim prestado à flora portuguesa não se deve por certo à presença sufocante da mal chamada e daninha erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis), que na verdade é uma máquina de guerra preparada para liquidar toda a concorrência.

A Moehringia trinervia, cujo epíteto específico se refere às três nervuras longitudinais bem visíveis em cada folha, e que se distribui pela Europa, Ásia e norte de África, é uma planta anual, por vezes perene, com hastes ramificadas, erectas ou ascendentes, capazes de atingir os 40 cm de altura. As flores, que aparecem entre Abril e Julho, são pequenas, de 5 a 6 mm de diâmetro, e assemelham-se, pelas suas pétalas inteiras, às de outras cariofiláceas, em especial às do género Arenaria (nos géneros Cerastium e Stellaria, representados na nossa flora por numerosas espécies, as pétalas são fendidas na ponta).

Em Portugal a erva-dos-três-nervos parece restringir-se à metade norte do território continental. Além do Minho e Trás-os-Montes, há registos antigos da sua presença na Beira (Litoral, Alta e Baixa). Frequenta bosques sombrios e, de preferência, bem conservados, o que não é por certo o caso daquele em Melgaço onde a encontrámos. Talvez esteja ali apenas de passagem para a Galiza, antes de abandonar de vez o nosso país.

06/05/2014

A ínula e a lampreia


Inula salicina L.
Nos últimos 75 Km do seu curso, onde serve de fronteira entre Portugal e a Galiza, o rio Minho não tem qualquer barragem, seja para produção eléctrica ou para armazenamento de água. É um troço que lhe permite recuperar alguma da espontaneidade cerceada pelas cinco grandes barragens que fraccionam o seu deambular pela Galiza, a última delas (a de Frieira) situada a menos de 500 metros da fronteira portuguesa. E o nosso rio Minho, livre de paredões monstruosos, tem humores e encantos que o galego rio Miño desconhece. Para começar, há as marés. Uns anos atrás, ao visitarmos uma «ilha» perto de Valença, atravessámos sem dificuldade, de galochas calçadas, um braço do rio com água pelas calcanhares. Pareceu-nos normal que o rio levasse pouca água no Verão. No regresso, o cenário tinha mudado por completo: a água dava-nos pelos joelhos, e se esperássemos mais uns minutos chegar-nos-ia à cintura. Uma lição prática inesquecível: mesmo a 60 Km da foz, como comprovámos depois em Melgaço, o rio Minho enche e esvazia diariamente ao ritmo das marés. E é também a ausência de obstáculos artificiais que permite a subsistência do salmão e da lampreia que muita gente pesca nas suas águas.

Porque no espírito tacanhamente utilitário de alguns um rio sem barragens significa um desperdício, de tempos a tempos surgem tentativas de alterar este estado de coisas. Nos anos 90 do século passado a ameaça era a construção da barragem luso-espanhola de Sela, no troço entre Monção e Melgaço. Abandonado o projecto, eis que ele ressurge, com outro propósito e roupagens quiçá mais brandas, sob o título de Estação Elevatória de Troporiz, uma das alternativas que a empresa Águas do Minho e Lima considerou, entre 2002 e 2005, para a construção de uma nova barragem de captação de água. Em maior ou menor grau, cada um destes projectos teria resultado na artificialização do rio e em perdas patrimoniais e ambientais irreparáveis. Ter-se-iam afogado as pesqueiras de Monção e de Melgaço, construções quase milenares que se confundem com a rocha esculpida pela força do rio. Ou, se não se afogassem, deixaria de haver peixe para nelas ser apanhado. E perder-se-iam importantes populações (no caso de Nymphoides peltata, talvez a última população) de algumas das espécies vegetais mais ameaçadas do nosso país (como o feto-dos-brejos).

Talvez a Inula salicina não seja assim tão rara nem esteja sob particular ameaça. É, no entanto, bastante escassa em Portugal, e até hoje só a conhecemos das pesqueiras de Melgaço. No nosso país, a sua predilecção por afloramentos pedregosos em leitos de cheia terá por certo ajudado à sua rarefacção, mas no resto da Europa, onde está amplamente distribuída, assume uma ecologia algo diferente: como nos informa Franco no vol. 2 da Nova Flora de Portugal, prefere «sítios húmidos e clareiras de matas caducifólias». É uma planta perene, rizomatosa, de hastes até 70 ou 80 cm de altura, e folhas ovadas, semi-coreáceas, as caulinares sésseis, quase amplexicaules. Reconhece-se com facilidade pelas brácteas involucrais compridas e salientes (veja na 2.ª foto). Os capítulos florais são grandes, com 3 a 4 cm de diâmetro, e surgem entre Junho e Agosto.

25/04/2014

Cravinho das pesqueiras



Dianthus laricifolius Boiss. & Reut. subsp. caespitosifolius (Planellas) M. Laínz


Como acontece com outras plantas de uso ornamental de que há muitos cultivares produzidos em hortos, os cravos silvestres pouco se parecem com os que se vendem nas floristas. Os ingleses reservam a designação carnation (cravo) para as flores de muitas pétalas (podem chegar a ser 60) que os horticultores preferem, e pink (cravina ou cravelina) para as plantas mais pequenas, de flores com apenas cinco pétalas, algumas fimbriadas ou dentadas na margem, dez estames e dois estiletes longos, por vezes retorcidos. São estas que encontramos em prados, fissuras de rochas, escarpas, clareiras de matos, em zonas secas de montanha ou em afloramentos rochosos em leitos de cheia. As folhas são sempre lineares, estreitas, de ponta aguçada e cor verde-azulado ou acinzentado, com aspecto de enceradas e a formar touceiras anãs. A floração da maioria das nossas cravelinas só está no auge em Maio ou Junho. Mas nas ruas de Lisboa, em Abril de há quarenta anos, havia cravos: eram de estufa, dos farfalhudos e perfumados, que se vendem durante todo o ano e que parte do país, pobre e analfabeta, desconhecia.

O género Dianthus contém cerca de 300 espécies (e uns dez mil cultivares) perenes, anuais ou bienais. Destas, umas 120 são nativas da Europa, uma ocorre só perto do Árctico (D. repens) e as outras distribuem-se pela Ásia e sul de África. A Península Ibérica é terra de cravinas: tem registadas 29 espécies, sem contar com os híbridos, das quais 8 ocorrem em Portugal continental, 3 são endemismos lusitanos e outras três são endemismos ibéricos. Um destes é precisamente o Dianthus laricifolius, de que se distinguem, por minuciosos detalhes morfológicos e pela ecologia, três subespécies: D. laricifolius subsp. laricifolius, do centro da Península Ibérica e que cá encontramos nas Beiras, Minho e Trás-os-Montes; D. laricifolius subsp. merinoi, da região de Orense e Léon; D. laricifolius subsp. caespitosifolius, das bacias do baixo Minho e do rio Sil; e D. laricifolius subsp. marizii, que só ocorre nos rochedos ultrabásicos de Bragança e que, descrita por Sampaio em 1906 como Dianthus graniticus var. marizii, foi mudada em 1986 por Amaral Franco para a designação hoje aceite."

11/11/2013

A graça de uma cura



Gratiola officinalis L.


Era uso dar graças ao Criador por tudo quanto existia, entendendo-se que dEle vinham sobretudo as coisas boas. Essa gratidão passou de moda, mas plantas como esta, cujo nome Gratiola deriva do latim medieval gratia Dei, que significa graças a Deus, são testemunho dos tempos em que a devoção guiava as vidas. Só a misericórdia divina explicaria a existência, à mão de ser colhida, de uma erva tão extraordinariamente eficaz, nas palavras do botânico suiço Caspar Bauhin em 1623, «para expelir os humores malignos, tanto por cima como por baixo, e para cicatrizar feridas frescas». Com os avanços da farmacopeia e a menor crença na bondade divina, aliados ao facto de a planta ser algo tóxica e provocar intensa irritação das mucosas digestivas, o seu prestígio curativo foi-se apagando. Mas ninguém lhe tira do B.I. o nome latino onde a graça divina é sublinhada pelo epíteto officinalis, denunciador de uma ligação histórica às artes do boticário. É aliás providencial, sinal talvez de que as coisas deste mundo não estão tão mal ordenadas como às vezes parece, que se tenham encontrado fármacos modernos para substituir a Gratiola officinalis, pois a erva-dos-pobres, como já foi chamada, fez-se tão escassa no nosso país que não há pobres nem ricos que lhe cheguem. (À farmácia, pelo menos, ainda os ricos vão chegando.)

Frequentadora, tal como a sua congénere ibérica G. linifolia, de margens de cursos de água, com preferência por leitos de cheia e por águas baixas e de fraca corrente, a G. officinalis tem visto o seu habitat desaparecer a um ritmo acelerado com a construção das barragens, açudes, represas, piscinas de recreio e todo o género de acrescentos postiços com que se artificializam rios e ribeiras. Assim, apesar de a Flora Ibérica a assinalar em sete províncias portuguesas, principalmente nortenhas (Alto Alentejo, Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-de-Montes), até hoje só foram registados no portal Flora-On três ocorrências da espécie em pontos bem afastados do país: Barrancos, Vila Velha de Ródão e Melgaço.

De facto, tratando-se de plantas tão distintivas como as duas gracíolas presentes em território nacional, a escassez de registos só pode explicar-se pela raridade. As duas plantas lançam tufos de hastes erectas com 20 a 50 cm de altura, com as da G. linifolia um pouco mais atarracadas; têm folhas opostas, quase amplexicaules, mais curtas as da G. linifolia, as da G. officinalis medindo até 5 cm de comprimento e com margens dentadas; as flores, que são axilares e solitárias, com longos pedúnculos, apresentam uma corola acentuadamente recurvada, sendo brancas com laivos de creme as da G. officinalis, e rosadas com centro amarelo as da G. linifolia (outras diferenças mais subtis são indicadas nesta página).

A G. officinalis faz companhia ao feto-dos-brejos nas pesqueiras de Melgaço, num rio Minho que permanece milagrosamente livre de barragens no troço que faz fronteira com a Galiza. Oxalá assim se mantenha nas próximas décadas.